26 de janeiro de 2019

Capítulo 21

Meira

CONALL E GARRIGAN são lançados pela porta e atingem o criado, que desaba no chão conforme os irmãos continuam no ar, até colidirem com a parede de tijolos da construção mais próxima.
Tudo em mim é drenado.
Eu os atirei.
Mãos me levantam, vozes murmuram, mas minha visão rodopia, a magia faz cada nervo doer. Fecho os olhos, apenas por um momento.
Mas uma voz que não conheço dispara uma repreensão.
— Ela está doente?
É uma mulher, as palavras saem agudas e femininas e próximas. Quando abro os olhos, duas pessoas estão de cada lado de onde fui colocada, em uma cadeira em algum salão grandioso de um dos prédios da Universidade de Putnam. Não me lembro de chegar ali, e a desorientação me faz oscilar para a direção da mulher que falou.
Ela está na casa dos trinta anos, tem a pele marcada por rugas em volta dos olhos grandes e atentos. Cachos pretos e espessos cascateiam nos ombros como espirais de ônix perfeitamente organizadas, apenas roçando um machado às costas dela. Afiadas e reluzentes, duas lâminas se projetam de um centro de madeira polida. Emite um leve brilho dourado, a mesma luz iridescente que sai da adaga de Noam em uma nuvem violeta. O condutor de Yakim.
Então essa mulher é a rainha Giselle.
Minha atenção se volta para a outra pessoa — Theron. Tudo o que vejo no rosto dele é preocupação, e isso me puxa para fora do estado de perplexidade.
— Conall... Garrigan... — murmuro os nomes deles conforme meus olhos percorrem a sala com pelo menos metade do tamanho do salão de baile de Jannuari. O teto baixo, as paredes de pedra cinza e o piso preto destacado por outros itens ao redor tornam o lugar esquisito. Mesas contêm pilhas altas de tubos de vidro, e bolhas líquidas em diversas tigelas sobre chamas. Prateleiras e armários cobrem as paredes, cheias de papéis e livros e jarros, ferramentas e óculos de proteção. Nenhum outro yakimiano, exceto por Giselle, está ali, como se todos tivessem sido mandados embora para abrir espaço para mim.
Há outros não yakimianos aqui, no entanto, e meus olhos os percorrem de novo. Ceridwen; os guardas cordellianos; e...
Levanto com um sobressalto, cambaleando tanto que Theron se coloca de pé com um salto e segura meu cotovelo. Sangue dispara para minha cabeça quando me obrigo a olhar para Conall e Garrigan. Eles oscilam um pouco no lugar, Conall está com a mão no braço oposto, Garrigan leva o punho à testa.
— O que eu fiz? — digo, arquejando, mais um suspiro do que uma pergunta.
Garrigan me olha, começa a formar um sorriso com os lábios, com a intenção de ignorar a pergunta. Mas quando ele abre a boca, não diz nada. Que desculpa entenderiam? Eu os atirei pelos ares. Usei a magia para lançar os dois para fora da carruagem.
Não há motivo para isso.
Os guardas cordellianos veem um motivo, no entanto. Eles trocam olhares, revirando os olhos às escondidas, e dão risadinhas baixas uns para os outros, e praticamente ouço os pensamentos nas mentes deles.
A fraca rainha-criança nem consegue usar a magia adequadamente.
Enterro os dedos na barriga, fecho os olhos ao expirar.
Chega. Essa é a última vez que perco o controle.
Chega.
Enquanto tudo isso acontece, Giselle se levanta da cadeira e se volta para um caderno em uma mesa próxima, fazendo anotações como se rainhas estrangeiras desmaiassem na universidade dela todo dia. A roupa de Giselle imita a decoração do reino — um casaco marrom justo sobre a extensão dos braços com botões de latão que vão até o colarinho alto, sob o queixo. Linho branco sai por baixo do casaco, uma saia grossa.
Não me incomodo em me importar com outras coisas também. Mal tenho energia para seguir, aos tropeços, até a porta, e estou a meio caminho dela quando Theron agarra meu braço.
— Meira... Aonde vai?
Revirar este reino até encontrar respostas.
— Para longe — falo para ele. — Me deixe ir.
Theron não cede.
— Sei que foram dois meses terríveis, mas se for embora, jamais saberemos do que seríamos capazes. Por favor... Eu a acompanharei para o palácio pessoalmente depois de fazer as apresentações.
Estou tão perto de gritar com ele, todas as coisas que já falei e que Theron não ouviu.
As metas que tem vão liberar a Ruína pelo mundo de novo.
Seu pai jamais cederá a você, não importa quanto apoio tenha.
Está errado, Theron.
E não me importo mais com proteger a inocência dele. Não me importo com a forma como Theron treme um pouco, tão desesperado para tentar, tão desesperado para ter esperanças.
Só me importo com a forma como Conall e Garrigan tremem também, por minha causa. Por causa de minha magia.
Conheço minha meta — manter meu reino a salvo. E não serei impedida.
— Você é o único que acredita que essa empreitada é pela paz — resmungo. — Giselle não se importará com alguma trama idealizada trazida até ela por uma criança. Percebe isso, não é?
Theron recua, mas se recompõe.
— Às vezes, uma pessoa é suficiente.
— Concordo plenamente, príncipe Theron.
Ceridwen se aproxima de meu lado, os olhos fixos nas costas de Giselle, que parece ter esquecido que estamos no reino dela.
Eu me volto para Ceridwen.
— Não preciso de sua ajuda. Preciso ir embora. Essa reunião é inútil.
— Mesmo? — Ceridwen se aproxima de mim. — Precisa de aliados. Não precisa?
Ela olha rapidamente para Theron. Mais um gesto do que um olhar, e eu desmorono.
Cordell.
Ainda preciso de aliados. Com exércitos.
Como Ceridwen já sabe como me ameaçar? Porque temos a mesma fraqueza? Mas o que ela conseguirá com isso?
— O que você quer? — pergunto, cedendo, com o maxilar trincado.
— Quem disse que quero algo?
Reviro os olhos e vou para o lado de Theron, diretamente diante de Ceridwen, sem dar a ela a satisfação de mais respostas. Theron ergue uma sobrancelha para mim, percorrendo Ceridwen com o olhar uma vez, e juro que ele diz, sem emitir som, obrigado a ela.
— Bom — diz Theron para mim.
Não, não é bom. Eu deveria estar correndo para fora daqui, revirando o reino em busca da chave ou da Ordem, e em vez disso eu...
Tomei a decisão que uma rainha tomaria. Uma decisão cuidadosa, não precipitada.
Então por que meu peito não parece menos apertado?
Volto os olhos para Conall e Garrigan, os quais se movem para ficar atrás de mim, tentando fazer a pose normal que tão frequentemente fazem. Mas quando pensam que não estou olhando, os dois cuidadosamente tocam as costelas ou os hematomas nas bochechas.
Vê-los daquela forma, feridos por minha culpa, mas ainda determinados ao meu lado, provoca duas reações diferentes em meu corpo — remorso corrosivo por eu ser tão terrivelmente indigna deles e uma cascata ainda mais forte e crescente de fúria.
Serei alguém digna da lealdade deles. Eu me tornarei digna.
— Rainha Giselle. — Theron ergue a voz e dá um passo adiante. — Eu...
— Essa visita é bastante não ortodoxa. — Giselle não perde o ritmo de qualquer que seja a nota que esteja fazendo. Provavelmente ouviu tudo que dissemos, não?
— Vossa Alteza. — Theron tenta mais uma vez, mantendo o tom calmo e equilibrado. — Viemos com a melhor das intenções... Uma oportunidade para uma aliança entre todos os reinos de Primoria.
E para distraí-la por tempo o suficiente para encontrar uma forma de abrir o abismo de magia sem que você saiba, acrescento, mentalmente.
Giselle se afasta das anotações, os olhos percorrendo Ceridwen, Theron e eu.
— Yakim jamais esteve em guerra com qualquer de vocês. Por que eu deveria me importar com algo que não envolve meu reino?
Theron dá mais um passo cauteloso na direção da rainha.
— Porque isso não é simplesmente sobre paz; é sobre igualdade. Acabar com as antigas barreiras e erguer um novo padrão entre os oito reinos de Primoria.
— Igualdade. — Giselle emite um estalo com a língua, como se a palavra tivesse um gosto ruim. — Quais seriam os benefícios de tal arranjo?
Mantenho os olhos nela, embora Giselle não pareça preocupada com mais ninguém na sala além de Cordell. Essa percepção me faz fervilhar de ódio, e me lembro do que Ceridwen falou sobre mais de um reino Ritmo juntos. Não é apenas difícil respirar, é difícil não me sentir como uma criança ouvindo adultos.
Theron puxa um pergaminho enrolado do casaco e entrega a Giselle.
— Um tratado, já assinado por Verão, Outono e Cordell. Os termos são bastante simples, formando as bases de um mundo no qual os oito reinos sirvam não apenas aos cidadãos, mas um ao outro. Em épocas de guerra, nos reuniremos em conselhos de paz; em épocas de turbulência, sairemos ao auxílio uns dos outros. Vai querer ler, presumo, então não peço que assine hoje.
Giselle pega o pergaminho de Theron, os olhos dela se semicerram, pensativa. Esse discurso parece grandioso, mas preciso conter um gemido.
Isso mudará alguma coisa?
— Noam assinou isto? — pergunta Giselle, com o tom de voz afiado.
Theron não hesita.
— Cordell assinou, sim.
Giselle percebe a mesma brecha nas palavras de Theron que eu. Ela semicerra os olhos para ele, silêncio se intensifica antes de Giselle exalar.
— Você se parece tanto com seu pai. Uma pena — sussurra ela, um sussurro cujo volume poderia ter sido intencional, poderia ter sido acidental.
Theron franze a testa, como eu. Isso foi uma ofensa a Noam? De outro reino Ritmo?
Antes que eu consiga reunir qualquer esperança de que Yakim possa ser um aliado melhor do que eu tinha pesando, os olhos de Giselle deixam Theron e se fixam em mim.
— Inverno não assinou?
Maldição.
Ela está certa. Não assinei o tratado.
Theron se vira para mim, sorrindo, como se tivesse planejado aquilo.
— Não — diz ele a Giselle. — Mas se este tratado for algo com que Yakim concorde, eu tinha esperanças de organizar uma cerimônia conjunta de assinatura entre Yakim e Inverno. Um símbolo para o mundo de que Ritmo e Estação pretendem fazer isso funcionar.
A curiosidade no rosto de Giselle se intensifica e se transforma em análise.
— Por que Inverno esperou para assinar com Yakim? Sei que Cordell está envolvido com esse reino Estação.
Até agora, Giselle parecera quase incomodada por nos ter ali — mas com aquela única pergunta, os verdadeiros sentimentos dela transparecem.
Giselle me convidou para o reino dela por meio da visita de Finn e Greer há algumas semanas — e apareci, com Cordell, que reivindica uma unificação do mundo, declarando que têm uma visão poderosa para o futuro, a qual colocaria todos em pé de igualdade.
Uma réplica às tentativas de Yakim de retirar Cordell de Inverno.
Não importa o quanto Theron possa ser sincero, não importa o que Giselle tenha querido dizer com aquela afirmação esquisita sobre o príncipe se parecer com Noam, essa visita é um insulto a Yakim.
Arrependimento se sobrepõe à minha raiva inicial. Não pensei direito nisso...
Theron sorri para Giselle.
— Inverno esperou porque traz um presente próprio para dar a Yakim, parte das montanhas Klaryn.
Choque me deixa entorpecida quando Theron gesticula com o braço na direção da porta e guardas cordellianos entram. Um deles segura uma caixa — onde estava? Nas carruagens deles?
O guarda coloca a caixa aos pés de Giselle.
— O que um dia foi apenas de reinos Estação é agora de posse dos Ritmo também — continua Theron, ignorando meu olhar de espanto.
Ele não me disse que presentearia Giselle com mercadorias de Inverno — mercadorias de meu reino.
Ele não deveria ter feito isso sem me contar. Eu tinha planejado dar partes das montanhas Klaryn, sim... Mas tinha planejado fazer isso por Inverno, não pelo plano de Theron.
As montanhas Klaryn não são de Cordell para que distribua.
Giselle olha para a caixa, o lampejo de insulto se dissipando com o que suponho ser choque. Olhos arregalados, lábios contraídos, uma sobrancelha levemente erguida.
Giselle olha para Theron, a mão se ajusta no pergaminho.
— Permita que eu considere sua proposta. — É tudo o que Giselle diz.
Theron sorri.
— É o máximo que posso pedir de você.
Mas Giselle já está se virando de volta para o caderno.
— Sim, é.
Theron se vira para mim, o sorriso dele é ofuscante.
— Está vendo? Não foi uma reunião tão inútil no fim das contas — sussurra ele.
A incredulidade me deixa oca e exaurida, e só consigo olhar para Theron boquiaberta e sacudir a cabeça.
— Preciso ir me deitar — digo, e me viro, segurando a saia nos punhos.
— É claro. — Theron envolve minha cintura com o braço para me apoiar, oferecendo conforto e ajuda com tanta facilidade, tão inabalado.
Dói mais por não ocorrer a ele que fez algo errado. Mas por que ocorreria? Eu disse que estou ao lado dele. Menti para Theron, e esse é o produto de minha mentira, ele acredita que nossas metas estão alinhadas. Acredita que vou concordar com o que precisar ser feito.
Mas mesmo que eu estivesse realmente ao lado de Theron, não ficaria bem com isso. Porque não somos apenas amigos unidos em uma meta de paz — somos um reino Estação e um Ritmo, uma rainha e um príncipe. E Giselle acaba de ver o herdeiro cordelliano distribuir pedaços de Inverno.
Theron não tinha direito de fazer isso.
Determinação sobrepuja o choque e a mágoa, me deixando mais ríspida quando paro do lado de dentro da porta, virando-me e, ao mesmo tempo, me desvencilhando do braço de Theron. Conall e Garrigan cambaleiam atrás de mim, contendo o desconforto.
E ainda mais longe atrás deles, Giselle está de pé, de costas para nós, com a caixa de mercadorias das Klaryn aos pés, o tratado de Theron na mesa.
Theron pode ter entregado minha única chance de conquistar a aliança com Yakim, mas não serei derrotada tão facilmente. Ele mesmo disse: às vezes, uma pessoa é suficiente.
Observo Conall e Garrigan. Precisam de descanso, mas voltam para a sala sem pensar duas vezes no próprio bem-estar.
Theron se aproxima de mim.
— Está bem?
Não olho para ele.
— Deixe uma das carruagens para mim.
Ele olha para Giselle, então para mim.
— Quer falar com ela? Eu poderia...
— Não — disparo, ouço o tom de voz e o controlo um pouco. — Obrigada, mas não — tento de novo, mais calma. — Inverno precisa construir um relacionamento com eles também, certo? Deixe que eu faça isso. Só quero apresentar meu reino a ela.
Theron ainda parece hesitar, mas assente.
— Tudo bem.
Se acrescenta mais alguma coisa, não ouço, empurro Theron para passar e entro de novo. Ceridwen já se foi, provavelmente espera na carruagem, então, quando Theron se vai, sobramos apenas Giselle, meus guardas e eu.
A porta bate atrás de mim um momento depois. Giselle está debruçada no caderno, a caneta riscando o papel, provavelmente alheia a minha presença quando paro do outro lado da caixa, tentando com cada pingo de força que me resta não olhar para ela.
Silêncio paira, o borbulhar de líquidos nos tubos de vidro, gorgolejando alto e sem parar. Inspiro profundamente.
— Rainha Giselle — começo. Formal. Adequadamente. De uma rainha para outra. — Eu quero...
— Sei o que pensa de mim, rainha de Inverno — interrompe Giselle, com a voz inexpressiva e equilibrada. Ela abaixa a caneta para o caderno e se volta para mim, com os olhos oblíquos, observando.
Engulo em seco.
— Sabe?
— Discorda com a forma como governo meu reino. Acha que sou desalmada.
Ela nem sequer reage, apenas dá aquele olhar pesado. O que torna mais fácil não me sentir chocada por Giselle ter adivinhado como me sinto, e cruzo os braços, com os músculos tensos.
— Admito que é difícil para mim ver reinos que tratam o povo de formas que eu não trataria o meu, principalmente depois que trabalhei tanto para reconquistá-lo.
Pronto, isso foi político e legal, não foi?
Giselle sorri.
— É muito preconceituosa para alguém tão pouco familiarizada com a forma como o mundo funciona.
Ora, isso não foi político ou legal.
— Como é?
Giselle inclina a cabeça na direção de uma porta na lateral da sala.
— Venha.
Sem explicação. Ela atravessa a sala e some através da porta, esperando que eu a siga como uma rainhazinha obediente de um reino Estação.
Gesticulo para Conall e Garrigan antes que possam sequer tentar se mover de onde ambos se encostam em uma mesa.
— Fiquem aqui.
Conall grunhe.
— Minha rainha...
— Fiquem. Aqui — repito, odiando o quanto pareço ríspida. Conall cede, curvando o corpo quando ergo a saia e marcho na direção da porta.
Um corredor surge à esquerda, iluminado por mais algumas daquelas esferas brilhantes. Outra porta no final está aberta, projetando um raio vibrante de luz branca no interior marrom e escuro. Empurro-a e quase imediatamente cambaleio para trás.
A porta se abre para um mezanino que se ergue sobre uma sala com pelo menos dois andares de profundidade, a qual se desdobra em fileiras de maquinário, mesas e trabalhadores. Yakimianos se agitam, puxando alavancas e mexendo nas máquinas, todas as pessoas se movem em sincronia.
Giselle fecha os dedos na treliça de ferro que protege o mezanino.
— Uma das fábricas de teste da Universidade de Putnam. Meus professores criam desenhos para novos dispositivos, e os protótipos são feitos aqui. — Giselle olha de volta para mim com uma sobrancelha erguida. — Diga, rainha de Inverno. Alguma dessas pessoas parece deprimida?
Eu me recomponho e dou um passo na direção do parapeito, percorrendo a sala abaixo com os olhos. O tom de voz de Giselle me diminui, o ar de superioridade dela é inevitável — espera provar que estou errada, me conquistar para o lado dela.
Quem quer que sejam os trabalhadores, não são os camponeses surrados e sujos que vi na viagem até aqui. Estão limpos, arrumados, as camisas brancas estão impecáveis e as calças vestem bem. Apenas os aventais de couro estão sujos, o subproduto da graxa preta espessa que cobre algumas daquelas máquinas, o mesmo tipo de coisa que usaríamos para lubrificar rodas de carruagem ou equipamento de equitação.
Olho para Giselle.
— É claro que essas pessoas seriam bem cuidadas, são sua classe alta, não são? Eu estaria mais inclinada a gostar de você se todos no reino fossem assim, mas esse não é o caso até agora.
Dou-me conta assim que termino de falar. Insultar a rainha de Yakim não é a melhor maneira de fazer uma aliança com ela.
Mas Giselle gargalha e a atenção dela passa de minha cabeça para meus pés.
— Você é bem jovem, não é? Sim, concordo que nem todos em meu reino recebem o mesmo tratamento, mas esses trabalhadores que vê diante de você não são da classe alta. São camponeses que se provaram úteis, estão trabalhando para subir entre as classes sociais, e embora possa parecer que são trabalhadores braçais inferiores, obedecendo os planos de um senhor superior, têm liberdade de trabalhar nos próprios projetos no tempo livre. São encorajados a fazerem tais coisas. Não desvalorizo meus cidadãos, como você pode acreditar, simplesmente dou valor apenas quando ele é merecido.
Observo os trabalhadores, como se movem agitados. Nenhum deles parece qualquer coisa que não concentrado na tarefa.
— Bom para eles. Conseguiram entrar em seu sistema. Seria um sistema que eles escolheriam, no entanto, se você não forçasse essa necessidade por conhecimento neles?
Giselle pisca, surpresa pela primeira vez.
— É meu uso de magia que a desagrada? — Os olhos dela se semicerram e, depois de um segundo, resmunga como se algo tivesse ocorrido. — Todos têm esse desejo por conhecimento dentro de si. Todos têm, inclusive você. Eu cultivo esse desejo. Não é como outros reinos, que obrigam o povo a usar emoções ou interesses que talvez não cultivassem. Conhecimento é uma busca mundial. Não embase sua opinião a meu respeito em um ódio tão infundado, rainha Meira.
— Não é infundado...
— Mas é. — Giselle me interrompe com um gesto da mão. — Qualquer um dos camponeses que viu e que vive em situações indesejáveis pode mudar o destino em um instante. Se provarem que são úteis para Yakim, serão elevados a um posto adequado. Utilidade não é um direito, rainha Meira, é um privilégio.
Minha boca se abre, pronta para refutar as acusações dela com meus argumentos.
Mas, na verdade, concordo com parte do que Giselle disse.
Nem todos merecem as mesmas coisas. Nem todos merecem poder — o motivo pelo qual não quero que o abismo de magia seja aberto. E se a sociedade yakimiana é realmente baseada em pessoas de qualquer classe conquistando seu lugar, pode não ser um reino tão odiável assim.
— Se espera que utilidade venha de alguém de seu povo — começo a dizer — por que vende parte deles a Verão?
A expressão de Giselle se desfaz por completo, os lábios dela formam um sorriso delicado e arrependido.
— Todos fazemos coisas que não devemos explicar a forasteiros para a segurança de nossos reinos. Se não gosta de Cordell tanto assim, por que permite que governe Inverno?
Giselle tem um motivo para vender a Verão que afeta a segurança do reino? O que quer dizer com isso?
Mordo a bochecha com tanta força que a dor percorre meu rosto.
— Não permito que Cordell faça nada. Você mesma parecia não gostar nada de Noam. — E aí está, uma abertura. — O que me faz me perguntar até que ponto essa opinião se estende.
A sobrancelha de Giselle se ergue, refletindo.
— Se deseja se beneficiar dessa opinião minha, vai encontrar pouco apoio aí. Não vejo os reinos Estação com o mesmo desdém quanto meus colegas Ritmo, os Estação, como meu povo, têm a possibilidade de provar sua utilidade para mim. Mas que utilidade tem Inverno agora? Não, rainha Meira, seus problemas são seus. E saiba que, por mais que eu valorize utilidade, detesto interferência, e farei o possível para manter meu reino funcional. Não tente trazer seus problemas para cá.
Não confio em mim mesma para falar de novo, então permaneço em silêncio. O rosto de Giselle permanece inexpressivo e observador, como se simplesmente estivesse recitando informações, não me ameaçando.
— Os reinos Ritmo a destruirão, criança, a não ser que os impeça — acrescenta Giselle, sem se excluir do grupo. Ela se vira e segue para uma escada que a levará para a fábrica. — Pode ir, rainha Meira. Diga ao príncipe Theron que considerarei o tratado dele.
Permaneço parada no mezanino, processando essa interação em meio a uma névoa. A franqueza de Giselle seria algo renovador se não fosse por meu ódio instintivo pelo ar geral de superioridade dela. Essa coisa toda foi um teste, não foi? Estava procurando utilidade em mim. Em Inverno.
E Theron a presenteou com a única coisa que poderia ter cimentado essa utilidade.
Meu ódio em relação a ele fervilha quando Giselle chega ao chão de fábrica. Ela caminha pelos corredores, fala com trabalhadores, para e examina uma máquina especialmente grande, com duas vezes a altura dela e com toda a sorte de longos tubos de metal que despontam em uma fileira regular. Cada trabalhador que Giselle encontra se vira para ela com ansiedade aparente para exibir os projetos.
Giselle se importa com aqueles que merecem isso. Mas é algo terrível, embasar o valor naqueles que lutam melhor por ele. E quanto às crianças que ainda são jovens demais para terem utilidade e que vivem na pobreza? E quanto àqueles que podem não querer levar vidas de conhecimento, mas que sabem que para serem bem-sucedidos, precisarão ceder à vontade de Giselle? E quanto a uma rainha de Inverno fraca e burra que não teve visão para prevenir que essa viagem desmoronasse antes de começar?
Esfrego as têmporas. Meus problemas são minúsculos em comparação com os demais que listei. A perspectiva redireciona parte do ódio que sinto de mim mesma para a esfera dormente em meu peito.
É isso que me deixa mais chateada com relação ao mundo — como a magia impulsiona as pessoas para vidas que talvez não queiram. Ninguém deveria precisar implorar a pessoas em posições mais altas por permissão para ser quem é e ter a súplica ignorada.
Ninguém deveria ser forçado a ser algo que não é.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!