21 de janeiro de 2019

Capítulo 1


— BLOQUEIA!
— Onde?
— Não posso dizer onde, você deveria acompanhar meus movimentos!
— Bem, então pega leve.
Mather revira os olhos.
— Não pode mandar um soldado inimigo pegar leve.
Rio diante da exasperação dele, mas meu sorriso tem vida curta, pois a lâmina cega da espada de treino de Mather me acerta logo abaixo dos joelhos. Desabo no campo empoeirado com as costas estalando ao baterem no chão, a espada voa das minhas mãos e desaparece no gramado alto próximo.
Combate corpo a corpo sempre foi meu ponto fraco. Culpo o Sir e o fato de que ele não começou a me treinar até que eu estivesse com quase 11 anos; algumas sessões adicionais com uma espada poderiam ter me ajudado a conter mais de três golpes de Mather agora. Ou talvez treino algum no mundo pudesse mudar o quão desajeitada uma espada parece em minhas mãos e o quanto eu adoro lançar minha lâmina circular giratória mortal — meu chakram. Prever os movimentos à queima-roupa de um adversário enquanto uma lâmina atrapalha minha visão jamais foi meu forte.
Os raios do sol tocam minha pele enquanto olho para o céu azul, encolhendo-me de dor devido a uma pedra afiada sob minhas costas. É a quarta vez nos últimos vinte minutos que acabo no chão, observando tufos de grama da pradaria dançando em volta de minha cabeça. Estou sem fôlego e o suor forma gotas em meu rosto, então permaneço de costas, aproveitando esse momento de paz.
Mather inclina o corpo e adentra meu campo visual, de ponta-cabeça, e espero que ele atribua ao cansaço a vermelhidão repentina em minhas bochechas. Não importa quantas vezes me jogue no chão, Mather está sempre bonito. Ele tem o tipo de beleza que dói fisicamente, me faz sair aos tropeços em busca de algum lugar para me apoiar quando sou pega desprevenida. Algumas mechas dos cabelos brancos de inverniano dele oscilam na altura da bochecha, o restante, na altura dos ombros, está preso com barbante. A proteção peitoral de couro justa ao seu tronco ressalta o fato de que Mather passou a maior parte da vida usando esses músculos em treino de combate e os braços dele são esguios e estão expostos, exceto pelas braçadeiras. Sardas salpicam todo o rosto pálido de Mather, o pescoço, os braços, um testemunho do sol ofuscante das planícies Rania.
— Ganhar seis em 11 tentativas? — O tom esperançoso na voz de Mather, como se ele realmente acreditasse que tenho a chance de derrotá-lo, me faz erguer uma sobrancelha.
Resmungo.
— Só se as próximas seis tentativas puderem ser a longa distância.
Mather ri.
— Recebi ordens rigorosas para fazer com que você vença pelo menos uma luta de espadas até o retorno de William e o restante.
Estreito os olhos e tento engolir o ímpeto que percorre meu corpo. Sir partiu com Greer, Henn e Dendera em uma missão até a Primavera, enquanto o restante de nós ficou para trás: Mather, o futuro rei (que pode partir nas missões mais perigosas porque foi treinado desde o nascimento na arte da luta); Alysson, mulher de Sir (que jamais mostrou a menor habilidade para luta); Finn, outro soldado em boa forma (regra de Sir: Mather sempre precisa ter um lutador apto para defendê-lo); e eu, a garota órfã, eternamente em treinamento (que, apesar de seis anos de treino de luta, ainda “não é boa o bastante” para que se confie nela em missões importantes).
Sim, precisei usar algumas de minhas habilidades em missões de busca por comida, para combater um ou outro soldado ou cidadão insatisfeito de um dos quatro reinos Ritmo. Mas quando Sir organiza missões para Primavera, missões nas quais beneficiaremos diretamente Inverno, em vez de simplesmente trazer de volta suprimentos para os refugiados, ele sempre tem uma desculpa para que eu não possa ir: o reino da Primavera é perigoso demais; a missão é importante demais; não posso arriscá-la com uma adolescente.
Mather deve reconhecer a forma como eu mordo o lábio ou o modo como minha concentração divaga, pois ele exala um suspiro forçado.
— Você está melhorando, Meira, de verdade. William só quer se certificar de que você pode lutar tanto em combate corpo a corpo quanto a distância, como todo mundo. É compreensível.
Eu olho para Mather, com raiva.
— Sou horrível em combate corpo a corpo, simplesmente não tenho o nível de habilidade de vocês. Minta para Sir; diga a ele que eu finalmente derrotei você. É nosso futuro rei, ele confia em você!
Mather faz que não com a cabeça.
— Desculpe, só posso usar meus poderes para o bem.
A expressão do rosto dele se contrai e levo um segundo para perceber a mentira acidental no que Mather falou. Ele não tem poder algum, não de verdade, não como magia, e essa falha tem sido uma dificuldade por toda a nossa vida.
Eu me sento, arrancando folhas de grama para enrolar entre os dedos, apenas para ter algo que fazer devido à tensão repentina.
— Para que você usaria magia? — pergunto. Minhas palavras soam tão fracas que quase se dissipam.
— Quer dizer... além de mentir para Sir por você? — O tom de voz de Mather é tranquilo, mas quando fico de pé e me volto para ele, meu peito dói diante da tensão em suas feições.
— Não — começo a responder. — Se Inverno tivesse um condutor completo de novo, um condutor que não fosse de sangue feminino, que qualquer monarca, rei ou rainha, pudesse canalizar, para que você usaria o poder?
A pergunta sai aos tropeços de minha boca, como uma pedra lisa em um córrego, gasta de tanto que a revirei na mente. Jamais falamos sobre o condutor do Inverno, o medalhão que o Rei Angra Manu da Primavera quebrou, há 16 anos, quando destruiu nosso reino, a não ser que esteja relacionado a uma missão. É sempre: “Soubemos que uma das metades do medalhão estará no lugar tal na hora tal”; nunca “Mesmo se conseguirmos restaurar nosso condutor de sangue feminino, como saber se a magia funcionará quando nosso único herdeiro é do sexo masculino?”.
Mather se mexe, desconfortável, batendo com a espada na grama como se travasse uma guerra particular contra a pradaria.
— Não importa o que eu faria com ele, não há garantias que eu o poderia usar.
— É claro que importa. — Franzo a testa. — Ter boas intenções...
Mas Mather me lança um olhar irritado antes que eu sequer possa terminar.
— Não, não importa — replica ele. Quanto mais Mather fala, mais rápidas as palavras saem, jorrando de dentro dele de um modo que me faz pensar que Mather também precisa conversar sobre isso. — Não importa o que eu queira fazer, não importa o quão bem eu lidere ou o quanto eu treine, não conseguirei forçar a vida a surgir em campos congelados, ou curar pragas, ou dar força a soldados como eu faria caso pudesse usar o condutor. Os invernianos provavelmente prefeririam ter uma rainha cruel a um rei com boas intenções, porque com uma rainha eles ao menos teriam a chance de ter a magia ser usada a seu favor. Não importa o que eu faria com a magia, porque os líderes são valorizados pelas coisas erradas.
Mather respira fundo, as feições do rosto ficam contraídas enquanto ele ouve tudo o que disse, todas as preocupações e fraquezas expostas. Mordo o interior da bochecha, tentando não encarar o modo como Mather encolhe o corpo e golpeia a grama de novo.
Eu não deveria ter insistido, mas algo bem no fundo de mim sempre pulsa com a ânsia de falar mais, de aprender o máximo possível sobre um reino que jamais sequer vi.
— Desculpe — sussurro, e massageio o pescoço. — Mencionar um assunto sensível enquanto você está armado não foi inteligente de minha parte.
Mather dá de ombros, mas ele não parece seguro.
— De forma alguma! Nós deveríamos conversar sobre isso.
— Diga aos outros então — resmungo. — Eles simplesmente saem correndo em missões, voltam ensanguentados e dizem: “Pegaremos da próxima vez, e então conseguiremos a outra metade e, depois, reuniremos aliados e derrubaremos Primavera e salvaremos todos.” Como se fosse tudo muito fácil. Se é tão fácil, por que não conversamos mais a respeito?
— Dói demais — responde Mather. Simples assim.
Isso me faz parar. Eu o encaro com um olhar longo e cauteloso.
— Algum dia não doerá.
A promessa que nós refugiados sempre fazemos uns aos outros, antes de sairmos em missões, sempre que as pessoas voltam sangrando e feridas, sempre que as coisas dão errado e nos recolhemos, aterrorizados. Nós ficaremos bem... algum dia.
Mather embainha a espada e para, com a mão no cabo, antes de dar dois passos na minha direção e pôr a mão em concha sobre meu ombro. Quando me sobressalto, erguendo o olhar para o dele, Mather percebe o que está fazendo e recolhe a mão.
— Algum dia — concorda ele, com a voz falhando. O modo como Mather fecha e abre a mão que me tocou faz meu estômago se revirar em uma espiral de agitação. — Por enquanto, só precisamos nos preocupar em conseguir o medalhão de volta para ganharmos status de reino de novo e conseguirmos aliados para combater Primavera. Ah, e precisamos nos certificar de que você é capaz de fazer mais do que ficar deitada durante uma luta com espadas.
Dou uma risada debochada.
— Hilariante, Vossa Alteza.
Mather se encolhe e sei que é devido ao título que usei. O título que preciso usar. Aquelas duas palavras, Vossa Alteza, são o limite que nos mantém afastados a uma distância adequada — eu, uma soldada órfã em treinamento, e ele, nosso futuro rei. Não importam as circunstâncias difíceis, não importa que tenhamos sido criados juntos, não importa o calafrio que o sorriso de Mather lance por meu corpo, ainda é ele e ainda sou eu, e sim, ele precisa ter uma herdeira do sexo feminino algum dia, mas com uma dama adequada, uma duquesa ou princesa — não com a garota com quem treina luta.
Mather saca a espada de novo enquanto busco minha lâmina largada na pradaria, me concentrando novamente na tarefa atual, em vez de na forma como os olhos dele me seguem pelo gramado alto e amarelo. O acampamento fica alguns passos adiante, o terreno amplo da pradaria camufla nossas tendas de tons pálidos de marrom e amarelo.
Isso e o fato de que as planícies Rania não são acolhedoras para viajantes nos manteve seguros durante os últimos cinco anos nesse lar patético — ou o mais próximo de um lar que temos no momento.
Interrompo a busca, encarando o acampamento com um peso crescente nos ombros. Longe o suficiente de Primavera para não sermos descobertos, perto o bastante para conseguirmos planejar missões rápidas de reconhecimento, apenas um punhado de cinco tendas, mais um curral para cavalos e outro para nossas duas vacas. À exceção disso, as planícies Rania são estéreis, secas e quentes, mesmo para os padrões sufocantes do reino de Verão e, por isso, elas permanecem vazias, um território que nenhum dos oito reinos de Primoria quer reivindicar. Levamos três anos para conseguir que um punhado de vegetais franzinos surgisse no jardim, que dirá criar plantações o suficiente para que a ocupação das planícies valesse a pena para um reino. Seria preciso tanta magia de condutor para fazer com que o solo fornecesse plantações que mal valeria a pena, e não há lucro em observar o pôr do sol.
Mas tudo isso é o suficiente para manter nós oito vivos. Oito, dos 25 originais que escaparam da queda de Inverno. Pensar nesses números faz meu estômago se revirar. Nosso reino costumava ser o lar de mais de cem mil invernianos, e a maioria deles foi massacrada na invasão de Primavera. Aqueles que não foram estão agora em campos de trabalhos forçados em Primavera. Não importa quão poucos restem, à espera na escravidão, por eles vale a pena suportar essa vida nômade que temos agora. Essas pessoas são Inverno, pedaços da vida que deveríamos ter, e elas merecem — todos merecemos — uma vida de verdade, um reino de verdade.
E não importa quanto tempo Sir me restrinja a missões menores, não importa que eu frequentemente duvide se conseguir as partes do medalhão será o bastante para conquistar aliados e libertar nosso reino, estarei pronta para ajudar. Sei que Sir está ciente da dedicação que vibra dentro de mim; sei que ele entende que compartilho do desejo que tem de recuperar Inverno. E algum dia não poderá mais me ignorar.
Em uma viagem para Yakim, um dos reinos Ritmo, quando eu tinha 12 anos, um grupo de homens encurralou Sir e eu em um beco, gritando sobre os reinos bárbaros e beligerantes Estação. Sobre como preferiam que nos matássemos para que a rainha deles pudesse se intrometer e vasculhar os destroços de nosso reino para encontrar aquilo cuja perda eles atribuem aos reinos Estação: a fonte de magia de Primoria, o abismo sobre o qual estão nossos quatro reinos.
— Eles querem mesmo que nós nos matemos? — perguntei a Sir, depois que conseguimos escapar. Lutei sozinha contra um dos homens, mas quando escalamos uma das paredes do beco para escapar deles, meu orgulho se transformou em vergonha confusa.
Em algum lugar sob os reinos Estação está uma gigantesca bola pulsante de magia; e em algum lugar em nossas montanhas Klaryn houve, um dia, uma entrada até ela. Apenas as terras dos reinos das quatro Estações são afetadas pelo abismo — nas condições extremas e consistentes de seus ambientes — mas todos os reis e rainhas de Primoria, de Ritmo e Estação, possuem uma parte daquela magia em seus condutores, e podem usá-la para ajudar seus reinos. Os quatro reinos Ritmo nos odeiam porque isso é tudo que eles têm: magia em objetos como uma adaga, um colar, um anel. Eles nos odeiam por termos permitido que a entrada se perdesse no tempo e nas avalanches e na memória, por morarmos exatamente no topo da magia e não destroçarmos nossos reinos para cavar e conseguir mais dela.
Sir parou e se agachou até ficar em meu nível, então pegou um punhado de neve que derretia na lateral da estrada.
— Os reinos Ritmo nos invejam — disse ele, para a neve. — Nosso reino permanece no inverno o ano todo, em neve e gelo gloriosos, enquanto os reinos deles percorrem o ciclo de todas as quatro estações. Precisam tolerar a neve derretendo e o calor sufocante. — Sir piscou um olho para mim e estampou seu melhor sorriso, um raro agrado que fez meu peito esfriar de felicidade. — Nós deveríamos nos sentir mal por eles.
Franzi o nariz para a neve amarronzada, mas não consegui deixar de sorrir com Sir, aproveitando a camaradagem entre nós. Naquele momento, eu me senti mais como uma inverniana, mais como parte dessa cruzada para salvar nosso reino, do que jamais havia sentido.
— Eu prefiro ter inverno o tempo todo — falei para Sir.
O sorriso dele se desfez.
— Eu também.
Aquela foi apenas a primeira vez em que senti — em que soube — que Sir viu a disposição em mim. Mas não importa o quanto eu me prove, jamais consigo ir além das restrições dele — mas isso não me impede de tentar. É isso o que todos nós fazemos: tentamos viver, sobreviver, recuperar nosso reino, a qualquer preço.
Encontro minha espada de treino apoiada em um trecho de grama pisoteada. Com os músculos estremecendo devido ao esforço, pego a espada e franzo a testa para Mather, que olha para além de mim, para as planícies. O rosto dele está impassível, a expressão escondida pelo véu que faz de Mather um monarca perfeito e um amigo irritante.
— O que foi? — Acompanho o olhar dele. Quatro silhuetas oscilam em nossa direção, o calor faz com que estremeçam, como ilusões ondulantes. Mas são discerníveis, mesmo de tão longe, e perco o fôlego, aliviada.
Um, dois, três, quatro.
Eles voltaram. Todos. Eles sobreviveram.

8 comentários:

  1. Os nomes destes reinos me lembram printhyan... Espero que seja bom o livro!!!
    Anna!!!🍁❄🌻🌞🌃🌅🌈

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  2. Primeira a comentar!!

    O livro tá sendo meio confuso no início mais parece q tem uma história bem interessante por trás, prevejo uma heroína forte!!!

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  3. diferente,mais to gostando.

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  4. Aaaa agr q li 1capitulo tenho q ler td.kkk

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  5. Li até aqui mas já me apaixonei vou ter q ler td.kkk

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  6. Ela me lembra um pouco a Lia... A mesma marra, não sei

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Boa leitura, E SEM SPOILER!