26 de janeiro de 2019

Capítulo 20

Mather

O VENTO FRIO feria o rosto de Mather, lutando contra o suor que se acumulava na testa dele. O rapaz estava apenas um andar acima do chão, mas o frio serpenteava entre os demais chalés com restauração incompleta, fazendo com que flocos de neve ficassem presos no peito exposto dele, gelo e frio derretendo-se em cansaço físico e calor. A lufada de ar empurrou Mather para a frente na estrutura do telhado do chalé, e ele usou o movimento para testar a firmeza das tábuas que acabara de terminar de pregar no lugar. Elas rangeram, mas permaneceram firmes.
— Não vou pegar você. — Phil lançou um olhar divertido de soslaio para Mather, com os dedos trabalhando agilmente para resgatar pregos velhos de tábuas podres no piso do chalé.
— Sua preocupação é comovente, mas não vou cair — disse Mather, ofegante. Para comprovar isso, ele ficou de pé, reto, equilibrando-se na ripa que formava a base de uma estrutura triangular.
Phil riu com escárnio.
— Exibido.
Mather sorriu, equilibrando-se no topo da cumeeira, a única e longa tábua de madeira que percorria toda a extensão do telhado, ou do que em algum momento seria o telhado. Dali, ele podia ver toda a praça — uma dezena de outras estruturas de telhados e prédios inacabados cheios de invernianos realizando as mesmas tarefas que Mather e Phil.
A atenção de Mather se voltou para a parte nordeste da cidade. O chalé do Degelo ainda estava a pelo menos três seções de se tornar o foco dos reparos. Tinham mais dois meses antes de precisarem considerar seriamente se mudar, ou no mínimo guardar o material de treinamento até que os construtores passassem por eles.
Tinham tido sorte até então. Sorte por poucas pessoas irem até os limites da seção habitada de Jannuari; sorte porque contanto que Mather e o restante do Degelo ocasionalmente ajudasse com os consertos, ninguém reparava a ausência deles nos outros dias; sorte porque fazia apenas pouco mais de duas semanas desde que tinham começado o treinamento secreto, então ainda não tinham precisado de armas de verdade além das poucas facas frágeis que Mather conseguira roubar.
Um grupo de soldados cordellianos circulava a praça, rondando a área como tinham feito o dia todo. Mather os olhou com raiva, sabendo que a expressão não seria percebida, mas sentindo-se melhor quando a estampava. Dos quadris de cada um dos soldados pendia uma espada e duas adagas, armas perfeitamente afiadas que oscilavam, sem uso e provocadoras. Mesmo as espadas de madeira que o exército inverniano usara antes da proibição de Noam tinham sido emprestadas por Cordell. Será que os cordellianos reparariam se algumas das espadas deles sumissem da tenda de armas?
Provavelmente.
Mather fez uma expressão de raiva conforme os soldados marcharam na direção do chalé dele, olhando os invernianos ao redor com um ar de posse que parecia uma lâmina cega subindo pela coluna de Mather.
Pá.
Mather abaixou o olhar para o chalé ao lado, aquele para o qual Hollis, Trace e Feige tinham sido designados. O telhado deles não passava de meia dúzia de ripas paralelas ao chão, deixando a totalidade do chalé de um andar aberta para que Mather olhasse para dentro dele.
E quando o fez, uma sensação de alerta percorreu o corpo de Mather com tanta força que ele cambaleou no telhado até que os dedos se agarrassem ao topo da cumeeira de novo.
— Ainda não vou pegar você — cantarolou Phil, analisando um prego particularmente teimoso.
Mas Mather o ignorou. Os olhos dele dispararam para os cordellianos, a um prédio de distância.
Qualquer movimento súbito apenas atrairia atenção, a última coisa de que precisavam. Porque Feige estava em posição de lançamento, um braço às costas — e uma faca na mão. A outra faca Feige enfiara na parede com o último lançamento, o cabo ainda vibrava devido à força. Duas das lâminas patéticas que Mather roubara para o treinamento deles, mas apenas para o treinamento no chalé do Degelo, escondidos com segurança dos olhos cordellianos.
Mather sibilou para Trace e Hollis, que estavam fora, atrás do chalé, um segurando uma viga com firmeza enquanto o outro a serrava. Mas com martelos batendo e serras cortando a madeira, o sinal se perdeu no ar, pairando tão inutilmente quanto os flocos que dançavam ao redor deles.
— Bem, o que temos aqui? — Um dos soldados entrou no chalé no momento em que Feige soltou a última adaga. Ela disparou pelo ar, desviando de curso devido ao sobressalto da menina, e bateu na parede antes de cair no chão.
Feige disparou atrás da faca, pegou-a e se virou com a faca diante do corpo. O chalé não tinha mais de dez passos desde a porta da entrada, a qual os soldados agora bloqueavam, até a parede dos fundos. Até mesmo Mather teria sentido uma pontada de medo diante daquilo, mas o rosto de Feige estava completamente petrificado. A pele marfim da garota empalideceu até chegar a um tom cadavérico, os olhos não piscavam, o pequeno corpo estava curvado em uma posição defensiva, tanto tentando se proteger quanto se preparando para um ataque.
Mather se moveu assim que o primeiro soldado se aproximou de Feige. Ele disparou pelo telhado em que estava e saltou para o ar, atravessando o espaço entre os chalés.
— Uma arma, é? — perguntou o soldado, com as botas deslizando pelo chão em avanços provocadores. — O que está fazendo com isso?
Mather aterrissou no telhado do chalé, a energia do movimento ainda com ele. Mather recebeu essa força de braços abertos, pois no segundo seguinte, Feige gritou.
Aquele era o grito que cada inverniano lutava para ocultar bem no fundo, um grito que vinha da tortura, de sofrimento repetido e interminável. Mather sentiu como se fosse o uivo de um lobo, o ruído tomou conta das entranhas dele e o acendeu. Aquilo falou com Mather de uma forma que ele odiava e temia e da qual fugia, tanto porque entendia tal medo quanto porque sabia que aquilo que Feige tinha suportado era muito pior do que qualquer coisa que ele tivesse.
A garota avançou, ainda gritando, e golpeou com a adaga a bochecha do soldado. Ele urrou, o choque o entorpeceu o suficiente para que Feige golpeasse de novo, a lâmina atingiu apenas a manga da camisa do homem dessa vez. O soldado abaixou para fugir do próximo golpe da garota e inclinou o corpo para derrubá-la.
Mather segurou a ripa mais próxima e entrou no chalé. A madeira crua feriu as palmas das mãos dele, mas o jovem insistiu, travando as pernas para formar um aríete, o qual ele bateu no segundo soldado. O homem despencou no chão, perdendo o ar por tempo o suficiente para que rolasse, indefeso, conforme Mather se abaixava e se virava para o outro soldado, o qual se levantou da intenção de derrubar Feige.
— O que acha que está fazendo? — berrou o homem, mas Mather o agarrou pelo colarinho e o atirou na rua logo depois de Trace e Hollis dispararem para dentro.
Mather se virou, derrapando até parar quando viu Feige enroscada como uma bola, no canto, segurando uma das adagas empunhada. Ela ainda gritava aquele urro terrível e nauseante, como se tivesse perdido o controle. Talvez jamais tivesse controle sobre aquilo.
Quando Hollis a alcançou, ele se ajoelhou à distância de um braço da irmã e olhou de volta para Trace, com a expressão desapontada de um homem que esperava uma batalha, mas conseguiu uma guerra.
Um soldado ainda rolava no chão diante de Mather, tossindo para recuperar o fôlego que tinha perdido. Mather segurou o braço do homem e o arrastou para fora enquanto o outro soldado se levantava no pátio, com a espada em punho e o rosto lívido.
— Rei Noam baniu todas as armas exceto aquelas que o exército dele tem — disparou o soldado.
Do lado de dentro, os murmúrios carinhosos de Hollis eram agora entrecortados pelos gritos de Feige. Mather colocou o segundo soldado aos pés do primeiro e fincou os calcanhares na neve diante do chalé.
— Ela estava com uma faca de cozinha — murmurou ele. — Nada mais.
Tinham atraído uma multidão e tanto àquela altura. Todos os invernianos em volta se viraram, parando com pregos em punhos ou martelos erguidos no meio do movimento.
— Além disso, se a tocar, vou estripar você — continuou Mather.
— Nós estriparemos — acrescentou Phil, colocando-se ao lado de Mather com Trace. Algo se movimentou logo à direita e Kiefer e Eli correram para a frente enquanto os gritos de Feige continuavam. Eles se plantaram ao lado de Mather, uma frente única, unificada.
— Mather!
O orgulho que crescia em Mather anuviou a mente dele. A atenção do rapaz se voltou para William, que abriu caminho pela multidão ao lado de Greer. Alysson seguiu, afastando-se de onde estava entregando água aos trabalhadores. Todos os três pararam entre Mather e os soldados cordellianos.
— Pare — disse William, e se ainda estivessem no acampamento nômade, a ordem teria funcionado.
Mas agora, Mather cambaleou para a frente, todo o ódio e a adrenalina se transformando em incredulidade.
— Está ordenando que eu pare? E quanto a eles? — Mather apontou para os cordellianos, que observavam a discussão ocorrer com ódio inalterado.
— Não faça drama — grunhiu William, e se virou para encarar os homens. — Peço desculpas pelo mal-entendido. Retificaremos a situação para cumprir com todas as ordens do rei Noam.
As palavras fizeram Mather resmungar.
— Não pode estar...
Mas Greer interrompeu quando Mather avançou.
— Para trás — disparou ele.
Mather tentou se soltar da mão de Greer. O velho segurou com força, os olhos fixos e sombrios.
— Não ouviu os gritos dela? Eles fizeram isso com ela!
Feige tinha se calado a essa altura, talvez pelo conforto de Hollis, ou porque o medo tinha se dissipado.
Um dos soldados pareceu chegar à conclusão de que vencer aquela luta não merecia a energia dele, porque gesticulou para dispensar William.
— Não seremos tão generosos da próxima vez, general.
William abaixou a cabeça fazendo uma reverência.
— Obrigado.
O soldado emitiu um estalo com os lábios, enojado, antes de se virar, abrindo caminho pela multidão. O colega o seguiu, ambos lançaram risinhos de vitória para Mather. Tinha vencido alguma coisa. Uma batalha diferente, uma que o deixou boquiaberto conforme William se virava para ele.
Antes que conseguisse falar, William o tirou da mão de Greer e abaixou a cabeça para cochichar ao ouvido de Mather.
— Os cordellianos são nossos únicos aliados até que a rainha conquiste mais. Se não conseguir, Cordell é tudo o que temos, não podemos antagonizá-los.
— Eles teriam ferido Feige — disparou Mather de volta. — Teriam...
— Não sabe disso.
— Não queria descobrir! Você teria permitido que a fizessem gritar mais?
Atrás de William, os invernianos retornaram às próprias tarefas, enxotados pelas ordens de Greer. Apenas Alysson restara, saltando os olhos entre eles e o chalé, sorrindo com o mesmo conforto que Mather vira tantas vezes antes. Um sorriso que o informava que ficaria bem, porque como alguém podia olhar para ele daquele jeito se a vida estava destinada ao sofrimento?
Feige estava diante do chalé agora, batendo no estômago em golpes ágeis e curtos. Não tinha mais as adagas, e encarou a neve acumulada na rua com olhos que não enxergavam. Mather deu um passo adiante, mas Hollis, logo atrás da irmã mas sem a tocar, sacudiu a cabeça com força.
— Feige? — tentou Mather.
Ela encolheu o corpo. Lágrimas se acumularam nos olhos.
— Não queria estar indefesa de novo. — Foi tudo o que a garota sussurrou.
O coração de Mather se partiu.
Hollis levou Feige embora. O restante do degelo permaneceu, observando, hesitante, tentando não parecer que ainda estavam esperando que alguém perdesse a compostura.
Mather tinha uma sensação de pesar de que ele seria essa pessoa.
— E se jamais tivermos outras opções? — disparou Mather para William. — E se Meira voltar e nosso aliado mais poderoso ainda for Cordell? E se Noam abrir aquela droga de abismo da magia e se tornar ainda mais poderoso? E então?
O maxilar de William se contraiu.
— Não estaremos nessa posição.
— Já estamos nessa posição! Você fez isso conosco antes, em Bithai. Angra tinha enviado o exército atrás de nós, e Noam concordou em me entregar, e você simplesmente ficou parado, porque embora tivéssemos chegado tão longe, a única coisa que enxergou foi desistir. Chegamos tão longe tantas vezes, mas isso só parece ter deixado você com mais medo ainda. O que tem medo que aconteça? Já perdemos tudo e sobrevivemos. Podemos sobreviver sem Cordell! Podemos enfrentá-los!
— Só porque poderíamos enfrentar Cordell não quer dizer que deveríamos. Há outras opções, caminhos que não arriscam a vida de nosso povo. — William avançou, a exaustão desapareceu com um último rompante de certeza. — Perdemos tudo, e levou décadas para recuperarmos. Não arriscaremos de novo. Conseguiremos agora; receberemos tudo. Nosso reino, nossas vidas, nossas famílias.
A boca de Mather se escancarou. O modo como William disse a palavra famílias, como se fosse apenas mais uma tarefa, facilmente realizável, fez com que Mather olhasse para trás, para Phil, Trace, Kiefer e Eli. Adiante, William e Alysson esperavam. Uma clara divisão.
— Fomos tudo o que tínhamos durante 16 anos — começou Mather, voltando-se para Wiliam. — Todos nós. Finn, Greer, Henn, Dendera, e todos que morreram também. E nunca, nenhuma vez, senti como se quiséssemos ficar juntos. Mas não queríamos ficar juntos, não queríamos montar uma família permanente em outro lugar, porque poderia ter tornado impossível recuperar nossas famílias verdadeiras. Mas... deveríamos ser uma família agora? Fácil assim?
Alysson se aproximou.
— Mather, todos nos amávamos...
— Eu sei que sim — interrompeu ele, o ódio tornando ríspida a voz de Mather, e ele não teve certeza de que sabia o que queria com aquilo. Não, ele sabia o que queria, podia sentir a pergunta pairando nos lábios, queimando a boca, preenchendo-o e escorrendo por ele ao mesmo tempo.
William apenas encarava Mather, sem responder, sem reagir, e Mather esticou o corpo, inspirando e tentando se acalmar. Ele não conseguiu, no entanto, não conseguiu impedir o que tinha começado, e a pergunta disparou de Mather em um rugido de ânsia.
— Por que me sinto mais conectado com seis órfãos do que jamais senti com meus próprios pais?
Alysson sacudiu a cabeça, sem entender completamente, mas magoada, mesmo assim. William apenas escancarou a boca, a confusão enrijeceu os músculos dele. Mather não queria ouvir as respostas dos dois, não queria saber, então ele se virou, pretendendo se atirar atrás de Hollis e Feige.
William segurou o braço de Mather.
— Filho, não dê as costas para mim...
— Não sou seu filho! — As palavras dispararam de Mather tão dolorosamente que sangue deveria ter se acumulado em sua boca. — Quero ser, não tem ideia do quanto quero ser. Mas não sou, William, e não sei por quê. Diga por que jamais senti, ainda não sinto, como se não passasse de um soldado inverniano para você.
O maxilar de William se contraiu, os olhos dele estavam vítreos.
— Você é um soldado inverniano — murmurou William. A voz dele falhou levemente, como se não conseguisse segurar, como se talvez, apenas talvez, aquilo também o magoasse. — Somos todos antes de tudo invernianos. Precisamos aceitar nossas vidas como são agora. Você é nosso filho. Inverno precisa de Cordell. É isso.
Mather recuou, sacudindo a cabeça, sacudindo e sacudindo, porque aquela era a separação entre ele e William. Aquele era o limite, a demarcação, o lugar em que a diferença de opinião deles poderia partir um reino e fazer com que todos fossem mortos.
— Está errado — disse Mather. — Nossas vidas não são tão simples assim. Conquistamos nossa liberdade, mas ainda estamos em perigo, e nada jamais será normal.
O restante do Degelo se aproximou por trás de Mather conforme ele saiu andando.


Naquela noite, Phil derrotou Mather no treino.
Mather queria fingir que não foi por causa da tensão de mais cedo. Mas mesmo Kiefer não exibia o cinismo habitual, e treinou com um novo propósito. Então, quando Mather deu um passo para a esquerda e Phil desviou para a direita, a espada de mentira de Phil disparou para o peito de Mather e todos no chalé correram para dar tapinhas de animação nas costas de Phil. Todos exceto Hollis e Feige, que permaneceram onde tinham estado a noite toda — Feige no banquinho dela, com lascas de madeira voando ao redor da garota como uma nevasca, e Hollis no chão ao lado da irmã.
Mather deu um passo na direção de Feige. Ele não ousou se aproximar mais — mesmo um movimento curto na direção da menina a fez encolher o corpo, embora os olhos permanecessem fixos no entalhe.
— Feige — tentou Mather. Os garotos atrás dele se calaram e Mather estendeu as mãos para Feige, uma torrente de anseio o dominou. Anseio para que a vitória de Phil fosse sentida por todos eles. — Feige, não tenha vergonha.
Hollis olhou para Mather com raiva.
— Já não fez bastante? — grunhiu ele, tão baixo que Mather quase não ouviu. — Ela não teria a faca se não fosse por tudo isso.
Mather se ajoelhou.
— Eu sei que não teria a faca não fosse por isso, e não teria perdido o controle não fosse pelo que fiz a vocês. Mas ela teria perdido o controle em algum momento. Em algum lugar, de alguma forma, alguma coisa a teria provocado, exatamente como algo poderia ter, em algum momento, sido demais para todos vocês. Coisas terríveis aconteceram conosco, ainda estão acontecendo, vão acontecer todo dia, para o resto de nossas vidas, provavelmente. O que nos define não é nossa habilidade de jamais permitir que nos façam perder o controle, o que nos define não é permitir que eles nos tenham nas mãos. Somos o Degelo, e não seremos derrotados por memórias ou por homens cruéis.
Os olhos azul-claros de Feige se ergueram para os de Mather e refletiu sobre palavras dele, uma por vez.
— Somos o Degelo. — Feige assentiu com determinação. — E não seremos derrotados.
Ao lado dela, Hollis expirou, e quando Mather olhou para o garoto, não havia acusação no rosto dele. Exaustão, sim. Mas o começo do que poderia ser visto como... aceitação.
— Não seremos derrotados — repetiu Mather, e foi sincero.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!