21 de janeiro de 2019

Capítulo 18

QUANDO O SOL paira algumas horas além do meio-dia, me vejo de costas para as construções mais afastadas de Bithai. Aqueles dos quais os cidadãos estavam fugindo desesperadamente, buscando abrigo dentro das altas muralhas de pedra da cidade enquanto soldados ocupavam os postos deles nos extensos campos verdes.
Noam, Theron e alguns dos generais de altas patentes ficaram na torre ao lado do portão enquanto o restante dos homens, inclusive eu, eram chamados para baixo para aumentar os números no campo. O mar de soldados se estende tanto ao meu redor que não consigo ver o verde da grama de Bithai, apenas armaduras prateadas e armas escuras e corpos a postos, esperando. A cavalaria ocupa os flancos mais externos, fileiras e mais fileiras de infantaria preenchem o centro e duas longas fileiras de arqueiros estão ao fundo do limite inclinado do planalto de Bithai. E é aí que estou, com a besta de metal carregada nas mãos.
As últimas horas foram preenchidas com os preparativos, entrar em fila e se certificar de que todos tinham o equipamento adequado. Agora que está tudo pronto, tenho tempo de processar a coisa toda. Inspiro, expiro, meu fôlego aquece o capacete, minha pulsação lateja nos ouvidos e ecoa pelo metal que envolve minha cabeça. A espera é a pior parte — com missões de busca por comida, nunca tive a chance de ficar nervosa. Eram tão rápidas que, quando terminavam, eu nem mesmo tinha percebido que deveria sentir mais do que uma descarga de adrenalina. Mas agora, ouço meu coração bater e observo o horizonte e espero, espero, espero pela batalha — é horrível.
O restante dos invernianos está atrás dos arqueiros, em um grupo próprio. Noam não pode nos ajudar com o condutor dele, não pode direcionar força ou determinação para nós, pois não somos cordellianos e, por isso, não somos afetados pela magia dele — da mesma forma que não poderíamos afetar ninguém do povo dele caso nosso condutor estivesse inteiro. E somos o motivo pelo qual Primavera está atacando — se todos morrermos, se torna uma causa perdida, independentemente da vã ameaça de Noam de nos entregar a Angra.
Mather se certificou de se posicionar alguns passos atrás, à minha direita, montado em um cavalo, caso ele precise avançar. Não se moveu para cumprir a própria promessa também, e inspiro com um pouco mais de facilidade quando vejo que Mather não desapareceu para se render a Angra. Olho para ele, desesperadamente querendo arrancar o maldito capacete. Com ou sem cheiro de ferro, essa coisa não passa de um forno de metal sufocante, e nenhum inverniano gosta de calor.
Mather se move sobre o cavalo, as sobrancelhas se unem com uma pergunta. Você está bem?
Assinto. Ele se move de novo, diz algo a Sir, que sacode a cabeça determinadamente.
Meu corpo lateja com desejo. Eu deveria estar lá, com eles, não me escondendo entre os arqueiros de Noam. Quando a hora da batalha chegar, quando Noam ordenar que os regimentos se movam para um ou outro lado, ficarei perdida com relação a que lado tomar. Se Noam ordenar que os arqueiros atirem para a esquerda e eu deixar uma flecha escapulir para a direita, isso vai me denunciar.
Afasto as preocupações, voltando a concentração para o peso da besta de metal nas mãos e a energia que se acumula ao meu redor. O capitão Dominick está três fileiras adiante, na infantaria, supervisionando os homens montados a cavalo. Ninguém diz uma palavra, ninguém grita ordens, ninguém sequer respira alto demais. Todos estamos apenas esperando, com a antecipação arrasadora da morte que marcha em nossa direção.
O sol baixa. Ainda mais. É nesse momento, quando o calor do fim da tarde mal se faz notar, que uma onda percorre os homens. Eles ficam de pé mais eretos, todos os olhos se voltam para o sul. O exército de Primavera foi avistado.
Nunca vi uma batalha direcionada por um Condutor Real antes. Sir me contou sobre elas, é claro, relatou batalhas de Primavera contra Inverno com detalhes tão épicos que eu quase conseguia sentir o cheiro dos tiros de canhão no ar. Com o condutor, governantes podem direcionar regimentos inteiros a se moverem como um, movimentar as pessoas como se estivessem organizando itens sobre a mesa. Não é um impulso forçado; é mais como uma sugestão subconsciente — soldados podem escolher não seguir as instruções canalizadas pelo líder deles. Mas costuma ser do interesse dos soldados seguir a vontade do líder.
As aulas de história de Sir percorrem minha mente junto com o que li no livro de magia. Cada Condutor Real é como um cavalo; use-o demais ou muito rapidamente e ele se cansa, e os líderes precisam esperar que o objeto descanse antes que possam usar de novo. Se usar muito frequentemente, com muita agressividade, bem, não sabemos o que poderia acontecer — ninguém jamais foi burro o bastante para permitir que o condutor secasse por completo, se é que ele pode. Os monarcas conseguem sentir quando o nível de magia fica baixo, como um puxão nos instintos deles, como aquela sensação desconfortável de que algo está errado. E é magia passiva — somente quando o portador conscientemente escolhe usá-la, ela funciona.
Se Noam usar o condutor com parcimônia, poderá dar uma grande vantagem a Cordell. Angra jamais deixa o palácio em Primavera e Herod, que muito provavelmente lidera esse ataque, não terá o mesmo controle sobre os homens dele. A magia de Angra pode fazer com que as mentes deles fiquem entorpecidas pela devoção a Primavera, de modo a se estender além das fronteiras de Primavera, mas ele não conseguirá dizer ao exército como se mover, onde atacar, quando recuar. Pelo bem de todos nós, espero que essa vantagem seja suficiente.
Quando os soldados cordellianos se aprumam, nós também o fazemos. Arrisco mais um olhar para trás, reparando quem está e quem não está ali. Alysson é a única que não está. O que faz com que restem sete de nós.
Os arqueiros erguem as bestas e me atrapalho para acompanhar o ritmo deles. A besta é muito mais pesada do que o chakram, é volumosa e densa, mas consigo fazer isso. Já fiz isso antes. Apenas nunca fiz como parte de um exército, usando um capacete que restringe os movimentos.
Mantenho o dedo no gatilho, meu fôlego vem mais e mais lento. Ninguém atira ainda, apenas mantemos as bestas apontadas para o céu.
— Vamos lá — sussurra o homem ao meu lado.
A ansiedade dele me impulsiona, uma chama que se acende e se espalha como um incêndio florestal entre o grupo. Logo, todos estão ansiosos para o início da batalha.
Então o som pelo qual todos esperavam, a vibração que aumenta a ansiedade de todos.
Tiro de canhão.
Um único disparo vem de algum lugar distante, longe demais para atingir alguém. Um aviso para anunciar a chegada de Primavera. O som do disparo se dissipa até virar um eco e o exército de Primavera se ergue no horizonte, ao sol poente do fim da tarde; os soldados não passam de uma massa negra que varre as colinas distantes de Cordell como uma praga. Outro canhão é disparado, então mais dois, mais e mais perto...
Shhhhh.
Os arqueiros disparam a primeira saraivada. Precipito-me a atirar com eles, lançando minha flecha em arco sobre a infantaria. Eles já estão ao alcance? Estão tão perto que...
Sim, estão. Primavera está tão perto, na verdade, que antes que nossas flechas sequer completem os arcos, três bolas de canhão abrem espaços nas primeiras fileiras da infantaria de Noam. A massa negra de soldados de Primavera está próxima o bastante agora e consigo vê-la disparar em nossa direção, armas em punho, gritos agudos de guerra saindo da garganta.
Cinco segundos. Quatro segundos. Três.
Dois.
Um.
A força dos dois exércitos colidindo lança uma onda de choque entre os homens. Eles replicam os gritos de guerra de Primavera com gritos próprios, uivando para o ar conforme o formigamento familiar da concentração da batalha me percorre. Disparo mais três flechas com os arqueiros antes de perceber que o grupo se dividiu em dois, metade corre para um lado, metade, para outro, abrindo-se para espalhar a força de Cordell.
Dou um passo à direita, hesito, então dou um passo à esquerda quando uma fileira da infantaria recua, chocando-se contra mim e me atirando ao chão. Rolo para o lado, giro, evitando por pouco o pisotear de botas e de cascos de cavalos quando os homens de Dominick se movem como uma gigantesca massa para a parte posterior esquerda. Noam os está puxando em meia-volta... por quê?
A mão de alguém agarra meu braço e, antes que eu consiga processar quem é, estou agarrada a uma sela e puxando a perna para cima para montar o cavalo.
— Treinei você para se misturar melhor do que isso — dispara o cavaleiro para mim.
Congelo, com os braços em volta da cintura de Sir, as bochechas quentes de vergonha e frustração por ser pega. Pelo lado positivo, posso tirar o capacete agora.
Puxo o forno de metal da cabeça e o atiro no chão, Sir comanda o cavalo para trotar atrás do regimento de Dominick. Eles continuam a recuar para trás do restante da infantaria, movendo-se para a esquerda e para trás. O restante da infantaria se aproxima para cobrir a abertura.
— Vai me levar de volta para o palácio?
Os homens de Dominick se movem para a direita, alinhando-se atrás da cavalaria mais à esquerda.
— Você vai ficar comigo — sussurra Sir. Ele indica a minha besta. — Derrube os mais próximos primeiro. O que quer que faça, o que quer que aconteça, não pare de atirar.
Coloco a flecha na besta, quando Sir chuta o cavalo para galopar. Disparamos pelos soldados de Dominick, contornando os homens da cavalaria, até nos alinharmos com a primeira fileira de cavaleiros.
— Contagem de três — diz o capitão da cavalaria a Sir.
— Ao seu sinal.
O capitão ergue a espada ao ar. Inclino o corpo além de Sir, observando o horizonte em busca do que combateremos. E ali, das colinas verdes exuberantes de Bithai, uma onda de pesadelos se ergue.
A cavalaria de Angra chega ao topo de uma colina diante de nós, cavalos cobertos com armaduras, soldados empunham bestas ou espadas ou machados. Mais homens da infantaria usando a armadura com o sol preto correm entre os cascos ressoantes.
Foi por isso que Noam puxou o regimento de Dominick até ali. Na ponta esquerda, se aquela cavalaria passar, conseguirão abrir caminho entre o restante do exército de Noam até o portão de Bithai.
Outro cavaleiro galopa ao nosso lado. Mather. Ele me encara, tranquilo e determinado, conforme os cavaleiros de Primavera se aproximam. Apenas mais uma colina, e estarão ao alcance das flechas.
— Um — grita o capitão, me afastando dos olhos de Mather. — Dois.
Ergo a besta no ar. É isso. Já estive em combate corpo a corpo com pequenos grupos de soldados de Primavera, mas nunca em uma batalha. Uma calma estranha recai sobre todos, algo que não foi motivado pelo condutor de Noam. Um instinto mais profundo que bloqueia todo o resto.
— Três!
Sir e eu disparamos para a frente com a cavalaria de Noam. O mundo fica mais lento até que não reste nada além do latejar dos cascos de nossos cavalos, os gritos dos soldados, a onda de flechas que se erguem dos arqueiros de Primavera e pintam o céu com violentas manchas pretas.
Disparo minha besta, disparo de novo, devagar, abaixando o arco conforme nos aproximamos mais e mais dos cavaleiros de Primavera. Naqueles segundos finais antes de colidirmos, Sir abaixa a mão e toca minha perna. Mather se vira e me olha, os olhos dele estão arregalados em meio à calmaria antes da tempestade. Sinto tudo acontecer ao redor como se observasse em um sonho.
Anos de treinamento assumem o controle. Nossos cavalos se misturam imperceptivelmente à cavalaria de Primavera e flechas voam, espadas cortam o ar e gargantas, facas se alojam em peitos. Minha besta entoa o zumbido de flechas voando, uma sinfonia que termina com chiados satisfatórios contra ombros e joelhos e outros pontos fracos das armaduras de Primavera. Minha besta não é uma arma que seguro — sou eu, e eu sou ela, e nós duas derrubamos soldado após soldado como se não tivéssemos sido feitas para outra coisa.
Sir vira o cavalo e saio do estupor por tempo o bastante para reparar que atravessamos toda a cavalaria de Angra. A princípio, sou tomada pelo rompante doce e puro do alívio — há tão poucos deles! Mas então vejo o que nos espera atrás da cavalaria.
— MATHER!
O grito de Sir perfura meu corpo. Viro e vejo Mather se aproximando de nós. Ele também está quase aqui. Está quase...
Não tenho tempo de terminar o pensamento.
Canhões nos esperam. Dezenas deles, puxados por bois colina acima. Soldados estão ao lado das monstruosidades de ferro e, mesmo de longe, consigo ver, sentir e degustar a felicidade deles quando acendem os explosivos que lançarão a morte em nossa direção.
É tudo que tenho tempo de absorver, o peso terrível da alegria iminente dos soldados diante de nossa derrota e, no momento em que meus olhos registram que as bolas negras que se chocam contra a terra ao nosso redor são bolas de canhão, uma força invisível me atira do cavalo e me parte como se eu fosse uma boneca de pano contra o chão.
Dor incandescente e lancinante atravessa minha visão, irradiando de uma fenda sólida em meu peito. Ruídos se abafam contra o rugido de agonia que preenche minha cabeça e algo abaixo de mim fede a ferro, úmido e quente. Mas não é o cheiro reconfortante de ferro minerado nas montanhas Klaryn.
É sangue.
Os ruídos abafados aumentam e viram badaladas terríveis. Dou impulso para cima, uma de minhas costelas urra de dor, mas não me importo, pois mais canhões disparam, mais da cavalaria de Noam é atirada aos ares.
Era uma armadilha, e agora há mais homens de Primavera correndo até nós, dando a volta pelos canhões, e os soldados de Primavera que não matamos na investida inicial avançam de volta para nos cercar. Aqui e ali, alguns punhados de cavaleiros cordellianos permanecem de pé, golpeando inimigos, disparando às cegas. Mas é inútil. Estamos afastados demais da maior parte do exército, inutilmente perdidos na pressa estúpida para destruir a cavalaria de Angra.
Fico de pé com dificuldade. A armadura e o enchimento sobressalente prendem minha costela quebrada em um gesso improvisado patético e consigo avançar aos tropeços, destroços anuviam o ar, corpos cobrem o caminho. O fedor de sangue e suor entope meus pulmões, cresce a cada explosão, a cada grito.
Mather. Penso que grito, mas não consigo me ouvir. Talvez eu só murmure, um grito frágil no escuro. William!
A bola de um canhão atinge o chão próximo, me derrubando com a força invisível. Desabo sobre um corpo que ergue o braço, a mão ensanguentada segura meu ombro.
Pânico entorpece tudo dentro de mim por um lindo e aterrorizante segundo, quando vejo quem me segura, o quanto ele está ensanguentado, o quanto está arrasado na imundície da batalha.
Sir.
Sempre que ele descreveu situações assim antes, o cenário parecia algo distante e estrangeiro que eu jamais precisaria enfrentar. Ferimentos em um campo de batalha. Perda excessiva de sangue, ossos quebrados, carne rasgada...
Isso não é real. Não pode ser real. Não agora, não ele.
Um soldado de Primavera choraminga diante de mim com uma pesada espada cordelliana enfiada no peito. O som do grito moribundo dele dispara em meus ouvidos ressoantes enquanto os lábios de Sir se movem. Avanço até ele, gritando, desejando que o ruído abaixe o suficiente para que eu consiga ouvi-lo em meio aos gritos e às explosões.
Os lábios de Sir se movem de novo.
— Meira.
Sangue e terra e suor deixam os dedos escorregadios quando seguro a mão dele.
— O que eu faço? — grito. — Diga o que eu faço!
Sir sorri em meio às machas de sangue nas bochechas dele. O sangue escorre e mostra sua fonte — um ferimento aberto na barriga de Sir que rasga metade do peito. Sangue escuro pulsa para fora, ossos brancos despontam da cavidade.
— Meira — diz ele de novo. A mão de Sir se ergue e segura minha bochecha em concha, o polegar dele acaricia minha têmpora.
— O que eu faço? — grito de novo. Outra bola de canhão atinge algum lugar próximo; eles estão se aproximando mais e mais. Vão nos alcançar em breve. Ainda estamos ao alcance. Preciso movê-lo, chamar um médico...
— Desculpe — diz Sir, respirando com dificuldade.
Os olhos de Sir divagam e ele encara distraidamente um vazio ao lado de minha cabeça. Quando volta a me olhar, está com os olhos distantes e enevoados como se visse através de mim.
— Não — resmungo. Sacudo os ombros de Sir, tentando atrair a concentração dele de volta para mim. — Não! Ouça, William Loren. Você não merece isto!
Sir assente.
— Eu servi a Inverno.
Outro canhão. Um soldado de Primavera urra acima de mim, com a espada erguida, e pego a besta. Ela não está ali — foi levada na explosão do canhão. Antes que eu consiga buscar outra arma, uma flecha cordelliana surge zunindo das cinzas e o soldado desaba ao lado das pernas de Sir.
Tantos corpos, primaverianos e cordellianos. Tanta morte e sangue se empilham tão rapidamente...
O polegar de Sir acaricia minha têmpora de novo. Eu me inclino sobre ele, protegendo Sir dos escombros, de sangue, de tudo isso.
— Não — murmuro. É tudo o que posso fazer, tudo o que posso dizer, meus olhos ficam embaçados com poeira e lágrimas quentes e pulsantes. — Não, não, William, não...
Sir está ofegante. Ele me olha de novo e um último lampejo de clareza leva reconhecimento aos olhos dele.
— Meira — sussurra Sir. — Precisa salvá-los.
— É claro — digo, com a voz rouca. — Salvarei. Prometo que salvarei. Mas precisa me ajudar. Não posso fazer sem você!
Sir sacode a cabeça.
— Ouviu o poema de Bithai assim que chegamos?
Assinto, e Sir insiste.
— Não — diz ele. — As palavras. Ouviu as palavras?
Quando faço que não dessa vez, Sir inspira, fecha os olhos e deixa que a memória recite. O poema suave sai, apesar do fôlego entrecortado de Sir, apesar da dor dele.

“Cordell, Cordell, diante de seu sagrado trono
Hoje nos ajoelhamos.
Que deem graças aqueles com que refúgio se deparam
Pois suas muralhas de pedra os amparam.
Cordell, Cordell, se na batalha, na viagem ou na morte
Precisarmos nosso reino deixar,
Que aqueles que não retornam
Possam sempre em sua presença descansar.”

Os olhos de Sir se abrem de novo.
— Inverno precisa disso — diz ele, com voz rouca. — Inverno deve ter isso.
Sacudo a cabeça de novo, lágrimas escorrem por minhas bochechas.
— Não, William... Inverno precisa de você!
Sir sorri. O sorriso se detém quando o polegar dele para de se mover, tudo no corpo de Sir enrijece como um lago que congela no inverno. A pausa repentina e assustadora ecoa por mim. Ele não está se movendo. Não está respirando. Não está...
Vivo. Não está mais vivo.
Devagar, muito devagar, a mão de Sir desce e desaba contra o peito dele.
— Meira!
Alguém grita meu nome, com a voz tomada pelo medo. Seguro o rosto de Sir, meus dedos sujos mergulham nos cabelos dele. Sir encara o céu, os olhos dele estão ausentes e vazios, uma expressão que marcou seu terrível significado em minha mente há muito, muito tempo. Uma vela sem chama, um céu sem sol, o olhar que as pessoas exibem quando deixam de ser pessoas, começam a ser cadáveres. Mas ele é forte demais para essa expressão, o rosto é ríspido demais, sábio demais, para suportar o mero nada que o envolve. Recuso-me a deixar Sir partir, não dessa forma, não enquanto eu sempre, sempre precisarei dele.
— William — digo, choramingando, e o sacudo, o sangue de Sir escorre entre meus dedos. — Olhe para mim! Por favor, estou implorando, olhe para mim...
Tudo o que eu queria era que você me olhasse.
— Meira! — Mather escorrega para o chão ao meu lado e passa os braços em volta de meu ombro.
— Não! — Eu o arranho, empurro Mather para longe, mas ele me coloca de pé à força. — Não!
Cambaleamos para trás, tropeçamos em outro cadáver. Como Sir, encarando os bolsões de céu azul entre vazios nos destroços que pairam, apenas mais uma baixa da guerra de Angra.
Empurro Mather para longe, o ódio pulsa, fresco, diante do nome de Angra. É culpa dele. Tudo isso, a ganância e o condutor dele e Inverno estar fraco, tão fraco...
Os braços de Mather me deixam por tempo o suficiente para que eu me vire de volta para Sir e estenda a mão uma última vez para ele.
Por favor, você não pode morrer agora.
Frio percorre meu braço, dispara das pontas de meus dedos. Consigo senti-lo rastejar pelo campo de batalha até o corpo de Sir, espalhando-se como geada pelo chão. Ele toca cada vaso sanguíneo, cada nervo, transformando tudo ao meu redor em um campo de gelo. É essa a sensação de choque? É essa a sensação de ter um pedaço de quem você é arrancado de sua vida... frio e desolador?
Mather me puxa para longe, como se nada tivesse acontecido.
— Meira, precisamos correr! Não é seguro!
Eu o encaro. Mather também não sente frio? Como pode não sentir? Mas o pânico dele, o modo como me arrasta pela batalha, me diz que Mather não sente nada.
Disparos de canhão perfuram o ar, girando e se contorcendo na poeira, e reajo sem pensar — empurro Mather com o ombro, atirando-o, estatelado, ao chão, quando a terra ao meu lado explode. A leveza retorna, me erguendo mais e mais, me chocando contra o chão ensopado de sangue. Outra coisa estala em meu peito e a dor irradia. Tento me levantar para ver onde aterrissei, mas só consigo me erguer sobre os cotovelos antes que a escuridão me envolva na forma de dor lancinante. E conforme ela desce, vejo Mather muito longe, gritando, sendo arrastado na direção de Bithai por alguns dos homens de Noam.
— Meira.
Uma sombra recai sobre mim. A princípio, parece Sir, mas não pode ser Sir, jamais poderá ser Sir de novo, e choro diante da terrível verdade disso.
A sombra se agacha. Ele me olha com escárnio, um movimento doentio que destoa dos homens que choram por suas vidas por detrás dele, contrasta com Mather sendo puxado para a segurança. Destoa de minha descarga de terror quando reconheço o rosto.
Herod.
— Você roubou algo de mim — sussurra ele. — Está na hora de eu tomar de volta.
Quando ele se agacha, dor e medo e exaustão me percorrem, atirando tudo à escuridão.

Um comentário:

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!