26 de janeiro de 2019

Capítulo 18


Meira

FICAMOS EM VERÃO por uma semana quase suportável. Ênfase em quase.
Todo dia é quente e lento, e toda noite é preenchida com as mesmas festas. Theron ainda vai às vinícolas de Verão, usa o tempo para conseguir que Simon assine o tratado. Escolho não me juntar a eles, fingindo passar mal com o calor — bem, não é totalmente fingimento, mas mesmo assim — e aproveitando o tempo longe tanto de Theron quanto do rei veraniano sem limites, que me assegurou que designou homens para investigar a morte do escravo, mas apenas depois de um gesto de mão despreocupado.
Escravos costumam ter finais infelizes em Verão — disse Simon, como se me dissesse meramente que Verão é quente, não que alguém tivesse morrido sob os cuidados dele.
Se eu tivesse algum poder aqui, investigaria eu mesma, mas já estou em território instável com Simon. Principalmente desde que sabe que perguntei sobre a morte do escravo e ele disse que encarregaria homens disso — se souber que assumi a tarefa sozinha, mesmo depois disso...
Odeio permitir que isso me impeça. A antiga Meira teria simplesmente mergulhado na investigação, procurado justiça para o homem assassinado sem olhar para trás. Mas a rainha Meira precisa se perguntar: se Simon roubou pessoas de Outono, faria o mesmo com Inverno?
Não sou mais apenas eu. Sou um reino inteiro, e não posso cometer erros.
O único fator que redime Verão é Ceridwen, a qual vejo ainda menos do que Theron e Simon, de relance, apenas uma vez no salão de jantar durante o café da manhã. Nossa união não é politicamente aceitável também, então me impeço de chamá-la. Minha mente lida com política muito facilmente agora. Política impiedosa que me impede de falar com alguém que poderia ser uma boa amiga, de perguntar a ela se conhecia o homem que foi assassinado, tudo porque Simon observa, reflete sobre por que escolhi falar com a irmã em vez de com ele.
Depois que finalmente deixamos Verão, nossa caravana agora composta de dois reinos Estação e um Ritmo, levamos seis dias de viagem para chegar à Putnam, a capital de Yakim. Os primeiros dias são gastos sob o calor latejante de Verão, o ar opressor faz com que o mundo estéril e seco ao nosso redor pareça ondular. Os dias seguintes, ainda bem, nos levam para o canto nordeste da floresta do sul de Eldridge, as árvores úmidas e densas que cobrem a fronteira esquerda de Verão até as montanhas Klaryn.
A diferença de temperatura é maravilhosa. Embora meus invernianos respirem aliviados por estarem em um clima mais frio, nossos companheiros veranianos se contorcem com um desconforto que durará muito — os reinos Ritmo acabaram de entrar na primavera verdadeira deles, o que significa que não haverá nada além de frescor durante o resto da viagem. Pensar nisso alivia um pouco meu estresse, mas por onde começo a busca pela Ordem ou as chaves em Yakim?
A chave veraniana estava ligada ao vinho deles — o que em Yakim pode ter uma chave? Os símbolos duradouros de grandeza deles poderiam ser qualquer das centenas de bibliotecas, universidades ou armazéns. E se não for um lugar histórico, como a chave que encontramos em Verão — e se for algum lugar completamente diferente?
Três dias depois de sairmos de Verão, chegamos ao tributário que transforma o rio Feni no rio Langstone. O Langstone corre pelas fronteiras leste tanto de Yakim quanto de Ventralli antes de desaparecer em um lago perto das montanhas Paisel ao norte, o que o torna um guia popular para viajantes na margem oeste. Também é amplo o bastante, profundo o bastante e populoso o bastante para navios comerciais e portos, e conforme nossa grande caravana de dignitários cordellianos, veranianos e invernianos segue para Yakim pela estrada principal congestionada que acompanha o Langstone, temos um primeiro relance do caos da indústria dos reinos Ritmo.
Pessoas se agitam ao nosso redor, a maioria delas trabalhadores passando de cidade em cidade em carruagens puxadas por cavalos, os vagões carregados de palha ou vegetais ou ferramentas. Eles olham boquiabertos conforme nossa caravana passa, encarando maravilhados tanta gente de tantos reinos.
— É... Muito — diz Nessa, ofegante, o espanto dela é palpável conforme se inclina para a frente na sela, os olhos tão arregalados que me preocupo que não tenha piscado desde que entramos em Yakim.
O Langstone azul e frio se estende tanto à nossa direita que não conseguimos ver a outra margem, um cobertor infinito de água agitada salpicada de navios. Isso chama a atenção de Nessa — não a multidão de transeuntes que a encaram com tanto espanto quanto Nessa encara os navios. Vejo algumas bocas formarem a palavra invernianos, vejo alguns narizes se enrugarem com desdém. Aqui, o preconceito Ritmo-Estação não se inclinará ao nosso favor como em Verão.
Brinco com uma dobra no meu vestido de viagem, o mesmo que Dendera me obrigou a vestir em nossa jornada para fora de Inverno. Ela me deixou usar as roupas normais e confortáveis até hoje, quando me encurralou e explicou que, embora ainda estivéssemos a poucos dias de Putnam, é imperativo que eu cause uma boa primeira impressão. Concordei com cada palavra de Dendera.
Nada de erros aqui. Nenhum risco.
— Minha rainha! — Nessa aponta, animada, para longe. — Aquele é um navio cordelliano?
Assinto, grata pela distração. Uma das grandes bestas de madeira ondulando no rio tem uma bandeira oscilando em um mastro, o tecido se estica ao vento e revela um caule de lavanda com uma folha de bordo dourada em um fundo verde.
— E aquele é ventralliano. — Aponto para um logo ao lado do primeiro, com uma bandeira de um violeta intenso que estampa uma coroa prateada. — E o outro, yakimiano — digo, indicando um navio que exibe uma bandeira com um machado dourado em um fundo marrom.
As lembranças de minhas lições de infância com Sir lançam uma pontada de nostalgia por mim. Não faz mais do que duas semanas desde que o vi, mas minha mente lateja com saudade, e imagino se essa dor sempre esteve aqui, e eu não reparei. Ele provavelmente está ocupado supervisionando o controle de Noam e treinando nosso exército inverniano com Mather. A imagem deles amontoados em um pátio de treinamento, trabalhando técnicas e montando sessões de luta me preenche de uma emoção bem familiar — anseio por Inverno; anseio por Sir e Mather e as vidas que eles levam.
Estico mais o corpo, trincando o maxilar. Não são mais minha família, são meu general e meu... O que quer que Mather queira ser. Algo distante e formal e insignificante.
Nessa suspira e me viro na direção dela. Pelo menos ainda a tenho.
A expressão de assombro de Nessa se torna uma de curiosidade calma.
— Quero ver todos eles.
Sorrio.
— E verá, lady Kentigern. É uma viajante do mundo agora.
O corpo de Nessa relaxa, mas ela apenas gesticula com os ombros.
— Se nada disso tivesse acontecido, acho que eu teria ido para uma das universidades de Yakim. Iria querer saber o máximo possível sobre o mundo.
— Ainda pode ir para uma das universidades deles. — Paro. Será que poderia? Ouvi falar de alguns cidadãos de reinos Estação terem permissão de entrar nas universidades de Yakim, mas não é comum. Se Nessa quiser ir, vou encontrar uma forma de tornar possível. — Nada a impede mais de viver.
— Estou feliz onde estou. Me faz sentir próxima de tudo que perdemos. — Os olhos dela percorrem os irmãos, na fileira diante de nós, e não consigo dizer se realmente não conseguem nos ouvir ou se estão apenas fingindo que não podem. — Mas se as coisas fossem diferentes... Não sei. Apenas gosto de imaginar as possibilidades. Isso é parte da liberdade também, poder sonhar e imaginar o que poderia acontecer se eu quisesse.
Como Nessa é sempre tão boa em me deixar ao mesmo tempo triste e feliz?
— Essas viagens pelo mundo a deixaram bastante astuta.
Nessa ri e sinto parte da distância entre nós diminuir. Por um momento, somos como costumávamos ser — apenas duas garotas de 16 anos lutando para sobreviver.
Quando tudo isso acabar, vou criar uma universidade em Inverno, ou uma biblioteca, pelo menos. Uma coleção de história e ciência, palavras e livros. Um lugar no qual Nessa possa ser tanto quem é quanto quem teria sido — uma garota de pé em um espaço cavernoso, cercadas por letras cursivas e trechos de conhecimento, encarando cada palavra com um rompante forte e irredutível de esperança.
O sorriso dela se suaviza, as mãos seguram as rédeas com força. Nessa não diz mais nada, apenas me encara e fica ali, ansiosa.
Mas um cavalo para do meu outro lado, e me viro para Ceridwen, que encara adiante como se não soubesse que deixou os cavaleiros veranianos. A postura dela é apropriada, apesar da forma como segura uma manta marrom espessa nos ombros, os nós dos dedos brancos são o único sinal de que está tão desconfortável quanto os soldados veranianos agasalhados atrás.
Não diz nada, e ergo uma sobrancelha confusa para Nessa, que expira, desapontada — queria que eu falasse mais alguma coisa? Começo a perguntar, mas Nessa avança o cavalo até Garrigan. Depois que ela se vai, ou vai tanto quanto se pode em uma caravana em movimento constante, Ceridwen se volta para mim.
— Achei que deveria preparar você para Yakim, rainha Meira — diz Ceridwen, com a expressão impassível. — Sei que não lidou muito com outros reinos Ritmo, e esse é... único. A rainha Giselle é o produto de uma sociedade estruturada, lógica, e como tal...
— Estamos nos falando agora? — Não quero que soe como um fora, e me interrompo, suavizando a expressão do rosto. — Obrigada pela preocupação, princesa, mas posso lidar com um reino Ritmo sozinha.
Não precisa me ajudar. Não vou arrastá-la para minha guerra.
Meu cavalo relincha quando o impulsiono para a frente, mas a mão de Ceridwen se estende e agarra meu braço. Ela o puxa para trás tão rápido quanto eu avanço, e afrouxo as rédeas do cavalo, mantendo-o alinhado com o dela.
O veraniano mais próximo está bons passos atrás, fora do alcance da voz. Eu me inclino na direção de Ceridwen mesmo assim.
— O que há?
Ceridwen me encara, observando.
— Meu irmão já suspeita de mim e não confia em você. Não posso extinguir as suspeitas se nos encontrarmos demais.
É o mesmo motivo que dei a mim mesma para não me aproximar dela.
— Sinto muito.
Ceridwen pisca, surpresa.
— Pelo quê?
— Você conhecia o homem. Aquele que encontramos na adega. — Mantenho as costas erguidas, a expressão não delata para ninguém que eu possa estar falando de um assassinato. — Eu deveria... Não sei. Ter ajudado você. Sinto muito por não ter feito isso.
— Você não deveria se sentir mal. — A expressão de Ceridwen se desfaz. — Ele estava sob os cuidados de meu irmão... Simon é o responsável. Só porque alguém tem magia não quer dizer que seja digno dela.
Ceridwen não pede desculpas ou corrige a afirmação para me excluir, uma monarca que tem magia que pode não ser digna dela, e, de alguma forma, isso me faz respeitá-la mais. Preciso de mais pessoas em minha vida que me questionem, que me desafiem, que possam admitir que tenho defeitos.
— Alguém descobriu quem o matou? — insisto, com a voz ainda baixa.
Ceridwen sacode a cabeça.
— Assassinatos não são incomuns em Juli. — Mas as palavras dela pairam no ar entre nós, e sei que se estivéssemos sozinhas, ela completaria essa frase.
Tal conversa é arriscada, no entanto, então insisto para falarmos de algo leve.
— Fale sobre Giselle.
Ceridwen assente.
— Quando conheceu meu irmão, reparou que ele tende a ser... inconsequente?
Olho para os veranianos atrás de nós. Simon está em uma fileira dos soldados dele, as armaduras peitorais de couro decoradas com cordões vermelho-rubi. Atrás do rei, puxada por dois bois de pelos longos, segue uma elaborada carruagem de madeira escura como vinho pintada com chamas laranja e raios de sol dourados. Borlas pendem na beira do telhado de tábuas da carruagem, e, em meio a essas borlas, alguns rostos despontam. Não é a carruagem pessoal de Simon? Quem são as pessoas do lado de dentro?
Um dos rostos se volta para mim e meu maxilar se contrai quando meus olhos se fixam na marca na bochecha esquerda dela. Viro para Ceridwen, que pisca, exausta.
— Sim, meu irmão trouxe uma carruagem de prostitutas com ele — rosna a princesa. — Sim, ele faz isso sempre que viaja. E sim, isso me faz querer cortar fora o membro dele, mas não posso fazer nada sem desafiá-lo diretamente. Mas não foi isso o que perguntei.
Olho para a frente com os lábios fechados e contraídos.
— O calor terrível de Verão me distraiu bastante, mas sim, reparei que seu irmão era “inconsequente”. Por que isso importa?
— Porque Giselle é exato aposto. Há benefícios em ser um reino concentrado em conhecimento, mas esses benefícios têm um preço. Os yakimianos que compartilham do aumento de compreensão advindo do condutor deles são da classe alta, ou um punhado da classe mais baixa que se provou útil. Essa é a força motriz de Yakim: utilidade. O que os torna lucrativos e eficientes como um todo, mas quando se trata das pequenas partes... — Ceridwen gesticula para os camponeses que passam arrastando as carruagens ou puxando mulas. — Do ponto de vista de Giselle, é mais inteligente usar os recursos dela para ter uma população maior de pobres que realizam os trabalhos servis, mais numerosos, e ter uma população menor de letrados que executam as posições especializadas, menos variadas: médicos, professores, legisladores...
Semicerro os olhos.
— Então ela deixa a maior parte do povo viver em pobreza, embora tenha conhecimento e poder para ajudar? — Ceridwen assente e reviro os olhos. — Por que, do punhado de monarcas que conheci, só gostei de um deles?
Ela sorri.
— Porque é impossível odiar uma criança.
Gargalho, mas meu sorriso some rapidamente.
— Mas por quê? — sussurro. — Por que Outono não é corrupto assim?
Ceridwen inclina cabeça com um leve gesto de ombros.
— Há alguns bons homens por lá — diz ela, voltando os olhos para algo ao lado de minha cabeça, como se estivesse observando uma lembrança passar. — Raro é ter um bom homem forte em oposição a um bom homem fraco. São esses que destroem o mundo. Homens com boas intenções, mas que cedem diante das opiniões dos outros até que as boas intenções deles destruam incontáveis vidas.
Minha mão fica frouxa nas rédeas.
— Não está falando apenas de Outono, está?
Ceridwen ergue uma sobrancelha.
— Responderei essa pergunta, rainha Meira, se me explicar como fez nevar em Juli, e como encontrou um poço com uma fogueira na adega de meu palácio.
Fico tensa. Quando não respondo, Ceridwen dá um sorriso fraco.
— Todos temos coisas que precisamos esconder — diz ela, antes de puxar o cavalo para trás para se alinhar ao grupo veraniano.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!