26 de janeiro de 2019

Capítulo 14

Meira

O TOUR PELO bordel leva três horas.
Três horas.
Uma ala do prédio foi construída há mais de quatrocentos anos. Outra é completamente dedicada a pessoas que gostam de mulheres; outra, de homens; uma terceira, uma mistura das duas. O nível mais alto tem suítes particulares, uma das quais Simon reservou para nós, mas a oferta foi recebida com uma recusa firme e inexpressiva. Theron entendeu rapidamente por que eu queria um tour, e passou o tempo analisando detalhes tanto quanto eu. Mas nem sequer uma maldita alcova, planta, escultura, ou mesmo os azulejos pareciam conter qualquer coisa que se relacionasse à Ordem dos Ilustres — nenhum símbolo como no abismo, ao menos.
Então, depois de esbarrar por vezes demais em nudez, fingi exaustão, e Simon nos dispensou para que descansássemos para a festa à noite.
Se nossa busca for assim em todos os reinos, não acho que sobreviverei à viagem.


A comemoração que Simon prometeu — ou ameaçou, mais precisamente — começa logo após o pôr do sol. Nessa e Dendera ficaram para trás, dessa vez não sem tentativas da parte de Nessa.
— Talvez se mais de sua corte estiver com você ele não seja tão... — Mas as palavras dela se dissolvem conforme Nessa agita as mãos. Não contei tudo que aconteceu, apenas o bastante para que ela e Dendera tenham uma ideia geral de minha opinião sobre Verão.
Aperto o braço de Nessa.
— Não, fique aqui. Não ficarei fora muito tempo.
Ela me encara de volta.
— Vai me contar, não vai? Quando voltar?
Mordo o interior da bochecha.
Se houver alguma parte que eu possa contar a você.
— Volto logo.
Os ombros de Nessa se curvam para a frente e ela se afasta, sentando-se ao lado de Dendera no canto de meu quarto. Nessa parece... derrotada. Será que esperava que eu a levasse? Mesmo que quisesse, os irmãos dela não permitiriam, e com razão.
Mas Nessa dá um sorriso quando saio. Viu? Ela está bem. É apenas esse calor — está deixando todos nós ansiosos.
Dendera me deixa vestir a calça e a camisa nada dignas de uma comemoração, modestas e mais adequadas para Verão do que um vestido. Quando encontro Theron e os homens dele no corredor de novo, o príncipe passa o braço por minha cintura e prende o polegar na alça de meu cinto como se fosse a posição natural dele. Não protesto, estou preocupada demais em tentar me preparar para o que quer que esteja adiante.
Um criado nos leva para um salão de comemorações, tambores nos atraem para dentro com batidas que ressoam pelas paredes de arenito. Do lado de fora, baixinho, mais tambores podem ser ouvidos, o início de festas reverberando pela cidade. Vozes se elevam com risadas, e quando passamos por baixo de um arco, uma festa se revela ao nosso redor.
Tecidos laranja, escarlate e dourados envolvem colunas de tijolos de arenito em um imenso salão a céu aberto. Quatro andares de varandas se erguem, terminando em um trecho de céu preto-azulado que mergulha na noite, encorajando fogueiras que crepitam em todos os cantos, tochas que tremeluzem pelas paredes, e dançarinas com fogo que cospem línguas de chamas na multidão amontoada. Vivas e gritinhos de prazer ecoam por todas as direções, misturados ao tilintar de taças.
Se eu achei que estava quente no bordel, aqui está totalmente sufocante. A fogueira mais próxima está na boca de uma dançarina junto à parede, mas o calor que sinto é forte, determinado e próximo, pulsa na minha pele com toques ao mesmo tempo deliberados e caóticos. O calor vem dos veranianos, os corpos irradiam ondas de calor, exatamente como o frio impenetrável que cerca todos os invernianos. Ele toma conta de mim, fervilhando, irredutível. Um calor que poderia enlouquecer pessoas, distorcer imagens e confundir pensamentos.
Theron me leva para dentro. Meus olhos saltam de pessoa para pessoa, reparando em cada marca como se fosse um farol. O salão é ocupado pelo mesmo número de não escravos e de escravos, servindo bebida ou comida ou dançando com os membros da corte. Mesmo aqueles que servem bebidas parecem se divertir, balançando as bandejas acima da cabeça.
Simon, agora vestido, está no centro de um altar no meio do salão. Uma enorme tenda laranja cobre a área, com raios de sol costurados com linha dourada reluzindo à luz pulsante da fogueira. Ele está deitado com a garota yakimiana que o acompanhava mais cedo. Ela é a primeira a nos ver, sussurra palavras breves de aviso a Simon, que volta a atenção para o pé do altar e sorri.
— Rainha de Inverno! — Simon se coloca de pé com um salto, nem mesmo se dá ao trabalho de se dirigir a Theron desta vez. Por que um rei de um reino Estação desprezaria um reino Ritmo tão descaradamente? Cordell não tem comércio com Verão, o que significa que não tem utilidade para Simon. E ele claramente não se importa em forjar qualquer conexão, pois quando desce o altar distraidamente, chega a empurrar Theron para longe para colocar o braço sobre meus ombros.
— Meira! Posso chamá-la de Meira? — Simon pega uma taça de uma bandeja que passa e a entrega a mim. Aceito apenas para evitar derramar quando o rei solta a taça. — Experimente isto, não vai se arrepender. Um tinto de dez anos. Delicioso.
Simon me empurra para a frente, tentando me puxar para baixo do dossel sobre o altar dele, mas planto os pés no chão, e o calor drena o equilíbrio de meu corpo, então tropeço.
Não seja burra, ecoa a voz de Ceridwen em minha memória.
— Obrigada — consigo dizer, e me desvencilho das mãos de Simon antes que ele toque minha pele diretamente. A mente de Simon é uma cujo interior prefiro não ver. — Mas o príncipe Theron é mais amante de vinho do que eu.
Theron pisca, surpreso, quando entrego a taça a ele, mas a aceita, me lançando um olhar suspeito.
— Sim — diz ele, então pigarreia e se volta para Simon. — Vinho. Amo.
Simon sorri.
— Sério? Mas Cordell faz uma boa cerveja. — Simon se volta para mim, com os olhos semicerrados enquanto pensa. Depois de um momento, ele estala os dedos, como se tivesse uma ideia. — Sei exatamente o que a atrairá, rainha de Inverno!
Preciso obrigar meu nariz a não se franzir, mas Simon me gira e aponta para a parede mais afastada.
— Comida! Mesas de iguarias veranianas. Nem mesmo tente me dizer que não gosta de comida.
A sugestão é tão alegre e inocente que chego a sorrir, e Simon une as mãos, completamente encantado pela habilidade de encontrar algo que me “atraia”.
— Venha, venha! — Simon entrelaça o braço no meu, me puxando para a confusão sem olhar para trás. Theron diminui o passo para ficar junto com nossos guardas, e vejo pela forma como ele morde o lábio que está tentando não mencionar a óbvia rejeição veraniana.
A mesa de comida está entre duas pilastras de arenito envoltas em tecido amarelo luminoso. Atrás da mesa, aninhada na parede, uma lareira crepita, as chamas sobem muito mais do que o necessário — tem o objetivo de ser mais decorativo do que útil, imagino. Escravos perambulam em volta da mesa, enchendo travessas e, em alguns casos, fornecendo entretenimento. No canto, funis de chamas vibrantes são lançados das bocas de dançarinas veranianas enquanto bolas de fogo reluzem enjauladas nas pontas de correntes, lançadas de forma rítmica conforme escravos avançam, giram e se abaixam.
Simon sorri para elas.
— Lindas, não são? Ah, experimente isso, ensopado feito com amendoim e batata doce. Completamente exótico! — Simon aponta para uma tigela cheia de um purê dourado e gesticula para uma das dançarinas. — Vamos mostrar a nossos convidados uma verdadeira comemoração veraniana, certo?
A dançarina assente, o sorriso dela se abre ainda mais, então gesticula para um grupo de músicos no canto, aqueles que estão batucando melodias constantes e envolventes. Eles percebem a deixa e iniciam uma música dolorosamente rápida, os tambores batem e os tamborins se agitam em uma melodia que pulsa dentro de mim. As dançarinas entram em uma dança coreografada, cuspindo fogo em ritmo, agitando as lanternas ao mesmo tempo. Chamas e calor, pés batendo, quadris girando, uma variedade estonteante de luz e energia que mesmeriza todos ao redor. Simon, os membros da corte, os guardas cordellianos, até mesmo meus guardas e Theron, que encaram com algo mais parecido com assombro do que com a paixão dos veranianos. As próprias dançarinas, todas veranianas, sorriem e gargalham, absortas pelos próprios movimentos. Os escravos que não estão dançando observam com o mesmo delírio, tomados de alegria.
Conforme observo as dançarinas, a aura de felicidade delas falha em um outro momento. Uma delas erra um passo, torcendo o tornozelo de modo esquisito, e uma expressão de dor lampeja no rosto da dançarina. Mas o sorriso retorna, o corpo dela prossegue com a dança como se nada tivesse acontecido. Outro dançarino luta contra cascatas de suor que escorrem pelo rosto, o fôlego vindo em arquejos que fazem o corpo todo estremecer, mas ele sorri apesar disso, com os lábios contraídos em um sorriso tenso.
Diversão, diversão por toda parte — essa é a reputação de Verão, afinal de contas.
Mas tantos desses sorrisos são forçados pelo homem ao meu lado, que pega uma bandeja de porco desfiado e vibra com prazer conforme come e observa o próprio povo dançar apesar de tornozelos torcidos e exaustão.
Fecho os dedos em punho, meus nervos estão à flor da pele.
Uma porta coberta por fios de miçangas pendentes chama minha atenção — ou melhor, a pessoa que se materializa ao lado dela, à esquerda da apresentação.
Ceridwen.
Todos naquela parte do salão parecem hipnotizados pela dança. Por um momento, ninguém está me olhando. A percepção dessa chance única de liberdade lança uma demanda formigante por meu corpo, tão forte e inesperada que me agarro a ela antes que consiga pensar em uma reação mais lógica. Vejo apenas um objetivo diante de mim: salvar Inverno de uma tomada cordelliana, encontrar a Ordem ou a chave antes de Theron. E Ceridwen é a primeira pessoa que conheci em quem talvez possa confiar.
A princesa se vira para falar com um homem atrás dela, o escravo com quem estava mais cedo. Juntos, eles passam pela porta.
Olho para os dançarinos, ainda retorcendo o corpo com rapidez e força, sem qualquer sinal de que vão diminuir o ritmo, e para o público, ainda hipnotizado. Sem pensar duas vezes, dou um leve passo para trás, inclino os ombros e entro na multidão.
Ninguém repara que saí, e fervilho com uma sensação que não tenho há meses — a animação de sair de fininho, de tramar, de disparar para uma missão. De ser útil.
Passo pela cortina de miçangas. A comemoração fica mais abafada atrás de mim, a sala escura engole grande parte do barulho. Algumas velas tremeluzem nas mesas, algumas portas se abrem em mais quartos, mas estou concentrada no fim, onde Ceridwen e o companheiro dela sussurram conforme se apressam para a escuridão.
Mergulho para a frente, desvio de escravos que surgem de diversos quartos com bandejas de comida e bebida. Ceridwen e o homem entram em um quarto à direita e sigo, antes de perceber que não é um quarto, é o exterior.
O cheiro de palha, cocô de cavalo e lenha toma conta do pátio do estábulo, junto com o ocasional grito de celebração ou reclamação de um grupo de auxiliares de estábulo, debruçados sobre um jogo de dados intenso ao mesmo tempo em que bebem algumas garrafas de vinho. Tochas iluminam o pátio, revelando celeiros que envolvem o lugar e que fogem de vista. Nada de Ceridwen, mas vejo de relance um tecido laranja e cabelos vermelhos no telhado de um celeiro, diretamente à frente de onde estou. Eles somem... Por cima da muralha? Aonde ela vai? É a princesa — deveria conseguir partir pelo portão da frente sem perguntas.
Meira, a soldado, não hesitaria em seguir. Mas a rainha Meira deveria voltar para a comemoração e esperar que ninguém reparasse que partiu, para poder construir algum tipo de paz entre Verão e Inverno.
Mas a única aliada veraniana que quero está do lado de fora. Se as batidas abafadas da mesma música são alguma indicação, a dança ainda não parou — todos ainda devem estar hipnotizados por ela.
Uma pilha de caixas está perto de uma das paredes do celeiro, fornecendo uma carona fácil até o telhado. Impulsiono o corpo para cima, equilibrando-me nas antigas calhas, e dou um passo para trás para ter uma vista melhor da muralha, esperando que talvez Ceridwen apareça de novo. Tontura me faz oscilar, e cambaleio até a beira do telhado, o calor me consome a cada gota de suor.
— Ei, inverniana.
Eu me viro. No chão, abaixo, estão dois homens, cabelos vermelhos colados aos rostos sujos.
Um deles ri.
— Sua rainha a enviou para nos espionar?
O restante dos ajudantes do estábulo permanece em volta da caixa usada como mesa de jogo, tomando vinho no gargalo e nos observando com as sobrancelhas erguidas. Estou dividida entre preocupação por não ter percebido que eles me surpreenderam e alívio por não saberem quem sou. É claro que não sabem — por que a rainha de Inverno escalaria celeiros, sozinha, a essa hora da noite? Ela não escalaria. Não deveria escalar, por esse exato motivo.
Minha adaga parece queimar no pulso, mas não a saco, ainda não quero que saibam que tenho uma arma. Engulo em seco, permanecendo no telhado alto o suficiente para que não possam me puxar para baixo.
A não ser que subam pelas caixas e venham atrás de mim.
Um formigamento ínfimo de medo toma minha nuca, mas eu o afasto com um gesto. Já lidei com coisa pior. Posso lidar com isso.
— Quanto tempo até que alguém perceba que você sumiu, garotinha? — Um dos homens aponta o queixo em minha direção. — Tempo o bastante para se divertir?
— Tenho certeza de que temos ideias drasticamente diferentes do que é diversão — consigo dizer, olhando para a porta, na direção do palácio. Vazia e escura.
Os homens gargalham alto.
— Essa daí tem uma língua!
— O que mais pode fazer com essa sua língua, hein?
Minhas pernas tremem e dou um passo para trás, mais perto do alto do telhado. A bola fria de magia do condutor se mistura ao meu medo ao ouvir as palavras dele e me fazer ter ânsia de vômito.
O pátio vazio do estábulo espera, escuro e agourento ao meu redor. O rosto de Angra lampeja em minha mente quando percebo o quanto essa área é tão parecida com Abril — vazia e ávida. Coisas terríveis não acontecem em lugares lotados; elas acontecem nos vazios do mundo, onde há apenas uma vítima e um agressor e ninguém para ouvir grito algum.
— Espere aí, querida... Só queremos conversar! Desça.
Esfrego a testa, minha pele está coberta por sujeira, e inspiro ar quente abafado. A umidade grudenta do suor em minhas mãos fica mais espessa, uma camada de calor úmido que se parece exatamente com... sangue. Sangue como em Abril, quando matei Herod.
Herod me olhava como esses homens me olham.
A magia do condutor dispara gelo por mim, então esfrego as mãos furiosamente na calça, inspirando com dificuldade um ar que se recusa a ir para meus pulmões. O que não daria por gelo nesse momento...
Não, estou bem... Estou bem.
Uma sombra se move do outro lado do telhado do celeiro e me viro, quase perdendo o equilíbrio na calha conforme puxo a adaga da manga. Terror percorre meu corpo, relâmpagos de pesar conforme a sombra se move para a frente. Avanço, mas minha visão fica embaçada — o céu preto intenso, o tremeluzir distante de uma fogueira em um telhado. Meus joelhos fraquejam no telhado, a faca escorrega pela inclinação e o impacto me sobressalta, fazendo escapar um gemido, junto com...
Frio.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!