21 de janeiro de 2019

Capítulo 14


THERON ME LEVA, pela passagem dos criados, até os aposentos dele, percorrendo o interior do palácio para evitar qualquer encontro com Noam. Subimos três lances de escadas e percorremos corredores infinitamente longos, tudo menos luxuoso do que as passagens principais do palácio — apenas tapeçaria verde simples e paredes de madeira sem tinta e velas brancas leitosas sobre mesas marrons.
Criadas com cestos de lençóis e rapazes com mensagens enfiadas debaixo dos braços passam apressados, executando as tarefas diárias que mantêm um palácio funcionando. Todos por quem passamos param e fazem uma reverência para Theron, os rostos se suavizam da concentração do trabalho para o prazer de ver alguém que conhecem.
Theron acena para cada um.
— Sua mãe está se sentindo melhor? — pergunta ele a uma criada que passa, que faz uma profunda cortesia ao responder que sim, bastante, o médico fez um milagre.
— Espero que seu irmão esteja gostando do novo posto de trabalho — diz Theron a um mensageiro, que sorri à menção e diz que está gostando sim, senhor, que virou tenente.
Sigo atrás, com as sobrancelhas se erguendo mais a cada breve conversa. Theron conhece todos eles. Cada um. E não apenas isso, mas ele parece genuinamente interessado nos criados, lembrando-se não apenas de dezenas de rostos, mas também dos menores detalhes sobre como aquele acre de fazenda está, se o comércio com Yakim foi bem na semana anterior, se a filha já se acostumou com o novo marido?
Paramos diante de uma porta no corredor do terceiro andar. Theron vira a maçaneta, seguindo adiante como se nenhuma das interações fosse fora do comum, e olho para trás de nós. Nenhum dos criados parece pensar que nada é incomum também.
Será que Theron está tão familiarizado assim com eles? Não consigo imaginar Noam permitindo que o filho se misture àqueles “abaixo” dele.
— Todos os nobres de Cordell são tão — paro, buscando a palavra certa — atenciosos?
Theron olha por cima de meu ombro, para um grupo de criadas que conversam. Os olhos dele divagam apenas o bastante para que eu saiba que os pensamentos do príncipe estão em uma lembrança não exatamente agradável, e ele força um sorriso para disfarçar.
— Ninguém mais se espreita pelos bastidores para chegar aos aposentos tão frequentemente quanto eu — brinca Theron e, antes que eu possa perguntar mais, ele mergulha para dentro do quarto, me restando apenas o seguir.
Enfiada ao lado de uma escrivaninha, a porta se abre para uma sala de estar grande o bastante para ser espaçosa, mas não tão grande para ser extravagante. Uma mesa de jantar está à esquerda e uma variedade de poltronas e sofás se aglomeram, juntos, ao redor de uma lareira à direita. A mobília está sobre um tapete espesso verde e dourado, as cores imitam os tons escuros do restante da sala de estar. Um lustre pende sobre a mesa de jantar e pinturas dos campos de lavanda de Cordell ou de florestas verdes exuberantes ou de rios percorrendo pradarias amarelas cobrem as paredes. É requintado, mas funcional, um lugar no qual poderia imaginar tanto uma reunião estratégica quanto um jogo de cartas competitivo.
— Não vou demorar — diz Theron, ao fechar a porta atrás de nós e desaparecer para dentro do quarto, à direita.
Depois de um momento, os sons de água caindo em uma tigela ecoam para fora.
Caminho pela sala de estar para me distrair do fato de que a porta do quarto de Theron está aberta e ele provavelmente está um pouco mais do que sem camisa no momento.
Doce neve, jamais pensei tanto em um homem sem roupa na vida. Mesmo no acampamento com Mather, jamais pensava no fato de que ele estaria na tenda de banho depois de mim e que estaria, hã... quero dizer, talvez eu pensasse, mas jamais fiquei tão corada. Pressiono as mãos contra as bochechas e suspiro.
Paro no meio do quarto, com as mãos ainda no rosto, e semicerro os olhos. Há muita coisa ali. Muita coisa. Mais do que móveis e decoração. Faço um círculo, avaliando o espaço com poucos bens. Estava tão distraída pensando em garotos que ignorei a característica levemente bagunçada e desordenada da sala de estar de Theron — está bem, a característica muito bagunçada e muito desordenada.
Pinturas emolduradas de todos os tamanhos e formas estão em pilhas desencontradas pelo quarto, encostadas na escrivaninha e na parede e nas poltronas, com pinturas menores espalhadas pelo tampo da mesa sobre um lençol fino de algodão. Máscaras elaboradas cobertas de joias e detalhes dourados pendem de fitas nos cantos das pinturas. Livros em pilhas altas estão encostados contra a lareira e sobre pequenas mesas de canto, e entulham tanto as prateleiras de livros que tenho medo que a estrutura inteira exploda em papel e poeira. São livros grandes também, coisas grandes e arcaicas que parecem tão velhas, tão frágeis, que temo desintegrá-las simplesmente ao respirar forte demais.
Encosto na mesa de jantar, percorrendo com os olhos as pequenas pinturas de carvalhos e os livros com páginas amareladas que despontam das capas. Um volume retangular com o título gravado em dourado exibe História do comércio no rio Feni. Outro livro, ao lado desse, diz Histórias dos habitantes das montanhas, com letras em couro espesso costurado. Ao lado desse, está uma pilha de pergaminhos novos, algumas linhas legíveis rabiscadas com a mesma escrita rápida que o poema da biblioteca. Obra de Theron.
Semicerro os olhos, mas só consigo distinguir algumas palavras dessa vez — verdade e poderia e algumas outras — então, me volto para uma coleção de retratos ovais em uma pequena caixa, cada pintura envolta por uma moldura fina e prateada. Passo a mão sobre a pintura de uma mulher com os cabelos presos em um coque apertado olhando sombriamente para o pintor, como se ele, e somente ele, fosse responsável por prender os cabelos dela tão apertados.
A porta de um armário bate atrás de mim e recuo para longe da mesa, a fim de olhar para o outro quarto. Só consigo ver uma cama com dossel banhada em luz branca pálida de uma janela aberta. O armário bate de novo do lado de dentro e dou um passo em direção à porta no momento em que Theron sai, puxando para trás os cabelos agora molhados, em um rabo de cavalo. Ele tirou as roupas de treino e vestiu algo mais digno de um príncipe — calça preta com listras douradas finas percorrendo as laterais. Uma camisa branca e justa está abotoada até o pescoço dele, sob um colete preto, escondendo o peito enfaixado.
Theron passa a mão nos cabelos.
— O que gostaria de ver primeiro? Temos uma bela coleção de animais na floresta, uma galeria de arte na ala norte...
Ergo uma sobrancelha.
— Uma galeria de arte? Tem certeza de que sobraram pinturas nela? — Aceno com a mão para o quarto. — Pelo jeito, essa coisa de príncipe é só uma fachada para sua vida como ladrão de arte.
Theron olha ao redor do quarto e se move distraidamente para a pilha mais próxima de livros, erguendo um e passando os dedos pela lombada. Ele ergue o rosto para mim com uma expressão de mágoa fingida.
— Também roubo bibliotecas, fique sabendo. E tenho dois bons motivos para essa — os olhos dele se semicerram enquanto Theron pensa — coleção.
— Quer uma profissão reserva, caso ser rei não dê certo? — chuto, sorrindo, mesmo ao perceber o quanto pode ser verdade.
Theron dá de ombros e coloca o livro de volta na pilha.
— Em parte, é isso. Mas, principalmente, porque meu pai acha que essa obsessão é completamente inadequada para um futuro rei e, contanto que eu mantenha as relíquias entulhadas em meus aposentos, ele se recusa a vir aqui. — Theron sorri para mim. — Mas também porque muitos desses pertenceram a minha mãe.
— Sua mãe? — passo os olhos pela prateleira, lembrando das lições de Sir. De Theron, metade cordelliano, metade ventralliano, provavelmente se espera que tenha puxado mais ao lado do pai do que o da mãe.
Estendo a mão e toco as lombadas dos livros na prateleira. Eles me lembram da braseira que Finn levou para o acampamento. Agarrar-se a alguma parte do passado, mesmo que isso signifique também agarrar-se à dor de jamais tê-la de novo. Essa dor é menos horrível do que a dor de esquecer.
— Sinto muito — digo, embora não tenha certeza do motivo. Sinto muito por sua mãe não estar mais aqui. Sinto muito porque seu pai usa você.
Theron dá de ombros e se aproxima, de pé à outra ponta da estante de livros.
— Você lê muito?
Tracejo com o dedo as letras na lombada de um livro particularmente grosso.
— Somente o quanto Sir me obrigava. Prefiro passar o tempo cortando coisas. — Sorrio, mas Theron apenas me observa, com os lábios pensativamente repuxados.
Ele se afasta da estante e segue para uma pilha de pinturas no canto.
— Tenho uma paisagem da qual acho que pode gostar — diz Theron por cima do ombro, vasculhando grandes molduras quadradas. — Uma mais velha, mas está em boa condição...
Theron continua falando, mas a voz dele se abaixa até virar um murmúrio, um cântico distante, no fundo da minha consciência. Encaro o livro grosso pelo qual percorri os dedos, as letras soletram um título que faz minha mente se aguçar com curiosidade súbita. É velho, muito velho, um dos volumes quebradiços que parece passível de se desintegrar em uma nuvem de poeira a qualquer momento. Leio o título de novo.
Magia de Primoria.
Magia como... meus sonhos com Hannah?
Não sei nada sobre magia, além do que Sir me contou pelas lições, mas deve haver um motivo para meus sonhos — se não são causados por estresse, quero dizer, o que ainda é uma possibilidade. Mas se não for isso, devem vir de algum outro lugar — a pedra? Outra fonte de magia? E se magia vem de outro lugar, então deve haver uma fonte de magia além dos Condutores Reais. Quero dizer, há o abismo, mas a magia nele só afeta os reinos Estação, assim como todos os Condutores Reais afetam apenas os cidadãos deles dentro de um determinado raio. Talvez, se eu estivesse em um reino Estação, pudesse atribuir os sonhos com Hannah a resquícios da magia que emanam do abismo — não que eu jamais tenha ouvido falar disso —, mas aqui, em Cordell, o que poderia ocasioná-los? Se é que sequer é magia. Se não estou apenas perdendo a cabeça.
Conforme analiso meus pensamentos, um peso de dúvida recai sobre meu peito. Milhares de anos. É quanto tempo faz desde que não há nada mágico além dos Condutores Reais, desde que o abismo de magia tinha um portal acessível pelas montanhas Klaryn, antes de se perder em avalanches ou sabotagens. Se houvesse outra fonte de magia, se houvesse mais poder, se houvesse qualquer outra coisa, alguém teria encontrado a esta altura.
Não teria?
Nada disso me impede de tirar o livro antigo da prateleira e o segurar com as duas mãos. Um selo está no canto direito inferior, cera de um vermelho profundo que ficou quase lisa ao longo dos anos. Uma frase indecifrável se curva ao redor da imagem de um raio de luz que atinge o topo de uma montanha. Consigo discernir algumas das palavras — DO LUSTR — antes de desbotar em baboseiras formadas pelo tempo. O selo do fabricante? O que quer que seja, percorro os dedos por ele, mordendo o lábio, pensativa.
Uma pesquisa não faz mal, certo? E é uma alternativa muito melhor a me sentar no palácio de Bithai e ser embonecada como a futura rainha de Cordell, enquanto Sir e Mather e Noam seguem tomando decisões sem mim. Dessa forma estou fazendo algo.
Algo pequeno, mas mesmo assim algo.
É um começo.
— ... mas interessante, eu acho — diz Theron.
Eu me viro para ele, abraçando o enorme livro contra o peito. Theron segura uma pintura pelos cantos superiores, na altura da cintura, a base mal roça as botas do príncipe.
Perco todo o fôlego, como se a pintura fosse um vórtice de vento e estivesse presa na tempestade.
É Inverno. Ou, bem, poderia ser um reino Ritmo durante a estação do inverno, mas quando vejo a pintura, é Inverno. Uma floresta ali, as árvores se curvando e caindo sob o peso do gelo, os galhos marrons congelados como colunas reluzentes. Bancos de neve se formam ao redor das bases das árvores, interrompidos apenas por pedregulhos ou pequenos arbustos cobertos de neve. Tudo está na quietude pacífica da manhã, os raios do sol mal tocam as árvores e transformam tudo no azul-amarelado do alvorecer.
Prove.
Aquela palavra de novo. Meus dedos pressionam o livro quanto mais encaro a pintura, algo como determinação me percorre. Sir estava certo. Não sei de nada. Não sei qual é a sensação de Inverno, que floresta a pintura retrata. Não sei nada. Jamais vi, porque se foi. Simples assim, uma guerra terrível, uma invasão cruel e milhares de pessoas foram massacradas, aprisionadas, destruídas. Simples assim, um reino inteiro devastado, e o máximo que já consegui fazer foi esperar que, algum dia tenha minhas próprias lembranças de Inverno.
Tenho sido tão egoísta, não tenho? Egoísta e limitada e errada, porque queria ser importante para Inverno, mas do meu jeito. Dentro dos meus parâmetros, que também se adequariam a quem eu queria ser. Engasgo com uma risada, odiando que eu tenha levado tanto tempo para perceber que Sir estava certo. Que ele se exploda — espero ansiosa pelo dia em que Sir esteja finalmente errado.
Nem mesmo percebi que havia me movido até que Theron pigarreou. Estou ajoelhada no chão, diante da pintura, encarando, com o livro ainda agarrado ao peito com uma das mãos, enquanto a outra se estende em direção às árvores, como se, caso eu a estenda com vontade, consiga pegar parte da neve dos galhos.
Theron muda a forma como segura a pintura e abaixa o rosto para ela.
— Posso mandar pendurá-la em seu quarto, se quiser.
Assinto e puxo a mão de volta para o livro.
— Obrigada — sussurro, e ergo o olhar para ele. Theron sorri, um sorriso suave e cuidadoso, os olhos dele brilham conforme percorrem meu rosto.
Músculo a músculo, o sorriso de Theron se dissipa.
— Nós o recuperaremos.
Abraço o livro com mais força e engulo em seco, forçando um rompante súbito de lágrimas de volta para a garganta.
— Nós? — sacudo a cabeça. — Eles recuperarão. Minha parte já... — paro, sem fôlego, e encolho o corpo. Não deveria doer. Esse é o certo, não é? É isso que preciso fazer, me casar e ingressar em Cordell. Por Inverno.
Theron apoia a pintura contra o encosto de um sofá, uma das mãos dele distraidamente se detém sobre a imagem. Os olhos dele se movem como se lembrasse de algum conto antigo e, quando ele se concentra em mim, fico de pé, em silêncio, segurando o livro como um escudo entre nós.
— Quase me juntei à Guilda dos Escritores de Ventralli quando tinha 11 anos — diz ele.
Minhas sobrancelhas se erguem.
— Sério? O que aconteceu?
— Nada de bom — diz Theron, rindo. — Escrevi para o rei ventralliano na época, o cunhado de minha mãe, e consegui a aprovação especial dele para me juntar. Arrumei um lugar para ficar e a viagem para chegar lá, além de quantos homens me acompanhariam. Eu estava tão orgulhoso de mim e queria tanto. — O olhar de Theron se abaixa para um espaço além de meu ombro, encarando o passado. — Cinco dias antes de eu precisar partir, meu pai enviou o valete dele para meus aposentos para me avisar que uma carruagem me esperava para me levar a uma base militar na costa de Cordell. Que eu viveria lá durante os próximos três anos e estudaria com um dos coronéis de meu pai.
“Meu pai sabia de meus planos de ir para Ventralli. Eu contei a ele conforme os fazia, mas não soube até aquele dia que ele jamais pretendia me deixar ir. Que o herdeiro dele seria educado em métodos militares e gerenciamento de recursos, não em arte e poesia. — Theron franze a testa e olha de volta para mim, como se tivesse esquecido que eu estava ali. — Mas isso não me impediu de ter tudo isto — ele indica o quarto — e de convidar os melhores escritores, poetas e artistas de Ventralli para que visitassem Cordell. Sempre haverá um eles em nossa nova vida, Meira. Eles tomam as decisões; eles moldam nosso futuro. O truque é encontrar uma forma de ainda ser você no meio de tudo isso.
— Podemos mesmo nos dar esse luxo? — pergunto. Nem mesmo penso sobre o quanto isso pode ser audacioso, ou em quão pouco eu o conheço, só consigo pensar no quanto eu o conheço. Theron queria algo mais da vida. Queria ser um artista, embora o pai quisesse que ele fosse um rei. E ali está ele, o herdeiro de Cordell, de pé, entre pilhas de livros e pinturas. Ele é os dois. Theron se adaptou a tudo que a vida atirou contra ele.
Theron suspira, os ombros se curvam levemente.
— Preciso acreditar que sim.
Franzo a testa. É possível? Ser tanto o que Inverno precisa, quanto o que eu quero? Em vez de lutar por somente o que quero ou me entregar a somente o que Inverno precisa, encontrar um equilíbrio entre os dois?
Ergo o livro.
— Posso pegar isso emprestado?
Theron assente antes de sequer ver o que é.
— É claro. Pegue o que quiser. — Ele cutuca a pintura. — E vou pedir que alguém pendure isto para você. Agora — tenta Theron mais uma vez, com um sorriso iluminado estampado no rosto — aos animais?

2 comentários:

  1. Tô começando a gostar deles juntos!
    Tomara que esse não seja mais um dos casos todo mundo trai todo mundo!!

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    Respostas
    1. Alguém que mim compreendi. Theron parece tão encantador quanto Marven no começo, então fica aquela vozinha dizendo "Vai da merda!!!"

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Boa leitura, E SEM SPOILER!