26 de janeiro de 2019

Capítulo 16

Mather

— RELAXE O pulso e expire quando soltar. — Mather posicionou o braço de Hollis, alinhando a faca na mão com o alvo nos fundos da sala. — Embora sua mão atire, seu corpo inteiro deve sentir. Seus ombros, a cintura, as pernas. Vá até o final.
Com uma expiração, Hollis deixou que a lâmina disparasse, observou enquanto girava em torno de si até atingir a parede com um ruído trêmulo, cinco linhas longe do círculo central. Uma expressão de desapontamento tomou o rosto dele, mas Hollis não disse nada, apenas caminhou até o fim da fila para arrancar a faca da parede.
— Ele está piorando — comentou Kiefer da mesa sobre a qual estava agachado. Ela ficava na porta da frente do chalé abandonado, abrindo o espaço de toda a metade dos fundos da sala ao mesmo tempo em que impedia que qualquer um entrasse sem ser notado.
— Se acha que pode fazer melhor — disse Mather, então estendeu uma faca para ele, com o cabo virado para Kiefer.
Mas Kiefer apenas sacudiu a cabeça e se apoiou mais na parede, com as pernas abertas sobre os sulcos e as manchas do tampo da mesa.
— Vocês não precisam de minha ajuda para serem mortos. Aquele capitão Brennan vai descobrir tudo, e ficarei feliz ao assistir o ex-rei Mather descobrir quais são as repercussões para pessoas de verdade, não realeza.
Mather abaixou a faca.
— Você é um babaca, Kiefer.
— Fui a vida toda — respondeu ele, mas apesar de ele estar de olhos fechados, Mather viu os lábios do garoto estremecerem. Movimentos como esse, sabendo que Kiefer não passava de palavras e atitude, eram tudo que impedia Mather de repetir a briga anterior no celeiro de treinamento.
Mather verificou o restante da sala. Hollis estava de frente para o alvo de novo, enquanto, alguns passos à esquerda, Trace e Phil lutavam naquilo que se passava por um triste ringue de espadas improvisado. Nada além de um círculo desenhado no piso de tábua com cinzas, a linha borrava em todas as sessões conforme os garotos deslizavam pelo limite para evitar as lâminas de treino um do outro, tiras finas de madeira retiradas das paredes do chalé.
Fazia quatro dias desde que William aplicara a ordem de Noam para cessar o treinamento dos invernianos — algo que o próprio Mather havia sugerido pouco tempo antes. Mas ele apenas quis dizer que era inútil treinar homens que mal conseguiam segurar comida nutritiva no estômago, quem dirá segurar uma lâmina. Os mais velhos, os frágeis. Ele não quis dizer que deveriam todos parar — e, sinceramente, a maior parte do que Mather tinha dito desde que tinham retornado a Inverno fora por raiva. Tudo que dissera a Alysson, a William — pelo gelo, até mesmo a Meira.
Mas Mather tinha 16 anos de provas de que até mesmo o menor dos grupos podia infligir danos. Os seis eram melhores do que nada. Bem, cinco, mas Mather sabia que Kiefer cederia e começaria a treinar em algum momento — o irmão dele, Eli, já havia cedido, e estava sentado junto à parede ao lado de Hollis, observando-o trabalhar cada disparo.
Até então fora fácil se esquivar de William — tão fácil que Mather se perguntou por que não tentara fazer isso antes. Contanto que intermitentemente passasse no chalé que dividia com ele e Alysson ou fosse visto reconstruindo uma ou outra estrutura, Mather era deixado em paz.
Conseguir suprimentos era outra história, na qual ele ainda estava trabalhando — as únicas armas utilizáveis em Inverno estavam com os cordellianos, e não podia roubá-las sem chamar atenção, mas pensaria em alguma coisa. Já conseguira roubar algumas facas nas refeições.
Trace golpeou a espada de Phil. A força partiu a lâmina de Trace ao meio; um pedaço ficou na mão dele, o outro saiu girando pelo ar. Mather xingou baixinho por perder outra frágil espada. A mão de Trace pegou o outro pedaço de madeira no ar.
Agora equipado com dois pedaços de madeira da extensão de um antebraço, falsas facas em vez espadas de mentira, o rosto de Trace se iluminou. Ele atacou Phil, que mal conseguira recuperar o equilíbrio e segurava a espada com os braços trêmulos. Trace golpeou e avançou, uma confusão de madeira e braços que fez com que Phil cambaleasse para trás.
Por fim, Phil desabou, a espada saiu quicando para fora do círculo quando o garoto estendeu os braços para o alto.
— Eu me rendo!
Trace recuou, com o rosto sujo de suor. O olhar dele se ergueu na direção de Mather e Trace sorriu, ofegante.
— Sóis pretos, isso foi bom.
Mather sorriu.
— Você definitivamente deveria lutar com facas — disse ele, e assentiu para Hollis, que observava fascinado. Todos tinham compartilhado essa expressão pelo menos meia dúzia de vezes desde que Mather tinha começado aquela empreitada insana com o grupo, quando alguém bloqueava um golpe, quando alguém acertava um alvo. Mais frequentemente, compartilhavam o lampejo de desapontamento que Hollis exibiu ao errar o alvo. Precisava aproveitar momentos como aquele, quando alguém era bem-sucedido. Trace marchou para fora do ringue de espadas, ainda sorrindo ao se juntar a Hollis.
Phil fez uma careta para Mather.
— Isso quer dizer que preciso lutar com você de novo? Não acho que meu orgulho pode aguentar tantas derrotas em um dia.
Mather riu e caminhou para a frente quando outra pessoa chegou antes dele no ringue. Feige, que não passava de uma sombra silenciosa e observadora no canto, sorriu para Mather ao pegar a espada largada de Phil.
— Eu lutarei com nosso ex-rei — disse ela.
Mather se certificou de que Feige soubesse que era bem-vinda a treinar, mas Hollis sempre dava uma desculpa. Mather jamais conseguia entender por que ele não queria que a irmã lutasse, ou por que Feige obedecia ao irmão quando mostrara tanta força naquela primeira noite. Desde então, na verdade, Feige não passava do apelido tão adequado que Phil lhe dera — um fantasma que pairava logo além das interações do grupo.
Hollis passou a faca para Trace.
— Feige, não acho que é...
— Não desafiei você — respondeu ela, com a voz fria. — Desafiei nosso ex-rei.
Mather sentiu o olhar de Hollis em si, uma presença pesarosa à direita. Os músculos dele se contraíram, e Mather já sabia que faria aquilo. O soldado dentro dele precisava saber que tipo de lutadora era Feige, por que Hollis a mantinha acorrentada, se aquele lampejo de esquisitice nos olhos da menina se estendia para além de palavras sábias.
Sem dizer nada, Mather pegou um pedaço de madeira conforme Phil saía do caminho com dificuldade. Hollis sibilou em protesto, esperando que Feige o obedecesse, esperando que Mather fosse mais esperto. Todos os demais caíram em silêncio, e até mesmo Kiefer se inclinou para a frente com interesse.
Feige entrou no ringue, avaliando Mather. Ele a observou também, mantendo os pés do lado de fora da linha de cinzas. As roupas da menina pendiam, largas, em volta da silhueta magricela — o tecido largo seria um impedimento para ela, assim como os cabelos soltos. Feige não percebia esses obstáculos, ou não se importava.
Um rompante de frio se acendeu em Mather. Ansiedade misturada com adrenalina, e ele entrou no ringue.
Feige avançou contra Mather, a espada cortando o ar. Mather dançou para trás, permanecendo defensivo. Feige tinha graciosidade, os movimentos eram fluidos e metódicos, como se tivesse ensaiado cada golpe antes de entrar no ringue. Talvez aqueles dias observando os garotos treinarem tivessem permitido que a garota desenvolvesse a própria série de ataques. Qualquer que fosse o motivo, Feige lutava com uma ânsia que Mather jamais vira antes. Ou — ele vira, mas jamais em alguém que não fosse um soldado inimigo — sede de sangue e desespero e fome por uma luta. Mather gostava dos gestos de uma luta, de usar os músculos de forma controlada e ativa, mas aquela garota gostava da sensação de lutar, da ameaça de derramar sangue com as próprias mãos.
Essa percepção fez com que um leve medo percorresse Mather, e ele devolveu os golpes de Feige. Por mais que estivesse ansiosa para lutar, ainda não era páreo para ele, e Mather viu a menina perceber isso conforme ele, devagar, a fazia recuar.
A alegria nos olhos de Feige se tornou confusão, o sorriso dela sumiu, tornando-se uma expressão de raiva. Agora, Feige lutava com ódio, o que só levava a acidentes. Mather precisava acabar com aquilo antes que ela se ferisse, ou ferisse um dos garotos fora do ringue, os quais observavam de olhos arregalados.
Por isso Hollis não queria que Feige lutasse. Talvez os outros poderiam estar magoados e feridos, mas nenhum deles permitia que isso interferisse no treino — na verdade, o treinamento parecia ajudar a aliviar parte do sofrimento. Mas Feige colocava cada momento do passado na luta, até que Mather não conseguisse entender se a menina sabia se aquilo não era real. Ou se talvez estivesse determinada a matá-lo apenas para ver se levar aquilo até o fim acabaria com a dor dela.
Mather agitou a espada no que teria sido um golpe mortal, a madeira atravessou um trecho desprotegido e se chocou contra o pescoço exposto de Feige. Mas ela não se rendeu, apenas bateu na espada de Mather para afastá-la e avançou. O rapaz piscou, surpreso por tempo o suficiente para que a garota golpeasse as pernas dele. Feige desferiu um golpe sob Mather e avançou para as costas dele. A espada de mentira de Feige machucou onde a garota a pressionou no pescoço de Mather, puxando a cabeça dele de modo que ele olhasse para cima, para ela, de joelhos.
Mather puxou Feige por cima da cabeça dele, atirou a menina de costas no chão e a prendeu com um dos braços junto ao peito dela. Ele empurrou a espada de Feige para longe e soltou a própria, com o maxilar contraído.
— Você poderia ser uma boa lutadora se aprendesse a controlar a raiva — disparou Mather.
Quando Feige o olhou com ódio, os instintos de Mather gritaram. Certa vez, quando crianças, Meira o convencera a roubar uma garrafa do vinho veraniano de Finn. Quando William os encontrou, pegou a garrafa pela metade e a quebrou na fogueira e o vinho incitou as chamas, de línguas laranja constantes para um rompante de calor que rugiu. Mather via aquilo agora em Feige — chamas disparando mais para o alto, incitadas por medo primitivo.
Feige grunhiu para Mather.
— Saia de cima de mim.
Antes que Mather pudesse reagir, Hollis avançou e o puxou para longe. Mather cambaleou ao se levantar quando Feige ficou de pé, de ombros curvados, com os cabelos marfim selvagens em torno do rosto.
Mather deu um passo adiante, mas Hollis estendeu a mão, os dedos dele se enterraram no braço de Mather.
— Feige, você terminou — disparou Hollis.
— Não. — Mather sentiu todos ao redor arfarem, confusos. — Não podemos ignorar as coisas porque temos medo delas, sua irmã precisa aprender a controlar a raiva.
— Não preciso de nada — grunhiu Feige. — Estou bem.
— Você não está bem. Nenhum de nós está. E até admitirmos isso...
Mather parou e levou a mão ao bolso, fechando-a no entalhe que guardava ali. Quando Mather o pegou, Feige permaneceu calada, encarando a própria criação.
— Filho do Degelo — sussurrou Mather. Ele fechou os dedos em volta do híbrido de floco de neve e flor selvagem, inclinando a cabeça para encarar Feige. Quando ela o encarou de volta dessa vez, parecia quase tranquila, e Mather não acreditou que uma garota pudesse mostrar uma diversidade tão grande de emoções em tão pouco tempo.
— Você estava certa — disse ele. — Nenhum de nós pertence a Inverno, não é? Todos tentam se agarrar a um Inverno que conheceram um dia. Mas tais coisas não nos importunam; o Inverno que conhecemos sempre foi de nossa criação, um reino que construímos em nossos sonhos. Então, você está certa, Feige. Somos todos — Mather parou, girando o entalhe de floco de neve e flor selvagem para mostrar a frase no verso — Filhos do Degelo. Nosso próprio híbrido do passado e do futuro.
Um ínfimo e delicado sorriso percorreu os lábios de Feige, o que surpreendeu Mather tanto quanto as mudanças abruptas de humor da menina; ela era uma tempestade de emoções.
Exatamente como a garota selvagem que o pusera em todo tipo de problema quando criança, uma garota cujos olhos brilhavam com a mesma ânsia desesperada e ofuscante de vencer.
Alguém que sorrira para Mather daquele jeito apenas uma vez nos últimos três meses — porque ele escolhera não fazer com que ela sorrisse daquele jeito de novo. Mather fechara a porta para Meira, trancara a fechadura com força. Tudo que o aguardava agora eram aquelas pessoas; talvez pudesse ajudá-las onde não podia mais ajudar Meira.
Onde jamais conseguira ajudá-la.
— Filhos do Degelo — repetiu Phil, coçando o queixo. — Como nosso grupinho?
Os olhos de Eli brilharam com ansiedade, e ele se virou para Kiefer, que ainda estava na mesa, na entrada da sala. Kiefer parecia rever aquelas palavras na mente, testar a força delas, demonstrando a mesma hesitação que os outros garotos. Como se precisassem pertencer a algo, mas ninguém quisesse ser o primeiro a admitir essa necessidade.
Por fim, Trace sorriu.
— Gostei.
Phil gargalhou e envolveu o pescoço de Mather com o braço.
— Os Filhos do Degelo, liderados pelo destemido ex-rei de Inverno! Vamos infligir medo aos corações de nossos inimigos.
— E esperança para o futuro — acrescentou Mather.
Isso deixou Phil sério e ele soltou o pescoço de Mather.
— Sim, faremos isso.
O restante do grupo pareceu tão animado quanto ele com a ideia, sorrindo e fazendo piadas a respeito enquanto voltavam a treinar. Até mesmo Kiefer se aproximou, cauteloso, da pista de atirar facas e ficou ao lado do irmão e de Phil, todos observando Trace atirá-las.
Feige retornou para o assento dela no canto, onde pegou a faca de entalhar e se curvou de novo. Quando Mather se voltou para longe da menina, Hollis estava à espera ao lado dele.
— Você é nosso líder, meu senhor — sussurrou Hollis. — Não abuse desse poder.
Mather engoliu em seco.
— Não abusarei. Precisamos disso, Hollis. Precisamos encarar o que somos. — Ele indicou Feige. — Tudo o que somos, principalmente as partes que doem.
Hollis o encarou, a incerteza lhe tomava o rosto. Mas o garoto assentiu e se juntou a Feige no canto. De alguma forma, aquele silêncio era mais intimidador do que se Hollis o tivesse ameaçado. Feige podia ser uma tempestade de emoções, mas Hollis era o centro daquela tempestade.
Eles superariam aquilo, no entanto. Tinham um ao outro agora.
Como o nome recém-adquirido sugeria, todos degelariam.

3 comentários:

  1. SÓ EU QUE SHIPPO O Phil COM O MATHER
    KKKKKK,
    ACHO QUE TENHO PROBLEMAS MENTAIS LKKKKKK
    ASS:Janielli

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  2. Com certeza kkkk
    Espero que ele não se engrace com essa menina aí, ele e a Meire e o casal perfeito .

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Boa leitura, E SEM SPOILER!