21 de janeiro de 2019

Capítulo 21

HANNAH SE RENDEU.
A verdade faz com que respirar seja doloroso. Hannah se entregou a Angra. No jardim de Bithai, na noite do baile, Noam tinha tanta certeza de que Hannah se entregara, e Mather tinha tanta certeza quanto ele de que Hannah tinha lutado contra Angra até o fim. Noam estava certo, no entanto. Ela se rendeu — mas não do jeito que ele quis dizer. Foi um sacrifício, não submissão por incapacidade. Um sacrifício como aquele que Mather tentou fazer por nós.
Diga-me como salvá-los...
Em meu sonho, Hannah pediu ao condutor que mostrasse a ela como salvar o povo. Foi isso que o condutor disse a ela? Que a única forma de protegê-los seria morrer?
Mas Hannah não sabia que estava grávida, e que o fim da linhagem real de Inverno significaria assassinar o filho também.
O cetro de Angra dispara pelo ar e acerta minha bochecha, fazendo minha cabeça se chocar contra o chão e me fazendo urrar com pulsos elétricos de dor.
— Você trouxe magia para meu palácio, general. — A voz de Angra estala no ar, como o chicote do soldado.
Magia? Pavor percorre meu corpo — pavor de que Angra tire qualquer que seja a fonte de magia que tenho, pavor de que eu possa de fato ter uma fonte de magia, no fim das contas. A pedra? Hannah? O que quer que seja, como estou usando? Hannah disse que não conseguiria falar comigo depois que eu entrasse em Primavera, que Angra me vigiaria com a magia negra dele. Seria mesmo a lápis-lazúli, então?
Herod abafa uma gargalhada.
— Magia? Ela é inofensiva.
Angra agita o cetro na direção de Herod e derruba o general no chão antes de se virar para mim.
— Qualquer que seja o resquício de magia que você tem, está sem sorte, garota. — Angra se aproxima com passadas fortes e me põe de pé agressivamente. Ele se certifica de só tocar minha armadura, não permite contato pele a pele de novo. — Sua magia enfraquecida não pode vencer aqui.
Angra jamais se sentiria satisfeito com acabar com a linhagem real de Inverno, com quebrar o medalhão, com matar Hannah e Mather e nos deixar seguir com a vida. Ele não se sentiria satisfeito até que estivéssemos onde estamos agora, escravos dele, com Primavera imponente sobre a carcaça de Inverno, que se desfaz. Mesmo o sacrifício de Hannah, algo muito maior do que qualquer coisa que eu jamais poderia fazer, não teria mudado nada. Mas por quê? Para que tudo isso?
— O que quer de nós? — A pergunta dispara de minha boca, trêmula e fraca.
Angra me solta, dá um passo para trás.
— Poder — diz ele, como se isso explicasse tudo.
Sacudo a cabeça, lutando contra a vontade de desabar aos prantos.
— Inverno não é poderoso! Não somos nada agora.
Angra faz um biquinho, como se eu fosse uma criança dando um chilique.
— Inverno não vai ficar em meu caminho — sussurra ele, meio que para si. Angra assente para Herod antes que eu consiga decifrar a explicação sem sentido. Como estamos no caminho de alguma coisa?
Ele é louco. Não há motivo para o que fez, nada que possamos fazer para satisfazê-lo.
E saber disso torna tudo muito mais aterrorizante, porque significa que não há fim para esse horror. Não há caixa que possa contê-lo, nenhuma forma de prever o que Angra fará.
Ele simplesmente quer nos ver sangrar.
— Tire a armadura dela — diz Angra a Herod. — Tire dela tudo o que tem.
Disparo para trás quando Herod fica de pé, pega meu braço, o rosto ficando mais vermelho, saliva disparando da boca. Um cão raivoso preso ao pulso de Angra. Ele empurra o rosto contra meu cabelo, o hálito quente e carregado devido à batalha e à longa marcha até Primavera.
— Vou ensinar seu lugar — grunhe Herod quando abre as alças de minha armadura, a confusão de enchimento e metal amassado cai no chão com um ruído. Sou deixada com uma camiseta de algodão manchada, calça surrada segura por um cinto de couro em frangalhos e as botas gastas. Não tinha percebido o quanto da minha força dependia de ter uma camada de metal entre Herod e eu. Meus joelhos fraquejam, minhas entranhas se reviram como um redemoinho.
Ele vai encontrar a pedra. Vai levá-la. Então vai me destruir.
Os dedos de Herod tateiam meu pescoço, meus braços, traçando meu corpo conforme ele busca objetos. Os dedos do general deixam um rastro de dormência — então ele percorre a lápis-lazúli.
— Não... — começo a dizer, meu corpo se contorce involuntariamente.
Herod dá um risinho para mim ao tirar a pedra. Atiro o corpo para a frente, meu punho desliza pelo ar, mas Herod facilmente desvia de minha tentativa exausta de lutar e lança o braço contra mim. Desabo no piso de obsidiana com um ruído surdo, a dor irrompe por meu cotovelo e meu quadril.
Mas nada disso prende minha atenção mais do que a forma insensível com que Herod atira a pedra de lápis-lazúli ao altar, onde o objeto quica sonoramente até os pés do mestre dele. Só posso encarar a pedra, aquele pedaço azul brilhante de rocha, e ver o dia em que Mather a deu para mim. A certeza dele de que eu deveria ter a pedra, um resquício de nosso reino perdido. Jamais o agradeci. Não o suficiente.
Meu estômago se revira no momento em que Angra dobra os dedos sobre a pedra, fechando os olhos por um momento, como se tentasse absorver a magia ele mesmo.
Angra me olha, um sorriso se abre no rosto dele.
— Era esta a magia, garota? — pergunta Angra. — Se era, está vazia agora. E se não era o que você estava usando, acredite em mim, encontrarei a fonte e a arrancarei de você.
As palavras de Angra quebram meu pânico. Não é mágica? Era tudo Hannah? Uma última visão antes de precisar me deixar sozinha em Primavera? A solidão se acumula dentro de mim, partindo qualquer coragem, me deixando contendo o choro no terrível nada ao meu redor.
História, o passado, qualquer que seja a Ruína que Hannah tema — não importa mais. Porque se foi, cada pedaço dela envolve Angra conforme ele segura a pedra com o poderoso punho. Não restou nada para me ajudar agora.
Herod me levanta do chão, o olhar dele me diz que ainda não acabou, não será tão fácil.
Respire, Meira. Não pense, não analise, nem mesmo reaja.
Angra relaxa no trono.
— Agora não, general — ordena ele, e congelo como se soubesse o que vai dizer. Eu sei, não é? Soube desde que entrei em Abril.
— Leve-a até eles — grunhe Angra. — Quero que a destruam antes que você o faça.
Herod para ao meu lado, o desapontamento dele o silencia quando o general me empurra e os dois guardas marcham comigo de volta pelo corredor escuro.
O céu do anoitecer parece claro em comparação com o palácio de Angra, mesmo com a luz entrando na sala do trono e a escuridão que se aproxima lá fora. Pisco para afastá-la e percebo, com peso no coração, que os escravos invernianos se foram. Só restam as pás deles, despontando da terra. Tenho a sensação de que estou prestes a descobrir para onde foram levados.
— Coloquem-na com o restante. Ah, e Meira?
Continuo marchando pelo caminho de pedra, meu corpo estremece a cada passo. Estou curada, mas a magia de Angra me deixou instável, cambaleando, a cada passada, como uma folha ao vento.
— Eu verei você de novo — grita Herod para mim. — Muito em breve.
Ele gargalha, a voz sumindo conforme retorna ao palácio. As portas batem e uma ínfima gota de tensão se esvai de meus músculos. Ele se foi, por enquanto.
Os guardas me levam pelo gueto de Abril, os prédios ficam cada vez piores conforme nos aprofundamos mais. Madeira podre desabando em quartos, pilhas de lixo rançoso jogadas nas esquinas. Os cidadãos de Primavera nos observam conforme passamos, dando risinhos da mais nova prisioneira inverniana. Mas as vidas ao redor deles — as casas desabando, a sujeira que mancha os rostos dos filhos deles. Como podem ter orgulho de destruir um reino quando o reino deles nem mesmo se importa com o próprio povo?
Os soldados e eu chegamos a uma barreira de arame farpado que se estende para dentro da cidade. As muralhas altas separam a favela do que só posso presumir ser um...
— Campo de trabalhos forçados inverniano. Bem-vinda ao lar — resmunga um dos guardas, e abre o portão.
Preciso de toda a força que me restou para continuar andando, um pé diante do outro, conforme fecham o portão atrás de nós. Não são sequer prédios; são celas. Exatamente como Herod falou. Jaulas com três lados sólidos, um teto e uma porta gradeada, pequenas, entulhadas, empilhadas umas sobre as outras como blocos. Algumas estão vazias, mas a maioria tem prisioneiros invernianos ocos, vazios, que observam com olhos sem alma. Eles não se importam. Como poderiam? Angra os espancou até que não se importassem, os deixou para apodrecer nesses casebres até que precisasse que trabalhassem.
Os soldados me empurram pela longa fileira de jaulas. Poeira cobre minhas botas, o vento canta em meus ouvidos como um choro desesperado. Jaulas se estendem por fileiras e fileiras, tantas que meu estômago dói com náusea de novo.
Há outros campos como esse por toda Primavera. Angra realmente aprisionou um reino inteiro, exerceu o pior domínio sobre as vítimas ao transformá-las em escravas. Quando criança, era sempre impossível imaginar — tantas centenas de pessoas trancafiadas? Mas agora...
Como deixamos isso acontecer?
Os guardas me empurram para uma jaula vazia na fileira mais ao fundo. Não há nada ali dentro, nenhuma cama ou comida ou móveis. Apenas um espaço coberto de terra com vista para mais jaulas diante de mim.
— Não se acomode — dispara um dos guardas. — Voltaremos para buscá-la.
Eu os encaro com raiva entre as barras, com os dedos fechados com força sobre o ferro.
— Podem tentar — murmuro, mas eles se foram, a mais nova escrava inverniana já foi esquecida.
Estou sozinha agora. E não preciso conter a língua ou permanecer forte ou impedir que me vejam desabar. Essa triste liberdade me percorre, e tudo que aconteceu, tudo o que vi e senti, fervilha em minha garganta. Recuo até a parede e deslizo para o chão, dobrando os joelhos e enterrando o rosto neles. Os invernianos diante de mim observam. Eles estão boquiabertos, confusos e sussurrando. Essa é uma que viveu lá fora enquanto estávamos aqui dentro. Por que ninguém nos salvou?
Porque fracassamos. Porque deixei que Sir morresse. Porque nosso único aliado está lidando com a humilhação do próprio reino. Porque só temos metade do medalhão de Hannah e levamos esse tempo todo para sequer o conseguirmos. Porque Angra é muito mais poderoso do que jamais soubemos.
Meus ombros tremem e me abraço com mais força, lutando contra o choro. Sir me treinou melhor do que isso, mas não tenho força alguma para me manter estoica e calma. Mather era sempre aquele que conseguia esconder os sentimentos, não importava a situação. E, se Mather estiver fugindo, e Theron e Bithai fracassaram, e Angra é tão velho e cruel quanto Hannah disse — eu provavelmente vou morrer aqui.
Forço um grito sem som para o vão entre minhas pernas, segurando os cabelos e me espremendo. Não. Não deveria terminar assim...
A fechadura na porta emite um clique, mas não consigo encontrar forças para me importar. Que Angra venha me buscar, ou mesmo Herod. Não há nada mais que possam tirar de mim.
Pés se arrastam no chão e a porta é trancada de novo. Alguém está aqui dentro comigo.
Um segundo se passa. Dois. Quem quer que seja, se ajoelha. Mantenho os olhos fechados, farejando a escuridão de meus joelhos, e enrijeço o corpo quando a mão de alguém toca meu ombro.
Ergo o olhar. São os invernianos do palácio, os dois homens e a garota que foi açoitada na terra. Ela tem as marcas nos braços para provar, cortes finos cobertos de sangue seco. Mas está sorrindo, um sorriso reconfortante, e luz brilha além dos hematomas ao redor dos olhos dela.
A garota deixa uma tigela meio vazia de ensopado no chão, o objeto é esquecido devido ao modo como ela me encara.
— Você está aqui — sussurra a garota, como se estivesse tão chocada quanto eu.
Como se fosse algum sonho que se tornou realidade, e ela tem medo que, caso não diga, eu suma.
Os dois homens se sentam atrás da garota, os olhos deles permanecem em mim, um fraco lampejo de interesse se esconde por trás dos ferimentos deles enquanto os homens tomam goles das próprias tigelas de ensopado. Estão mais suspeitosos comigo do que a garota, mas o peso da vida recai ainda mais pesado sobre eles.
Expiro, inspiro, ainda incapaz de acreditar que a garota que me toca é real. Eles são reais, e estão aqui, e vivos. Vê-los de longe foi difícil de aceitar, mas isso é impossível.
A garota não diz mais nada. Ela se senta ao meu lado, nossos quadris se tocam, e a garota passa o braço sobre meus ombros. É tão magra que tenho medo de quebrá-la, caso a toque. Mas apenas nos sentamos em silêncio, os homens encaram pelas grades a garota me segurando ou eu segurando a garota.
Conforme a luz do sol baixa sobre o campo de trabalhos forçados, uma voz baixinha ecoa no fundo de minha mente, algo que torna os horrores não tão sobrepujantes: Você vai entender como usar tudo isso quando estiver pronta.
Realmente era Hannah falando comigo. E se ela achou que era importante me contar sobre o passado, para tentar me ajudar a entender alguma coisa, então talvez ainda haja uma forma de vencer isto.
A garota se move. Ela está dormindo agora, com a cabeça no meu ombro e a respiração lenta. Inclino a cabeça sobre a dela e fecho os olhos.
Sir e Mather e Theron podem estar perdidos, mas os invernianos não estão. E, enquanto viverem, não estou completamente sozinha.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!