26 de janeiro de 2019

Capítulo 15

Meira

FRIO AGRADÁVEL E maravilhoso preenche minhas veias, tomando conta de mim da cabeça aos pés. Grito, tão grata pela sensação que por um momento gélido tudo mais desaparece.
Um rosto surge em meu campo visual. Não é Angra, não é Herod — é Ceridwen.
Ela segura meus ombros.
— Meira — grita Ceridwen para mim, com a voz distante. — Calma!
Sangue ruge em meus ouvidos, meus pulmões parecem apertados como se fossem pisoteados por uma horda de cavalos, esvaziando e mal se enchendo antes de esvaziarem de novo. O frio recua, minha visão é incapaz de processar o que vejo. Ceridwen, sim, mas também... neve?
Flocos brancos fofinhos flutuam pelo ar entre nós.
Estamos em Verão... Não deveria... Não...
Ceridwen se agacha com a expressão severa.
— O que você fez?
A pergunta sai afiada e ríspida, e apenas me sento ali, com as mãos na neve fofa que se acumula no telhado, meu corpo estremece com frio e terror.
Neve. Em Juli.
Eu fiz nevar em outro reino.
A magia do condutor está ligada a cada terra, como a cada governante — afeta apenas o reino ou o povo designado. Eu não deveria ter conseguido conjurar neve em Verão, mas aqui estou, sentada em pilhas dela, observando os flocos evaporarem ao calor implacável.
— Eu... — começo a dizer, erguendo um punhado de neve. — Eu não...
— Minha rainha?
Fico de pé e disparo pela inclinação do telhado. Garrigan ergue a mão para me segurar se eu cair, firme nas caixas abaixo. Suor e poeira sujam o rosto dele, e Garrigan olha por cima do ombro para o pátio. Os auxiliares do estábulo se foram, não resta nada além das garrafas de vinho vazias à luz tremeluzente da tocha.
— Eles... se foram — digo, ofegante. — Eles não viram? Você viu...
Indico a neve, que agora parece nada além de uma poça no telhado.
Garrigan me dá um olhar contido.
— Se viram alguma coisa, acho que estão tão bêbados que será esquecida. — Mas, minha rainha — Garrigan para, expira e, quando acho que posso perder o controle se precisar explicar a ele, Garrigan suspira —, você está bem?
Obrigada.
— Sim — digo, antes que saiba a resposta.
Estou?
Esfrego o peito, acalmando a magia suavemente.
Não, não estou bem.
Ceridwen semicerra os olhos para Garrigan antes de olhar de volta para o palácio.
— Fico feliz ao ver que não durou muito na festa de meu irmão — observa ela, e se coloca de pé, com as mãos no quadril. — Mas o que, exatamente, você estava fazendo?
Os olhos de Ceridwen se abaixam para a poça aos meus pés, mas ela não fala mais sobre o assunto. O silêncio da princesa parece um desafio para que eu diga algo, ou talvez ela esteja apenas armazenando a informação para usar mais tarde contra mim.
Qualquer que seja o motivo, não estou com paciência.
Aprumo as costas.
— Estava seguindo você. Parece ser a única pessoa sã neste reino, e queria descobrir se alguém em Verão era digno da amizade de Inverno.
Pergunte sobre minha magia. Eu a desafio.
Ceridwen gargalha, a expressão dela é intensa.
— E por que me perseguiria, em vez de meu irmão? Ele é o governante deste reino, aquele com o poder.
Ceridwen cospe a última palavra, ainda sem mencionar minha magia, pelo menos não diretamente. Encolho o corpo. Estou tão cheia de política, de dizer coisas sem dizer nada. Estou cansada, e o suor seco deixa meu corpo pegajoso, e só quero correr de volta para Inverno e me enterrar em uma pilha de neve.
Mas desejar tais coisas trouxe resultados potencialmente desastrosos há poucos momentos, então afasto o desejo.
— Preciso de ajuda — começo a dizer, com a voz fraca. — E não de seu irmão. Embora não seja você quem empunha o condutor, ainda ajuda seu reino...
Paro subitamente.
Ceridwen ajuda o povo, embora não seja quem empunha o condutor. Ela os ajuda sem magia.
É isso que quero, um desejo que nem mesmo sabia que cultivava — governar Inverno sem precisar de magia. Ser rainha, ser eu mesma sem precisar depender da magia imprevisível e assustadoramente poderosa que habita meu peito.
Passamos tanto tempo lutando para recuperar a magia de Inverno que jamais considerei se seria o melhor para nosso reino, mas agora que a tenho, agora que vi o que pode fazer...
Preferiria que bastássemos como somos, apenas pessoas, nada além disso.
Os olhos de Ceridwen recaem no medalhão em volta de meu pescoço. Quando eles voltam para mim, meu corpo enrijece, preparando-se para um ataque.
— Embora eu não empunhe um condutor? — repete Ceridwen, atenta à rua além da muralha. Uma expressão de reconhecimento e irritação percorre o rosto de Ceridwen, então acompanho o olhar dela.
O escravo que Ceridwen deixou dispara para fora das sombras de um beco. Ele assente uma vez, ergue três dedos e desaparece, tudo tão rápido que eu não teria notado se a atenção de Ceridwen não tivesse recaído nele.
Viro de volta para ela e dou um gritinho de surpresa. Ceridwen está perto de mim agora, nariz com nariz, e me encara com aqueles olhos castanhos infinitos.
— Tudo bem, rainha de Inverno, quer saber o que faço? Aquele homem está providenciando ajudar com a fuga de uma família yakimiana de três pessoas. Mas você reparou nos lindos souvenires que Verão dá à propriedade do reino? O “V” marcado? Significa que não podem voltar para o lar deles. Yakim os mandaria de volta para cá. O resto das vidas deles será em um campo de refugiados, longe da civilização, e só podemos ajudar um número limitado por mês antes que Simon suspeite. Mesmo assim, ele suspeita de mim, mas preciso continuar ajudando porque não sou quem empunha o condutor.
Minha pulsação sobe até os ouvidos.
— Mas você usaria magia, se pudesse?
Ceridwen semicerra os olhos para mim e abre a boca como se estivesse certa da resposta, mas então para com o maxilar contraído.
— Por que está me perguntando isso?
Eu deveria ter esperado por essa.
— Só estou tentando entender qual é sua posição, princesa. Se é alguém... — Que tem os mesmos ideais que eu mesma; que acredita nas mesmas liberdades; que apoiaria minha intenção de manter o abismo de magia fechado. — Se é alguém em quem posso confiar — concluo.
— Como sei que você é alguém em quem eu posso confiar?
— É justo. — Cruzo os braços. — Não sabe.
O espanto de Ceridwen se intensifica, mas é mais curioso, menos afrontador. Ela olha de volta para a rua abaixo, agora vazia. Com uma expiração longa e lenta, Ceridwen massageia a pele entre os olhos.
— Meu irmão usa o condutor dele para tornar os dias nublados em ensolarados — sussurra Ceridwen.
Espero, deixando que ela fique com o silêncio. Ceridwen usa o tempo para me olhar, revelando a real exaustão na forma como os ombros dela se curvam para a frente.
— O que é... lindo. Acho. Mas ele também usa para evitar qualquer gravidez indesejada nos bordéis, indesejada por ele, entenda, não necessariamente não desejada pelos escravos. Pode escolher tais coisas, e eu costumava achar que mataria por esse tipo de poder. Mas... não. — Ceridwen dá de ombros, com as sobrancelhas franzidas. — Não mudaria quem sou. Estou tentando tanto limpar a magia de meu irmão que não gostaria de ter magia também. Combater fogo com fogo. O que, acredite, não funciona.
Ceridwen pisca, despertando do momento de confissão com um avanço ágil na minha direção.
— Então, eu juro, se uma palavra disto chegar a Simon...
— Não! — Interrompo. — Não vou. Eu...
Ceridwen não quer magia. É claro, ela diz isso agora, quando não acha que tal coisa sequer seja possível. Mas preciso confiar nela. Preciso de ajuda com isso.
O medo de Noam percorre minha mente. Se alguém familiarizado com a Ordem dos Ilustres nos ouvir mencionar esse nome, não será difícil compreender que encontramos o abismo de magia. Não que eu me importe com o motivo de Noam para mantê-lo escondido — tenho meus próprios motivos para querer que o resto do mundo permaneça ignorante.
Minha meta está mais alinhada à visão de Noam do que à de Theron.
Cheguei a um nível totalmente novo de repulsa política.
— Estou procurando algo — começo. — Algo que poderia impedir... — O fim do mundo. — ... Cordell de ficar descontroladamente poderoso. Acho que pode estar aqui, em Verão.
— Verão jamais teve negócios com Cordell. Nada deles estaria aqui.
— Não, não é algo que pertença a eles... É algo que também buscam. É imperativo que eu encontre primeiro.
A expressão no rosto de Ceridwen é de puro espanto. Olhos semicerrados, lábios entreabertos.
Resmungo e bato com o punho na testa, de olhos fechados.
— Nem mesmo sei o que estou buscando, sinceramente.
Uma chave? A própria Ordem? Qualquer coisa, de verdade, mas não faço ideia de por onde começo.
— É por isso que veio até aqui? — deduz Ceridwen. — Não para se aliar a Verão.
Olho para ela.
— Não posso dizer o mesmo de Cordell, mas prefiro ficar nua em uma tempestade de areia a me aliar a seu irmão.
Ela gargalha.
— Eu ajudaria se pudesse, rainha de Inverno. — Os olhos de Ceridwen se voltam para as poças aos nossos pés, mas ela fica calada.
Sim, definitivamente está guardando meu uso da magia como um trunfo caso eu a traia. Nenhuma de nós se sente confortável com a outra ainda, mas essa conversa é um começo.
Aceito o que puder.
Garrigan toca meu cotovelo.
— Deveríamos entrar, minha rainha.
Isso chama minha atenção para o quanto o pátio está vazio. Garrigan lê meu olhar inquisidor.
— Henn ficou no palácio para o caso de você voltar. Conall foi vasculhar a ala leste.
— Não deveriam ter se separado... — começo a dizer, mas a reprimenda desaba, inerte, aos meus pés. Fui eu quem saiu correndo sozinha.
O olhar que Garrigan me dá é incrédulo e exasperado.
— Eu sei — suspiro. Sigo para a beira do telhado e desço para a caixa ao lado dele. Passamos para o chão de terra com cuidado, e os ecos das comemorações distantes me dão um descanso suficiente para que eu reviva a noite com detalhes esclarecedores.
Não faço ideia do efeito que minha partida teve em Simon. Poderia ter sido morta, ou pior, se Ceridwen e Garrigan não tivessem me encontrado. E quando entrei em pânico e perdi controle da magia, tenho sorte de só ter feito nevar. Mas como fiz aquilo? É impossível — ou deveria ser. Cada Condutor Real pode afetar apenas seu respectivo reino.
Preciso desesperadamente de respostas. Preciso encontrar a Ordem dos Ilustres.
A culpa em meu estômago é semelhante demais à culpa que tomou conta de mim quando levei os homens de Angra de volta ao acampamento, nas planícies Rania. Depois que Sir não quis me mandar naquela missão, depois de eu assegurar a ele e a todos de que poderia fazer aquilo, fracassei mesmo assim, e precisamos abandonar nosso lar mais uma vez.
Alguém poderia ter se ferido com minha imprudência esta noite. É isso que inconsequência faz — fere as pessoas com quem me importo.
Achei que tivesse aprendido isso a essa altura.
Mas quando Ceridwen se junta a nós no chão, acalmo meu arrependimento ao saber que tenho ajuda, caso precise. Deveria ao menos descobrir o que estou procurando. Limpo o suor da testa e sigo pelo pátio, desviando de volta para a porta. Algo tilinta na minha bota e, quando olho para baixo, uma das garrafas de vinho vazias dos auxiliares do estábulo reluz com o brilho da tocha mais próxima.
Franzo a testa e me abaixo. Finn tinha algumas garrafas de vinho veraniano quando eu era mais jovem. Talvez eu tenha convencido Mather a me ajudar a roubar uma em algum momento. A embriaguez depois disso transformou a maioria dos detalhes em um borrão, mas me lembro da garrafa: o vidro de um tom marrom translúcido; o rótulo se soltando em tiras desbotadas; uma sujeira tão espessa que precisei limpar uma camada para chegar à rolha.
— É melhor curtirem essa bebedeira — grunhira Finn para Sir depois que Mather e eu fomos descobertos, quase em coma, mas rindo incontrolavelmente. — Acabaram de beber cinquenta anos de vinho do porto tawny veraniano.
Para ser justa, não bebemos todo ele — só conseguimos dar alguns goles antes de o gosto se tornar insuportável. E Sir parecera mais irritado com o fato de que Finn tinha o vinho do que com nossa bebedeira, pois ele foi em frente e destruiu a garrafa em cacos, então rosnou com Finn por ter comprado mercadoria de um reino tão corrupto.
— Eles acabaram de beber cinquenta anos...
Uma ideia toma vida em minha mente.
— Por quanto tempo se envelhece vinho? — pergunto a Ceridwen.
Ela vê a garrafa aos meus pés e a ignora. Imagino que milhares delas devem cobrir Verão de sujeira.
— Depende do vinho. Por quê?
— Qual é a garrafa mais velha em Verão?
— Temos algumas garrafas e uns barris que guardamos como lembranças dos primeiros lotes. Tem séculos, pelo menos, a esta altura. Não achei que você fosse apreciadora de vinho.
Séculos. Então... Velha o suficiente para existir quando a Ordem escondeu as chaves?
Fico de pé, batendo com as mãos nas coxas. Quanto deveria contar a Ceridwen?
— Acho... que poderia me ajudar.
— Imagino que sim. Sabe-se que o álcool tem suas utilidades.
Rio com ironia.
— Não para beber. Onde estão?
Ceridwen relaxa, indicando com a mão, desinteressadamente.
— Venha comigo.
Começo a seguir, mas paro.
— Espere... Estão aqui? Não em uma vinícola?
— É claro que estão aqui. — Ceridwen olha de volta. — O melhor vinho do reino é mantido na reserva particular de minha família desde que Verão é quente.
Não tinha esperado que fosse tão simples, mas Ceridwen começa a caminhar de novo, e a sigo em silêncio.
Ela nos leva de volta ao palácio. Paramos apenas o bastante para que Garrigan passe a mensagem a Henn e Conall de que estou segura. Ainda bem que Ceridwen evita a comemoração, nos mergulhando em alguns corredores escuros e longe do rebuliço da festa até uma escada que nos leva para o fundo do palácio. O ar fica mais fresco, grau após grau, conforme descemos, cada camada de frescor alivia meus músculos. Talvez meus invernianos e eu possamos ficar no subterrâneo durante o resto da estadia em Verão — certamente seria muito mais agradável.
Quando a escada nos leva a um espaço amplo, meu corpo fervilha com adrenalina, os olhos correm por cada detalhe, como se a própria Ordem dos Ilustres pudesse estar ali embaixo, esperando apenas por mim. Mas a escuridão se agarra às pedras, então tudo o que reconheço é o eco ressoante de nossos passos atingindo paredes muitos passos adiante.
Ceridwen ergue uma lanterna e a acende, as chamas douradas projetam luz em uma adega.
Ou mais um armazém de vinho. Fileiras e fileiras de prateleiras de madeira se estendem em todas as direções, com mais para além do alcance da lanterna. Cada prateleira tem garrafas envoltas em poeira ou barris empilhados em fileiras organizadas. O odor pungente de carvalho paira juntamente do fedor almiscarado do tempo, confirmando que esse lugar aguentou gerações de tumulto e guerra, batalha e severidade. Um lugar intocado há décadas — ou, espero, séculos.
— Bem-vinda à reserva Preben — diz Ceridwen, com o tom de voz áspero, e acena para que prossigamos quando ela se abaixa sob uma fileira, a luz da lanterna passeando por garrafas cobertas de poeira. Garrigan e eu seguimos em silêncio, cada passo levanta poeira.
Esquerda, esquerda, direita, esquerda — Ceridwen faz tantas voltas que sei que não conseguirei encontrar o caminho sozinha. Essa adega deve se estender por pelo menos toda a longitude do palácio, se não mais — talvez toda a área do complexo do palácio. Quanto mais entramos, mais espessas ficam as camadas de poeira, mais pesado é o fedor da idade e de mofo no ar.
Por fim, Ceridwen para e indica uma estante de madeira que, para mim, parece com qualquer outra estante cheia de vinhos por que passamos. As poucas prateleiras do alto contêm garrafas, com o gargalo para fora, enquanto as da base armazenam pequenos barris em fileiras horizontais.
— O vinho mais antigo que existe — anuncia Ceridwen, obviamente nada impressionada com as posses do próprio reino. — É uma questão de orgulho para todos os reis deixá-lo envelhecendo aqui.
Começo a estender a mão para uma garrafa, mas paro, olhando para além da luz tremeluzente da lanterna. Apesar de toda minha ansiedade, não processei o fato de que elas são importantes para alguém. Não são coisas que posso abrir e vasculhar. Mas preciso abrir? Talvez o exterior tenha alguma marcação.
Minha hesitação faz Ceridwen sorrir. Ela pega uma garrafa e coloca em minhas mãos, a poeira sobe em uma pequena nuvem.
— Faça o que precisar com ela. Meu irmão tem orgulho de ter uma reserva de vinho, mas de se importar com próprio povo? Tenho tanto amor pelas prioridades dele quanto Simon tem pelas minhas.
Fecho os dedos em torno do gargalo.
— Ele não sabe qual é sua opinião?
Ceridwen dá uma gargalhada amarga.
— Tenho quase certeza de que sabe, mas nunca está sóbrio por tempo o suficiente para fazer mais do que despretensiosamente se perguntar por que sou tão emburrada. Então, o que exatamente está procurando?
A pergunta paira, ríspida, no ar, com o peso dos favores que Ceridwen fez por mim. Viro a garrafa de cabeça para baixo, para cima, giro e limpo e busco cada espaço livre atrás de... Nem mesmo sei o quê. O selo da Ordem dos Ilustres, talvez.
— Preferiria que não estivesse envolvida nisso até eu não ter escolha. — Ergo o olhar. — Você já tem muitos problemas, ao que parece.
Ceridwen resmunga com uma aceitação relutante.
Apoio a garrafa e pego outra.
Depois de 12 garrafas, nenhuma das quais me dá mais do que um ataque de espirros devido à poeira, me ajoelho, encarando os barris. Garrigan permanece atrás de mim, enquanto Ceridwen desistiu de tentar ajudar há nove garrafas e desabou na ponta das estantes de madeira, com a cabeça inclinada junto ao peito, a lanterna descansando no chão ao lado.
O primeiro barril emite um som de líquido se agitando quando o tiro com cuidado. Não há nada incomum nele, nenhum selo dos Ilustres ou chaves presas à borda. O seguinte é o mesmo.
E o seguinte.
E o seguinte.
Pego outro, esfrego os dedos pelo exterior, analiso a madeira. Minha certeza quase se extingue quando o coloco de volta e estendo a mão para o próximo. Talvez estivesse errada — há apenas poucos barris mais. Talvez...
Mas o próximo fica preso quando puxo, agarra-se com força à estante. Puxo de novo, mas ele permanece.
Ceridwen se inclina para a gente, atraída pela forma como a estante estremece com cada puxão inútil.
— Precisa de ajuda?
— Não sei — admito, levando os dedos para qualquer que seja a parte do barril que consigo alcançar. Roço a base, uma linha lisa de algo como cera que segue a curva do barril.
Minha testa se enruga. Alguém fixou esse barril à prateleira? Por quê? É tão especial assim para Verão?
Ou é especial assim para outra pessoa?
Cada barril tem uma rolha do lado chato, voltada para fora. Dou batidinhas com os nós dos dedos no barril, tentando ouvir um som abafado e pesado que diga que há vinho dentro. Mas o som é... oco?
Apenas uma forma de ter certeza.
Eu me giro de joelhos, apoiando-me no piso frio de pedra, e fecho os dedos em volta da rolha. Por favor, por favor, por favor...
Ceridwen se coloca de pé e dá um gritinho de protesto quando puxo o corpo inteiro para trás, usando cada músculo que me resta para tirar a rolha. Ela congela, com as mãos abertas, esperando o pior...
Mas nada sai. A rolha está na palma de minha mão, a abertura no barril é grande e vazia.
Meus pulmões esvaziam com o grito de choque que emito.
Não contém vinho. Então o que há do lado de dentro?
Os braços de Ceridwen vão até o próprio quadril, a testa se franze, mas a princesa não diz nada quando me aproximo do barril de novo. As bordas do lado chato foram feitas por alguém experiente, não podem ser abertas, então fico de pé, me viro e chuto o barril com a sola do sapato.
A madeira se abre com uma explosão que perturba o silêncio, quebrando-se em alguns pedaços irregulares. Eu me viro de volta e arranco completamente os pedaços, enchendo o chão de cacos de madeira. A lanterna tremeluz ao lado dos pés de Ceridwen, projetando luz no barril.
E bem no fundo, projetando-se da base, está uma alavanca.
Avisos disparam em mim, aguçando minha mente.
Isso é errado, diz meu instinto. Isso é perigoso. Não puxe...
Inspiro, fecho os dedos em torno da alavanca e puxo para trás com o máximo de força.
A alavanca trava por um momento, mas cede quando jogo o peso do corpo. A madeira range e me atinge, movendo-se apenas um palmo, mas o suficiente para que algo bem no fundo do piso de pedra resmungue e trinque. Calor envolve minhas botas, devora minhas pernas, rasteja mais para cima em uma erupção repentina e morna que faz meu corpo inteiro latejar em aviso.
O chão estala.
Viro para a direita, onde Ceridwen está inclinada em minha direção, o rosto franzido com confusão.
— Saia! — grito, conforme o rangido no chão e as ondas de calor se intensificam, abrindo um abismo logo ao meu lado, bem onde Ceridwen está.
Eu me atiro contra ela, derrubo Ceridwen e a lanterna para trás quando o piso de pedra se abre entre as prateleiras. Uma pequena abertura, com pouco mais de dois braços de largura, mas profunda, e quando Ceridwen tropeça na parte sólida do chão, a lanterna ressoando ao lado dela, eu mergulho na queda que teria engolido a princesa.
— Meira! — grita Ceridwen, no momento em que Garrigan berra:
— Minha rainha!
Meus dedos se agarram à beira do poço recém-formado, sustentando todo meu peso quando me choco e paro na lateral do buraco. A rocha roça no meu rosto, pedras irregulares se enterram em minha barriga, mas, fora isso, estou ilesa. Abalada como um pedregulho em um deslizamento de terra, mas ilesa.
Ceridwen segura meus pulsos.
— Você está bem? Espere aí...
Mas não me movo em direção à ajuda dela. Esse poço se abriu quando puxei a alavanca, o que significa que está relacionado com a chave ou a Ordem. Ou é apenas um truque veraniano maldoso escondido em um recipiente do vinho deles.
Com os nervos à flor da pele, olho por cima do ombro. Abaixo, a cerca de duas vezes minha altura, luz pisca na base do poço na forma de um anel de fogo.
A alavanca ativou isso também? Por quê?
O restante das laterais do poço é de rocha, irregular e escavada às pressas, deixando grandes formas salientes. Nada mais é incomum, nenhuma outra chama ou marca, e volto o olhar para o anel de fogo.
Ali, no centro das chamas, algo reflete a luz.
— Esperem — grito para Ceridwen, e agora para Garrigan, ambos ajoelhados para me ajudar a subir. Eles esperam, e no breve momento de pausa, solto a parede de rocha.
O tranco inesperado faz com que me soltem, então caio, desabando em uma nuvem de terra suja na beira do anel de fogo.
— Minha rainha! — A voz de Garrigan se distorce com pânico e ele se arrasta na direção de Ceridwen. — Tem uma corda? Uma escada? Alguma coisa?
Ceridwen resmunga.
— Desculpe, Verão não mantém muitos equipamentos de escalada na adega.
— Então busque algo!
— Calma, inverniano, ela está bem! — Mas a voz de Ceridwen se dissipa conforme ela fala; deve estar se movendo na direção de uma despensa, ou de volta para cima, para buscar o que Garrigan exige.
— Aguente firme, minha rainha — grita Garrigan para mim.
— Estou bem. — Dou um passo hesitante na direção do meio do anel de fogo. Não esperava exatamente que o chão desabasse da primeira vez, e não estou prestes a ser pega desprevenida de novo. Mas o piso de pedra irregular aguenta firme, o fogo acrescenta luz e ondas de calor que fazem com que mais suor escorra por meu rosto conforme me inclino na direção do objeto no meio do anel de fogo.
É uma chave. Velha e de ferro, tão longa quanto minha mão, com uma treliça espiralando no topo, ao redor de um selo — um raio de luz atingindo o topo de uma montanha. O símbolo da Ordem.
Recuo, incredulidade preenche cada fibra de meu corpo.
Encontrei mesmo.
— Cuidado! — A voz de Ceridwen precede o ruído de uma corda no piso de pedra logo ao meu lado.
Uma corrente serpenteia para fora da treliça. Seguro-a, enfio a chave no bolso e pego a corda, com o fôlego preso à espera da possibilidade de mais surpresas. Mas nada acontece de novo, como se a chave quisesse que eu a pegasse, como se o poço estivesse esperando que alguém puxasse aquela alavanca e revelasse todos os segredos.
E talvez estivesse.
Quando chego ao chão da adega, Garrigan está completamente cinza de preocupação. Ele segura meu cotovelo e me coloca de pé, a boca se abre com mais uma pergunta sobre ferimentos...
Quando um ronco reverbera sob nossos pés.
Eu me viro. O poço sumiu.
Ceridwen contrai os lábios fechados e contém um grito abafado atrás deles, apontando para as pedras, então para mim, então para o barril de vinho.
— O que... foi... aquilo?
— Eu... — Pela neve, como vou explicar isso? Pego a chave do bolso e deixo que oscile na corrente. — Encontrei o que precisava. Se ajuda.
Ceridwen sacode a cabeça e pressiona os punhos nas têmporas.
— Que é?
— Uma chave — digo, e Ceridwen solta um resmungo como se dissesse o óbvio: Não diga, sério? — Uma chave para alguma coisa... terrível. E antiga. E... — Paro, com os dedos ainda envoltos na corrente.
A esperança tira meu fôlego, um redemoinho que espirala por meus pulmões.
Consegui. Encontrei a chave... Encontrei a pista que a Ordem nos deixou.
Consegui de verdade.
E isso é prova, ainda mais do que a porta, de que a Ordem existe.
Mas...
Incerteza me incomoda, a sempre presente preocupação se expande para uma nova direção, e olho para o poço, novamente fechado por magia. Não há mais calor, como se jamais tivesse existido. Apenas a alavanca no barril de vinho resta como indicação da existência do poço.
Por que aquilo estava em Verão? Ainda não faz sentido, a Ordem colocar uma das chaves nesse reino. Por que não Outono ou Inverno ou Primavera? Por que em Verão, em Juli, na adega do palácio?
Olho para as estantes de novo. A idade daquela parte, a poeira nas garrafas, a reverência que os veranianos — bem, exceto por Ceridwen — aparentemente têm por aquele vinho significa que teria resistido ao tempo. Esse é um dos símbolos de Verão há séculos: vinho.
A Ordem colocou essa chave em um lugar de importância para Verão para que certamente sobrevivesse ao curso da história. Isso ao menos explica parte do motivo — de estar na adega, não de estar em Verão.
Será que as outras chaves estarão em locais semelhantes?
— Meira — dispara Ceridwen, e me volto para ela. O choque dela sumiu, está coberto pelo mesmo olhar que ela me lançou quando fiz nevar há poucos momentos. Armazenando minha fraqueza para uso futuro, me analisando e tentando descobrir uma forma de tornar isso benéfico para Verão. Deveria parecer como a forma com que Noam me trata, mas Ceridwen suspira, esfrega os olhos e sacode a cabeça. — Está envolvida com algo perigoso, não está? — pergunta ela.
Começo a responder, mas em meio ao silêncio pesado da adega, um grito dispara.
Minha cabeça se volta na direção do som.
Conheço essa voz.
— Theron.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!