26 de janeiro de 2019

Capítulo 17

Meira

CERIDWEN DISPARA PARA frente, liderando o caminho de volta pelas fileiras de vinho — e na direção do grito. Os pensamentos me abandonam, dando espaço ao instinto conforme disparo atrás dela.
O grito de Theron some no silêncio eterno da adega. Da última vez que o ouvi gritar desse jeito, estávamos no salão do trono do palácio de Abril, Angra de pé diante de Theron, quebrando suas costelas uma a uma com a Ruína...
Talvez algum lampejo de memória permaneça de meu ataque de pânico. Talvez o grito de Theron na escuridão de Juli seja parecido demais com o grito que ele deu na escuridão do palácio de Angra. Mas quando Ceridwen dispara por uma esquina e para subitamente, passo direto por ela, a preocupação se dissipando por trás da concentração que se intensifica em minha mente.
A escada surge duas fileiras adiante, luz tênue entra na adega. Meus olhos se fixam em uma silhueta encostada na lateral esquerda das estantes de vinho diante de nós. É preciso apenas um segundo para que eu saiba que é ele — o dourado e o verde do casaco — e fixo o corpo diante de Theron, meus instintos latejando diante do fato de eu estar desarmada. Indefesa, de novo, forçada a apenas assistir enquanto...
Mas não há ameaça aqui.
Solto o fôlego, expirando rapidamente, suor escorre em gotas frescas por meu corpo a cada segundo que se passa enquanto avalio as prateleiras, o chão, até mesmo o teto. Theron toca meu ombro e imediatamente me viro.
Sangue reluz na mão dele como um farol, brilhante e fresco, o que lança uma pontada de preocupação por mim.
Theron sacode a cabeça.
— Não, não é meu. Quando percebi que você tinha saído, vim procurar e... — As palavras dele se detêm na garganta seca quando Theron ergue a mão coberta de sangue para apontar para o início do corredor, para um lugar em que nem a lanterna de Ceridwen, nem a iluminação da escada alcança. — Tentei ajudá-lo, mas ele já estava morto.
Olho para o fim do corredor, as batidas do coração mais lentas, braços e pernas relaxando.
Tudo parece que acontece no limite de um sonho... Os soldados cordellianos que correm escada abaixo, segurando lanternas que tornam aquela adega escura tão clara quanto o dia, fazendo com que cada sombra se esquive da luz. O alívio por mais alguém ter ouvido o grito de Theron; mais alguém poderia tê-lo ajudado caso eu não estivesse aqui. Ou se eu estivesse, mas fracassasse.
Tudo isso se dissipa quando me ajoelho ao lado do homem. Não é veraniano — a luz das lanternas cordellianas é refletida no rosto dele, revelando cabelos embaraçados como gavinhas pretas ao redor da pele morena, cabelos que escondem um V marcado na bochecha esquerda. O homem fita com olhos de avelã vítreos as fileiras de garrafas de vinho empoeiradas, alheio ao sangue reluzente que envolve o pescoço dele como um colar asqueroso. Calor sobe ondulando de seu corpo, o calor da vida que se esvai, e o sangue ainda não secou, brilha com um tom de rubi intenso.
Só está morto há minutos.
Fico de pé, levo a mão à boca. Ele foi assassinado enquanto estávamos ali embaixo. Angústia se agarra a cada músculo, até que minha mão se abaixa, inútil. De onde ele é? Outono? Não, os olhos são claros demais. Ventralli? Ah, por favor, que não seja ventralliano — Theron é parte ventralliano, e não sei o que significaria para ele ver um dos paisanos da mãe reduzido àquilo.
— Minha rainha? — Garrigan puxa meu braço, tentando me afastar do corpo.
Eu o empurro, com uma das mãos em punho, a outra segurando a corrente da chave com tanta força que o metal ameaça perfurar a pele. Theron limpa o sangue do homem da mão com um retalho, os soldados fazem as mesmas perguntas que Garrigan sussurra baixinho para mim:
— Está bem? Tem certeza?
Não consigo perguntar se o homem é ventralliano. Se Theron já não percebeu isso, não quero informar. Talvez ele não tenha visto as feições do cadáver no escuro. Talvez não olhe, e possa apenas supor que a vítima seja veraniana.
Não que isso torne a morte menos perturbadora.
Ceridwen é a única que não parece se importar com nenhum dos vivos. Ela olha em nossa volta, com uma expressão solene de pesar esperado, até ver o rosto do homem.
Ceridwen cambaleia para trás, solta a lanterna, a estrutura de metal quica aos pés dela.
— Princesa? — começo a dizer, mas Ceridwen se vira, lutando para se recompor no limite da luz das lanternas. Será que o conhece? Ou está apenas chateada com a morte do homem?
Olho de novo para ele. Esse não é o escravo que a ajudou, e suspiro aliviada. Mas mesmo assim — quem era?
— Bem, isso certamente estraga a festa.
Meus ombros ficam tensos e olho para trás e vejo Simon no fim do corredor, logo ao lado do corpo do homem. Meia dúzia de membros da corte o circundam, nenhum deles é da guarda, a maioria segura taças de vinho e nos observa como se fôssemos mais uma atração organizada para o entretenimento deles.
Ceridwen caminha na direção de Simon, e seguro o braço dela antes que consiga considerar o motivo.
— Você fez isso... — resmunga Ceridwen para o irmão, mas se detém. O olhar dela passa para minha mão em seu braço e Ceridwen se desvencilha, vai para as fileiras adiante.
Simon cambaleia para frente, a camisa de seda laranja reflete a luz, o condutor dele emite um brilho escarlate tênue conforme Simon gesticula com o braço no ar fazendo algo como uma dança. Ele para diante de mim, com os olhos envoltos em um mar de veias inchadas e vermelhidão induzida pelo álcool.
— Rainha de Inverno. — Simon começa a dizer, inclinando-se adiante. — Por que veio até Verão, se não para participar de tudo que temos a oferecer? Certamente não para... — Os olhos de Simon se voltam para o corpo e o comportamento inebriado se desfaz, revelando alguém observador, calculista. Mortal. — Isso.
É atuação. Ele pode estar bêbado, mas não está menos no comando do reino do que Noam de Cordell.
Essa percepção me enoja ainda mais. Porque Simon lembrará que desapareci da comemoração dele; lembrará que Inverno afrontou Verão.
E lembrará que me encontrou ali embaixo, na adega de vinhos, com um cadáver.
— É claro que não. Descemos até aqui — engasgo em meio à mentira — para ver a ampla coleção de vinhos de Verão.
Theron se vira e olho para ele, ainda impulsionada pelo instinto de mantê-lo a salvo. Por isso não percebo até agora, tarde demais, muito tarde, que Theron pode ver a chave pendendo da corrente em minha mão.
Ele olha para baixo, enrijecendo o corpo ao ver a chave. Não precisa proferir uma palavra para que eu entenda tudo o que sente. Está estampado claramente no rosto dele.
De olhos arregalados, com os lábios se elevando em um meio sorriso — alegria surpresa quando não digo nada para impedir as suposições.
Então, a expressão de Theron relaxa, a boca se abre com uma mágoa confusa por eu ter saído à procura sem ele, por eu não estar fazendo nada para confirmar ou negar a importância do que está em minha mão.
Simon cambaleia na minha direção.
— Eu ficaria feliz em lhe oferecer um tour! — A atenção de Simon passa para minha mão por um segundo, embora obviamente não consiga entender por que ela chama a atenção de Theron. — O príncipe Theron e eu estávamos no meio de uma discussão interessantíssima antes de percebermos que você tinha partido. Algo sobre unificar o mundo? Meta grandiosa para um reino Estação.
Semicerro os olhos para Theron. Achei que estivesse esperando a viagem às vinícolas de Verão para contar a Simon sobre o tratado. Por que contou esta noite?
Theron não me dá indicação de por que os planos podem ter mudado — apenas continua encarando a chave.
Movo os dedos ao redor da corrente, os elos de metal se enterram em minha palma quando tento — e fracasso — escondê-la agora.
— Alguém deveria... — Indico o corpo, sem saber o que quero dizer. Cobri-lo? Levá-lo para ser preparado para o enterro ou cremação ou o que quer que façam com corpos em Verão? Será que fariam isso por ele, no entanto, se é um escravo? Repulsa me corrói. Odeio o fato de precisar ponderar tais coisas nesse reino.
A reação de Simon enfatiza minha preocupação. Ele gesticula com a mão como se o morto não passasse de uma mancha de sujeira no chão.
— O que estava dizendo, príncipe Theron? Há um tratado a ser assinado?
Olho para Simon com raiva enquanto Theron pisca, assente, impedido de olhar em minha direção pela menção do corpo e da conversa de negócios de Simon tão perto de uma vítima de assassinato.
— Nós... — Theron pigarreia. — Continuaremos para Yakim e Ventralli a seguir. E, por fim, para Paisly e Primavera. Tenho um... — Os olhos dele se abaixam para o corpo, mas imediatamente se elevam de novo e Theron se vira para que não o veja. — Redigi um tratado, delimitando as requisições de um mundo unido. Apoio durante tempos de dificuldade; um conselho que se reunirá quando a guerra ameaçar...
Simon aplaude, interrompendo. Ele sorri, um sorriso alegre que reluz como a faísca de uma chama, e logo todos os membros da corte sorriem também.
Nenhum deles se importa com o cadáver?
Simon ergue a taça em algum tipo de brinde. O condutor dele emite luz vermelha tênue, mais fraca do que o violeta intenso do condutor de Noam.
Ódio se acende de novo. Simon está usando o condutor para alimentar o impulso de celebração dos membros da corte. A única coisa que sentem, a única coisa que sempre sentirão, mesmo ali, mesmo com sangue manchando o chão.
— Muita ambição mesmo. — Simon gargalha. — Nunca fui de recusar um convite de um reino Ritmo. As festas, entende. E você se divertirá muito conosco, principalmente em Ventralli, não vai, irmã?
Encolho o corpo em pânico. Não estávamos convidando Simon para ir junto...
Mas Theron não o corrige.
Ceridwen, ainda de costas para nós, olha com raiva por cima do ombro, o olhar ríspido fixo em Simon. Ela vai embora, desaparecendo na escuridão da adega.
Simon sorri de novo, como se a reação de Ceridwen fosse exatamente o que ele queria.
— Excelente — diz Simon, dando um sorriso conspirador. — Vai amar Yakim, rainha Meira, fazem o melhor uísque! Mas por enquanto, há vinho a se beber! — E com isso ele volta para o grupo de membros da corte, provavelmente esperando que sigamos conforme sobe as escadas.
Assim que os veranianos deixam a adega, viro para os guardas de Theron, os únicos para quem posso dar algum tipo de comando.
— Podem cuidar dele? — pergunto, voz baixa, voltando os olhos uma vez para o corpo.
Os soldados assentem sem fazer escárnio ou discordarem da rainha inverniana subalterna. Pelo menos se importam. Isso aumenta meu ódio desse reino — Verão está me fazendo gostar um pouco mais de Cordell em comparação.
Enquanto os homens se ocupam em pegar alguém para limpar o corpo, puxo Theron em direção às escadas, colocando uma fileira de prateleiras entre o homem e nós.
— Vai deixar que venham conosco? — pergunto, abaixando a voz o suficiente para que apenas Theron ouça. — Não precisamos...
Ele pega meu braço e ergue minha mão.
— Onde conseguiu isso?
A chave oscila junto a mim, os dedos de Theron pressionam meu punho. Assim que a chave toca minha pele, uma cena lampeja diante de meus olhos.
Estou na cela de novo. Angra se agacha diante de Theron; do cajado, sombras pretas escorrem e sufocam a sala. Theron se balança para a frente, inspirando fundo e exalando fôlegos entrecortados. Ele pisca, desorientado, até que os olhos se fixem em Angra, e o olhar de Theron me faz desabar.
Não é medo. Não é resiliência. Nem mesmo raiva.
Ele está exausto.
— Ele não... a salvou... — Theron ofega, suor escorre pelo pescoço dele. Há quanto tempo Angra o está torturando?
E torturando com o quê?
Angra estende a mão e toca a bochecha de Theron com a palma. Recuo, batendo com os ombros na parede de pedra. Angra hesitou. Antes de tocar Theron. O mais raro segundo de pausa, como se não tivesse certeza.
Angra nunca está — ESTEVE — incerto ou foi cauteloso. Com relação a nada.
— O que é isso? — grito, embora nem Angra nem Theron prestem atenção.
— Ele poderia tê-la salvado — sussurra Angra, e sua malícia habitual desaparece. A voz parece errada sem isso, vazia, uma flor sem pétalas. — Ele tinha o poder. Poderia tê-la enviado de volta ao reino... Poderia tê-la ajudado a se curar. Mas não fez isso. E muitos como ele existem neste mundo, muitos que não merecem poder. — Angra inclina o corpo para perto. — Quem merece poder, príncipe Theron? Quem?
Tropeço, escorrego nas pedras empoeiradas da adega, tão desorientada quanto Theron estava na... visão? Lembrança? Não sei. Não quero saber... Mas sei.
Isso aconteceu com ele. As cenas são lembranças de Theron, por mais reprimidas ou escondidas que estejam pela magia de Angra. A chave da Ordem, a primeira de três para abrir a porta — é um condutor? Ou tem magia, pelo menos, magia como a da barreira.
Pela neve. Theron a pegou. Em algum momento durante meu estado de distração, ele pegou a chave de mim. Avanço de volta até Theron, mas ele avalia a chave, passando-a entre os dedos, alheio ao meu pânico. Não vê nada quando a toca — reagiria de alguma forma se visse.
Na escuridão da adega, com suor brilhando na pele, ele quase parece o Theron da visão. Partido, assustado, pequeno. Não consigo reunir forças para arrancar a chave de Theron — e não quero arriscar tocá-la e ver mais do veneno que Angra bombeou para dentro dele. Theron não se lembra daquilo; o que quer que a mente dele esteja fazendo para lidar com o que aconteceu, Theron precisa disso. E no momento, ele precisa dessa chave, precisa dela, na forma como a agarra ao punho e suspira, como se parte do peso nos ombros dele tivesse se aliviado.
— Você a encontrou — diz Theron. — Onde?
Meu corpo fica inerte, com medo de se mover, com medo de que qualquer coisa inesperada possa destruí-lo.
— Em um barril de vinho.
Parte de mim não quer mentir para ele, não quer esconder a verdade.
Mas a outra parte de mim, a parte da rainha calculista, se sobressalta em aviso: Ele saberá que saiu procurando sem ele. Você poderia ter dito que a encontrou por acaso.
É claro que isso não é nada inacreditável.
Discuto comigo mesma. Sacudo a cabeça e Theron insiste, sem se ater a nada ruim. Como sempre.
Mas conforme começa a falar, parte dos homens de Cordell voltam com escravos veranianos que se agitam para cuidar do homem morto. Será que tentarão descobrir quem o matou? Esse reino é perigoso. Poderia ter sido qualquer um, principalmente com a festa lotada acima.
— Sei que não gosta de Verão — diz Theron. — Mas precisaremos de uma frente unificada antes... — Ele para, abaixa a voz até virar um sussurro. — Antes de o abismo de magia ser aberto. Meu pai não vai distribuir a magia igualmente de boa vontade... Eu sei disso. Sei que lutará. Por esse motivo estou fazendo isso. Precisamos de um mundo unificado para obrigá-lo a se submeter.
Recuo, com os olhos percorrendo Theron. A posição do maxilar dele, o ângulo acentuado dos ombros. Algo na visão mais recente incomoda minha mente. Poder — Angra continuava dizendo isso, de novo e de novo.
Ele tinha todo o poder.
Isso é o que Theron quer mais do que qualquer coisa, não é? Não ser impotente.
Mas embora a meta de Theron possa ser gloriosa, só consigo ver falhas nela. O modo como, por fim, a magia será mal usada; o modo como, ainda que lutemos pela paz entre todos os reinos, sempre restarão diferenças que não poderão ser mitigadas com palavras suaves.
A meta que tenho é muito diferente — magia usada com o mínimo de frequência possível. Nenhum risco de a Ruína ser criada; nenhum medo de líderes instáveis perderem o controle sobre sua magia e ferirem pessoas inocentes; nenhum medo de governantes cruéis escravizarem reinos inteiros com poder sobrenatural.
Não consigo mais mentir.
— Não acha estranho Simon ter concordado tão facilmente?
Theron faz que não com a cabeça.
— São os reinos Ritmo que precisarão ser convencidos, os reinos Estação sempre estiveram desesperados pela paz. Nunca achei que não conseguiríamos convencê-los.
Isso não explica por que Simon concordou tão rapidamente — o reino dele, embora Estação, sempre esteve longe de qualquer conflito, feliz e bêbado fora da guerra, apenas envolvido em fazer compras ocasionais de Primavera. Também são o único reino Estação a ter uma aliança permanente com um reino Ritmo, por mais que seja oculta ou oficiosa. Então, por que Verão sequer se importaria em unir todos, quando o lugar deles no mundo está a salvo?
Levo a mão à testa, perguntas acrescentam tonteira ao meu crescente cansaço. Sem mais uma palavra, sigo para as escadas. Deveria ir atrás de Ceridwen? Encontrá-la ali embaixo... Jamais conseguiria me orientar. Ela pode, no entanto. Ficará bem. Espero.
Com Theron de um lado e Garrigan do outro, deixo a adega.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!