26 de janeiro de 2019

Capítulo 13


Meira

O INTERIOR DO Palácio Preben não é diferente do exterior: empoeirado, rachado, bagunçado. O calor aqui é menos intenso, seja pela diminuição da temperatura à noite, ou pela forma como pedras de arenito conseguem reter algum frescor. Conall e Garrigan fazem um bom trabalho se irritando com as semelhanças entre o Palácio Preben, intencionalmente destruído, e nosso palácio, arruinado pela guerra, de forma que eu não preciso fazê-lo. Contenho a raiva para poder me concentrar em conhecer o rei de Verão — e em entender por onde começo a procurar pela Ordem e pelas chaves.
A maioria dos governantes adora exibir os tesouros do reino, principalmente para dignitários em visita, como demonstrações de poder; Noam provou isso com as absurdas árvores de ouro dele. Talvez Simon esteja disposto a fazer passeios pelos lugares mais antigos e mais estimados de Verão, coisas que poderiam ter resistido ao tempo e permitido que uma Ordem misteriosa tivesse escondido pistas ou pequenas relíquias nelas.
Mas entrar nesses lugares exigirá que eu seja boazinha com o rei veraniano, e tenho quase certeza de que vou odiá-lo tanto quanto odeio Noam, se não mais, com base no que vi do reino dele até agora. O que não torna a preparação para conhecê-lo mais fácil, e quando a manhã chega, preciso conscientemente me impedir de buscar o chakram. Levar uma arma para uma reunião política...
Até eu sei que isso não é uma boa ideia.
Meu quarto é muito melhor do que o palácio pareceu a princípio, sob as sombras da noite. Chamas crepitam em uma pilha de lenha em uma lareira no canto, que foi acesa por criados, apesar da claridade matinal, e cobertores de vermelho-fogo e laranja intensos pendem de uma cama com dossel. As mesas e as cadeiras dispostas pelo quarto são entalhadas com desenhos de espirais e raios de sol marcantes, enroscando-se para dentro de si mesmos, então disparando para fora novamente.
Dendera entra em meu quarto logo depois de eu terminar de me vestir. Espero que ela sinta orgulho de como escolho um traje apropriado para uma rainha, mas quando Dendera vê meu vestido plissado, ela para e suspira.
— Duquesa?
Os olhos de Dendera brilham.
— Henn, Conall e Garrigan estarão com você, mas... — Dendera para e se vira para o baú, aquele que ela e Nessa abarrotaram com roupas minhas. Depois de um momento vasculhando, Dendera pega uma camisa branca e calça preta de tecido áspero; o rosto dela está contraído, como se odiasse o que está prestes a dizer.
— Vista isto. E leve uma faca, pelo menos. Algo pequeno, que possa esconder.
Olho para Dendera boquiaberta.
— É meu aniversário?
— O quê? Não. Eu... — Dendera geme e empurra as roupas para mim. — Não confio neste reino.
— Tenho certeza de que posso encontrar um chakram aqui em algum lugar. — Sorrio.
— Uma faca — corrige Dendera, gesticulando com os braços. — Tudo bem. Você não me ouve mesmo. Um chakram, uma faca, uma espada longa... Pela neve, por que simplesmente não aparece de armadura completa?
Gargalho, e um leve sorriso toma os lábios de Dendera. Se fosse possível capturar um momento, guardá-lo em segurança em meu medalhão vazio, sei que a magia que isso emitiria seria muito, muito mais forte do que qualquer coisa daquele abismo.
Depois de me ajudar a tirar o vestido, Dendera me deixa para que me vista sozinha. Troco de roupa rapidamente, parando com a mão sobre a faca que ela separou para mim, algo emprestado de Henn.
A rainha de Inverno, armada. Mas se Dendera, mestre de todas as coisas apropriadas, acha que não tem problema levar uma arma, uma pequena, talvez...
Pego a adaga. Ela se encaixa na palma de minha mão, um peso metálico que traz lembranças de uma arma ainda mais mortal. Quando deslizo a faca pela manga da camisa, percebo que perdi a oportunidade de perguntar a Dendera onde está meu chakram. Mas se ainda está em Inverno, não pode me ajudar agora.
Independentemente, tenho uma arma e estou vestindo minhas antigas roupas pela primeira vez em meses.
Quando me aproximo da porta do quarto, não consigo deixar de respirar com mais tranquilidade. De repente, Verão parece bem menos sufocante.


Sem discutir muito, Dendera e Nessa concordam em permanecer no quarto delas. Eu teria ficado feliz por tê-las ao lado, mas Conall e Garrigan parecem bastante estressados ao pensar que precisam me vigiar nesse reino, quem dirá Nessa também — ela ficará muito mais segura no quarto do que passeando conosco. Então Dendera fica para trás para vigiar Nessa enquanto Henn, Conall e Garrigan se reúnem no corredor comigo.
Alguns soldados cordellianos estão em posição de sentido do lado de fora de um quarto logo depois dos nossos, vigiando os espólios das montanhas Klaryn que estão trancados do lado de dentro. A porta do quarto ao lado se abre e Theron sai devagar, com os dedos traçando pequenos círculos nas têmporas.
— Diga que não experimentou o vinho de Verão na noite passada — falo, e Theron encolhe o corpo na minha direção, mas consegue dar um sorriso fraco.
— Também não deixaram uma garrafa no seu quarto? — O sorriso dele se abre e Theron passa a mão no rosto. — Só não dormi bem. Pensando demais, acho.
Quase pergunto em que pensou, mas sei. O tratado. Conhecer Simon. Encontrar as chaves. Tudo que também percorre minha mente.
Theron pisca para afastar a exaustão e, então, o olhar dele percorre minhas vestes.
— Bom — expira ele.
Rio com deboche.
— Obrigada. É o que toda garota quer ouvir.
Theron sacode a cabeça, faz um gesto de ombros na direção do resto do palácio e, em algum lugar lá dentro, para o rei Simon. A cacofonia que nos recebeu na noite anterior se foi agora, os corredores sem música ou risadas ou tambores. O silêncio parece desconfortável nesse reino, mais como um silêncio doloroso, angustiado, do que um silêncio relaxado e tranquilo.
— Não — corrige Theron. — Só quis dizer que nenhum evento neste reino será... normal. Vestidos não são a melhor ideia.
Os olhos pálidos de Henn brilham diante da luz do fogo em um recipiente não muito longe.
— Ele quer dizer que Verão tem o mesmo apreço por limites pessoais que o general Herod Montego tinha.
Recuo, pisco para Henn quando ele se encosta casualmente na parede como se não tivesse dito nada importante. A concentração de Henn percorre o entorno, observando tudo, e percebo que ele não disse nada muito importante — está apenas apontando os fatos de nossa situação, simples e direto. Mas o nome do general de Angra deixa uma comichão em minha pele.
Theron acena na direção do quarto que os homens dele vigiam.
— Também é provavelmente melhor se não deixarmos que a notícia de nossas mercadorias se espalhe pelo reino. A não ser que ache que Verão será um aliado digno para Inverno.
Eu me aproximo.
— E quanto a nosso outro motivo para estarmos aqui?
Mas Ceridwen aparece no fim do corredor antes que Theron consiga responder, vestida de forma tão diferente da saqueadora que conhecemos na noite anterior que quase a confundo com uma das damas da corte de Verão. Tecido laranja envolve as pernas dela, torcendo-se para cima do torso para dar uma volta no pescoço, formando duas dobras. Um corselete de couro envolve a barriga de Ceridwen, combinando com as sandálias que se amarram até os joelhos.
Ceridwen para ao meu lado, a irritação irradia dela antes mesmo que ela fale.
— Meu irmão levou a festa para fora do palácio ontem à noite e pediu que o encontrem na cidade.
Theron endireita as costas.
— É claro. Obrigado, princesa — acrescenta ele, buscando formalidade em meio à indiferença aparente de Ceridwen. Bem, não indiferença, mas... desprazer.
Ceridwen parece mais irritada.
— Venham. Carruagens aguardam.
Theron ergue uma sobrancelha para o tom de voz de Ceridwen, mas ela sai andando sem esperar pela resposta. O restante de nós — Conall, Garrigan, Henn, Theron, alguns guardas cordellianos e eu — nos apressamos atrás dela, precisando quase correr para acompanhar. Ceridwen segue à frente por corredores iluminados por fogo, o brilho laranja torna as paredes de arenito do palácio quentes e sufocantes. Disparamos, descendo dois lances de escadas e virando três vezes à esquerda antes que Ceridwen pare.
Flores exuberantes de hibisco estão em vasos em mesas ao longo das paredes, seguindo até um arco amplo que revela o pátio do lado de fora. A luz do dia exibe alguns aglomerados de árvores peladas, funcionários do estábulo correndo de um lado para outro, poeira subindo em nuvens laranja. E além da muralha, Juli se ergue, os prédios parecendo tão arenosos quanto o complexo do palácio.
Ceridwen se volta para nós assim que passamos pelo arco.
— Príncipe Theron, pode me dar um momento com a rainha Meira? Eu gostaria de parabenizá-la por recuperar seu reino. Vai encontrar as carruagens esperando logo adiante.
As sobrancelhas de Theron se erguem quando ele se volta para mim, apoiando a mão em meu quadril, mas aperto o braço dele. Tenho razões para conversar com Ceridwen também, e sozinha pode ser melhor.
— Não demorarei muito. — Incluo Henn, Conall e Garrigan. — Ficarei bem por alguns momentos.
Eles não parecem convencidos, mas a atenção de Henn se volta de mim para o corredor praticamente vazio.
— Estaremos logo aqui fora — diz Henn para mim. Conall e Garrigan o seguem, e depois de uma pausa, Theron os acompanha com os próprios guardas.
Ceridwen se vira para mim depois que eles se vão, olhando com a mesma expressão de reprovação que Sir sempre lança em minha direção, testa franzida, maxilar contraído, olhos prontos para se voltarem para a mais ínfima ameaça.
— Um príncipe de um reino Ritmo? — sussurra ela, tão baixo que mal entendo.
Minha expressão se desfaz.
— O quê?
Ceridwen faz um gesto para que eu esqueça e cruza os braços.
— Rainha Meira — recomeça ela, elevando a voz como se nada tivesse acontecido. — Foi difícil recuperar seu condutor.
Instintivamente toco o medalhão.
— Princesa, o que...
— Seu reino também — continua ela, mantendo um sorriso falso no rosto. — E seu povo. Acho que uma governante como você deveria estar bastante ciente do valor deles.
— É claro — concordo, devagar, sem ter certeza do que Ceridwen está dizendo.
Ela endireita as costas, olha para o corredor ao nosso redor como se pudesse ver através das paredes, ver o reino além delas.
— Governantes de Verão jamais deram muito valor aos seus cidadãos ou a outros. Meu reino foi marcado por essa vergonha, mas onde alguns veem essa marca como uma cicatriz, outros veem como um acessório decorativo.
Assinto.
— Estou muito ciente dos negócios de Verão.
— Está? — Ceridwen se aproxima de mim. Maquiagem dourada emoldura os olhos castanhos dela, rodopia nas têmporas formando pequenas espirais que brilham quando se move. — Por isso meu irmão providenciou para encontrá-los onde ele está hoje de manhã, para mostrar até que ponto os negócios de Verão se estendem. Ele vai perguntar se você está disposta a contribuir com nossa — Ceridwen pausa, o lábio se contrai — economia. Está? Disposta a contribuir?
Preciso de apenas um segundo para entender o significado das palavras da princesa. Recuo, minha boca se escancara.
— Ele... O quê? Quer que eu venda parte de meu povo a ele?
Ceridwen sorri.
— Fico feliz ao ver qual é sua posição, rainha Meira. O mundo está cheio de gente que não valoriza as mesmas coisas que você e eu. E valorizamos as mesmas coisas, não é?
— Sim.
— Meu irmão pode ser persuasivo. Espero apenas que sua determinação aguente.
— Não tem ideia do quanto posso ser teimosa.
— Se teimosia fosse a única coisa necessária para ser uma boa rainha, eu governaria o mundo. — Ceridwen se vira na direção do pátio.
Avanço batendo os pés.
— Você estava esperando para saquear a caravana, não estava? Para libertar aquelas pessoas?
Ceridwen para, os músculos dos ombros expostos dela se contraem nitidamente. Se tivesse a intenção de libertar aqueles escravos, preferiria manter as ações em segredo — mas se é alguém que sente tanta repulsa pelas práticas do irmão, talvez seja alguém em quem possa confiar: uma pessoa que se levantaria contra a oposição; que simpatizaria com meu infortúnio e me ajudaria a encontrar a chave — ou a própria Ordem dos Ilustres — antes que Cordell encontre.
Antes que Theron encontre.
Encolho o corpo diante das palavras nas quais mal consigo pensar.
Ceridwen se vira para me encarar, metade do rosto dela está banhada na sombra do arco, metade na luz do pátio.
— Ela também é inteligente — murmura Ceridwen, então encurta o espaço entre nós para empurrar algo para a minha barriga.
Uma adaga.
Onde escondeu uma adaga naquela roupa?
— Nem todos no mundo têm o poder que merecem — sussurra Ceridwen. — Não faça mau uso do seu.
Fecho a mão sobre a dela na adaga, uma leve pressão que prende os dedos de Ceridwen ao cabo.
— Não tenho intenção alguma de fazer mau uso do meu poder, princesa. Só queria oferecer meu apoio. Sei como é lutar pela liberdade do reino.
Ceridwen pisca para mim, o rosto dela estampa choque, então horror, então um sorriso frio e rígido que não chega aos olhos. Ela se desvencilha de minha mão e fecha a adaga de volta na palma da mão.
— Veremos, rainha Meira. Como eu disse, aproveite Verão.
Ela se vai, mergulhando por baixo do arco. Assim que passa pela porta, Theron ocupa o lugar da princesa, acompanhado por meus guardas.
— O que aconteceu? — pergunta ele.
Sorrio.
— Acho que acabo de fazer uma amiga.


Onde quer que Simon queira nos encontrar, não é longe. Duas ruas depois, paramos diante de um prédio de quatro andares que compete com o palácio em idade. O exterior de arenito e os detalhes em madeira frágil destacam os anos exposto ao clima rigoroso de Verão, mas objetos decorativos pendem de varandas, tentativas de esconder a dilapidação por trás de tranças de seda carmesim e buquês de flores laranja e vermelhas vibrantes. Essas decorações dão ao prédio uma sensação de maior grandiosidade, um ar de importância e autoridade, ao passo que o palácio parecia mais abandonado.
As paredes, que pareciam cair aos pedaços pelo exterior, estão perfeitamente conservadas por dentro, painéis lisos de pedra de cor creme com molduras douradas brilhando em cada canto. Um hall se estende pelo centro do primeiro andar, azulejos polidos reluzem em um arco-íris de cores no chão e plantas pendentes montam guarda do lado de fora de dezenas de alcovas fechadas com cortinas.
Pisco, certa de que estou enxergando mal. Cada parte de Verão estava em um estado de quase colapso, mas não aquele lugar? Por que — e o que é aquilo?
Uma resposta surge quando uma das cortinas das alcovas se move e uma mulher sai cambaleando, seguindo para a escada no fim do corredor. Meus olhos se arregalam tanto que sinto como se tentassem saltar de meu crânio. Ela está completamente nua.
Garrigan arqueja, chocado. Conall avança na minha direção, percebe que não há perigo imediato e se contenta com encarar de lábios contraídos. Theron cora tanto que a pele dele assume um tom roxo-avermelhado profundo, uma expressão tão esquisita para ele que quase rio.
Ceridwen sequer reage, no entanto. Ela marcha pelo centro do hall, acena para um homem que se apressa em nos cumprimentar. Meu contingente a segue aos tropeços, silenciado por nossos diversos níveis de choque e desconforto. As alcovas revelam mais algumas pessoas, cortinas oscilam para trás e revelam os tipos de mulheres que vimos a caminho da cidade na noite anterior, aquelas vestindo muito pouco, junto com homens vestidos com igualmente pouco. A maioria relaxa em espreguiçadeiras, camas, com braços e pernas estendidos, cabelos embaraçados e roupas ainda mais confusas. E, em geral, não estão sós. Os clientes que ocupam as alcovas variam desde pessoas com vestes em frangalhos e sujas de camponeses até os tecidos de seda fina da classe mais alta.
Esse lugar é um bordel. E, aparentemente, alimenta a economia de Verão, independentemente de classe. Que tolerante da parte deles.
Inspiro e agradeço ao pingo de sorte que tive por Nessa não ter vindo. Nem mesmo quero imaginar o que Conall e Garrigan teriam feito caso a irmã inocente e protegida deles tivesse sido atirada a um lugar como esse.
O calor me sobrepuja, faz com que o suor se acumule em gotas na minha testa e escorra pelas costas, ondas de suor pingam devido à falta de ventilação e à forma como o sol do meio-dia aquece o exterior do prédio. Esse bordel parece mais um forno, e conforme mergulhamos ainda mais profundamente no corredor, Theron mantendo-se ao meu lado, Conall e Garrigan bem próximos de minhas costas enquanto Henn se detém atrás, meio que espero que os homens e as mulheres dormindo ao nosso redor comecem a chiar como se estivessem sendo cozinhados.
Ceridwen nos leva até uma alcova no canto direito ao fundo. Ali, cortinas translúcidas se abrem e revelam almofadas com capa de seda que reluzem conforme as pessoas jogadas nelas se agitam no sono.
Ceridwen ziguezagueia para dentro.
— Aqui estão vocês — dispara ela, e recua, abrindo espaço para nós, nos deixando de pé ali, chocados, entre a alcova e sua silhueta que se afasta.
As sobrancelhas de Theron se elevam.
— Tenho a sensação de que não somos bem-vindos aqui — sussurra ele.
Sorrio para o príncipe.
— Talvez você, príncipe Ritmo.
Theron revira os olhos e lança um breve sorriso para mim antes de se voltar para a alcova. Cinco pessoas dormem do lado de dentro, pelo que consigo ver — estão todas entrelaçadas em um emaranhado de cabelos, braços, pernas, cetim brilhante e joias douradas reluzentes.
— Rei Simon? — tenta Theron.
Ninguém se move.
O maxilar de Theron se contrai.
— Rei Simon Preben — tenta ele, mais alto.
Da pilha de corpos, uma cabeça se levanta. Mesmo emaranhado em uma rede de travesseiros e braços e pernas, o rei é visivelmente jovem — não tão jovem quanto Theron e eu, mas não passa da metade dos vinte anos. Cabelo escarlate cobre, embaraçado, os olhos do rei, e ele entreabre um dos olhos com um resmungo alto antes de tocar algo no pulso. Depois de um momento, o rei suspira aliviado e se reconcentra em nós.
Acabou de usar o condutor para curar a ressaca?
Simon observa Theron, ergue uma sobrancelha e volta a atenção para mim.
— Por meu corpo carbonizado! Já é manhã? — O rosto de Simon se ilumina quando ele se levanta. O movimento agita as pessoas entrelaçadas a ele de volta à consciência, incitando gemidos de desgosto que o rei ignora conforme tropeça pelos corpos para cambalear diante de nós.
A essa altura, emito um ruído que é algo entre um arquejo e um grito, então abaixo a cabeça para evitar ver muito mais do rei veraniano do que queria.
Ele está tão nu quanto a mulher que vimos momentos antes.
Simon não percebe minha reação, ou a ignora.
— Rainha Meira! Ando muito ansioso por esse...
Theron pigarreia, nada gracioso, e Simon gargalha.
— Ah! — diz ele, como se tivesse realmente esquecido. — Mil desculpas... Um momento.
Um farfalhar e mais resmungos vêm dos cortesãos ainda dormindo na alcova, e depois de um momento, Theron me cutuca, presumo que porque Simon cobriu o... hã...
A primeira vez que vejo um homem nu e é o insensível do rei veraniano. Ótimo.
Arrisco olhar para ele e vejo que está envolto em um monte de cetim escarlate na altura da cintura, e, embora não esteja exatamente vestido, aceito.
— Rainha Meira! — tenta Simon de novo, e pega uma taça de uma mesa na alcova. — Faz muito tempo desde que tivemos o prazer de um inverniano em nosso reino. — Ele agita a taça pelos arredores, indicando o bordel. — Por isso achei melhor fazer as apresentações aqui. Não imagino que já tenha visto os esplendores de Verão. Uma verdadeira vergonha, mas que rapidamente sanaremos. Durante o dia de hoje você terá toda a equipe de madame Tia à disposição, esta noite se juntará a mim para uma verdadeira comemoração veraniana no palácio. Comeremos, beberemos...
Conforme minha mente luta contra as palavras de Simon para entender que ele pretende fazer com que fiquemos aqui, o dia todo, Simon empurra a taça para mim, o vinho se derrama na mão dele. Parte do líquido escuro cobre um bracelete no pulso de Simon, um bracelete espesso de ouro com uma pedra turquesa no centro, cercada por um brilho constante de luz escarlate. O condutor de Verão.
Quero dizer a Simon exatamente o que ele pode fazer com aquela taça, mas consigo manter algo próximo de racionalidade em meio à nuvem de choque. Ele não fez nada ameaçador, e, sinceramente, Simon está sendo hospitaleiro. Mas não é o tipo de hospitalidade de que preciso.
Seja legal, Meira.
Um sorriso fraco contrai meus lábios.
— Obrigada, mas não é um pouco cedo para tudo isso?
Simon entorna o conteúdo da taça antes de a atirar à confusão de pessoas e piscar um olho para mim.
— Não se acredita em si mesma. — A concentração de Simon se volta para nosso grupo, mais analítica, e ele visivelmente se desaponta. — Cerie não veio com vocês? Chamas para aquela garota. Ela costumava ser tão divertida. Nem sequer se apresentou? Minha irmã, a mais não veraniana dos veranianos que já conheci, mas quando se solta, olho no vinho! A garota entorna demais. Nesse sentido, suponho que seja muito veraniana.
— Rei Simon — interrompe Theron, colocando-se entre nós. Contenho um suspiro de alívio. Nem mesmo conheço Ceridwen tão bem assim, mas presumo que não goste muito que o irmão diga que ela “entorna demais”. — Temos uma proposta para você. Podemos combinar um lugar para conversar? Algum lugar afastado da agitação da cidade? — Theron pausa, as feições se contraem. — Soube que as vinícolas veranianas são gloriosas de se admirar.
Franzo a testa. Uma vinícola?
Qualquer que seja a ligação com o abismo de magia ou com a Ordem dos Ilustres nesse reino, deve estar em algum lugar que sobreviveu às provações do tempo — algo importante para Verão, ou algo ao menos tão velho quanto a porta.
Por isso Theron quer ir até as vinícolas. Algumas delas existem há séculos, e se alguma pista da Ordem ou das chaves pode ter sobrevivido às provações do tempo — pode estar em uma vinícola. O entalhe das vinhas sobre chamas faz um pouco mais de sentido.
Meus olhos se concentram nos azulejos sob nossos pés. O orgulho que toma a expressão de Simon.
Não imagino que já tenha visto os esplendores de Verão.
Vinícolas não são a única coisa que Verão valoriza o suficiente para manter preservadas durante séculos, no entanto. E talvez o entalhe não devesse ser tão literal.
Franzo o nariz. Pela neve, se precisar vasculhar os bordéis de Verão atrás da Ordem...
Simon sai da alcova cambaleando e passa o braço pelo pescoço de Theron.
— Gloriosas mesmo! Faremos a viagem amanhã. Hoje, no entanto... — Os olhos injetados de Simon se concentram em mim e ele assobia, liberando uma nuvem de hálito ácido. — Gostaria muito de conhecer a nova rainha inverniana. Não que não me sinta honrado por receber o herdeiro de Cordell, mas nós monarcas dos reinos Estação precisamos nos unir. Solidariedade.
O cheiro do vinho no hálito de Simon me faz engasgar.
Somos hóspedes neste reino. Precisamos permanecer aqui em paz.
Ele não fez nada errado. Não fez nada errado.
Mas não importa quanto motivos eu empilhe como tijolos em uma parede, meus impulsos a ultrapassam.
Somos hóspedes em um reino construído sobre escravidão.
Precisamos permanecer aqui em paz — o que basicamente significa que endossamos a forma como o reino dele trata pessoas.
Ele não fez nada errado — comigo. Mas quem mais Simon feriu? Quantas das pessoas aqui são escravas?
Como se em resposta a meus pensamentos, uma das pessoas na alcova de Simon se senta. Ela está vestida, ainda bem, mas os cabelos se destacam no emaranhado confuso de sono, cachos pretos espiralados que se grudam na pele marrom.
Não é veraniana. É yakimiana.
Linhas pesadas de maquiagem dourada em volta dos olhos escorreram pelas bochechas e pela testa. A mulher arruma o cabelo e, quando sente que a observo, ergue o olhar.
Trinco o maxilar.
Os borrões de maquiagem dourada no rosto quase tornam a pequena marca na bochecha imperceptível. Um V marcado sob o olho esquerdo, a pele queimada, mas antiga, curada, algo com que a mulher vive há um tempo. Talvez desde sempre.
Volto a atenção para o corredor. Criados varrem sujeira e arrumam cadeiras; mais algumas das pessoas pouco vestidas nas alcovas estão acordando. A maioria delas é veraniana, os cabelos pendem em mechas embaraçadas de vermelho-fogo ao redor da pele bronzeada, os olhos castanhos profundos; apenas algumas pessoas de outros reinos se movem. Todas estão marcadas, as cicatrizes tão velhas quanto a da garota.
Verão marca os escravos. Os criados que nos mostraram nossos quartos na noite anterior — estavam marcados? Na escuridão estava difícil enxergar muito mais — e sinceramente, me certificar de que as pedras das Klaryn fossem trancafiadas me distraiu. Eu me concentrei nas coisas que uma rainha faria, não nas coisas que uma soldada faria. Na segurança de nossa peça-chave para obter alianças, e não nos detalhes ao redor.
Meu corpo se sobressalta com remorso. Deveria me sentir feliz por ter agido como uma rainha — mas só consigo me sentir enojada. Como posso não lembrar se os criados tinham marcas? Ou mesmo se eram veranianos? Mas os escravos yakimianos ali se movimentam pelo bordel exatamente como os escravos veranianos, sem inclinação para combater ou se revoltar contra a vida que Simon escolheu para eles. Não importa o quanto ele consiga fazer os veranianos aceitarem as vidas que levam, nenhuma quantidade de magia poderia permitir que afetasse alguém que comprou de outro reino.
Será que esses yakimianos vivem essa vida há tento tempo que não sabem como revidar? Onde estão as pessoas que não aceitam esse destino? Aquelas que precisam ser afastadas dos recém-chegados, para não estragarem a ilusão de prazer. Para que qualquer um que visite veja a mesma perfeição falsa que fazia com que Primavera mantivesse os campos de trabalhos invernianos no interior do território, longe das interações com o mundo exterior.
É isso. Não posso mais suportar.
Eu me viro para longe de Simon, que ainda envolve o pescoço de Theron, e disparo para a porta, no fim do longo hall ladeado pelas demais alcovas. Meus guardas seguem e não consigo evitar pensar que todos suspiram aliviados por irem embora.
Ceridwen está recostada na porta, braços cruzados e olhos semicerrados. Um escravo veraniano aparece ao lado da princesa, sussurra algo no ouvido dela. Quando alcanço Ceridwen, ela se afasta do portal.
— Perdoe-a, irmão — grita Ceridwen através do hall. — Ela reclamou do calor na noite passada, nosso clima é um pouco difícil para invernianos, sabe.
Não olho para trás e, sinceramente, sairia correndo do bordel se Ceridwen não segurasse meu braço e me prendesse ali. Atrás de mim, Simon cantarola.
— Cerie! — Ouço farfalhar e um estampido sólido quando o rei se choca à parede ao lado da alcova, no fim do corredor. — Achei que ainda não tivesse voltado. Deve vir esta noite também! Sinto sua falta, irmã.
A expressão no rosto de Ceridwen dificulta saber se Simon está sendo sincero.
Ceridwen não diz uma palavra, deixa que o silêncio se prolongue até que Simon se recomponha.
— Mas, sim, tome um momento, rainha de Inverno! Tome um pouco de ar.
Um grunhido sai de minha garganta, e Ceridwen inclina a cabeça para mim.
— Não seja burra — sibila ela.
Eu me desvencilho da mão de Ceridwen.
— Não tem ideia do que...
— Não tenho? — Os lábios de Ceridwen se contraem e a voz dela se abaixa até parecer menos do que um sussurro. — Não, está certa. Não é como se eu tivesse vivido aqui durante 19 anos. Não tenho ideia de como é meu reino. Por exemplo, não faço ideia de que se você perceptivelmente agir contra meu irmão, ele retaliará. A não ser que queira que Simon comece a tomar escravos de Inverno à força, não deixe que saiba que o detesta.
— O quê? — Todo o ar é expulso de meus pulmões. — Ele não ousaria.
Ceridwen ri com escárnio.
— E o que o impediria? Alguns anos atrás, o rei Caspar reagiu a meu irmão como você fez. Deu as costas, opondo-se descaradamente a ele. Semanas depois, encontrei um grupo de outonianos secretamente colocado em uma casa de escravos a sul de Juli. Então, reitero, não seja burra.
Cambaleio, músculos se contraindo.
— Caspar descobriu?
Aquele prédio parece aberto demais, mas pequeno demais ao mesmo tempo, e não faço ideia se Simon pode nos ouvir. Olho de volta, rapidamente, para ver Simon e Theron conversando fora da alcova. Theron olha para mim uma vez e dá um breve sorriso.
Ele está distraindo Simon.
Meu peito se resfria, gratidão afasta parte da mágoa que ainda sinto por Theron.
Ceridwen atrai minha atenção de volta.
— Foram libertados logo depois — diz Ceridwen, sem confirmar ou negar se foi ela quem os libertou. — Mas aqueles que Verão marca não têm exatamente uma vida depois. Não arrisque seu povo. Tolere meu irmão, ature seus excessos.
Paro ao lado de Ceridwen, obrigando o cérebro a processar as palavras dela em meio ao maldito calor, em meio ao ódio por Simon, em meio ao desejo de destruir o bordel e fugir de volta para Inverno.
Mas Ceridwen está certa. Preciso aturar o comportamento dele — por enquanto. Não acabei de me perguntar se aquele lugar tem alguma pista sobre a Ordem ou a chave? Não posso ir embora. Ainda não, pelo menos.
Meu estômago se revira com náusea e mantenho a concentração na luz que entra pela porta da frente enquanto elevo a voz.
— Quando eu voltar, rei Simon, gostaria de um tour neste... — Não consigo dizer. — Estabelecimento.
Para poder examinar cada superfície em busca de pistas da Ordem dos Ilustres e depois fugir.
Simon comemora atrás de mim.
— Excelente! É claro!
Ceridwen sorri.
Meu rosto se contorce e abaixo a voz de novo.
— Por que está me ajudando?
Os olhos dela se voltam para o escravo com quem acabou de falar, o qual se detém do lado de fora do bordel. Ele acena e sai do pátio com a cabeça baixa, em direção à rua.
— Como meu irmão disse, rainha Meira — responde Ceridwen, se dirigindo para a porta. — Solidariedade.

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