21 de janeiro de 2019

Capítulo 20


DEPOIS QUE AS portas se fecham, qualquer ligação com a cidade desaparece, selando o palácio ao meu redor como um túmulo.
O corredor de entrada é uma caverna de obsidiana reluzente, com arandelas projetando luz amarela na superfície refletora, um eco interminável direcionado das paredes que brincam com os reflexos apenas por diversão. As únicas interrupções nas luzes são os retratos dos antigos governantes de Primavera, que pendem em intervalos perfeitamente espaçados nas paredes. Uma mulher, com os cabelos loiros longos sobre um dos ombros em um emaranhado de cachos, sorri para o pintor. Um menino com olhos verde-claros e olhar distante, e cachos loiros que parecem explodir da cabeça em uma rebelião desordenada. As mesmas duas pessoas estão em pelo menos uma dúzia de retratos, posando diante das cerejeiras de Primavera ou de rios ou de simples fundos azuis. As revoluções de cor nessas pinturas não pertencem ao lugar; esse lugar não deveria passar de escuridão. Quem são essas pessoas?
Quando vejo a assinatura do artista no canto inferior de uma das pinturas, meu corpo fraqueja. Angra Manu. Se Angra realmente pintou os quadros, então o exterior do palácio faz mais sentido. Ele acolhe a arte de uma forma que deixaria o reino de Ventralli orgulhoso.
Volto o olhar para baixo, encarando o piso preto, em vez de o bombardeio de vida e cor e felicidade pintado pelo rei, que não trouxe nada além de morte para Inverno.
As portas no fim do corredor rangem quando um soldado as abre. Não me permitem sequer um momento para me recompor antes de entrarmos na sala do trono, ampla e escura e preenchida pela colisão poética de luz do sol e sombra. Uma série de janelas foi cortada no teto alto, círculos de luz do sol que criam um caminho até o altar do outro lado do salão. Naquele altar, o mais amplo dos raios se projeta diretamente sobre um trono imponente de obsidiana, a rocha absorve a luz em uma demonstração de poder sutil, porém ousada.
Mas não é o trono que absorve a maior parte da luz — é a figura sentada nele. A figura que protege os olhos, como se o sol os machucasse, segurando um cetro tão alto quanto eu.
Todos esses anos temendo-o, e jamais vi Angra. Ele raramente, se é que o faz, deixa o palácio, jamais se incomoda em liderar o exército ou sujar as mãos. Daquela distância, consigo ver os cachos loiros que descem em cascata pela cabeça de Angra, tão parecido com o homem que se uniu à Ruína na visão de Hannah. Eles são inegavelmente parentes, e isso me faz encolher o corpo. Ainda não quero acreditar que a visão era real.
Chegamos ao meio da sala e paramos. Tenho certeza de que Angra consegue ouvir meu coração murmurando na garganta, conseguiu sentir o cheiro de meu medo assim que colocamos os pés no palácio. Está tão silencioso ali — sem a agitação distante de membros da corte, nenhum murmúrio baixo de vozes na sala ao lado. Essa falsa calma é mais assustadora do que se Angra estivesse bufando de ódio. Ele é o olho da tempestade, tudo ao redor de Angra espera com ansiedade crescente que a loucura se liberte.
Herod dá um passo adiante.
— Meu rei — diz ele, com a voz ecoando pelo salão vazio.
Angra permanece em silêncio. Herod assente para os guardas e eu resmungo quando eles me empurram para a frente, minha armadura tilinta no chão. Não consigo conter o grito, o som frágil ecoa pelas paredes.
Herod gargalha enquanto me contorço sobre a obsidiana.
— Trouxe uma lembrança da fraqueza de Inverno.
— O garoto?
A voz de Angra indica o erro de Herod — não sou Mather, e não importa o quanto Herod possa gostar de brincar comigo, ele falhou.
Um grunhido baixo soa da garganta de Herod.
— Não. A ladra que roubou metade do medalhão.
Botas descem do altar e deslizam pelo chão. Não me mexo, com as mãos em volta do corpo, os olhos fechados, o pescoço curvado. Sir me treinou para isso. Para Angra, para Primavera.
Eles tomam decisões; eles moldam seu futuro. O truque é encontrar uma forma de ainda ser você em meio a tudo.
As palavras de Theron percorrem minha mente, o sorriso dele, a determinação carinhosa. Eu me agarro a essa imagem, a qualquer coisa que me ajude a lembrar que sou Meira, e eles não podem tirar isso de mim.
Angra para ao meu lado. Consigo senti-lo ali, uma presença quente, ao lado de meu corpo encolhido. Angra se abaixa, o cetro faz um som metálico alto quando ele o acomoda no chão.
— Ela está ferida — diz Angra. O eco estrondoso some da voz dele, é reduzido a um sussurro que me percorre.
Abro os olhos e um choro de desespero se acumula em minha garganta.
Esse homem não parece apenas com o rei que se uniu à Ruína na visão de Hannah — esse homem é aquele rei. Os mesmos olhos verdes translúcidos, a mesma pele pálida, o mesmo brilho na expressão quando inclina a cabeça e ajusta a mão sobre o cetro, todo negro, com uma órbita ébano oca na ponta. Esse é o mesmo rei.
Como é possível? Será que as visões de Hannah foram mais recentes do que eu achei? Não, eu senti há quanto tempo foi. Mas Angra não parece mais velho do que o homem de vinte anos que ele era na visão de Hannah.
Sei que foi Angra quem liderou o ataque a Inverno quando o reino caiu, há 16 anos, mas esse homem não poderia ser velho o bastante para ter saqueado nosso reino. Agora que penso a respeito... Não sei quem foi rei antes de Angra. As aulas de Sir jamais mencionaram a história de Primavera além da guerra conosco. Será esse o mistério que o oculta como parte da Ruína? Angra jamais deixa Primavera. Ele jamais aparece em público. Seria fácil demais esconder esse poder, essa imortalidade, do mundo.
Fecho a boca com força para conter o choro, minha necessidade de gritar luta contra mim como um cavalo selvagem preso atrás de um portão. Se tudo isso é verdade, do que mais ele é capaz?
Angra me encara, sem preocupação. As íris verde-claras dele brilham e os cachos amarelos oscilam quando ele se move — os mesmo cachos selvagens e indomados do garoto nas pinturas. Será que aquele era ele também? Angra pintou retratos de si... e de uma mulher?
Ele inclina a cabeça, sorri ao me avaliar. Angra parece calmo, cheio de algo que me aterroriza mais do que a malícia de Herod — uma determinação e uma paciência antigas. E, em volta do pescoço, oscilando sobre uma túnica negra, está a metade da frente do medalhão de Hannah.
Arquejo. Está tão perto. O coração prateado entrelaçado ao floco de neve, o brilho abafado e fosco contra a pele de Angra.
— Gostaria de ser curada? — sussurra ele, subitamente.
Franzo a testa, desviando o olhar do medalhão. Angra queria que eu visse. Queria que eu soubesse que ele o tem, exatamente como me tem, inerte e inútil. Mas ouço a pergunta e minhas costelas gritam Sim!, enquanto o resto do corpo estremece no escuro, esperando que tudo isso desabe ao meu redor.
Angra se aproxima. Loucura parece dançar por trás daqueles olhos agora, conforme se delicia ao me ver me contorcendo aos pés dele.
— Está com dor. Não quer que eu a cure?
— Vá curar a jovem inverniana — digo, com dificuldade. — Aquela que seu soldado açoitou.
Angra sorri. Ele também sente prazer ao me ver revidando.
Não tenho a chance de acrescentar nada. Os dedos de Angra se fecham sobre o cetro e sou atirada em um mundo vermelho incandescente, tudo desaba por trás de um único grito que ecoa pelas paredes. Sou eu. Estou gritando, arqueando o corpo no chão, com dor e sem fôlego. Meu peito parece afundar, cada costela estala e se dobra devido a uma força invisível que me esmaga, me pressiona contra a terra. Grito de novo e todos os ossos estalam de volta para fora, realinhando-se e se unindo de novo. Consigo senti-los se curando, os ossos pinicam e formigam, me dizem exatamente por onde passam em meu tronco.
A dor para e viro de lado, boquiaberta, incapaz de dizer qualquer coisa, fazer qualquer coisa. Além da dor, mais certezas me fazem murmurar de medo. Se Angra fosse apenas um monarca como todos os outros, e se o cetro não passasse de um Condutor Real, ele não conseguiria me afetar, alguém que não é da linhagem do reino dele. Mas Angra consegue usar a magia para me partir, me curar — então deve ter algo que o ajuda. Algo mais poderoso.
Algo como a Ruína.
Esse pensamento é o golpe de misericórdia de uma luta, aquela que me faz oscilar para a inconsciência. Tudo que Hannah me mostrou — o verdadeiro poder de Angra — a imortalidade dele...
É real.
— Ainda quer que eu cure a garota? — pergunta Angra.
Faço que não com a cabeça, uma enxaqueca latejante faz o mundo girar.
Angra abaixa o cetro para que eu consiga olhar para a órbita negra dele.
— Você está entre os poucos que me escaparam — diz ele. — Não devia ser mais que uma criança.
Angra gira a mão e a pressão retorna, desabando sobre mim como uma bota esmagando um inseto. Respiro rapidamente e me concentro na luz que passa pelo teto.
Concentração, Meira. Não...
Consigo conter um grito quando as primeiras costelas racham, mas ele foge de minha boca quando Angra parte as demais. O grito se transforma em um choro patético conforme a pressão aumenta, as costelas se moldam e se unem de volta com uma lentidão agoniante.
— Como, exatamente, uma criança conseguiu fugir de mim?
Minhas costelas são curadas de novo. Suor escorre por meu rosto, e palavras saem em meio ao fôlego entrecortado.
— Duas... crianças... escaparam... na verdade.
Angra gira a mão de novo. Rapidamente dessa vez, cada osso estala de uma vez e se une em menos de alguns segundos. Estrelas percorrem minha visão, escuridão e luzes espiraladas.
Angra olha, com raiva, para Herod.
— Onde está o garoto?
Engasgo com a pausa de Herod.
— Meus homens o estão perseguindo.
A esperança nessas palavras torna impossível respirar. Contanto que Mather viva, há esperança para Inverno.
Angra segura meu cabelo, me obrigando a encará-lo.
— Sua resistência está ruindo. É apenas uma questão de tempo antes que eu mesmo mate o filho de Hannah.
A esperança em meu peito se incendeia contra as ameaças dele. Está errado, Angra, porque Mather está vivo. Ainda há esperança.
Mas ela se abafa tão rápido quanto veio, quando pensamentos colidem em minha mente — Sir está morto e essa guerra é pior do que pensamos.
Angra sorri.
— Foi o que pensei.
A mão dele acaricia meu rosto horrível e traidor, que entrega minhas emoções.
Quando os dedos de Angra tocam minha pele, a imagem dele se dissipa. O rosto de Angra se contorce, a escuridão toma conta e o preto do trono de Angra se dissolve em um branco leitoso. Como aconteceu quando Hannah me tocou, minha mente me puxa para uma lembrança que não é minha.
Um campo de neve se estende ao longe, congelado com uma perfeição de branco sob um céu noturno limpo. A lua, um fiapo contra a noite negra salpicada, projeta luz em um pequeno grupo de homens e cavalos. Um segura uma lanterna que ilumina os protetores peitorais que estampam o sol negro dos guardas de Angra. E o próprio Angra, a aparência idêntica à como é agora, está sentado em um robusto cavalo de guerra diante dos homens. Ele usa um manto negro pesado e o cetro está embainhado na sela...
Angra tira a mão de meu rosto.
— O que você...
Eu o encaro, com a boca entreaberta. Uma voz no fundo de minha mente suplica para que eu estenda o braço, então pego a mão de Angra com uma força que não achava que ainda tinha. A imagem retorna, mais forte agora, como se eu estivesse ao lado de Angra nos campos de Inverno.
Cascos soam ao longe conforme três cavaleiros se aproximam de nós. Eles param, o campo em volta está vazio, exceto pela neve e por essa reunião clandestina de Primavera e Inverno.
Hannah impulsiona o cavalo adiante e desce dele. Ela não veste nada sobre o vestido além de um manto vermelho-sangue, a oscilação escarlate contra a neve é um contraste surpreendente.
— Obrigada por se encontrar comigo.
O cavalo de Angra dança sob a tensão não dita que paira no ar. Os guardas atrás de Hannah seguram armas, prontos para saltar em defesa da rainha, enquanto os homens de Angra olham furtivamente para o rei deles, em busca de algum sinal de ataque. No entanto, Angra apenas passa uma das pernas sobre a sela e desce do cavalo.
— Como poderia resistir, Vossa Alteza? Principalmente depois de sua mensagem atraente. — Angra dá um passo adiante, o mante negro farfalha sobre a neve. — Você disse que tinha uma proposta que eu não poderia recusar.
Hannah une as mãos sob o manto e ergue o rosto, olhos azuis brilham sob o luar fraco.
— Entregarei minha vida por meu povo.
O rosto de Angra exibe choque.
— Nada de enigmas. O que propõe?
O medalhão pulsa branco no pescoço de Hannah antes que ela fale, a voz está tranquila e determinada.
— Deixarei que destrua o condutor de Inverno e que me mate. Deixarei que acabe com a linhagem de Inverno.
— Se? — O tom de Angra é de deboche.
— Se o exército de Primavera jamais colocar os pés em Inverno de novo.
Angra ri com escárnio, o que me causa arrepios.
— Isso não teria a ver com quão poucos homens lhe restam? Sei que nossa última batalha deixou Inverno enfraquecido, mas jamais achei que isso a levaria a tal desespero. Planeja cumprir sua parte agora?
Angra puxa uma adaga do cinto e a aponta tão rapidamente para a garganta de Hannah que mal vejo acontecer. Os guardas dela disparam para a frente, com espadas em punho, e os homens de Angra preparam as armas. Mas nenhum monarca se move, a faca permanece congelada contra o pescoço.
Hannah gesticula com a mão para os homens atrás dela e eles recuam.
— Sim — sussurra ela, e os homens respiram profundamente. Sim? Ela vai deixar que Angra a mate agora? Mas o rosto de Hannah não exibe medo algum, mesmo com a faca de Angra a momentos de cortar a garganta dela. — Isso quer dizer que temos um acordo?
— Temos. Mas me pergunto, Alteza, até que ponto se estende esse acordo. — Fechando a mão sobre a faca, Angra recua. Os olhos dele descem pelo corpo de Hannah e permanecem na barriga dela, o rosto de Angra exibe interesse. — Ainda não sabe, não é?
As mãos de Hannah se movem sob o manto dela, agarrando a barriga enquanto os lábios da rainha se abrem em confusão.
— Temos um acordo, Angra. Podemos acabar com isso!
Angra sobe no cavalo novamente.
— Temos um acordo.
— Então me mate. Quebre meu medalhão e me mate. Acabe com isso! — Hannah suplica agora, o manto vermelho dela oscila ao redor do corpo conforme ela dá um passo na direção de Angra sobre a neve.
— Não se preocupe, Vossa Alteza. — Angra olha para Hannah com ódio, os olhos verdes dele brilham. — Estamos de acordo. Mas destruirei você quando eu achar adequado, quando lhe causar mais dor.
A expressão de Hannah se desfaz.
— O que quer dizer?
Angra dá um risinho.
— Você não é a última de sua linhagem. — Então ele se vai, disparando a cavalo sobre a neve, com os soldados a galopes fortes atrás.

2 comentários:

  1. O que é isso.... Alguém explica... Meira tem o poder de ter visões!? Como é isso.... Estou muito intrigada

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    Respostas
    1. Não acho que seja isso. Ou Hannah causou essa visão, ou Angra mostrou isso aí pra ela

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Boa leitura, E SEM SPOILER!