26 de janeiro de 2019

Capítulo 19

Meira

MEUS APOSENTOS NO quarto andar do Castelo Langlais têm vista para a maior parte de Putnam, a capital de Yakim. O outro lado do castelo se ergue acima do rio Langstone, permitindo que a água agitada gire enormes rodas que enviam energia pela construção. Essa carga impulsionada por água permite que luzes se acendam com o giro de um botão, ou que água quente corra de torneiras sem que seja preciso aquecê-la com fogo. Uma das muitas coisas que Ceridwen explicou antes de chegarmos, mas ter a explicação na cabeça não torna menos bizarro o que acontece sob meus dedos.
Aparelhos esquisitos e objetos de decoração preenchem o restante do quarto — couro e carvalho polido compõem a cama, uma mesa, e cadeiras, com detalhes em prata e botões, maçanetas e alavancas de cobre. Mas um dispositivo no canto me atrai mais — é um substituto de lareira. Um painel de botões fica em uma ponta enquanto a outra se conecta à parede e à fonte de energia. O restante consiste em tubos de vidro espiralados parecidos com serpentes que se enroscam em duas seções diferentes. Quando um dos botões é girado, o lado direito dos tubos se acende quente; quando outro é girado, o lado esquerdo se acende frio. Quando uma combinação de botões é girada, a temperatura pode ser ajustada para a que mais agrade ao hóspede.
Quando cheguei, estava ajustado para aquecer, para combater o frio da primavera verdadeira, e o tempo que gastei girando vários botões e me surpreendendo devido à mudança instantânea de temperatura não é algo de que me orgulho. Mas me entregar ao espanto com os aparelhos se prova uma atividade tão monótona que minha mente rapidamente se cansa dela, permitindo que planos de busca da próxima chave se formem, apesar de minha ansiedade crescente por conhecer a rainha yakimiana.
Giro o botão da direita. Quente. Da esquerda. Frio.
Tenho ao menos decidido que tipo de prédio quero buscar primeiro. A pista que levou Theron a pensar em Yakim na entrada do abismo de magia era uma pilha de livros. Há dezenas — talvez centenas — de bibliotecas por toda Yakim, mas posso começar com as seções mais antigas nas de Putnam, buscando qualquer coisa que pareça incomum. Mas Theron sem dúvida fará o mesmo. Deveria tentar trabalhar com ele desta vez? Mas o príncipe ainda tem a primeira chave — se conseguir a segunda também...
Preciso de uma vantagem sobre Cordell. E preciso concentrar a busca na Ordem dos Ilustres e descobrir mais sobre magia.
É a isso que se resume. Escolher o bem-estar de meu país em vez do bem-estar de meus relacionamentos.
A porta do quarto se abre e fico de pé, grata pela interrupção.
Dendera entra.
— Os outros se reuniram não muito longe daqui. Venha, vou mostrar.
Ergo a saia do vestido plissado quando Dendera volta para o corredor, acompanhada de Conall e Garrigan. Ela não me ofereceu roupas normais de novo, mas até eu consigo ver que este lugar é bem menos fisicamente ameaçador do que Verão, e não posso pensar em levar uma arma quando tanto depende de ficar amiga de Giselle. As únicas ameaças aqui são políticas ou emocionais: riscos advindos de preconceito e de observações mal disfarçadas. Espero.
Os corredores do Castelo Langlais têm os mesmos aparelhos e mobília estranhos que meu quarto. Um ou outro painel de botões nas paredes de pedra, esferas amarelo-claras emitem luz constante, uma camada espessa de carpete marrom cobre o chão. Tudo seria sombrio e mal iluminado, não fossem pelas luzes — o brilho contínuo delas faz com que o corredor pareça brilhante e imóvel, em oposição às habituais velas tremeluzentes e fogueiras com as quais estou acostumada.
Dendera leva Conall, Garrigan e eu por dois corredores antes de entrarmos em um amplo escritório. Poltronas de couro estão dispostas em um tapete avermelhado estampado, as paredes estão cobertas de prateleiras que sustentam tantos livros que me lembro do quarto de Theron. Mas esses livros parecem diferentes — enquanto os de Theron eram bem cuidados ou levados para restauração, esses estão organizados deliberadamente, sim, mas páginas despontam do topo, as encadernações exibem linhas e rachaduras, e algumas capas estão soltas. Nunca me preocupei muito com as coisas que Theron guarda do lado ventralliano da mãe dele, mas mesmo eu sinto uma pontada no estômago quando vejo o estado desses livros.
Theron se levanta de uma das poltronas de couro e atravessa a sala em minha direção quando entro.
— Um dos motivos pelos quais Ventralli e Yakim têm um relacionamento bastante conturbado — explica ele, percorrendo com o olhar as prateleiras ao nosso redor. Theron massageia a nuca e se encolhe, como se tentasse combater uma dor, seja pelo estado dos livros ou pelo estresse crescente da viagem. — Prioridades diferentes, arte versus informação.
— Me recuso a ficar fascinada com qualquer das invenções deles — prometo, e Theron sorri.
— Andou brincando com o medidor de temperatura, não foi?
Minhas bochechas ficam quentes.
— Talvez.
Theron assente com a cabeça em compreensão.
— Da primeira vez que visitei Putnam, perdi um jantar oficial porque quebrei o medidor de temperatura e quase queimei o quarto. Então consegui me trancar em um dos... — ele busca a palavra — elevadores, acho que é como chamam. Salas que se movem para cima e para baixo em vez de escadas. Este reino inteiro é uma grande armadilha.
Pisco, incrédula.
— Por que não vi esses dispositivos antes? Era de se pensar que Yakim, com toda eficiência deles, venderia essas coisas para o mundo.
— Estão dispostos a vender o que precisarem para sobreviver, mas conhecimento é poder, e essas coisas, por menores que sejam, são o poder deles.
— Provavelmente é melhor assim mesmo. — Sorrio. Pela neve, é bom, é normal, sorrir para Theron. — Detestaria que príncipes que se distraem facilmente se ferissem com molas quentes e salas que se movem.
Theron ergue uma sobrancelha, mas o tom rosado nas bochechas dele me diz que está tão feliz quanto eu por essa provocação leve.
— E por quanto tempo você brincou com o medidor de temperatura?
— Isso não é da sua conta.
— Foi o que pensei.
Dendera sai para ajudar Nessa a desfazer as malas. Conall e Garrigan se posicionam no escritório, se esforçando para desaparecerem ao fundo enquanto Theron me leva para um sofá largo. Henn está ausente dessa vez, permitindo que os irmãos façam a primeira missão sozinhos fora de Inverno, e me contenho para não rir da forma com que Garrigan não consegue evitar que o brilho de orgulho ilumine o rosto dele.
Simon e Ceridwen estão sentados no chão, ao lado do medidor de temperatura dessa sala, muito menos desconfortáveis sob as ondas de calor que saem das molas. Todos vestem representações dos próprios reinos: Theron está vestido com uniforme militar verde e dourado de Cordell, eu visto branco e prata. Mas Ceridwen e Simon são os mais dramáticos.
Simon parece ter propositalmente se enfeitado com cada símbolo do reino dele. Um quadrado de tecido escarlate preso por tranças cruzadas de barbante vermelho forma uma armadura peitoral decorativa que cobre o torso nu. No quadrado escarlate, uma chama laranja e vermelha lambe o tecido e o condutor de Verão brilha no pulso de Simon. Os olhos dele estão pintados com tinta dourada, o cabelo escarlate preso em um rabo de cavalo alto decorado com pequenos raios de sol e aglomerados de rubis.
Deveria parecer majestoso com tanto requinte, mas a forma como se encosta à parede, com as pernas abertas diante do corpo, a cabeça caída, parece um menino obrigado a se arrumar para uma ocasião especial. Quase espero que dê um ataque de pirraça.
Ceridwen trocou as camadas de pele por uma diversidade de faixas e remendos de tecido, com calça larga nas coxas e sandálias cujas tiras se entrecruzam subindo pela canela. Apesar do guarda-roupa mais simples, parece muito mais nobre do que o irmão — mesmo com, ou talvez por causa, do único outro adorno: uma chama vermelha pintada sob o olho esquerdo, no lugar em que todos os escravos veranianos são marcados.
Minhas sobrancelhas se erguem, e embora eu saiba que Ceridwen percebe minha surpresa, ela não reage, apenas se volta para o medidor de temperatura e estende as mãos para ele. Ceridwen costuma ser corajosa assim?
Alguém pigarreia e dou um salto quando reparo na única pessoa na sala que não conheço. Um homem está de pé do lado de dentro, e pelas expressões assustadas nos rostos de meus guardas, assim como nos de Theron e Simon, ninguém mais reparou que o homem havia entrado. Ele fixa olhos pretos infinitos em mim, as rugas na pele escura e as partes grisalhas nos cachos dos cabelos pretos sugerem que tenha por volta da idade de Sir. Uma cicatriz fina vai da têmpora até o queixo do homem, cortando a bochecha dele com o tom suave e pálido de um ferimento há muito cicatrizado.
O homem leva as mãos unidas ao estômago.
— A rainha Giselle solicita que se juntem a ela no laboratório da Universidade de Putnam. Carruagens os esperam — anuncia o homem, me encarando. Embora a conexão dure apenas alguns segundos, tenho a impressão de que está me analisando.
Mas estamos em Yakim, reino conhecido pelos estudos. E o homem está vestido como se tivesse acabado de sair de um laboratório também — um avental de couro pende por cima de uma camisa branca com a manga enrolada até os cotovelos e calças marrons justas reforçadas. Mas agora que observo o homem por mais tempo — a maioria dos yakimianos não tem pele marrom bronzeada mais clara, em vez do tom escuro desse homem? Talvez o tom de pele deles varie e eu não tenha prestado atenção durante as lições de Sir sobre Yakim.
Antes que eu consiga observar mais, o homem sai pela porta tão silenciosamente quanto entrou.
Todos nos levantamos para segui-lo e me viro para Theron.
— A rainha está na universidade?
Theron assente como se isso fosse esperado, uma das mãos dele se move para tocar o bolso peitoral do uniforme. A ação faz com que minhas responsabilidades me inundem como uma onda. A chave veraniana. Theron vai querer sair em busca da yakimiana depois de desfilarmos com nossa mentira que não é mentira.
Mas para esse reino não será uma mentira de minha parte. Ainda quero um aliado para me ajudar a enfrentar Cordell — Ceridwen é útil, mas preciso de alguém forte o bastante para balancear o poder de Noam. As mercadorias de nossas minas já estão trancafiadas de novo, esperando o momento em que eu puder oferecê-las a Giselle — sem a presença de Simon.
Mais política delicada. Mais planejamento e maquinação que me dão dor de cabeça.
Mas lembrar que essa reunião será menos falsa para mim do que quando conhecemos Simon me deixa com a cabeça um pouco mais erguida, reúno mais determinação.
— Giselle passa muito do tempo dela lá — explica Theron. — Ela...
— ... desperdiça tempo inventando interruptores de luz quando poderia lidar com a pobreza no reino.
Olho de esguelha para Ceridwen, que se aproxima de nosso grupo por trás de Theron e eu, seu comportamento não dá a mínima indicação de que acabou de insultar a rainha de Yakim.
Theron gesticula com os ombros.
— Alguns diriam que sim — sugere ele, voltando o olhar para o criado, ainda ao alcance da voz.
Ceridwen se abana.
— Nossa, esqueci como o ar fica rarefeito quando cidadãos de mais de um reino Ritmo estão no mesmo lugar.
Theron ri com escárnio, mas pisca um olho para Ceridwen.
— Ciúme não lhe cai bem, princesa.
Ceridwen abaixa o olhar de Theron para mim, então ergue de novo, e os olhos dela brilham com uma emoção verdadeira. A princesa desaparece antes que eu possa perceber qual é, algo que indica os mistérios que ela oculta.
— E uma cidadã de um reino Estação não é uma amante adequada para você, príncipe — replica Ceridwen.
Todo o ar é expulso de meus pulmões. Ainda estou boquiaberta conforme Ceridwen sai, avança à nossa frente para ficar ao lado do irmão, atrás do criado. Posso sentir as palavras dela se agitarem pela muralha que construí em volta de meus sentimentos por Theron e ressaltarem quanta distância permanece entre nós, apesar das promessas grandiosas de Theron de diminuir o afastamento entre os reinos Ritmo e Estação. Apesar de eu não ter certeza do quanto quero que ele faça isso.
Theron segura minha mão.
— Ela não importa.
Arrisco olhar para ele, mas Theron olha para a frente, com o maxilar contraído, os olhos ríspidos.
Percorremos alguns corredores para descer até a entrada do castelo, uma sala curta, porém ampla, com duas passagens de cada lado de uma ponte de madeira em arco. Rodas giram em um córrego agitado fluindo pelo centro da sala, uma versão em miniatura daquelas maiores que giram no rio Langstone. A água deixa a sala aconchegante e úmida, e conforme atravessamos a ponte e saímos do castelo, o ar está apenas levemente mais frio do lado de fora.
Um pátio se estende ao nosso redor, verde e ruidoso devido aos trabalhadores do estábulo e aos dignitários yakimianos, a pedra cinza da parede do complexo se eleva no limite da propriedade. Carruagens nos esperam na base das escadas, o criado já está sentado no banco do condutor de uma delas. Os olhos dele me encaram antes que eu repare, e quando noto, o homem fixa aquele olhar analítico em mim de novo.
Franzo a testa. Será que me acha tão fascinante assim? Na verdade, como sou a rainha-criança recém-surgida do reino Estação caído, ele provavelmente acha. Isso não me impede de franzir ainda mais a testa com uma pergunta não dita.
Os lábios do homem se contraem em um sorriso que se estende pela cicatriz e ele olha para a rua adiante.
Na carruagem do criado, Ceridwen espera com o queixo apoiado na mão. Outra carruagem leva alguns dos soldados cordellianos, enquanto a última é a de Simon, a madeira escura como vinho está presa a bois. Franzindo o nariz, subo para o lado de Ceridwen, seguida por Theron, Garrigan e Conall. Depois que todos estamos reunidos, a carruagem sai, arrastada pela extensa rua que passa pela frente do Castelo Langlais para a cidade.
Putnam é como qualquer outra cidade yakimiana que vi. Telhados de palha, paredes brancas, vigas de madeira marrons em formato de X para suportar as estruturas e acrescentar alguma decoração simples. Os prédios ao redor do palácio têm quatro e cinco andares, coisas altas que fedem a riqueza, com relógios gigantes no cume de torres e canos de cobre se enroscando em desenhos complexos pelas laterais de prédios.
As pessoas que transitam em torno desses prédios estão vestidas com trajes tão caros quanto os lares delas, com chapéus marrons altos, saias marfim amplas, relógios de bolso pendendo de casacos, e bengalas com ponta de ouro. A moda rivaliza em estranheza com as faixas de couro e roupas curtas de Verão, e não consigo parar de olhar conforme passamos.
À medida que atravessamos uma ponte por cima de um afluente do rio Langstone, os prédios ficam um pouco mais desgastados. Estruturas mais baixas, menos amplas, com paredes rachadas, telhas faltando, janelas sujas de terra. A moda permanece praticamente a mesma, apenas mais surrada também, e mais pessoas trabalham, em vez de passearem pelas ruas.
Diante de mim, Ceridwen apoia o cotovelo na janela, nossos joelhos se esbarram a cada sacolejo súbito da carruagem. Ela me observa conforme cavalgamos, os olhos disparando de vez em quando para Theron, ainda segurando minha mão, mas a atenção voltada para a janela oposta, a expressão nefasta.
Permanecemos sentados em um silêncio pesado e sufocante, até que por fim Ceridwen dá um longo suspiro.
— Eles construíram a Universidade de Putnam longe do castelo, no centro da cidade — começa ela, apenas para preencher o ar com palavras. Passamos por uma loja de vidro, uma fogueira crepita atrás de um homem que sopra em um longo tubo de metal. Uma bolha branca translúcida se forma antes de passarmos, seguindo para a próxima rua. — Yakimianos acharam melhor dividir os bens em caso de guerra.
Eu me viro e Theron aperta a minha mão, quase dolorosamente, recusando-se a me soltar.
— Não para que todos na cidade pudessem ter fácil acesso a ela?
Theron me olha, surpresa interrompe a raiva dele. Será que eu deveria ter remoído em silêncio? Além do mais, o que Ceridwen disse no corredor do Castelo Langlais não foi errado, apenas direto.
Ceridwen sacode a cabeça.
— Infelizmente, não. Apenas alguns yakimianos têm acesso às universidades espalhadas pelo reino. O restante...
Ela gesticula com a mão para a janela, para um grupo de crianças que carregam bastões de madeira dos quais pendem dezenas de ferraduras. As pernas magras das crianças mal parecem fortes o suficiente para segurar o corpo delas, quem dirá o peso do ferro, os rostos estão sujos de fuligem, as roupas amarrotadas e manchadas.
Meu estômago se aperta.
— Giselle não é confiável, é?
— Ela é como meu pai — acrescenta Theron, devagar. Aperto a mão dele. — Sempre me pergunto por que ele concordou em se casar com uma mulher de Ventralli em vez de Yakim. Yakim compartilha mais das crenças dele: eficiência, estrutura, empreendedorismo. Mas, apesar das semelhanças, há ainda uma diferença grande o bastante para desestimular até mesmo meu pai.
— Qual é? — pergunto. Mas Ceridwen já aponta para fora. Acompanho o dedo dela até um beco, na direção de onde viemos, e até a carruagem que transita ali, mais para o interior da cidade. A madeira manchada de vinho exibe a chama pintada de Verão. Parece que Simon optou por não conhecer Giselle.
Afasto os olhos da carruagem-bordel de Simon, incapaz de parar de pensar no porquê de estar se afastando. Para ganhar dinheiro com os serviços? Meu estômago se revira.
— Apesar de todas as falhas de meu pai — continua Theron, com a voz baixa —, não posso dizer que ele não é um bom rei. Vê cada cordelliano, não importa o quanto seja inferior, como dele, e se enfurece só de imaginar vender alguém a Verão como Yakim faz.
Ceridwen ri com escárnio.
— Um reino Ritmo com consciência. Me pergunto que outras esquisitices empesteiam o mundo, talvez neve em Verão.
A afirmação a princípio parece apenas uma declaração do absurdo, mas quando Ceridwen me encara por um segundo, sinto as questões ainda não explicadas que ela guardou na mente. Como fiz nevar em Juli. Como descobri um poço oculto na adega de vinhos dela. Trinco os dentes, recusando-me a me deixar abalar por ela.
O rosto de Theron fica mais sombrio.
— Não insulte meu reino quando o seu transborda com falhas.
Ceridwen o encara, espantada, antes de exibir os dentes e cruzar os braços defensivamente.
Ergo as duas sobrancelhas para Theron.
— Achei que sua meta para esta viagem fosse unificação. Sabe... Derrubar preconceitos, ser legal.
Theron pisca para mim, a escuridão no rosto dele desaparece com um movimento de cabeça. A mão dele segura a minha com menos força e me desvencilho, alongando os dedos conforme Theron se move para a frente.
— Desculpe — diz ele a Ceridwen.
— Admiro a posição de seu pai, na verdade — responde ela, a própria versão de uma desculpa. Ceridwen olha de volta pela janela. — Queria que mais reinos valorizassem os cidadãos dessa forma.
Theron dá um meio sorriso.
— Talvez por meio desta unificação eles apreciem.
Mordo o lábio, as imagens do passeio rodopiando na mente. Os cidadãos refinados da classe alta caminhando pelas casas perfeitas; as crianças carregando ferraduras pela rua. Durante um breve momento, sou arrastada de volta para Abril e para a visão das crianças lá. A única diferença entre elas são as cores. Em um reino que alega ser tão avançado, ninguém deveria se assemelhar a uma pessoa dos campos de trabalhos de Angra. Nem mesmo camponeses, nem mesmo os pobres. Não deveria nem haver uma divisão — não havia diferença entre os outros prisioneiros invernianos de Angra e eu, mas aqui estou, sentada em uma carruagem chique. Qual é a única diferença? Minha magia do condutor?
Meus olhos se voltam para a janela de novo, para a mudança súbita de cenário. Não há mais prédios surrados e crianças trabalhando e pobreza — agora, estamos cercados por paredes altas e belos prédios de tijolos e mais pessoas com roupas da moda tradicional de Yakim — linhas retas, tecidos marrons, detalhes em cobre. Devemos estar na universidade. Rápido assim, sem intermediário. Como a forma com que a maioria do povo veraniano é forçada à intoxicação e à névoa de alegria. Aceite ou... sofra. Ceridwen é prova disso. Esse mundo não passa de extremos.
É preciso haver outra opção — algo mais do que aceitação ou luta. Mais do que a magia abusiva que existe hoje ou a ameaça de todos terem magia. Deve haver uma escolha para ser apenas normal.
Será que as pessoas ainda se dividiriam e teriam preconceitos e alimentariam ódio sem a magia? É claro que sim. Mas se não houvesse magia, se não houvesse Ruína, nada para tornar uma pessoa sobre-humanamente diferente de outra, as coisas seriam ao menos igualitárias. Só porque não curaria tudo não quer dizer que não tornaria as coisas melhores do que são.
Sento com o corpo mais ereto na carruagem. É isso que vou perguntar à Ordem, se algum dia encontrar uma pista que leve a ela.
Como limpar nosso mundo de magia.
A mão de Theron envolve a minha, me tirando da súbita epifania. Eu me sobressalto, pânico percorre meu corpo antes que eu consiga me acalmar.
Rapidamente assim, com essa facilidade, minha magia sobe pelo corpo, percorrendo em um fluxo irregular as veias, chocando-se por meu corpo em uma agressão súbita de neve e frio. Eu me desvencilho do toque de Theron, me atiro de volta ao canto da carruagem, cega para qualquer coisa exceto o fluxo inesperado de magia. Não estou sendo ameaçada ou estou com medo ou ansiosa — por que está reagindo assim?
Arquejo, incapaz de respirar devido ao nó de gelo em minha garganta, e quando pisco, estou no chão da carruagem, nos braços de Garrigan.
— Minha rainha! — exclama ele, e não sei há quanto tempo está me chamando.
A porta da carruagem se escancara. O criado está logo do lado de fora, os olhos escuros me percorrem antes de me encarar novamente — mas em vez de ser um olhar observador, é triste. De empatia.
Pobre e perturbada rainha de Inverno, é o que diz o olhar.
Ninguém o contradiz — na verdade, Theron, Ceridwen, Conall e Garrigan o imitam.
Frio se acumula em meu peito e se espalha para minhas mãos, transformando cada músculo em gelo cristalizado. Saio dos braços de Garrigan com um empurrão, a magia lateja e está ávida por disparar para fora de mim, por entrar em Garrigan e Conall, para usá-los, pois é isso o que ela faz. Fere e controla e destrói, e eu recuo, cambaleando, de perto deles, afundando o corpo no assento acolchoado da carruagem.
— Vão! — grito. Talvez se eles se afastarem o suficiente, talvez se não houver nenhum inverniano perto de mim, a magia vai simplesmente se dissipar, e não ferirei ninguém. Ou talvez eu provoque uma nevasca em Yakim e não será apenas a princesa veraniana quem verá o defeito de minha magia, mas uma universidade cheia de cidadãos de um reino Ritmo.
Meus pulmões queimam, mas prendo o fôlego, recusando-me a me energizar até que esteja calma. O que Hannah diria se estivesse aqui? Não, não a quero aqui — não a quero. Ela é parte da magia, e estou tão cansada de magia. Não preciso de Hannah.
Calma, calma, por favor, fique calma...
O frio gélido corre por braços e pernas e salta de meus dedos, disparando para fora de mim antes que eu consiga controlar, antes que consiga impedir. Minhas costelas se abrem com um estalo, um relâmpago atravessa minha carne, incinera meus músculos, corta meu coração ao meio quando meus olhos encontram os de Garrigan e de Conall.
Mas nada disso se compara ao puro horror de ver o que faço com eles. Não somente coloco força neles, como fiz com Sir — o comando que gritei, Vão!, reverbera por mim. Ele reúne a magia e dispara para fora de mim em uma torrente de geada, cristais de gelo que se chocam nos corpos deles...
E os atiram da carruagem.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!