26 de janeiro de 2019

Capítulo 1


Meira

CINCO INIMIGOS.
Cinco capacetes amassados repousam, tortos, sobre cinco armaduras peitorais igualmente amassadas; cinco sóis negros brilham, arranhados, mas discerníveis, no metal prateado. Mais soldados do que eu conseguiria enfrentar sozinha, mas, de pé no centro do ringue deles, com as botas enterradas na neve, ergo uma sobrancelha para o mais próximo, e a calmaria que precede uma luta recai sobre mim.
Meu chakram já está em minha mão, mas parte de mim não quer atirá-lo ainda, aproveitando a sensação do cabo liso na palma. Dendera achou que foi tão inteligente ao esconder o chakram onde o escondeu — mas, sinceramente, entregá-lo aos soldados cordellianos foi quase fácil demais. Onde mais eu procuraria uma arma se não na tenda de armas?
— Atire! — diz um gritinho esganiçado.
— Shh, ela vai ouvir você!
Uma enxurrada de pedidos por silêncio se segue quando viro a cabeça na direção da fileira de pedras do lado de fora do meu ringue de inimigos de mentirinha. Um aglomerado de pequenas cabeças se abaixa atrás da maior das rochas.
— Ela nos viu!
— Você está pisando no meu pé!
— Cale a boca!
Um sorriso surge em meus lábios. Quando encaro o mais próximo dos soldados de novo, o monte de neve dentro do capacete amassado e da armadura peitoral diminui um pouco, deslocado pela mesma lufada gélida que balança minha saia. A ilusão está falhando.
Não estou usando equipamento de batalha — uso um vestido plissado sem mangas de tecido marfim, meu cabelo está penteado em tranças elaboradas. Meus “inimigos” são pilhas de neve que eu amontoei apressadamente com os pés e vesti com as armaduras descartadas de Primavera que poluem meu reino. Meu público não é um exército, mas um grupo de crianças invernianas curiosas que me seguiram para fora da cidade. O chakram é real, no entanto, e o modo como meu corpo reage a ele torna tudo aquilo quase crível.
Sou uma soldada. Os homens de Angra me cercam. E vou matar cada um deles.
Meus joelhos se flexionam, o quadril gira, os ombros se viram e os músculos ficam tensos. Inspiro, expiro, viro, solto — busco os movimentos na memória, tão intrínsecos a meu corpo quanto o ato de caminhar, apesar de fazer três meses desde que atirei o chakram pela última vez.
A lâmina se liberta da palma de minha mão com um chiado que corta o ar frio. Ela rodopia até o inimigo mais próximo, ricocheteia em uma rocha e atinge o soldado seguinte, então volta para minha mão com um ruído melódico.
Cada nervo tenso relaxa e solto um suspiro longo, profundo, puro. Pela neve nos céus, isso é bom.
Deixo que o chakram voe de novo e de novo, derrubando os soldados restantes. Vivas irrompem atrás de mim, vozes finas rindo conforme flocos de neve repousam sobre os corpos caídos de minhas vítimas. Permaneço na posição em que segurei o chakram por último, com o quadril flexionado e o chakram firme na mão, mas a ilusão está completamente destruída agora — da melhor forma.
Um sorriso curva meus lábios. Não consigo me lembrar da última vez em que alguém riu em Inverno. Os últimos três meses deveriam ter sido cheios de muita alegria, mas os únicos sons que ouvi foram as pancadas nas construções, planos murmurados para plantações e minas, aplausos baixinhos em eventos públicos.
— Posso atirar? — pede uma das garotas, e a súplica dela encoraja o restante a exigir o mesmo.
— Melhor começar com algo menos afiado. — Sorrio e me abaixo para recolher neve em uma pequena bola que deixo deslizar pelos dedos. — E menos mortal.
A garota que primeiro pediu para atirar meu chakram entende antes das demais. Ela se ajoelha e amontoa neve em uma bola, então atira em um garoto atrás dela.
— Te peguei! — grita a menina, e dispara, atravessando o campo em busca de um esconderijo.
O restante das crianças irrompe em um frenesi, transformando neve em projéteis e atirando umas nas outras conforme correm pelos campos adiante.
— Você morreu! Acertei você! — exclama um menino.
Deixo escapulir um sorriso.
Não precisamos mais lutar. Elas jamais precisarão atirar mais do que bolas de neve, digo a mim mesma.
— Isso não é um pouco... mórbido?
Eu me viro, firmando os dedos em volta do chakram. Mas nem mesmo consigo erguer a lâmina antes de ver quem está entrando na pequena clareira criada pelas encostas das montanhas Klaryn, de um lado, e pelos campos ondulantes de neve do outro.
Theron inclina a cabeça, parte dos cabelos dele balança atrás das orelhas em uma cortina castanho-clara. Uma pergunta permanece naquele olhar, as linhas em volta dos olhos de Theron mostrando preocupação.
— Mórbido? — Consigo dar um meio sorriso. — Ou catártico?
— A maioria das coisas catárticas é mórbida — corrige ele. — A cura pela melancolia.
Reviro os olhos.
— Só você para encontrar algo poético a respeito de cortar as cabeças de bonecos de neve.
Theron gargalha e o ar fica um pouco mais frio, um arrepio delicioso que se dissipa em meu coração. As cores de Theron contrastam contra o fundo eternamente marfim de Inverno — os músculos esguios do corpo dele são delineados pelo uniforme verde e dourado de Cordell, o material é mais espesso para dar conta do frio de Inverno e do fato de que o sangue cordelliano de Theron não o protege do clima de meu reino.
Theron indica o caminho por onde chegou, na direção da cidade de Gaos. Se as montanhas Klaryn fossem um mar, Gaos seria o maior porto de Inverno — a maior cidade com acesso à maioria das minas.
É o lugar no qual passei tempo demais durante os últimos três meses.
— Estamos prontos para abrir a mina Tadil — diz ele, tremendo com o que poderia ser um arrepio de frio ou um calafrio de ansiedade.
— Acabamos de abrir uma mina ontem. E duas na semana passada — replico.
Odeio como minha voz se altera. Theron não deveria ser o destinatário de minha raiva.
O maxilar dele se retesa.
— Eu sei.
— Seu pai vem a Jannuari para a cerimônia no fim da semana, não vem?
Theron entende o que quero dizer.
— A realeza outoniana também estará aqui. Você não deveria confrontar meu pai com ela presente.
— Cordell está tão envolvida com Outono quanto com Inverno. O rei deles provavelmente quer forçar Noam a sair tanto quanto eu.
Theron se encolhe, e percebo, tarde demais, como minhas palavras são ásperas. Noam ainda é o pai de Theron, e rei dele, e não importa o quanto meu peito se aperte quando Noam promulga uma nova ordem... Precisamos de Cordell. Sem a ajuda de Noam, não teríamos exército — e o físico dos invernianos acaba de passar de esquelético para saudável, e, assim, apenas recentemente se tornaram aptos a treinar. Sem Cordell, não teríamos mantimentos, pois Inverno não tem comércio restabelecido, e as plantações que conseguimos cultivar em nosso reino congelado — graças à minha magia — ainda estão recém-semeadas e levarão meses para brotar, mesmo com a força a mais do condutor de Inverno.
Então, não tenho escolha a não ser obedecer às exigências de Noam, porque devemos tanto a ele que às vezes não acredito que também não estou usando as cores de Cordell.
— Tudo bem — consinto. — Vou abrir essa mina. Levarei a Noam e a Outono o pagamento devido pela parte deles na salvação de inverno, mas assim que a cerimônia terminar...
O que planejo fazer depois da cerimônia? Porque não passa disso, uma cerimônia — uma apresentação bonitinha para agradecer a Outono e Cordell pela ajuda na libertação de Inverno da tirania de Primavera. Pagaremos com os bens que mineramos, mas não será sequer uma fração do que devemos. Depois da cerimônia, estaremos na mesma situação que estamos no momento: nas mãos de Cordell.
Por isso passei tanto dos últimos três meses tentando convencer Dendera de que rainhas podem carregar armas. Por isso encontrei meu chakram e encenei esse momento de normalidade — porque mesmo tendo Inverno de volta, sinto exatamente o mesmo que sentia quando Primavera era dona de nosso reino. Escravizada, à mercê de outrem, embora com uma ameaça menos imediata, e esse é o único motivo pelo qual tolerei Noam por tanto tempo. Meu povo não vê a presença de Cordell como opressora: eles veem ajuda.
Theron estende a mão para mim, mas ainda estou segurando o chakram, então ele se contenta com apenas uma de minhas mãos, me afastando das preocupações. Theron não é apenas um representante de Cordell; não é apenas filho do pai dele. É também um menino que me olha com desejo; o mesmo olhar que me lançou nos corredores escuros do palácio de Angra antes de me beijar — um olhar que senti dezenas de vezes nos últimos três meses.
Perco o fôlego. Theron não me beija no momento, no entanto, e não consigo decidir se quero que me beije — e, se quero, é porque quero conforto, distração ou ele mesmo.
— Desculpe — diz ele, baixinho. — Mas precisamos continuar tentando, e o trabalho é bom para Inverno. Na verdade, seu reino também vai se beneficiar desses recursos. Odeio que ele esteja certo, mas precisamos...
— Noam não precisa de Inverno — interrompo. — Ele quer Inverno, quer acesso ao abismo de magia. Por que diria que ele está certo? — Hesito. — Concorda com ele?
Theron se aproxima, uma nuvem de lavanda do seu sabonete cheiroso emana do corpo dele. O príncipe leva as mãos para os meus braços, as mangas do casaco dele sobem, revelando os pulsos e as cicatrizes rosadas e irregulares. Culpa deixa um sabor acre em minha boca.
Theron conseguiu aquelas cicatrizes tentando me resgatar.
Ele acompanha meu olhar até os pulsos expostos. Então se afasta, puxando as mangas.
Engulo em seco. Deveria dizer algo a respeito daquilo: das cicatrizes dele, da reação. Mas Theron sempre muda de assunto antes que eu...
— Não acho que ele esteja totalmente certo — gagueja Theron, desviando a conversa de volta para o curso, embora eu não deixe de perceber como ele mantém uma das mãos na manga, apertando o tecido no punho. — Não na forma como está agindo em relação a isso, pelo menos. Inverno precisa de apoio, o que Cordell pode dar. E se encontrarmos o abismo de magia, todos estaremos em um lugar melhor.
O olhar de Theron se detém no meu e, sem palavras, ele suplica para que eu prossiga como se estivesse normal.
Concedo. Por enquanto.
— E como Noam deveria ser recompensado pela ajuda dele?
Mas assim que faço a pergunta, sei a resposta, e meu corpo se incendeia com uma onda de desejo que me faz oscilar na direção de Theron.
Ele se inclina para a frente.
— Quero que meu pai restabeleça nosso noivado. — As palavras não saem mais altas do que os flocos de neve que caem ao nosso redor. — Se nossos reinos forem unidos, não seria um dominando o outro, um em dívida com o outro. Seríamos um só, poderosos. — Theron para, exalando uma nuvem de condensação. — Protegidos.
Um formigamento gelado dispara por meu corpo, em conflito com a parte de mim que sabe que Theron e eu não somos destinados para o que um dia fomos. Noam dissolveu nosso noivado porque viu a dívida de Inverno com Cordell como um elo suficiente entre nossos dois reinos — e talvez por ter se sentido traído por Sir, que arranjou um casamento entre o filho dele, o herdeiro de um reino Ritmo, e uma garota que deveria ter sido uma aldeã inverniana, não uma rainha por direito.
Noam quer nossas minas; ele quer acesso ao abismo perdido de magia. Sabe que os terá, graças a nossa dependência dele. Assim, pode tratar Inverno como a coisa inferior e destruída que somos — não um igual político. E, sinceramente, estou um pouco aliviada por não precisar me preocupar com estar casada agora.
Mas Theron deixou bem claro, muitas vezes, que não está feliz com a decisão de Noam.
Como se para confirmar meus pensamentos, as feições dele mudam, e Theron se vira para mim.
— Sempre lutarei por você. Sempre a manterei segura — acrescenta ele.
A forma como Theron fala é uma promessa, uma declaração e uma súplica, tudo de uma vez. As palavras alimentam tremores que descem até os punhos dele, ressaltando os medos que Theron não ousa sussurrar.
Protegida. Manter você segura.
Ele também tem medo de nossos passados. Tem medo de que tudo aconteça de novo, pesadelos repetidos.
— Não precisa me manter segura — sussurro.
— Mas eu posso. Eu vou.
A declaração de Theron é tão séria que a sinto como um corte em minha carne.
Mas não quero precisar dele — ou de seu pai, ou de Cordell. Não quero que meu reino precise de ninguém. Na maior parte dos dias, não quero sequer que precise de mim. Toco o medalhão, a joia vazia que serve como símbolo da magia de Inverno para todos. Acreditam que depois que as metades foram reunidas, o medalhão recuperou o status de uma das oito fontes de magia neste mundo: os Condutores Reais. Acham que qualquer magia que usei antes — curar Sir e o menino no campo de Abril, enviar força para os invernianos escravizados — foi um acidente, um milagre, porque todos os outros Condutores Reais são objetos como uma adaga, um anel, um escudo. Jamais ocorreu a eles, ou a mim, antes disso, que a magia pudesse encontrar como hospedeiro uma pessoa.
Não fazem ideia de onde a verdadeira magia está. E, sinceramente, Cordell é a menor de minhas preocupações, pois há outra coisa dentro de mim, algo que pode ser muito mais perigosa.
Levo a mão livre ao peito de Theron. Sozinhos ali, com a neve caindo, o vento frio rodopiando e a sensação da pulsação dele latejando sob meus dedos, permito que tenhamos esse momento. A despeito do que somos agora, momentos como esse, quando podemos esquecer a política, os títulos e nosso passado, evitam que desabemos sob o estresse de nossas vidas.
Encosto o corpo ao de Theron e me ergo, tocando os lábios dele com os meus.
Theron geme e me abraça, curvando o corpo para acompanhar o arco do meu, devolvendo meu beijo com uma paixão que me desmancha.
Theron passa a mão pela minha têmpora, até minha orelha, e desce para minha bochecha; os dedos dele afastam os fios de cabelo que se soltam dos grampos. Inclino a cabeça para o lado para encostar na palma da mão dele, meus dedos envolvem o pulso de Theron.
As cicatrizes dele parecem calosas e deformadas ao toque. Meu coração, já batendo desenfreadamente pelo modo como os lábios de Theron são firmes apesar do toque suave, e pela pontada de desejo em meu estômago quando ele geme daquela forma, perde o controle.
Eu me afasto devagar, nossas respirações se condensam.
— Theron, o que aconteceu com você em Abril?
As palavras mal saem, mas finalmente estão ali, dançando em meio aos flocos de neve. Theron hesita, sem me ouvir por um segundo. Então se encolhe, o rosto lívido com um horror que ele suaviza até se tornar confusão.
— Você estava lá...
— Não... Quero dizer... Antes. — Ele respira fundo. — Você estava em Abril antes que eu soubesse que estava lá. E... pode me contar. Se algum dia precisar. Quero dizer, eu sei que é difícil, mas eu... — Emito um gemido, abaixando a cabeça entre nós. — Não sou boa nisso.
Apesar de tudo, Theron ri.
— Boa em quê?
Olho de volta para Theron e começo a rir antes de perceber como ele ignorou tudo o que eu disse.
— Boa em... nós dois.
Os lábios de Theron se abrem em um sorriso que serve apenas para me lembrar de tudo que ele encobre.
— Você é melhor em “nós dois” do que pensa — sussurra ele, libertando a mão de meu toque para terminar de descer os dedos por meu rosto, pelo pescoço, até segurar meu ombro com a mão em concha.
Dou um sorriso fraco e sacudo a cabeça.
— Os mineiros. Eu deveria ir até eles.
Theron assente.
— Sim — concorda. Um rompante de esperança ilumina o rosto de Theron. — Talvez essa seja a mina.
Improvável, quase digo. Começamos a escavar mais da metade das minas de Inverno, e nenhuma delas revelou qualquer coisa além dos recursos habituais. O fato de Noam acreditar que encontraremos o local no qual se originaram os Condutores Reais me enfurece. O abismo de magia está perdido sob os reinos Estação há séculos, e só porque um reino Ritmo é agora aquele que o procura, Noam espera desenterrá-lo?
Essas são as minas de Inverno, e ele está forçando meu povo a usar o pouco de força que tem para escavá-las. Passaram 16 anos nos campos de trabalhos forçados de Angra; deveriam estar se recuperando, não caçando poder para um homem que já tem demais.
Meu ódio irrompe de novo e me viro, deixando para trás as carcaças dos inimigos de mentira.
Theron caminha ao meu lado em silêncio e, conforme desviamos de algumas rochas, Gaos surge à nossa frente como se as montanhas Klaryn a estivessem escondendo até meu retorno. É muito parecido com como Jannuari estava quando chegamos lá, mas pelo menos partes do lugar foram consertadas desde então. Tão poucas pessoas optaram por repovoar Gaos que só conseguimos consertar as áreas mais próximas das minas, o que deixou a maior parte da cidade em ruínas. Chalés destruídos pela falta de uso ladeiam as ruas; escombros entulham os becos em pilhas feitas apressadamente.
Neve cobre tudo, escondendo parte da destruição sob puro marfim.
Hesito por um instante quando Gaos surge à vista, mas é o bastante para fazer Theron envolver minha cintura, puxando meu corpo para o dele.
— Vai melhorar com o tempo — assegura Theron.
Ergo o olhar para ele, ainda agarrando desesperadamente o chakram. A mão de Theron repousa em meu quadril, quente no frio eterno de Inverno.
— Obrigada.
Theron sorri, mas antes que possa responder, outra voz o interrompe.
— Minha rainha!
O som de neve estalando sob os seus pés segue o chamado de Nessa, o qual é imediatamente seguido pelos berros sobressaltados de seu irmão. Quando me viro para olhar para ela, Nessa está na metade do caminho de neve entre mim e Gaos, o vestido oscilando ao redor das pernas.
Ela para subitamente, ofegante entre sorrisos. Meses de liberdade finalmente começam a surtir efeito — os braços e o rosto dela estão rechonchudos, de forma saudável, e há um leve brilho nas bochechas.
— Estamos procurando você por toda parte! Está pronta?
A expressão de meu rosto se torna algo entre uma careta e um sorriso.
— Dendera está muito irritada?
Nessa dá de ombros.
— Vai se acalmar depois que a mina for aberta. — Ela faz uma reverência desconfortável para Theron e segura minha mão. — Posso roubá-la, príncipe Theron?
Ele roça o polegar em meu quadril com um movimento que lança um calafrio por minha pele.
— É claro...
Mas Nessa já está me puxando pela neve.
Conall e Garrigan nos encontram na primeira rua da cidade; Conall com uma expressão de raiva, Garrigan com um sorriso interessado.
— Deveria ter nos levado junto — repreende Conall. Repentinamente se dá conta de quem está repreendendo e pigarreia. — Minha rainha.
— Ela é perfeitamente capaz de se cuidar. — Garrigan me defende. Mas diante da expressão de raiva de Conall, ele tenta esconder o sorrisinho por trás de uma tosse bem violenta.
— Essa não é a questão. — Conall se volta para mim. — Henn não tem nos treinado sem um motivo.
Quase repito as palavras de Garrigan, quase ergo o chakram para dar ênfase. Mas as rugas de exaustão em volta dos olhos de Conall me fazem guardar o chakram às costas.
— Desculpe-me por ter preocupado você — digo. — Não tive a intenção...
— Onde esteve?
Um gritinho trêmulo fica preso em minha garganta conforme Dendera sobe a rua em disparada.
— Deixo você sozinha por um minuto e você some como... — Ela para subitamente.
Tento esconder ainda mais o chakram às costas, mas é tarde demais.
O olhar que Dendera me lança não é de fúria, como eu esperava. É de cansaço, exaustão, e conforme ela se aproxima, os quarenta e tantos anos parecem pesar ainda mais no rosto.
— Meira — censura Dendera.
Não ouço Dendera, Nessa, ou mais ninguém me chamar assim, à exceção de Theron, há... meses. É sempre “minha rainha” ou “minha senhora”. Ouvir meu nome é como uma lufada de ar frio em uma sala abafada, e me delicio com isso.
— Eu disse a você — fala Dendera, ao tirar o chakram de minha mão e entregar a Garrigan. — Não precisa mais disso. É rainha. Você nos protege de outras formas.
— Eu sei. — Mantenho o maxilar tenso, a voz contida. — Mas por que não posso ser os dois?
Dendera suspira, o mesmo suspiro triste e de pena que ela me deu muitas e muitas vezes nos últimos três meses.
— A guerra acabou — diz Dendera, não pela primeira vez, e provavelmente não pela última. — Nosso povo viveu por tempo demais em guerra, precisam de uma governante mais serena, não de uma rainha guerreira.
Faz sentido em minha cabeça. Mas não faz sentido em meu coração.
— Está certa, duquesa — minto. Se insistir demais, verei a mesma expressão que vi no rosto dela centenas de vezes enquanto crescia, o medo de fracassar. Exatamente como com Theron e suas cicatrizes, e com Nessa também, se eu a vir quando acha que ninguém está observando, seus olhos ficam vazios, vítreos. E quando o sono traz pesadelos, ela chora tanto que meu coração dói.
Contanto que ninguém mencione o passado ou nada ruim, estamos bem.
— Venha. — Dendera bate as palmas uma vez, de volta aos afazeres. — Já estamos bem atrasadas.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!