26 de janeiro de 2019

Capítulo 12

Meira

DE JANNUARI, SÃO dois dias velejando pelo rio Feni até Juli, a capital de Verão.
O Feni se estende o suficiente para fornecer um meio fácil de transporte entre o rio Langstone, a oeste, e o mar Destas, a leste. E Cordell, como o único reino Ritmo que faz fronteira com o Destas, tem uma bela marinha; Noam viaja de e para Inverno na própria fragata bem equipada. Mas crescer fugindo de Angra não me deu muitas oportunidades para velejar — o mais perto que já cheguei de um barco foi ficar de pé em um cais de Ventralli, alguns anos antes, enquanto Finn pechinchava um barril de peixe salgado.
O navio que Noam conseguiu para nós é uma pequena escuna com uma tripulação de apenas oito, e acrescentar nossos números deixa o navio lotado. Mas a falta de espaço permite uma patrulha fácil de nossas caixas de pedras das montanhas Klaryn, carga que todos os soldados cordellianos observam maravilhados. Sabem exatamente por que as caixas estão aqui, sabem que são minha frágil tentativa de minar a autoridade de Noam enquanto procuramos as chaves, e sempre que vejo as expressões de desprezo dos soldados, meu estômago se revira.
Embora isso também possa se dever ao fedor pútrido do rio e do movimento oscilante da maré baixando que deixa Dendera com um tom de verde vibrante. Cada partícula do ar parece pesada com o cheiro de peixe e com o fedor mais bolorento ainda de água parada presa na margem do rio. A ação do vento soprando as velas joga com a forma com que o rio profundo lambe o barco estreito na medida em que as ondas se quebram, nos levando para trás e para a frente, trás e frente.
Quando meu estômago — e o de Dendera — não aguenta mais, o navio aporta na ponta nordeste de Verão, a cerca de meio dia de viagem de Juli, nos deixando no maior porto veraniano do rio Feni para podermos comprar suprimentos antes de caminharmos pelo reino.
A mudança abrupta da escuna oscilante para o cais sólido me faz cambalear. Theron me segura pelas costas, os dedos se curvam em direção ao meu quadril de uma forma que poderia ser apenas para me equilibrar, mas também poderia ser algo mais.
Impulsiono o corpo adiante, me desvencilhando dos braços de Theron, mesmo ao ver o pequeno lampejo de dor no rosto dele.
— Estou bem — digo, gaguejando, mas Theron dá um sorriso compreensivo.
— Vai ficar um tempo sem equilíbrio — diz ele. — Velejar causa coisas estranhas.
O ritmo do navio é apenas uma pequena fração de meu problema, no entanto, e enquanto observo Nessa, Dendera e o restante dos invernianos desembarcarem, vejo o mesmo sofrimento recair neles.
Nunca estive em Verão, mas as planícies Rania, onde passamos tanto de minha infância, costumavam ser abafadas e deprimentes, tanto que presumi que conseguiria lidar com calor intenso se algum dia fosse a Verão.
Percebo agora como estava completamente errada.
O calor emerge, ondulante, da própria terra. Estruturas arenosas adornadas com portas de madeira seca constituem a cidade portuária, mas, além delas, a paisagem severa se estende como as mãos enrugadas e rachadas de um pedinte, estendendo-se até o céu azul em busca da menor gota d’água. Quando quatro das duas dúzias de homens de Theron retornam da cidade com duas carruagens fechadas para as mercadorias das Klaryn e cavalos para nós, quase choro de alívio. Meu sangue inverniano não aguentaria caminhar por aquele reino — meu corpo dói pela falta do frio, como se cada lufada de calor drenasse minha vida. Qualquer coisa que viva aqui só pode ser tão severa e determinada quanto o sol, nascida de uma teimosia ardente que é extremamente corajosa ou extremamente burra.
Só sei algumas coisas sobre Verão além do clima. O condutor de sangue masculino é uma pedra turquesa encrustada em um bracelete de ouro, herdado pelo atual rei, Simon Preben, depois que o pai dele morreu, há quatro anos. Produto de maior exportação: vinho. Maior importação: pessoas.
A economia de Verão é parecida demais com os campos de trabalhos forçados de Angra, mas Verão usa alguns dos próprios cidadãos além de pessoas de outros reinos. Vi alguns coletores veranianos em viagens por Primoria, caçadores humanos irrefreáveis que coletavam mercadorias vivas. Apenas Yakim e Primavera vendem para Verão — o restante dos reinos de Primoria acha a prática da escravidão repulsiva.
A ansiedade faz minha garganta fechar. Por que o abismo de magia tinha de nos trazer até aqui? Não conseguirei ver o que Verão faz com seu povo, com sua propriedade, sem me afogar em ódio... e em lembranças do meu passado de escravidão. Pior ainda o fato de que Verão comprar pessoas de Primavera indiretamente sustentava Angra.
Talvez eu encontre a chave ou a Ordem rapidamente, e não precise ficar aqui por muito tempo. Mas o que exatamente estou buscando? A pista do abismo era de apenas vinhas em chamas. Estou buscando uma vinha de verdade em chamas? Isso parece literal demais. Então seria apenas uma vinha? Ou apenas uma chama?
É algo sobre o qual eu normalmente falaria com Theron. Pediria a ajuda dele com relação à interpretação.
Mas não consigo voltar a confiar em Theron, ainda não.
Trancamos a carga em carruagens fechadas e rumamos para o sul, seguindo para Juli mais devagar do que eu gostaria. Cada avanço do cavalo faz com que eu me mexa desconfortavelmente e me depare com um novo lugar em que o vestido marfim plissado se agarra à pele. Ainda bem que Dendera me deixou tirar a monstruosidade engomada de colarinho alto que usei em nossa partida de Inverno — só de pensar em estar confinada à lã e às mangas longas naquele calor faz com que pontos pretos dancem em meu campo visual. Mas meus braços expostos são apenas um alívio durante os poucos primeiros minutos antes que o sol a pino encontre minha pele branca, e juro que consigo ouvir os raios gargalharem de prazer diante de uma refeição tão saborosa.
O calor seria ruim o bastante, mas depois de cerca de uma hora cavalgando, os soldados de Theron se agitam nas selas e começam a distribuir mantos espessos. Curvo o corpo quando um deles cai em meu colo.
— Não vou gostar de para que serve isso, não é? — pergunto a Theron, que coloca o manto nos ombros.
Um soldado desenrola uma corda extensa e a passa para trás, conectando todos em nossa caravana ao passá-la pelos pitos das selas.
— Não — responde Theron, e o tom de voz dele me faz puxar o manto para o lugar.
Momentos depois, uma lufada de vento nos atinge, dando um breve rompante de alívio do calor antes que uma ameaça maior avance — areia. Nuvens oscilantes, revoltas de grãos se agitam e rodopiam ao nosso redor, minúsculas partículas que se transformam em adagas e me fazem me enterrar ainda mais no manto. Os cavalos parecem tão acostumados com a tempestade de areia quanto qualquer veraniano estaria, trotando com a ajuda da corda conectada. Envolvo o manto no nariz, mantenho os olhos fechados e a cabeça curvada contra a tempestade violenta que grita com uma fúria de vento em meus ouvidos.
Quando ela cessa, sei como seria para um veraniano passar por uma nevasca. O total e horrível oposto de tudo para que o corpo de uma pessoa é feito, e conforme abro o manto, areia caindo em cascata do tecido formando córregos, semicerro os olhos para Theron.
Theron tem marcas laranja de areia no rosto, e aceita meu olhar de raiva com um gesto de ombros.
— Supus que soubesse sobre as tempestades de areia de Verão.
— Eu sabia... Mas não achei que precisaríamos nos preocupar com uma em nossa breve viagem. Algum aviso teria sido bom.
Theron limpa a areia da bochecha e agita o manto quando um soldado passa, enrolando de novo a corda.
— Nenhuma visita a Verão está completa sem uma, é o que dizem — responde Theron, com o sorriso lutando para anular minha irritação.
Funciona, e reviro os olhos, resignada.
— Contanto que não haja mais surpresas...
Mas mal consigo exprimir o desejo antes que todos os meus instintos gritem.
A tempestade recua e revela a sombra franzina de uma floresta ao nosso redor. Árvores finas e afiadas cortam o céu como cicatrizes, arbustos retorcidos revelam espinhos tão longos quanto meu dedo... E saqueadores estão empoleirados no alto das árvores, esperando que viajantes desavisados fiquem desorientados pela tempestade.
No momento em que dou o grito de alarme, os saqueadores avançam como as partículas de areia, esparsos, mas deliberados. Facas reluzem ao sol, projetando raios fortes nas roupas cor de areia dos saqueadores — lenços laranja amarrados nas cabeças, camisas vermelhas empoeiradas, calças da mesma cor oscilando, fofas na altura dos joelhos, mas bem apertadas na altura dos tornozelos. Em alguns segundos, estamos cercados, nossos homens seguram as armas a postos, os saqueadores os encaram, faca a faca.
Meus dedos se movem em busca de uma arma, mas permaneço firme, me mantendo calma e rígida. Uma rainha não lutaria — enfrentaria aquela ameaça logicamente, diplomaticamente.
— Alto! — grita um dos saqueadores. De onde estou sentada, no alto do cavalo, consigo ver por cima dos homens cordellianos que me cercam ombro a ombro, todos encarando os saqueadores. Aquela que falou está perto de mim, sua voz parece um estalo com um comando afiado e ríspido. Os olhos castanhos da mulher nos inspecionam, a única parte dela que é visível sob o lenço de cabeça bege.
Os olhos da mulher recaem em mim e se arregalam.
— Quem... — A surpresa dela agita o ar, e quando abaixa a arma, todos os saqueadores também abaixam as deles. — Invernianos — murmura a mulher, depois de um segundo.
Ela olha pela estrada, franzindo a testa.
Uma caravana se estende atrás de nós, fazendo a curva ao vir de uma estrada que segue para o sul. Três carruagens puxadas por bois, os corpanzis lentos deles chutando areia e lama para a pelagem longa. As carruagens são completamente fechadas, como as nossas, caixas sobre rodas com dois condutores cada, cercados por uma dúzia de guardas veranianos montados a cavalo, trotando determinadamente pela estrada na nossa direção.
A garota xinga. Quando ela atrai novamente minha atenção, os saqueadores desapareceram. Franzo a testa, mas a garota não reage à ausência do bando, apenas estende a mão e tira o lenço da cabeça, revelando grossos cachos ruivos que quicam ao redor do rosto. Como o dos invernianos, o cabelo veraniano é vibrante, para dizer o mínimo — é como se tivessem mergulhando cada mecha no próprio sol poente e tivessem saído com o escarlate mais ofuscante que já vi.
Depois que o lenço é retirado, a garota sorri para mim. O comportamento dela muda completamente, qualquer resquício de ódio enterrado sob aquele sorriso suave.
— Rainha Meira, não?
— O que está acontecendo? — dispara Henn, de onde está, ao meu lado. — Quem é você...
— Perdoe-me — interrompe a garota. — Bandidos estão à solta nestas partes, e tomei como um de meus deveres livrar meu reino deles. Sou Ceridwen Preben, irmã de Simon. — A garota faz uma reverência curta, erguendo-se de volta tão rapidamente que os cachos dançam ao redor da cabeça.
Os olhos dela passam para a caravana que ainda se aproxima, quase audível. O rosto da garota exibe a mais breve preocupação, mas desaparece tão rapidamente que não tenho tempo de pensar a respeito.
Theron se vira na sela ao meu lado.
— Sou príncipe Theron, de Cordell. Venho como acompanhante de Inverno, que está ansioso para tornar o reino conhecido pelo mundo. Seu irmão já deve estar ciente de nossa visita.
Boquiaberta, olho para Theron.
Será que eu soo tão confiante assim quando minto?
Theron insiste.
— Creio que já tenhamos nos conhecido em Ventralli? Você era embaixadora lá, sob comando do rei Jesse, há alguns anos, não era?
Agora vejo a expressão de Ceridwen se desfazer. Ela se vira para longe de Theron no momento em que a caravana nos alcança, os lábios se abrindo em um sorriso rígido.
— Ah, aqui estamos — diz Ceridwen, indicando com a mão o soldado veraniano mais próximo. — Tenente, acompanhe nossos convidados para Juli.
O soldado pisca para Ceridwen, claramente surpreso ao vê-la, ou diante da ordem, ou de nossa presença em Verão. Mas o homem assente, nos observando com precisão cuidadosa. Ele para diante de mim e os olhos se arregalam, mas não com confusão — com prazer.
— Sim, princesa — diz ele, ainda me observando. — Nosso rei vai querer falar com eles.
Ceridwen acena em agradecimento e começa a desaparecer em meio ao emaranhado de árvores finas, mas o tenente volta o sorriso satisfeito demais para Ceridwen e minha pele se arrepia.
— Princesa — chama o soldado —, seu irmão nos deu ordens para que, caso a víssemos na viagem, você nos acompanhasse até Juli. Pode nos ajudar a ficar de olho em bandidos, não pode?
Ceridwen para antes de se virar, e quando vira, está com a expressão plácida.
— É claro, tenente — diz Ceridwen a ele, e avança. — Mas creio que precisarei de sua montaria.
O sorriso do tenente se desfaz. Mas ele cede, desce do cavalo segundos antes de Ceridwen montar e avançar com o novo cavalo.
— Juli fica a uma viagem de quatro horas, mas terão cama e comida quando chegarmos — grita ela para nós.
Nossa caravana se move de novo, com Ceridwen à frente e o grupo veraniano atrás.
Desvio o olhar para Theron.
— Você a conhece?
Ele emite um resmungo distraído.
— Não bem. Fui a Ventralli há alguns anos para visitar minha prima. Ela estava lá como embaixadora, e me lembro de ficar fascinado ao ver um reino Estação ser aceito em uma corte Ritmo. Não tive chance de falar com ela... Queria ter tido, pelo menos para saber como Ceridwen convenceu Ventralli a recebê-la.
— Talvez possa perguntar agora — digo. Sir jamais mencionou que Verão tivesse enviado embaixadores a outros reinos. Reinos Ritmo enviavam embaixadores a outros reinos Ritmo de vez em quando, mas a guerra costumava dificultar que os reinos Estação fizessem tal coisa. No entanto, de alguma forma, Ceridwen de Verão convenceu um reino Ritmo a recebê-la como igual politicamente.
Ceridwen não pode ser muito mais velha do que eu — 18 ou 19 no máximo —, mas encontrou uma forma de superar os estereótipos e os preconceitos do próprio reino. Até mesmo encontrou um modo de liderar grupos de saque contra bandidos, apesar de ser a irmã do rei. É de um reino Estação e embaixadora, uma princesa e uma soldada ao mesmo tempo.
Semicerro os olhos para o horizonte, tentando distinguir qual das silhuetas em movimento é dela.
Talvez Verão possa me ajudar mais do que pensei.


Quando a noite envolve o reino por completo, estamos passando pelos densos aglomerados de cidades periféricas que cercam Juli. Tavernas fervilham com música e risadas, mas ninguém perambula entre as construções, todos permanecem fechados em halos de luz. A princípio, parece que simplesmente se recolheram pela noite, mas conforme Ceridwen gradualmente recua da posição de liderança, seus olhos castanhos buscam com frequência os soldados veranianos atrás de nós, me pergunto se não é da noite que os cidadãos de Verão se escondem.
Juli é drasticamente diferente das cidades menores. Nenhuma muralha cerca a cidade, apenas uma variedade desorganizada de prédios de arenito encostados uns aos outros à margem de um tributário da bacia hidrográfica do rio Preben, um conjunto de afluentes do Feni que espraiam para o sudeste, todos estreitos demais para fornecer porto ao navio no qual viemos. Fogo queima em imensos poços nos telhados, e em fogueiras crepitantes em praças, e mesmo nas bocas de dançarinos, evitando que qualquer raio da noite preta como nanquim envolva a festa eterna de Juli.
Essa cidade é isto: uma celebração. Cada rua pela qual passamos está cheia de gente, os cabelos ruivos e selvagens como as fogueiras que acendem, a pele do mesmo bronzeado de tom creme como o de Ceridwen. Elas cambaleiam de um prédio a outro, rindo com amigos, implorando aos vendedores de barracas por vinho, o líquido rubi derramando pelas bordas de taças e manchando as ruas como poças de sangue. Mulheres usando corseletes e saias de renda estão encostadas aos portais de prédios, cada um mais aos pedaços do que o anterior — janelas sem vidro, buracos em paredes de arenito que mostram mesas que abrigam jogos de cartas e tigelas para jogos de dados. Como se a festa não pudesse parar por tempo o suficiente para que a cidade seja consertada.
Conall e Garrigan, cada um segurando uma adaga, posicionam seus cavalos em torno de mim e Nessa. Não que alguém tenha tentado interromper nossa viagem — na verdade, todos parecem nos evitar, sem querer se envolver no que quer que tenha trazido outro reino Estação e um Ritmo para o reino deles.
E o que nos trouxe aqui me faz analisar os prédios pelos quais passamos com mais urgência. A chave ou uma pista para a Ordem poderia estar em qualquer lugar. E se uma das pessoas pelas quais passamos cavalgando souber de algo? E se aquele prédio dilapidado existe há séculos e contiver a chave bem no fundo?
Por onde começo?
Ceridwen permanece estoica, guiando o cavalo pelo mar de pessoas, como se não as visse. Ela fica logo adiante dos soldados veranianos, o que a coloca perto o suficiente de mim para que eu veja os olhos dela se estreitando a cada comemoração das pessoas que a cercam, cada risada distante e abafada, sempre que os soldados veranianos assoviam para as mulheres recostadas às portas.
Os reis de Verão são famosos por usar os condutores sem dar muita importância ao bem-estar dos cidadãos. Não controlam o povo tão completamente quanto Angra controlava, obrigando-os a gostar de assassinar e torturar inimigos, mas forçam uma emoção igualmente destrutiva: alegria, tanta que o exército de Verão é aparentemente uma piada, as cidades estão quase todas em ruínas e a economia funciona apenas com os lucros do vinho, dos jogos e de bordéis.
Quando Sir nos ensinou sobre Verão, minha reação foi parecida com a de Conall e de Garrigan agora, rosnando para cada veraniano que passa. Como ousam permanecer enebriados de felicidade quando tantos no mundo sofrem?
Se a cidade de Juli é uma festa, o palácio é seu centro. Passamos por um portão aberto, os soldados de serviço nos lançam olhares desinteressados de onde estão encostados à parede. Um pátio se abre ao nosso redor, uma área ampla, de terra, com um estábulo à direita, um aglomerado das mesmas construções arenosas e dilapidadas que há na cidade, e diante de nós, erguendo-se em uma confusão de vinhas verdes rastejantes, ervas-daninhas espinhosas e tijolos de areia aos pedaços, está o palácio.
Ceridwen desce do cavalo e o entrega a um rapaz do estábulo.
— Bem-vindos ao Palácio Preben — diz ela, indicando com a mão o prédio. Os olhos de Ceridwen permanecem nele, o rosto contraído com as mesmas emoções que senti quando vi pela primeira vez o Palácio de Jannuari. Maltrapilha, pesarosa e, acima de tudo, cansada. Mas Ceridwen afasta tudo isso com um gesto de ombros antes que as emoções permaneçam por tempo demais. — Providenciarei quartos para vocês.
— O rei Simon vai querer conhecê-los o quanto antes — diz o tenente.
Os olhos de Ceridwen percorrem cada um de nós antes de ela olhar para o tenente com raiva.
— Odiaria interromper a comemoração de meu irmão com questões políticas — diz ela, antes de se voltar para nós. — Não, apresentações podem esperar até amanhã. Passarei por volta do meio-dia para coletar vocês.
O tenente ri de novo, com um estalo repentino de ruídos junto ao coro constante de gritos e tambores. Resmungo comigo mesma por precisar ouvir o tenente rir da palavra coletar para entender o que está acontecendo durante toda essa viagem.
Aqueles soldados são coletores de Verão. E as carruagens deles contêm pessoas.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!