21 de janeiro de 2019

Capítulo 15

NA MANHÃ SEGUINTE, quando Rose e Mona voltam com súplicas para que eu tome aulas de etiqueta, deixo as duas, e eu mesma, chocadas ao concordar.
Rose, que segura um vestido azul-celeste e uma fita azul-marinho, para ao lado do armário. Os olhos dela se semicerram e, depois de uma pausa, ela se dirige apressada para ficar entre minha cama e a sacada.
— Isso é um truque? — pergunta Rose, e não deixo de perceber como tenta manter os braços abertos, como se para me impedir de disparar além dela e saltar pela sacada.
Desço da cama, do lado oposto às portas da sacada e, tranquilamente, a encaro.
— Não. Irei.
Rose faz um biquinho.
— Com uma roupa adequada?
Franzo a testa.
— Sim.
— Sem sua arma?
Um resmungo soa em minha garganta.
— Ir não é dar o braço a torcer o bastante?
O biquinho de Rose fica mais acentuado e ela emite um estalo com a língua.
— Armas não têm utilidade neste palácio.
Rose dá alguns passos rápidos pelo quarto e dispõe o vestido e o laço sobre a cama. Assim que o tecido recai sobre os lençóis amassados, as mãos da criada se movem até minha camisola, desabotoando as costas como se Rose tivesse medo de que eu mude de ideia caso ela não seja rápida o suficiente. Começo a encolher o corpo, a resistir por instinto, então meus músculos se acalmam. Posso fazer isso. Tudo isso — o casamento, quaisquer que sejam as aulas que Noam tenha ordenado e ajudar meu reino de formas que jamais sonhei, mas isso ainda me fará sentir como se pertencesse a Inverno.
Se Theron consegue, eu também consigo. Posso tecer meus próprios fios em uma tapeçaria já projetada por outros. É possível. E isso pode ser bom — estou em uma posição de poder, não estou? Muito mais poder do que ser uma soldada comum. Isso será bom.
Então, quando Rose puxa o vestido pela minha cabeça, e Mona passa uma escova por meus cabelos, endireito os ombros. Sou uma futura governante de Cordell. Como uma futura governante agiria? Mather surge em minha mente, a tranquilidade, o comportamento calmo diante de... tudo. Aja como Mather. Posso fazer isso.
— Vou levar o chakram — digo. Quando Rose ergue a cabeça, nivelo meu olhar com o dela e a encaro. Calma, no controle, tranquila. — Não pretendo usar, mas eu o terei comigo.
Os lábios de Rose se contraem. Os olhos dela se semicerram, uma expressão de irritação contida, antes de voltar ao trabalho amarrando o laço azul em minha cintura.
Não consigo esconder o sorriso. Uma pequena vitória.


A semana seguinte passa voando em uma espiral de história cordelliana e reverências adequadas e aulas de qual garfo usar quando como salada. Obviamente surpreendo Rose e Mona ao prestar atenção e, sempre que um instrutor me elogia por responder uma pergunta corretamente, elas murmuram animadas no fundo da sala. Mas sempre fui boa aluna — no acampamento, somente quando via Mather treinar luta sem mim, eu começava a ficar irritadiça e briguenta, e Sir erguia os braços e gritava comigo até que eu caísse em lágrimas. Agora, no entanto, estou mesmo tentando ser boa nessa coisa toda de futura rainha.
Ao menos porque toda manhã encontro uma forma de ser eu.
Com a primeira luz do alvorecer, quando o sol ainda trava uma guerra preta e azul com o céu noturno, coloco minhas roupas — minhas roupas de verdade, camisa, calça e botas — e me apresso pelo palácio ainda adormecido até a biblioteca, onde escondi Magia de Primoria. Isso, aliado a meu horário caótico de aulas e refeições no quarto, significa que não tenho visto nenhum dos outros refugiados desde a desastrosa sessão de luta de Mather e Theron. Certamente não por falta de tentativas deles — disparo por corredores laterais quando vejo Dendera se aproximando, escalo paredes quando ouço a voz de Finn em uma esquina. Não tenho desejo de encarar ninguém até que possa apresentar alguma novidade. Até que possa provar que ainda posso ser útil nessa posição como eu.
Parte de mim quer sair de fininho para o pátio de tiros toda manhã, em vez de me esgueirar até a biblioteca. Não usei o chakram desde que comecei o treinamento de rainha e, embora leve a arma comigo em todas as lições, está começando a parecer um acessório. Mas a outra parte de mim, a parte que está resignada a esse acordo, sabe como é importante tentar ler Magia de Primoria.
Com ênfase na palavra tentar.
Cada linha de cada página do livro, que quase se desintegra em minhas mãos, está cheia de minúsculas palavras escritas em uma letra aglutinada, ilegível. As letras escorrem umas para as outras devido ao tempo e ao fato de que o escritor aproximou tanto as linhas que o texto parece um grande borrão de tinta. Como se isso não bastasse, as linhas que consigo decifrar são mais do que inúteis, pois ou estão cheias de linguagem arcaica ou enigmas, mas, em grande parte, apenas história que já conheço. Sobre o abismo de magia que repousa sob todos os reinos Estação desde sempre, uma fonte de mistério e magia tão antiga quanto o mundo. O abismo está bem profundamente sob nossa terra, então, mesmo que um reino Ritmo conquiste um reino Estação e escolha escavar em uma tentativa de obter a magia, escavaria durante décadas.
Costumava haver uma entrada para o abismo pelas montanhas Klaryn, um poço que se abriu certo dia, quando mineradores o encontraram por acaso. Ninguém sabe onde a mina estava de fato — logo depois que foi descoberta, ela se perdeu em deslizamentos ou condições climáticas mortais. Mas eu gosto de pensar que estava na parte de Inverno das Klaryn — afinal de contas, que outro reino Estação é tão bom em mineração quanto nós? Por outro lado, não conseguimos encontrar outra entrada para o abismo de magia desde que a primeira sumiu, então talvez não sejamos tão bons assim.
Quando a entrada estava aberta, há milhares de anos, uma expedição foi enviada para recuperar magia. De acordo com lendas e algumas das linhas mais legíveis do livro, a magia estava no centro de uma caverna infinita, uma enorme bola de energia se partindo e estalando, pairando no espaço escuro da caverna.
Para ser retirada da caverna, a magia precisava de um hospedeiro, um objeto impregnado nos poderes dela. A grande bola de energia pulsava ao redor da caverna, atingindo rochas aqui e ali como se fossem dedos caóticos e descontrolados de raios. E as rochas que a bola atingia ficavam impregnadas de magia. Então, monarcas começaram a deixar outros objetos próximos à fonte, esperando que os raios de magia atingissem espadas ou escudos ou joias e os enchessem de poder. Também tentaram formas mais perigosas de criar condutores, permitindo que a magia atingisse os criados deles. Isso levou à descoberta de que apenas objetos poderiam ser hospedeiros da magia — as pessoas não se tornavam exatamente condutores, mas sim carne bem-passada.
Assim foram criados os Condutores Reais. Os monarcas do mundo ordenaram que os condutores deles fossem feitos primeiro, conectando-os com as linhagens sanguíneas com mais magia. Mas esses acabaram sendo os únicos condutores criados, pois logo depois que os oito Condutores Reais foram criados, a entrada para o abismo desapareceu e nosso mundo mudou para sempre. Não apenas tínhamos magia agora, mas também tínhamos preconceito — os reinos Ritmo nos odiavam por termos perdido algo tão vital. Talvez já odiassem os reinos Estação antes, por diversas razões, mas é a perda da fonte de magia que permanece com eles até hoje, mesmo quando ninguém consegue se lembrar de nossas vidas serem diferentes do que são agora.
Sempre houve os oito Condutores Reais, nada mais, nada menos.
Isso é tudo que consigo decifrar. E quanto mais encaro Magia de Primoria, mais minha faísca de dúvida se transforma em uma chama intensa. O que sequer estou buscando? Tive o mesmo sonho com Hannah todas as noites dessa semana, aquele em que eu a vejo cercada pelos refugiados no escritório. Mas não consigo entender qualquer conexão entre o sonho e as coisas que faço ou não faço — até mesmo tentei esconder a lápis-lazúli e não tocá-la por alguns dias, mas ainda tive o sonho. Então a pedra não é mágica? Mas o que eu queria encontrar, afinal? Alguma fonte perdida de magia que eu pudesse apresentar a Sir, provando que posso ter importância para Inverno do meu jeito, além de nos unir a Cordell?
Fecho o livro com força e me recosto no parapeito da sacada, atrás de mim. A luz do alvorecer lança raios amarelos pelas janelas imensas à esquerda. É quase hora de mais lições de rainha, mas dias acordando tão cedo estão cobrando seu preço e só quero rastejar de volta para a cama e esquecer de tentar ser uma dama cordelliana decente.
Meus dedos pressionam a capa do livro e me arrependo de deixar o chakram no quarto naquela manhã. Alguns cortes simples e esse volume inútil não passaria de confete.
— Sustento?
Viro para a direita e vejo Theron olhando para o alto da escada que dá para a sacada do terceiro andar, onde montei meu acampamento. Uma bandeja de pratos fumegantes está nas mãos dele e meu estômago responde com um gorgolejo nada digno de uma dama. Theron é a única pessoa que sabe sobre minhas sessões matinais — ele mesmo vem todas as manhãs para devolver livros ou pegar volumes novos, e esbarrar com ele é uma inevitabilidade com que não me importo.
Theron segue escada acima, abaixa-se para se sentar ao meu lado, mas olha para a biblioteca abaixo.
— Imaginei que estaria com fome, pois não veio tomar café de novo — diz ele, e coloca a bandeja entre nós. — Meu pai está satisfeito por você tomar as lições, mas seus amigos...
— Merecem cada pingo de preocupação e estresse que dou a eles? — completo, e pego uma fatia crocante de pão em um cesto.
Theron ri.
— Eu ia dizer que eles estão apavorando minha corte com a frequência com que têm sussurrado discussões atrás de vasos de plantas, mas “merecedores de estresse” também funciona.
— Alguém deveria dizer a eles que vasos de plantas não evitam que o som se propague. — enfio pequenos pedaços de pão na boca, mas continuo falando, aproveitando aquele pequeno gesto de inadequação. É tão fácil esquecer que Theron é um príncipe, que a posição dele está tão mais acima da minha que eu não poderia alcançá-la se estivesse de pé no topo das montanhas Klaryn, que eu deveria me comportar decentemente, como uma dama, e fazer reverência quando ele se aproxima, todas as coisas que aprendi na aula de etiqueta de ontem. É fácil demais fazer muitas coisas perto dele, e ainda estou tentando entender por quê.
Theron assente em direção ao livro que ainda está preso entre minhas pernas e meu peito.
— Posso perguntar como está se saindo, ou vai ameaçar despedaçar o livro de novo?
Resmungo.
— Não quero falar disso. Este mingau está bom. É de que, morango?
— Ainda não vai me contar o que está fazendo?
— Não — digo, olhando para a bandeja de comida. Não há um cenário em que contar a alguém que você anda sonhando com uma rainha morta termine com a pessoa não acreditando que você caiu no abismo escuro da insanidade.
— Posso ser útil — sugere Theron, com a voz tranquila. — Sou, na verdade, treinado para ajudar um reino inteiro, então acho que posso canalizar parte desse treinamento em ajudar uma linda mulher.
Ergo o olhar para ele, meus olhos se semicerram apesar do sorriso que se abre em meu rosto.
— Isso não é justo, disparar elogios assim. Sabe o quanto essas coisas podem ser perigosas?
Theron contrai os ombros, sorri, as bochechas dele ficam levemente manchadas de rosa. Ele está com vergonha?
Theron transforma o sorriso em um biquinho, contraindo os lábios e franzindo as sobrancelhas até uni-las sobre o nariz.
Encaro com irritação.
Ele faz um biquinho mais intenso.
— Você é impossível — resmungo, e abro o livro.
Theron gargalha e se aproxima mais de mim.
— Impossível, encantador. Sinônimos, na verdade.
Dou uma risada fingida e verifico as páginas indecifráveis de novo, a cabeça pulsando de dor ao ver toda aquela tinta preta e rodopiante.
— Estou tentando aprender mais sobre magia — começo.
Theron arqueja.
— Lendo um livro chamado Magia em Primoria? Não!
— Impossível, encantador, hilário. Também sinônimos.
— Então concorda que sou encantador?
Olho para Theron com raiva e abro a boca, então percebo que não tenho nada a dizer. Ele sorri, esperando, e minha boca emite uma risada de incredulidade.
— Como eu dizia — começo de novo, e Theron gesticula com a mão em rendição para me dizer que não interromperá. — Estou tentando aprender mais sobre magia. Os Condutores Reais e de onde vieram e — passo os dedos pelas espirais de tinta negra — e tudo. Qualquer coisa que eu possa aprender. Talvez haja alguma brecha, algo que signifique que poderíamos derrotar Angra sem precisar de nosso medalhão.
Enquanto falo, o olhar de brincadeira no rosto de Theron some e ele olha para as páginas em minhas mãos.
— O que aprendeu até agora?
— Nada que eu já não soubesse. Este livro é ilegível. — Folheio para uma das passagens que consigo discernir, mas só porque consigo ler as palavras não significa que elas fazem qualquer sentido. — Como aqui, por exemplo. “Das luzes, fez-se a grande Ruína; e a desgraça recaiu sobre os que não tinham luz. Eles suplicaram, e as luzes se formaram. Os quatro criaram as luzes; e os quatro criaram as luzes.” — Bato com a cabeça no parapeito. — O quê?
O rosto de Theron permanece sério. Reconheço a expressão como o rosto de “artes” dele, a mesma expressão que exibiu quando estava no quarto e olhava para a pintura de Inverno. Curioso, concentrado, como se a estante inteira de livros atrás dele pudesse cair e Theron sequer se moveria.
Os lábios dele se movem sem emitir som, ele repete a passagem para si mesmo.
— Quatro? Disse quatro duas vezes?
— Sim. — Olho de volta para o livro. — A mesma coisa duas vezes também. “Os quatro criaram as luzes; e os quatro criaram as luzes.”
Theron assente.
— Os reinos de Primoria. Quatro e quatro. Os Ritmo e os Estação. Eles criaram algo... recursos? Não, algo relacionado à magia. Uma luz metafórica? Talvez os condutores? Então, a luz poderia ser um condutor. — Ele se inclina sobre o livro e aponta para a passagem, inserindo as próprias palavras conforme continua. — “Dos condutores, fez-se a grande Ruína; e a desgraça recaiu sobre os que não tinham condutores. Eles suplicaram, e condutores se formaram. Os Ritmo criaram os condutores; e os Estação criaram os condutores.”
Theron me olha sorrindo, mas o sorriso some quando ele vê meu olhar de irritação.
— O quê?
— O quê? — Enfio o dedo na passagem do livro. — Estou encarando isso há três dias e você entra aqui e descobre em três segundos.
O sorriso de Theron retorna.
— Eu disse que era útil.
Não darei a ele a satisfação de me ver sorrindo de volta.
— Mas o que quer dizer, Ó Sábio e Letrado Príncipe? Ainda não faz sentido. Uma grande Ruína veio dos condutores? Mas os reinos Ritmo e Estação criaram mais condutores? Mas eles só criaram os oito antes de a entrada sumir. Então o que, exatamente, é a Ruína, e por que está com letra maiúscula? Uma ruína metafórica, uma ruína literal...
Theron se recosta, apoia os braços nos joelhos e encara a biblioteca abaixo.
— Por isso literatura é tão fascinante. Está sempre aberta a interpretações e poderia ser centenas de coisas diferentes para centenas de pessoas diferentes. Jamais é a mesma coisa duas vezes.
Fecho o livro com um resmungo.
— Não preciso de centenas de interpretações diferentes. Preciso ler um livro que diga: “É assim que se derrota Primavera e se restaura o poder a seu rei e, aproveitando, eis como você prova que é importante quando ninguém mais acredita que é...”
Paro. Estou encarando as prateleiras de livros, e não Theron, e não acho que jamais conseguirei olhar para ele de novo sem me encolher de vergonha. O que pode tornar a coisa toda de casamento um pouco esquisita. Ainda consigo ouvir o que eu disse pairando ao meu redor, minha admissão tão fraca, e não consigo respirar, muito menos encará-lo.
Theron não me dá escolha. Ele fica de joelhos e entra em meu campo visual, com a testa enrugada e os olhos se movendo na direção dos meus, como se estivesse tentando me entender, da mesma forma que entendeu aquela passagem. Depois de um momento de silêncio, Theron faz uma careta.
— Você é importante. — É tudo que ele diz.
Encolho o corpo, um formigamento frio me percorre enquanto Theron me olha com aquela determinação. É parecido com todos aqueles olhares tensos e demorados que Mather me lançava, mas, ao mesmo tempo, não é. Quando Mather me olhava, eu jamais sabia que emoções ele estava escondendo por trás da seriedade, se gostava de mim ou se estava tentando descobrir se gostava. Mas com Theron — parece mais significativo. Como se ele estivesse me encarando porque quer, não porque está se questionando.
Não dizemos mais nada, respiramos devagar no espaço entre nós, com medo demais para nos afastarmos, medo demais para nos aproximarmos.
Uma porta bate abaixo, ecoando para cima dos três andares da biblioteca. Dou um salto, chacoalhada para fora do transe. Provavelmente é Rose — estou atrasada para as lições do dia. Mas a violência que preenche a biblioteca me faz suspirar com um pesar diferente.
— Meira — diz Sir, com determinação o bastante para praticamente me puxar pela sacada do terceiro andar.
Theron suspira.
— Só há uma porta para fora da biblioteca — diz ele, como se lesse meus pensamentos.
Suspiro de novo. Não há como escapar de Sir agora. A não ser que eu passe em disparada por ele e corra o máximo possível para os corredores sinuosos do palácio de Bithai. A reação madura.
Theron fica de pé e estende a mão para me ajudar a levantar.
— Ele não vai gritar com você se eu estiver aqui.
Coloco o livro no chão, dou a mão a Theron e quero sorrir. Quero fazer muitas coisas quando ele me puxa de pé e ficamos tão próximos, muito próximos, por um breve segundo, e imagino se me casar com Theron seria algo tão ruim assim.
Theron me leva escada abaixo, ainda segurando minha mão. Não tenho problema com isso, de uma forma que me faz pensar que minha resposta à pergunta “quero me casar com ele?” pode me surpreender.
Chegamos ao primeiro andar da biblioteca e ali estão... todos. Sir, Alysson, Dendera, Finn, Greer, Henn e Mather. Todos de pé, como um grupo unido no meio da sala, com os rostos em diversos estados de ódio e frustração.
Sir dá um passo adiante para nos alcançar no meio do caminho, com os braços cruzados com firmeza sobre o peito. Os olhos dele recaem sobre as mãos de Theron e a minha, entrelaçadas, mas Sir não diz nada e calafrios percorrem meus braços, espalhando-se por meu corpo quanto mais tempo ficamos ali sem falar.
— Príncipe Theron — começa Sir, mantendo a voz estranhamente calma. — Precisamos conversar com Lady Meira. Sozinhos.
Contenho a vontade de chorar. Não porque Sir quer falar comigo, mas por causa da forma como ele falou. Lady Meira. Parece tão formal. Formal demais. Não quero que Sir seja formal comigo.
Theron se vira e encara Sir.
— Respeitosamente, preciso recusar, General Loren.
Mather bufa atrás de Sir. Meus olhos se desviam para ele e ficamos parados, nos encarando, enquanto não faço absolutamente nada para me distanciar de Theron. Mather olha para nossas mãos, então de volta para mim, o rosto dele se contrai em expressões de ódio, arrependimento, ódio, ódio, ódio...
— Algo errado, Rei Mather? — pergunta Theron, olhando além de Sir.
Mather dá um passo adiante, mas Sir estende o braço e o mantém contra o peito de Mather. Ele para, ofegante, como fez no ringue de espadas. Espero que algum tipo de culpa me percorra ou, pelo menos, uma onda crescente de desconforto, ao ver Mather.
Mas só me sinto cansada — cansada de não receber nada além de emoções ilegíveis dele. Cansada de esperar por Mather. Cansada dele.
Não precisamos de mais um encontro como aquele no ringue, no entanto. Posso lidar com isso sozinha. Sempre lidei.
Puxo a mão de Theron até que ele abaixe o olhar para mim.
— Vou ficar bem — prometo, embora pareça estranho aos meus ouvidos. Jamais tive alguém que se preocupasse comigo durante os interrogatórios de Sir. Faz com que eu me sinta tanto forte quanto fraca ao mesmo tempo, como se eu pudesse depender demais dele, do apoio que Theron oferece, e me perder atrás dele.
Depois de um momento considerando, Theron assente. Ele aperta minha mão uma vez e recua, seguindo para a porta enquanto educadamente cumprimenta todos por quem passa.
A porta se fecha atrás de Theron e mal tenho dois segundos para inspirar antes que alguém corra até mim. Pisco, tentando me concentrar no rosto de Sir, mas não é Sir.
— Uma coisa é ficar sozinha com o príncipe na biblioteca — dispara Dendera. — Quase posso ignorar isso. Mas no quarto dele? Tem alguma ideia dos tipos de boatos que andam circulando sobre você? Então você nos evita por uma semana depois disso, graças à neve no céu que você tem assistido àquelas aulas, mas isso não basta!
O rosto de Dendera está vermelho, os cabelos dela estão arrepiados como se não tivesse dormido há dias. Será que esteve preocupada esse tempo todo? Nas duas vezes em que fugi dela, Dendera parecia vermelha, mas supus que fosse porque eu a evitava, não porque eu estivera no quarto de Theron. Posso ver por que seria inadequado para damas normais da corte, mas para mim parece um pouco tolo. Ainda estou em treinamento, de qualquer forma, não estou? Há pouco tempo eu estava coberta com o esgoto de Lynia, quando quase não escapei de ser capturada — tenho sorte de estar viva para sequer ser inadequada.
— Está de brincadeira, certo? — pergunto, embora tenha a sensação de que isso só vai deixar Dendera mais irritada.
E deixa. Ela bufa e saliva dispara da boca de Dendera.
— Acha que estou brincando?
Sir interrompe, colocando a mão no braço de Dendera para chamar a atenção dela para outra coisa.
— Dendera...
— Fale com ela, William! Ela não pode continuar fazendo essas coisas! Tem responsabilidades agora. Jamais a vejo por tempo o suficiente para conversar sobre cores ou comida ou decoração...
Disparo um olhar para Sir.
— Do que ela está falando?
Dendera fica calada quando Sir me olha. Todos dão um passo imenso para trás, como se soubessem que o que quer que Sir está prestes a me contar não será bem recebido.
O rosto de Sir está impassível.
— Foi sobre isso que viemos conversar, Meira — começa ele. Parte de mim relaxa quando Sir não usa o título, apenas meu nome. Apenas Meira. — O casamento está marcado para o fim do mês e Dendera está no comitê encarregado da comemoração, então ela precisa de sua cooperação...
— quê? — grito, com a voz esganiçada. — Espere, espere, pare. O casamento? No fim do... isso é em duas semanas! Estou fazendo o treinamento, essas aulas idiotas...
Sir continua, ignorando meu escândalo.
— Ela precisa que você coopere. Ainda há muito a ser feito para cimentarmos essa aliança.
Eu o encaro. Encaro todos eles. Todos me observam e o apoiam e...
Mather não me olha agora. Está de costas para mim enquanto agarra o piano, com a cabeça baixa, os músculos nos ombros se movem sob a camisa quando ele segura com mais força a tampa preta polida do instrumento.
— Então é isso? — sussurro. As palavras tropeçam em lágrimas em minha garganta, lágrimas que vêm quando percebo que é assim que minha vida será agora, e eu deveria ter esperado que o casamento acontecesse rapidamente, considerando a proximidade de conseguirmos o condutor de volta. Mas não consigo sequer apresentar alguma grande novidade sobre magia e como ela funciona e o que eles precisam fazer com o condutor e como Hannah tem falado comigo, porque Hannah não tem falado comigo, não de verdade, e não consigo sequer ler um livro idiota e gastei todo meu tempo aprendendo a usar garfos chiques.
Não há mais nada. Isso é realmente tudo o que posso fazer. Não consigo pensar em mais nada.
A expressão de Sir finalmente se suaviza um pouco. Os lábios dele estremecem, os olhos ficam vermelhos.
Mas sacudo a cabeça antes de conseguir dizer qualquer coisa.
— Tudo bem. Está bem. Suponho que os planos já estejam traçados? Noam está pronto para enviar homens com vocês até Primavera para conseguir a outra metade do medalhão?
Ninguém diz nada e isso me leva a falar mais rápido, agarrando-me à falha no que antes era a parede sólida de superioridade deles.
— Só pode ser isso, certo? Porque não posso imaginar que vocês tivessem tanta pressa para me empurrar para isso, caso Noam também não estivesse cumprindo com a parte dele do acordo. Se preparações não estivessem sendo feitas dos dois lados.
Dendera encolhe o corpo. Os olhos dela desviam para Sir, e Finn olha para Sir, e todos olham para Sir, porque é ele quem deveria nos liderar nisso.
O maxilar de Sir se contrai.
— Noam vai cumprir com a parte dele do acordo quando tivermos cumprido com a nossa.
Repito as palavras de Sir na mente. Noam não está fazendo nada para nos ajudar. Só nos deixa fingir que ele vai cumprir com a parte dele, enquanto Dendera e Alysson e Finn e todos me encaram como se eu fosse alguma boneca com a qual estão brincando.
Emito um grunhido para Sir.
— Não.
Sir estende o braço para mim, mas dou um empurrão para fugir da mão dele, empurro todos — Dendera, que grita algo sobre arranjos de flores, e Alysson, que diz algo sobre me acalmar, e Mather, que não diz nada porque é isso que ele faz, ele apenas fica parado ali enquanto eu devo fechar os olhos e obedecer.
Se eu devo fechar os olhos e obedecer, Noam também precisa.

2 comentários:

  1. quebra tudo, Meira. Bota moral nessa bagaça

    ResponderExcluir
  2. Me surpreendo por theron n ter comentado nada sobre a data do casamento com ela mas estou feliz por eles estarem mais próximos e mais ainda por Mather tá sofrendo n me importa as intenções dele, ele vendeu ela.
    P.s: tem uma voz que fica gritando na minha cabeça dizendo que vai dar merda que n consigo ignorar...

    ResponderExcluir

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!