17 de janeiro de 2019

Capítulo 2

Lentamente a escuridão diminuiu, substituída pelo brilho do sol do meio-dia. Os olhos de Magnus se arregalaram quando ele viu a paisagem diante dele.
Gelo e ruínas se foram. Em seu lugar havia um jardim verde e perfumado com flores coloridas. Uma borboleta de verão passou voando, suas asas azuis iridescentes agitando-se no ar enquanto flutuava para pousar sobre um lírio cor de rubi.
Uma trilha estreita e sinuosa de pedras cintilantes serpenteava através do extenso jardim até uma casa alta de pedra, adequada ao melhor senhor do território.
— Como... — Magnus disse, sua voz baixa. — Como eu cheguei aqui?
Ele tropeçou para trás, momentaneamente desnorteado, mas algo sólido o deteve. Ele se virou para ver uma estátua de mármore projetando-se do chão – uma à semelhança da deusa Valoria e duas vezes o tamanho de uma pessoa de verdade. Ela estendia os braços para os lados, e nas palmas de suas mãos estavam os símbolos de sua magia elementar: duas linhas onduladas paralelas para a água e um círculo dentro do outro para a terra.
Magnus deu um passo mais perto. Sua respiração acelerou. Esta era a mesma estátua das ruínas. Era quase irreconhecível agora, já que antes estava desmoronando e coberta de gelo, mas Magnus tinha certeza de que era a mesma estátua que a bruxa havia forçado sua mão a tocar.
Magnus encostou nela de novo, a palma ferida para baixo, esperando que esta começasse a brilhar com os símbolos estranhos como antes. Ele apertou a mão contra o mármore frio até que seu ferimento doeu ainda mais, então se afastou, derrotado. Ele enfiou a mão no bolso para puxar um lenço e enrolou o tecido de algodão em volta da mão direita.
— Agora, o que eu faço? — ele murmurou, girando em um círculo lento, procurando pistas sobre onde ele estava e como chegar em casa.
Ele deu outra olhada na estátua. O belo rosto de pedra da deusa estava esculpido com precisão exata. Parecia como as muitas outras estátuas que exibiam sua imagem ao longo de Limeros. A maioria dos limerianos permanecia fiel à sua religião, que exigia adesão estrita às muitas regras e leis da terra, incluindo a não apreciação de álcool, arte ou música frívola, e dois dias por semana dedicados ao silêncio e à oração.
Magnus nunca fora terrivelmente religioso, apenas fazendo o suficiente para não se destacar quando não conseguia encontrar uma desculpa razoável para não ir aos serviços no templo do palácio ou no grande templo em Pico do Corvo.
Mas agora mesmo, ao se deparar com um ambiente tão desconhecido e incerto, estava pronto para cair de joelhos e rezar a Valoria pedindo ajuda.
— Quem é você? — Uma voz aguda o fez pular. Ele virou-se para encarar um homem tão gordo e careca quanto o guia da comitiva real Vesper, no entanto, este homem usava uma expressão hostil e estreita.
Magnus soltou um suspiro de alívio.
— Eu sou o príncipe Magnus e você vai me ajudar a encontrar meu pai.
— Príncipe Magnus? — O homem balançou a cabeça. — Eu nunca ouvi falar de você. O que está fazendo em meu jardim? Eu sou o Lorde Gillis e estes são os meus terrenos privados.
— Se isto ainda é Limeros... — Magnus começou, tentando injetar confiança em suas palavras — então você deve obedecer ao comando de um Damora sem questionar.
  — Um Damora? Você diz isso como se eu devesse conhecer o nome, mas não conheço. — A carranca de Lord Gillis se aprofundou. — Por que veste um casaco tão pesado em um dia tão quente? E o que é essa estranha adaga em suas mãos? Você é maluco, garoto?
Magnus começou a suar e, lembrando-se de sua roupa de inverno, tirou o pesado casaco e colocou-o sobre o braço, enfiando o pedaço de obsidiana em suas dobras.
— Meu pai é o rei Gaius Damora e você vai...
— Saia daqui, garoto, antes que eu ordene que a sua prisão por invasão.
Magnus largou a capa e deu um passo na direção de lorde Gillis.
— Como ousa falar comigo assim?
— Como eu ouso? — Lorde Gillis desembainhou a espada e apontou para a garganta de Magnus. — Eu acredito que você é aquele aqui que fala sem pensar.
Magnus fez uma careta, mas não queria correr o risco de ser cortado por esse idiota. Claramente, ele não estava no mesmo lugar que antes, apesar de sua confusão sobre a estátua. A velha pode tê-lo deixado inconsciente e depois o levado para outro lugar – só a deusa sabia onde.
— Onde estou? — ele perguntou.
Lorde Gillis olhou-o com incredulidade.
— Eu te disse, garoto: na minha propriedade!
— Sim — Magnus concordou. — Mas onde exatamente fica a sua propriedade?
  — Mítica do Norte, é claro.
  — Mítica do Norte? — Ele repetiu. — Quem se referiria a Limeros como Mítica do Norte ?
Agora era Lorde Gillis que considerava Magnus com confusão.
— O que é Limeros?
Magnus balançou a cabeça, certo de que ele simplesmente foi mal interpretado por esse idiota.
— Abaixe essa arma, ou o rei terá a sua cabeça.
— Rei? Rei de quê? A deusa Valoria é a única no trono aqui no norte, e eu não sou nada senão um humilde criado de Seu Esplendor.
As sobrancelhas de Magnus se juntaram.
— Você disse que Valoria está no trono?
— Claro que sim. Onde mais estaria? — Lorde Gillis apertou a espada. — Melhor encontrar o seu caminho para alguém que possa ajudá-lo com essa sua memória defeituosa, garoto.
— Você está certo — ele respondeu, agora sem fôlego quando se lembrou das palavras da mulher estranha com a mão de falcão. Isso não estava certo – nada disso. E ele não tinha tempo nem paciência para decifrar este enigma. — Sim, eu preciso encontrar alguém. Existe uma cidade nas proximidades? Uma onde eu posso encontrar um... uma mulher com nome de... Samara... — ele se esforçou para lembrar o nome de sua família. — Samara... Balto?
— Claro que há uma cidade próxima. Que outro caminho o traria para o meu jardim, a menos que subisse as falésias como uma aranha-do-mar? Mas no que diz respeito a qualquer mulher específica, não posso ajudá-lo. Agora saia de sua própria vontade, ou vou enterrá-lo aqui.
Pondo de lado sua incerteza e confusão, Magnus pegou o manto e a adaga, depois se virou e se afastou do lorde, dos jardins e da villa de pedra. Quando chegou aos portões, viu que no vale abaixo, a um quilômetro e meio de distância, uma cidade se erguia do chão, onde antes havia nada além de uma extensão de gelo, neve e ruínas.
Ele começou a caminhar em direção a ela.


O que a bruxa fizera com ele?
Os símbolos brilhantes na estátua. O símbolo que ela cortou na mão dele. O caco negro de obsidiana que ela lhe dera e que agora ele escondia nas dobras de seu casaco.
Magia verdadeira. Magia como nunca ouvira falar, mesmo em lendas.
Ou isso ou ele estava total e completamente insano.
Ela lhe disse o que fazer, porém ele mal ouvira. Estava muito mais preocupado em se afastar dela. Agora a memória da voz da mulher ecoava alto em sua mente.
— Se você voltar aqui depois do pôr do sol, não haverá nada que eu possa fazer para salvá-lo.
Enquanto ele queria fazer exatamente o oposto, ignorar as palavras dela, ser desafiador e assumir que tudo não passava de um sonho desagradável, ele sabia que não tinha esse luxo. Era vívido demais, e a dor do ferimento em sua mão direita muito real, para descartar como apenas uma fantasia adormecida.
A deusa Valoria estava no trono.
E o homem se referia a este lugar não como Limeros, mas como Mítica do Norte.
A magia da bruxa me levou mil anos para o passado.
Seu estômago revirou com a possibilidade de que isso pudesse estar acontecendo, e a náusea cresceu dentro dele. Ele nunca tinha ouvido falar de magia assim, nem mesmo nos livros dos quais Lucia gostava tanto.
Claro, havia rumores de bruxas capazes de ferver a água com o poder da mente, ou aquelas que diziam persuadir o crescimento de ervas para fazer suas poções, mas isso?
Ele teve que parar de andar por alguns momentos, apoiando as mãos nas coxas, e esperou que as ondas de mal-estar passassem.
Negação não lhe faria bem algum. Ele preferiu ouvir, ao invés disso, seu intestino revirando, que lhe dizia que deveria fazer exatamente como a bruxa velha havia instruído se quisesse voltar para casa, para Lucia, e a vida como ele conhecia.
— Ah, aí está você! Eu o estive procurando por toda parte!
Magnus se virou com uma carranca e viu uma jovem bonita se aproximar rapidamente dele. Ela tinha cabelos loiros e olhos azuis escuros, e não devia ser muito mais velha do que ele. Ele tinha certeza de que ela falava com outra pessoa, mas então a menina segurou suas mãos entre as dela.
— O que...? — ele começou.
— Por favor — ela sussurrou por entre os dentes cerrados em um sorriso brilhante. — Por favor, me ajude. Eu imploro.
Interrompendo a confusão de Magnus, um jovem se aproximou, a expressão azeda e o olhar penetrante.
— Quem é esse, Bella? — ele perguntou.
— Este é o garoto de que lhe falei — disse ela. — O garoto com quem vou casar neste verão. Não é verdade, meu querido?
As sobrancelhas de Magnus subiram. Mas o olhar sofrido nos olhos da garota, contrariando seu tom pungente, impediu-o de negar imediatamente.
— Sim — disse ele, forçando um sorriso. — Claro que é verdade.
— Então perceba — Bella falou — você deve parar de me perseguir. Meu futuro marido não gostará disso. Gostará?
À sua pergunta, Magnus fez uma performance de franzir a testa e encarar o rapaz. Foi fácil fingir não gostar dele; ele considerava Bella como uma vaca premiada que escapou de seu quintal.
Bella poderia fornecer informações vitais sobre esta cidade. Só por essa razão, ele sabia que precisava jogar junto.
— Isso mesmo — Magnus disse categoricamente. — Bella agora pertence a mim. E se você for mais sábio do que aparenta, vai deixá-la em paz.
— Mas Bella.. .—  O garoto choramingou.
— Ou — Magnus continuou — talvez você queira lutar por ela? Eu sou o primeiro da minha classe em esgrima, no entanto, prometo deixá-lo com uma de suas mãos intacta. Talvez a esquerda?
O garoto moveu um olhar desafiador para ele, que Magnus devolveu, seus olhos firmes e sem piscar.
Sua alegação de esgrima era mentirosa, mas ele estava bem acostumado a usar intimidação entre seus pares, era capaz de encarar qualquer um deles até que se afastassem com a cauda entre as pernas como um cão covarde.
Esta habilidade particular não o deixou hoje.
— Tudo bem — o garoto finalmente falou, os ombros se curvando em derrota. — Eu não quero problemas.
— Então por que exatamente ainda está aqui? — Magnus rosnou. — Deixe a mim e minha futura noiva em paz.
Com um último olhar ferido, o menino virou-se e foi embora.
Magnus olhou para Bella.
— Muito bem — ela disse, sorrindo amplamente. — Ele era um incômodo. Recusou-se a me deixar em paz. Eu sabia que tinha que escolher o garoto mais bonito da cidade se quisesse terminar as coisas com ele.
O garoto mais bonito da cidade? Magnus não tinha tempo para elogios, nem mesmo aqueles vindo de belas moças.
— Fico feliz que pude ajudá-la com o seu joguinho — disse ele.
— Eu também. — Ela deslizou a mão na dele, seu olhar se movendo pelo rosto dele e viajando pelo comprimento de seu corpo. — E parece que fui eu quem venceu.
  — Você?
O sorriso dela se transformou em flerte.
— Agora, acredito, você precisa me pagar uma refeição para que possamos continuar esta conversa.
— Esse — Magnus levou a mão dela até sua boca e roçou os lábios ali — seria um prazer meu. Mas primeiro uma informação, se você não se importar. Eu a ajudei, agora talvez você possa me ajudar.
— Que tipo de informação?
Seu coração vibrou de esperança ao pensar que esse pesadelo poderia acabar logo.
— Estou procurando uma mulher; o nome dela é Samara Balto. É muito importante que eu a encontre o mais rápido possível.
Ele olhou preocupado para o sol alto no céu. Ainda faltavam horas antes do pôr do sol, mas ele não queria que essa confusão continuasse por mais tempo do que o necessário.
Belas moças ansiosas por sua companhia não seriam distração para ele hoje.
Bella franziu a testa, balançando a cabeça.
— Eu não conheço o nome.
— É possível que ela — ele baixou a voz, cautelosamente olhando para os outros civis que passavam perto por eles — seja uma bruxa.
Interesse cruzou seu rosto.
— É mesmo?
Sua reação já havia amortecido sua confiança.
— Mesmo.
— Eu não ouvi falar dessa mulher Samara, mas... — ela também baixou a voz, a mão no braço dele para atraí-lo para mais perto. — Eu ouvi rumores de que há um menino bruxo por perto.
Magnus franziu a testa.
— Bruxo?
Ela assentiu gravemente.
— Alguns dizem que é apenas uma lenda, mas eu acho que ele é real. Ele pode falar com espíritos.
Magnus normalmente descartaria isso como fantasia, mas agora ele estava pronto para considerar qualquer pista que pudesse ajudá-lo.
— Então que seja. Onde posso encontrá-lo?
Bella deu de ombros.
— Eu não sei.
Magnus suspirou enquanto tentava refrear sua frustração.
— Quem poderia saber?
— Talvez pudéssemos perguntar a alguém no Galo de Bronze enquanto fazemos a nossa refeição? É um ponto de encontro por aqui. — Ela passou o braço pelo dele, agora estudando o seu rosto como se tentasse encontrar algo digno de se ver. Uma carranca franziu sua testa. — Sua cicatriz... como você conseguiu tal coisa horrível?
Ele tocou a marca na bochecha direita que se estendia da orelha até o canto da boca. Não era algo da qual gostava de falar, especialmente para uma estranha que se referia a ela como horrível. Era feia o suficiente sem qualquer confirmação.
— Tem minha gratidão pela pouca informação que me deu, Bella. Boa sorte lutando contra seus pretendentes no futuro.
Magnus tirou o braço do dela e começou a se afastar, ignorando quando ela o chamou lá de trás.
Ela estava disposta a ajudá-lo, mas ele sentiu que poderia encontrar uma ajuda melhor em outro lugar. Além disso, ele não queria ser inspecionado da cabeça aos pés por alguém que acabara de conhecer.
— Um bruxo — ele disse a si mesmo. Era uma pista promissora, mas onde ele poderia encontrar alguém assim?
Alguém possuidor de magia não usaria exatamente um sinal em volta do pescoço, proclamando o fato. Segundo a história, Valoria tratava as bruxas da mesma forma que o pai de Magnus. Até mesmo a mera acusação poderia levar à prisão.
Ainda assim, a velha mandou-o procurar Samara Balto e Samara não era nome de homem.
Ele seguiu mais em frente na rua até encontrar o Galo de Bronze, um local de encontro aparentemente agitado. Entrou pela porta da frente e descobriu que o estabelecimento tinha muitas mesas cheias de homens e mulheres comendo frango assado, que eram uma visão e um cheiro familiares, mas os clientes também tinham seus pratos cheios de vegetais e frutas coloridas – um verdadeiro luxo para aqueles em Limeros, que conseguiam tais alimentos importados de outros reinos.
Sua boca encheu de água com o cheiro de limão, sua fruta favorita. Era azedo, mas misturado com mel em água quente, era absolutamente sua bebida favorita, e ele tomava sempre que um carregamento de comidas exóticas chegava às docas de Porto Negro.
Aqui, com a vegetação, o calor e o solo rico, os limerianos – ou mítica-nortenhos – realmente não sabiam quão sortudos eram.
É verão aqui, ele pensou, não inverno constante. E há uma deusa no trono do norte e do sul.
Enquanto ele queria negar a realidade disso com cada fibra em seu ser, ele continuou, tentando não deixar o cheiro tentador da comida distraí-lo.
Se falhasse, ficaria preso aqui sem família, sem futuro. A promessa de alguns limões não foi o suficiente para retardar seus passos.
Seu pai uma vez lhe disse que quando não sabia a resposta para uma pergunta, ainda deveria fingir saber para parecer melhor. Então, em sua primeira oportunidade, ele aprenderia o que não sabia para que nunca fosse descoberto como um mentiroso.
Em outras palavras, enquanto preso na antiga Mítica, ele deveria tentar o seu melhor para se encaixar.
Magnus colocou o que esperava que fosse um sorriso amigável em seu rosto e se aproximou da mesa mais perto. Os dois homens sentados lá olharam para ele quando ele se aproximou.
— Sentindo um pouco de frio, garoto? — perguntou o homem de cabelos claros, baixando o olhar para a capa forrada de pele que Magnus segurava. — Poderia praticamente fritar um ovo de ganso na estrada hoje.
— Minha mãe quer que eu mande consertar — Magnus disse através de seu sorriso cerrado. — Partirei em uma longa viagem para um clima mais frio em breve.
Sim, ele pensou. De volta a minha casa o mais rápido possível.
Ele esperava que o homem não lhe pedisse detalhes sobre seu destino. Seu conhecimento de geografia estava, no momento, amplamente desatualizado.
— Mães — disse o homem, assentindo. — Sempre com tarefas. — Ele apontou para seu amigo. — Este é Emil. E eu sou Kalum. Qual é o seu nome, jovem amigo?
  — É Magnus. — Ele teve que se impedir de incluir seu título real enquanto fixava seu sorriso apertado de volta no rosto. — Eu me pergunto se poderia incomodá-los por alguma informação. Estou procurando a costureira e parece que perdi todas as minhas instruções sobre como encontrá-la. O nome dela é Samara Balto.
Um momento de silêncio passou quando os dois homens o estudaram.
— Eu conheço Samara — Emil finalmente falou.
O coração de Magnus ficou mais leve. Talvez esse fosse um pesadelo mais fácil de resolver do que ele pensava.
— Diga-me onde posso encontrá-la — ele exigiu. Em seguida, acrescentou: — Por favor.
— Essa é uma boa capa — disse Kalum, com coragem suficiente para esticar o braço e acariciar a gola de pele. — Tem que valer algo, hein?
— Eu não sei sobre essas coisas — disse Magnus.
— O menino não sabe sobre essas coisas — ecoou o homem, piscando para o amigo. — Mas o menino teria dinheiro suficiente para pagar pela informação que procura?
— Dinheiro? — Magnus olhou para eles com confusão. — Você quer que eu te pague para me dizer algo que sabe?
— Essa é a ideia geral.
— Eu não farei tal coisa.
— Então eu acho que você não vai encontrar sua costureira. Foi realmente isso que lhe disseram que Samara é? — Emil bufou. — Você não irá longe com ela também sem dinheiro. E ouvi dizer que ela dá prioridade muito maior àqueles que enfeitam a palma da mão dela com ouro, em vez de prata.
— Não posso culpá-la — Kalum comentou secamente. — Não de fato.
Suborno, pensou Magnus. Quão incrivelmente comum deles.
Infelizmente, Magnus não tinha uma única moeda consigo. E se tivesse, essa moeda teria o rosto de seu pai estampado nela, não o da deusa.
— Mas espere — disse Emil, puxando a adaga obsidiana das dobras do manto de Magnus. — O que é essa coisa bonita despontando?
Magnus rapidamente estendeu a mão e a pegou de volta.
— Não é uma moeda.
— Claramente. Talvez este seja o seu pagamento para Samara. Ouvi dizer que ela gosta de todos os tipos de bugigangas brilhantes em troca de seus talentos particulares.
— Se não está disposto a me ajudar, pedirei a outra pessoa.
Magnus passou pela mesa, mas o homem de cabelos escuros colocou a perna para fora, e Magnus tropeçou, batendo no chão de madeira. Ele examinou os arredores e encontrou outros fregueses olhando para ele, e alguns comentaram que ele conseguiu encontrar alguma cerveja proibida para torná-lo tão desajeitado no meio do dia. Envergonhado e indignado, Magnus olhou na direção de Kalum e viu que ele segurava novamente a adaga obsidiana.
Magnus levantou-se e estendeu a mão.
— Devolva isso.
— Consiga moedas suficientes, garoto, e posso considerar negociar. — Ele colocou a lâmina sobre a mesa. — E seja rápido, ou ficarei feliz em levar isso para a adorável Samara.
Magnus lutou contra o desejo de pular no homem – agarrar seu pescoço e apertar – mas não adiantava. Ele não tinha uma arma e não tinha ideia de como fazer dois homens adultos obedecerem a seu comando quando estes não tinham ideia de quem ele realmente era.
Aqui em Mítica do Norte, o nome Príncipe Magnus Lukas Damora não significava nada.
E ele já estava ficando sem tempo.
Com o coração acelerado, ele saiu da taverna e começou a procurar nas ruas, pronto para pedir, emprestar ou roubar o que fosse necessário para obter informações sobre Samara e fazer com que a lâmina voltasse para ele.
Sua palma doía, mas ele cerrou o punho, suas unhas curtas apertando a ferida enfaixada. A dor lembrou-o da bruxa que causou essa bagunça. Ele precisava se concentrar.
A porta de uma estalagem se abriu e duas figuras surgiram, parando por tempo suficiente para a mulher na entrada entregar uma bolsa grossa que fez o som inconfundível de moedas tilintando enquanto a mais alta das duas figuras encapuzadas a pegava.
Magnus chegou perto o suficiente para que pudesse ouvi-las, mas não ser visto.
  — Seu pagamento — disse ela. — Agradeço muito por sua ajuda, Livius. Este é um preço tão pequeno a pagar pela assistência do seu filho hoje. Minha família dormirá bem esta noite pela primeira vez em meses.
— É nosso dever, minha senhora, ajudar aqueles que precisam das habilidades especiais do meu filho. Eu confio que o segredo dele estará seguro com você.
— É claro.
Livius se curvou diante dela.
— Então vamos nos despedir.
Livius e seu filho saíram da estalagem e seguiram pela estrada.
Magnus os seguiu, seu olhar fixo firmemente no saco de moedas.
— Gostaria de compartilhar por que hesitou hoje? — Livius perguntou, seu tom menos amigável agora.
— Eu não hesitei.
— Nós estivemos lá desde o amanhecer.
— Às vezes não é assim tão fácil para mim.
— Então você deve fazer parecer fácil — Livius rosnou. — Quase perdemos o interesse dela, sem mencionar o nosso pagamento.
O menino suspirou.
— Mas não perdemos, perdemos?
— Você está me desrespeitando de novo? — Livius agarrou o menino pela nuca e o dirigiu à força para um beco.
— Desculpe! Estou simplesmente cansado.
Magnus ouviu o som tão familiar de uma mão estapeando a bochecha antes de virar a esquina para ver o filho do homem cambalear com o golpe.
Indignado com a visão, Magnus cerrou os punhos com tanta força que suas unhas curtas se cravaram dolorosamente nas palmas das mãos.
Foco, ele lembrou a si mesmo. Concentre-se apenas no dinheiro. Você não se importa com mais nada.
Mas quando o homem levantou a mão para golpear seu filho novamente, Magnus não conseguiu ficar parado. Em alguns passos ele fechou a distância entre eles e empurrou o homem para trás.
Livius virou um olhar furioso para Magnus.
— Quem você pensa que é?
— Ninguém — respondeu ele, lançando um rápido olhar para o menino, mais jovem do que ele por um ano ou dois, a mão no rosto pálido, dor em seus olhos escuros. Então ele se virou para o homem, olhando de nariz empinado para o bárbaro. — Isso o faz sentir-se poderoso, bater em seu filho pelo crime de ele falar o que pensa?
— Ele não é meu pai — disse o garoto.
— Isso mesmo — disse Livius. — Eu sou o guardião de um idiota que tenta me responder diariamente. E vou repreendê-lo como achar melhor.
— Você precisa dele para ajudá-lo a ganhar a vida, não é? — Magnus acenou com a cabeça para o pequeno saco de lona que o homem ainda segurava por seus cordões. — Parece uma maneira ruim de tratar alguém da qual você precisa.
Livius estreitou os olhos, sem responder, enquanto Magnus se agachava para inspecionar o chão, pegando um punhado de terra e pequenas pedras.
— Sugiro que você siga em frente — disse Livius, sua voz baixa e perigosa — antes de eu perder minha paciência completamente. Você não quer ver isso.
— Não, eu não quero.
Magnus jogou o punhado de terra diretamente nos olhos de Livius. O homem uivou de dor, as mãos voando para o rosto.
Magnus pegou o saco de moedas um segundo depois que eles caíram no chão, sentindo o peso satisfatório em sua mão.
O garoto o olhou como se ele tivesse acabado de criar outra cabeça.
— Maddox! — Gritou Livius. — Pare-o!
Magnus se virou e correu para fora do beco.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!