21 de janeiro de 2019

Capítulo 12

SÃO NECESSÁRIAS ROSE e Mona para me tirarem do vestido. E, quando elas finalmente conseguem, em vez de ser submissa, aceitar outra camisola e deitar na cama, exijo que devolvam minhas roupas roubadas e o chakram sequestrado. Depois de alguns bons minutos em que me dizem que não é o que damas vestem e em que eu digo que sou a futura rainha, então é melhor que me obedeçam — precisei de várias tentativas até conseguir dizer sem chorar —, elas cedem e devolvem minhas coisas.
— Nós as limpamos, ao menos — diz Rose, e me entrega a blusa. Parece branca agora, e não marrom e amassada.
— E pedi que um dos guardas cuidasse disso. — Mona ergue meu chakram. — Está afiado.
Mona é minha preferida.
Elas vão embora e visto minhas roupas muito mais confortáveis. Aquela pedra azul idiota vai para meu bolso antes que eu consiga analisar por que ainda a quero depois de tudo que Mather fez, por que me sinto melhor com a pedra comigo em vez de deixando-a para trás. Coloco o chakram no lugar de honra de sempre, entre as escápulas, e corro da porta do corredor até a sacada. Momentos antes de meus pés deixarem o chão do quarto, agarro uma das cortinas brancas e me impulsiono para fora, para o parapeito da sacada. A velocidade que acumulei na corrida me dispara pelo ar e aposto minha vida, quase literalmente, na chance de que a cortina não rasgue ao meio.
Em algum lugar entre eu estar totalmente no ar e quebrar a perna no chão abaixo, a cortina fica firme, me oscilando de volta na direção do palácio. O ímpeto familiar de adrenalina percorre meu corpo, o mesmo rompante libertador que senti em Lynia. Uma descarga pura, que me faz enxergar com mais clareza, deixa minha cabeça mais leve.
Solto a cortina e pego a borda logo acima de minha sacada. Teria sido possível sair do quarto sem a teatralidade da cortina, mas não seria tão divertido.
Depois que chego, alguns saltos fáceis e puxões me levam ao telhado. Ele é feito das mesmas telhas curvas que o restante dos telhados de Bithai, mas, em vez de uma inclinação íngreme até o chão, é plano e posso caminhar nele. Bom para vigilância em tempos de guerra — e para uma futura rainha inquieta que está com vontade de explorar o novo lar.
Meu nariz se franze involuntariamente diante da palavra. Esse não é meu lar. Jamais sequer estive em meu verdadeiro lar e, agora, aqui estou, com um substituto pelo qual nunca pedi. Deveria me sentir grata, até mesmo sortuda — a maioria dos invernianos chama um campo de trabalhos forçados de Primavera de lar substituto. Mas não consigo sentir nada além de frustração.
Começo a correr sobre as telhas. O palácio é imenso, alas se estendem a cada cruzamento, ocasionais domos de vidro indicam claraboias. Mas é a torre que se projeta da ala mais ao norte do palácio que chama meu nome.
Está vazia e um pouco empoeirada, a falta de uso é prova de que Bithai não vê uma guerra há anos. Impulsiono o corpo por cima do parapeito e chuto uma mesa caída para o lado. Por fim, um lugar que Noam não mantém impecável.
Posso ver por que construíram a torre aqui. É aberta de todos os lados, dando uma vista completa da cidade e do reino além dele. Ao leste, a maior parte de Bithai dorme sob um céu limpo e uma meia-lua. Ao oeste, fazendas se estendem no horizonte, verdes e escuras na ausência de luz da cidade. Ao sul...
Cravo os dedos no parapeito. Ao sul, estão os reinos Estação. Primavera, com a brutalidade e o sangue, e Inverno, com a neve e o gelo e a frieza que jamais termina, com a rainha que assombra meus sonhos por meio de imagens dos refugiados e do bebê Mather.
Mather.
Sinto que estou a ponto de explodir, tudo dentro de mim está quente e pesado e sufocante. Odeio Mather por se importar, por me fazer achar que também gostava de mim, por me dar um lampejo de esperança tão pequeno quanto uma pedra e um beijo no maxilar quando ambos sabíamos que nunca, jamais, seríamos mais do que somos.
— Não deveria culpá-lo.
Com um fôlego rápido, puxo o chakram para a mão e miro na sombra atrás de mim.
Sir.
Aperto a mão contra a arma.
— Você tem coragem.
Sir se afasta do canto da torre pela qual acabou de subir.
— Não podia deixar que o dia acabasse sem que você soubesse a verdade.
Rio. É uma risada vazia que faz um estremecimento dançar por minhas costas.
— Bem, já é amanhã, então está um pouco atrasado.
Sir se impulsiona adiante, arranca o chakram de minha mão e o atira ao chão. Antes que eu consiga lutar de volta, ele me gira com o rosto para o sul e mantém a mão firme na minha nuca.
— Pela neve no céu — sussurra Sir. — Você nunca viu o que está lá. O mais perto que chegou de Inverno foram as cidades mais afastadas de Primavera, os resquícios da queda de Inverno. Mas nunca viu os invernianos nos campos. Não viu Angra levá-los embora; não olhou nos olhos deles conforme percebiam o que estava acontecendo, que Angra os usaria até que morressem. Não discuta comigo como se soubesse o que está em risco. Não sabe de nada, Meira, e sinto muito se é difícil para você aceitar esse casamento, mas ele vai acontecer. Você queria importar para Inverno? É assim que Inverno precisa de você.
Acerto o cotovelo no estômago de Sir e tiro a mão dele do meu pescoço. Sir cambaleia para trás com um olhar de choque no rosto.
— Não. — Aponto um dedo para Sir porque não sei o que mais posso fazer. Meu braço estremece, um sinal exterior do meu ódio fervilhante interior. — Não tem o direito de me dar um sermão como se fosse uma lição que estivesse tentando fazer entrar em minha cabeça. Não é nossa tenda de treinamento. Esta é minha vida. Sabe que isso é horrível, Sir! Sabe de tudo, então, se eu não sei nada, por que não me conta? Por que Mather não me conta, ele mesmo, em vez de mandar você fazer isso por ele?
Sir me encara por um momento, calado, o ímpeto da luta se foi. Os olhos dele estão marejados, os cabelos arrepiados, o corpo vagarosamente se curva, como se tivesse sido atirado contra as rochas por vezes demais. Mas Sir era nossa rocha.
Passo as mãos pelo cabelo, um gemido me escapa dos lábios. Algo profundo e oculto, impulsionado pela criança em mim que chora sempre que Sir está chateado.
— O que aconteceu, William?
Ele me abraçou certa vez. Quando eu tinha seis anos, ainda pequena o suficiente para dormir na tenda que Sir compartilhava com Alysson, acordei certa noite gritando. Ensopada de suor, chorando tanto e tão alto que meu corpo doeu durante dias. Sir foi imediatamente para meu lado, alerta e procurando um inimigo.
— Eu os vi — falei, chorando.
— Quem? — Sir ficou tão preocupado, com a sobrancelha erguida, os olhos arregalados. Como se esperasse que um soldado de Primavera saltasse das sombras.
— Meus... — Não consegui dizer. Mãe. Pai. Nem mesmo os vi no sonho, vi quem achei que fossem, quem minha mente criou. Duas pessoas carinhosas que foram massacradas nas ruas, o bebê saiu rolando dos braços deles antes de Sir me pegar. No sonho, no entanto, eles estavam queimando. Gritando para mim de um prédio envolto em chamas, enquanto Angra estava do lado de fora, um homem-monstro segurando um cetro. O condutor dele. Fogo laranja e vermelho dançava para cima e para baixo da superfície ébano do cetro e deslizava pelo chão, alimentando o inferno do prédio. Eu estava atrás dele, gritando para que Angra parasse. Angra se virava para mim.
— Não até que todos vocês estejam mortos.
Quando contei a Sir sobre o sonho, ele ficou calado por um bom tempo, o rosto era uma batalha de emoções. Medo e arrependimento e algo profundo — culpa, talvez. Ou remorso? Mas sumiu do rosto dele e Sir me abraçou, me aninhou contra o peito, me deixou recostar sobre ele.
— Não é culpa sua — sussurrou Sir. — Meira, não é culpa sua.
Dezesseis anos, e foi tudo o que consegui dele — um abraço em um momento de fraqueza. Quando abaixo os braços, Sir olha para o sul, como se, caso se concentre bastante, consiga mesmo ver Inverno.
— Vim para cá. Há 14 anos — sussurra ele.
Não me mexo.
— Dois anos depois do ataque. Levei esse tempo todo para engolir o orgulho. Cordell foi um dos reinos para os quais pedimos ajuda quando Primavera finalmente ficou forte demais, mas eles não vieram. Ninguém veio, Ritmo ou Estação.
Sir se estica e pressiona os olhos com as mãos, afasta alguma emoção.
— Quando cheguei aqui, implorei a Noam de todos os ângulos possíveis. Precisávamos de qualquer coisa que ele pudesse dar e Noam tinha tudo. Mas... — Sir para, o queixo cai até o peito quando ele se aprofunda mais e mais nas memórias. — Noam não mudou em 14 anos, e queria o mesmo que quer agora. O mesmo que todos os reinos Ritmo querem, acesso a nosso reino, a nossas montanhas. Uma conexão legal e vinculante à possibilidade de mais magia.
Assinto. Não sabia que Sir estivera em Cordell antes. Faz sentido — o ódio que sente de Noam, a raiva passional em relação a Cordell. Mantenho os lábios fechados. Sir jamais falou comigo tão abertamente.
— Mas não restara nada. Nenhum cortesão real inverniano com que negociar, além de Mather, e Noam não tinha filhas, nem mesmo uma sobrinha. Então, ele propôs uma aliança entre você e Theron, com a condição de que, depois que nosso reino fosse restaurado, você receberia um título e uma posição no novo reino de Inverno, algo digno de uma futura rainha cordelliana. — Sir suspira. — Mas você era tão jovem, tão pequena. E eu não podia... não tinha o direito de prometê-la dessa forma. Nem mesmo era minha. Quem era eu para fazer um arranjo de casamento para você?
Um nó se forma em minha garganta. Engulo seco, mas não desaparece.
— Mas isso foi há 14 anos. Catorze anos e ainda não estamos mais perto de nada. Sim, temos metade do medalhão, mas não podemos conseguir a outra metade sem matar o próprio Angra, e jamais chegaremos perto o suficiente de fazer isso sem apoio. Precisamos de ajuda. Até que a herdeira deles chegue à maturidade, Outono está fraco demais, e Verão preferiria nos ver morrer a se esforçar. Nenhum outro reino Ritmo ousou negociar conosco. Então, embora Noam seja de um reino Ritmo, embora eu saiba que ele nos está usando — Sir pausa, a voz dele hesita. — Não temos mais opções, a não ser confiar que Noam vai, de fato, ajudar. Quando o batedor de Angra escapou de nosso acampamento, chamei Mather de lado e contei a ele o que aconteceria. Que Dendera o levaria para Bithai, e ele se encontraria com Noam e diria ao rei que aceitamos.
Desabo sobre o parapeito, a torre gira.
— Não culpe Mather; ele estava seguindo minhas ordens. E, agora, você vai segui-las também. — A voz de Sir se ergue do embalo pacífico da história e se torna um latido repentino. — Vai fazer isso, Meira. Vai fazer o que precisamos que faça.
Sacudo a cabeça, mas Sir apenas repete: Você vai fazer o que precisamos que faça. Não o que eu quero fazer, não o que eu posso fazer. O que eles precisam que eu faça. Por Inverno.
Quase gargalho diante da ironia. Afinal de contas, eu queria ser necessária, não é? Mas minha gargalhada morre. Não — eu queria importar por causa de quem sou e do que posso fazer, não apenas porque sou uma mulher de Inverno e nosso novo aliado tem um homem adequado de Cordell para formar um casal comigo. Eu queria pertencer a Inverno, merecer esse pertencimento.
Meus olhos gradualmente passam do chão da torre para o rosto de Sir. Ele recuperou parte da atitude de quem está no comando e não parece tão arrasado agora.
— Hannah se arrependeu? — sussurro. — Antes de Angra atacar, ela estava chateada com algo que fez?
O rosto todo de Sir congela, como se Angra tivesse apunhalado Mather diante dele. Mas Sir sacode a cabeça, o rosto dele assume um olhar vazio, e a recusa em responder se choca contra minha pergunta.
Pego o chakram do chão, guardo no estojo e passo uma das pernas sobre o parapeito da torre, montando na parede de pedra.
— Sei que há coisas que não está me contando. Coisas importantes. Motivos pelos quais tudo isso está acontecendo e, algum dia, Sir, vou descobrir. Só espero que seus motivos sejam bons o suficiente para que eu o perdoe.
Desço da torre e rolo pelo telhado, disparando em uma corrida, o ar frio da noite me sopra mais rápido, a escuridão e as estrelas reluzentes me levam a algum lugar no qual não preciso sentir.


Rastejo de volta para o quarto pelas portas abertas da varanda. Outra camisola me espera na cama, mas estou abalada demais para me incomodar em vesti-la. Simplesmente apoio o chakram e o lápis-lazúli na mesa de cabeceira e me jogo na colcha, vestida, mantendo os olhos bem fechados.
Respire, respire. É tudo em que me concentro, o ar entra e sai de meus pulmões, até que eu deixe a realidade e caia no sono.


A princípio, penso que estou no palácio de Noam, mas o salão de baile está todo errado. Uma enorme escadaria de mármore branco se ergue diante de mim, o salão se estende em um quadrado. O piso do mesmo mármore branco faz o salão inteiro brilhar na escuridão calma e silenciosa da noite. É o palácio de Jannuari. Inverno.
Expiro, soprando uma névoa branca no ar conforme a paz recai mais profundamente sobre meus braços e minhas pernas. Estou em Inverno. E ela está aqui de novo. Hannah. Posso sentir a presença dela, uma aura carinhosa aguardando por perto.
Em um corredor distante, um bebê chora.
Corro escada acima, percorrendo corredores revestidos de mármore de cor marfim. Velas brancas tremeluzem sobre mesas conforme disparo, acrescentando sombras esquisitas a cada volta.
Por fim, um cômodo surge à minha direita, a porta está escancarada, luz sai por ela. Corro para dentro e vejo um berço no centro, luz branca suave é emitida dele. Hannah está de pé, ao lado, e o bebê Mather grita de novo, chorando como se estivesse sendo atacado.
Dou um passo adiante conforme os olhos azul-gélidos de Hannah se voltam para mim.
— Não posso falar com ele — diz Hannah. Ela dá a volta no berço, tão perto que sinto o cheiro do perfume dela. — Mas Angra não está vigiando você.
— Angra?
Hannah sacode a cabeça e olha ao redor do quarto, o rosto dela mostra pânico, ansiedade, como se algo pudesse saltar e nos pegar.
— Ele está vindo. Mas você consegue me ouvir, não consegue?
Assinto.
— Sim, consigo ouvi-la. — Faço uma pausa. — Minha rainha.
Onde antes só havia luz no cômodo, há agora uma sombra no canto. Preta e espessa, impenetrável.
Hannah estende a mão para mim, mas então fecha os dedos na palma.
— Depressa — diz ela. — Faça o que precisa.
— O quê? — Dou um passo na direção de Hannah e ela se volta para Mather.
— Faça o que precisa — sussurra Hannah para o berço. A sombra no canto cresce mais e mais. Ela desliza entre nós e, quando grito para Hannah, o mundo inteiro fica negro.
Magia.
É a primeira coisa que passa por minha mente depois que acordo, a escuridão e o grito permanente do sonho desaparecendo à luz da manhã. Viro de lado e meus olhos recaem sobre a pedra de lápis-lazúli de Mather. Aquela estúpida pedra azul.
Embora não seja a primeira vez que sonho com Hannah, ela jamais falou comigo antes. Comigo. Como se eu estivesse lá quando Jannuari caiu. Uma onda de trepidação me faz estremecer. Foi isso que Mather me deu? Alguma pedra esquisita que induz pesadelos e visões? Não preciso de mais motivos para odiá-lo agora. Não pode ser magia. Tenho esses sonhos porque estou exausta a ponto de ter pesadelos. É isso. Tudo isso, além do baile tarde da noite, significa que estou arrasada, exausta, e só quero atirar o chakram em alguma coisa.
Rose e Mona têm outras ideias sobre como eu deveria passar o dia, no entanto. Depois de um rápido café da manhã no quarto, durante o qual temos uma discussão sobre a importância de ter aulas de etiqueta, saio pela sacada. Rose dá um escândalo quando me vê saltar para o ar, mas posso notar que Mona esconde um leve sorriso com a mão. Mona ainda é minha preferida e, apesar da ameaça de Noam na noite anterior sobre desobedecê-lo, eu me recuso a ceder tão fácil. Posso estar presa nesse arranjo, mas isso não quer dizer que me tornei a futura escrava em formato de rainha de Noam.
Então me incumbo de explorar o terreno do castelo. Só estou fazendo o que preciso, como Hannah mandou. O que quer que tenha querido dizer aquele aviso enigmático. Mas não foi um aviso de verdade; foi a interpretação dos eventos por minha mente sobrecarregada — espero.
Saio correndo por uma trilha de paralelepípedo, desviando de grupos de nobres que ou se animam ao me verem, ou começam a sussurrar uns com os outros, com os olhos semicerrados e os narizes franzidos em reprovação. Provavelmente porque estou usando as roupas de viagem e tenho um chakram preso às costas. Os nobres de narizes franzidos se multiplicam e percebo que estou correndo por uma área de jardim, um lugar no qual futuras rainhas decentes passeariam em vestidos chiques dando risadinhas tímidas. Onde deixariam que o mundo girasse ao redor delas enquanto homens tomam decisões.
Não serei esse tipo de rainha, não importa que Cordell não seja meu reino de verdade. Mas que tipo de rainha eu serei? Só sei que tipo de soldada sempre tentei ser — ativa, alerta, ansiosa, desesperada para fazer parte de Inverno. É esse o tipo de rainha que serei também? Ou será que Noam se certificará de que eu permaneça um bibelô indefeso, uma estatueta de marfim bonitinha que caiba certinho em uma das alcovas deles?
Todos os meus pensamentos ecoam de volta para mim em uma onda de choque. Em como posso ter pensado em ser rainha definitivamente — em que tipo de rainha serei. Não talvez, não quem sabe. Como se eu tivesse aceitado a vida que Sir e Mather atiraram a mim. Sei que não tenho escolha — sei que é esse meu papel agora. Mas ainda não quero essa vida e parte de mim olha com escárnio para a parte que sabe que preciso encontrar um modo de não a odiar.
Não posso continuar pensando essas coisas, não posso continuar perambulando sem rumo por jardins bonitos, fingindo que pertenço a este lugar. Então salto algumas cercas-vivas, passo em ziguezague por uma fileira de sempre-verdes posicionadas bem próximas — e acabo em um lugar maravilhoso, maravilhoso.
Os ruídos da batalha me cercam, soldados grunhindo, espadas tilintando, flechas sibilando ao vento. Homens com diversas peças de roupa faltando saltam uns ao lado dos outros, treinando luta com armas ou punhos em ringues delimitados por cordas. Atrás de todos eles, um celeiro se estende para as duas direções, portas escancaradas, cavalos relinchando do lado de dentro e mais homens com pilhas de armadura entrando e saindo.
O pátio de treinamento de Cordell.
O que significa que... posso atirar em coisas.
Um campo de tiro se encontra afastado à esquerda, pelo menos duas dúzias de alvos estão montado ao longo de alguns mastros de madeira altos para tiro de machado e javelin. Alguns soldados jogam adagas, facas, outros atiram com os bons e velhos arcos, e outros ainda atiram com bestas, coisas reluzentes de metal que me fazem sorrir com a mesma animação com que Rose e Mona sorriram para meu vestido de baile.
Consigo sentir o chakram fazer pressão contra minhas escápulas, implorando para entrar na brincadeira. Então vou para o campo de tiro, pego o chakram, tomo distância e deixo que a arma corte o vento. A lâmina gira, reta, lasca a parte de cima de um mastro de madeira e volta pela mesma reta até parar subitamente na palma da minha mão. Uma descarga de alívio percorre meu corpo.
— Meira?
Viro e o chakram se inclina para o lado, coçando na mão, pronto para ser atirado mais e mais até que eu jogue para longe cada pedaço dos últimos dias. Mas apenas fico de pé ali, com os olhos semicerrados, escondendo o fato de que minha reação inicial é escancarar a boca para a extensão nua da pele reluzente de Theron. Ele está sem camisa — e fica claro que Cordell sujeita os homens a exercícios peitorais rigorosos.
Theron deixa um grupo de soldados no celeiro, os corpos deles estão ligeiramente inclinados em nossa direção e as bocas dos homens congelaram no meio da conversa.
Cada um está de pé, suado e armado, com espadas e facas pendendo distraidamente das mãos e dos cintos.
E Theron não está diferente. Ele desliza uma espada para a bainha na cintura, um sorriso interessado faz meu rosto já corado esquentar ainda mais. Todos os soldados ao nosso redor pararam de atirar e inclinam a cabeça de tal forma que sei que não estão exatamente acostumados com mulheres aparecendo nos campos. Ou acertando os alvos deles.
Theron aponta para o chakram.
— Uma bela criação outoniana. Minha tia nos mandou um carregamento deles logo depois do casamento dela. Sua arma preferida?
Sim, atirar. Algo seguro em que me concentrar. Mais seguro do que, digamos, a forma como o braço do príncipe herdeiro de Cordell se flexiona quando ele ergue um machado do chão ao meu lado.
Em resposta, me reposiciono diante do mastro e solto o chakram. Ele gira pelo ar em um arco lindo e roça o alvo, a um fio de cabelo do meu último lance, antes de voar de volta para mim. Doce neve, como isso é bom.
Ergo o rosto para Theron.
— E a sua?
Theron sopesa o machado na mão. Ele olha ao nosso redor, observando os homens boquiabertos e o fato de que muitos estão agora apontando o mastro que acertei e sacudindo as cabeças, assombrados.
— Por que eu deveria entregar meu ponto forte tão facilmente? — Theron olha de volta para mim com um sorriso provocador e minha mão se aperta involuntariamente sobre a alça do chakram, como se essa fosse a única coisa que me mantém de pé diante do sorriso dele.
— Primeiro dia como realeza cordelliana e você já está aterrorizando os soldados.
A voz de Mather chega até mim pelas costas. A combinação repentina de Theron diante de mim e Mather se aproximando faz com que eu sinta como se tivesse sido pega desprevenida em um campo de batalha.
Mather. Rei Mather. Rei Mather que negociou o acordo que me faz olhar para Theron e me sentir aterrorizada e nervosa e alegre ao mesmo tempo.
Viro para Mather, com a boca cheia de todo tipo de palavrões sujos e irritadiços, palavrões dignos de um soldado calejado, não de uma dama. Mas tudo que quero dizer morre assim que o vejo. Porque — pela mãe de tudo que é frio — Mather também está sem camisa, com apenas a metade do medalhão pendurada no pescoço e a pele cheia de sardas refletindo o suor de um bom exercício. Não que eu não tenha visto Mather sem camisa antes, mas não é uma visão com a qual vou conseguir me acostumar. Ele estava obviamente treinando com alguns dos homens — devo ter passado direto por Mather, sem distinguir o corpo seminu dele de todos os outros corpos seminus. Em minha defesa, há muitos bons exemplos dos rituais de treinamento de Cordell por aqui. O abdômen e os braços de Mather, que parecem permitir que ele torça o pescoço de uma vaca, não são tão impressionantes em comparação com Theron e com os corpos de trinta soldados.
Eu me obrigo a encarar Mather. E, imediatamente, percebo que encaro o peito dele. Engulo em seco e trinco os dentes. Tudo bem, obviamente, o pátio de treino é mantido atrás de uma muralha de sempre-verdes para manter longe garotas boquiabertas — como eu.
— Eles baniram as camisas em Cordell? — murmuro, e encaro o alvo, inclinando a cabeça para o chakram para esconder a vermelhidão que sobe pouco a pouco por meu pescoço.
Theron ri, mas contém a risada quando nem Mather nem eu dizemos outra coisa, e ele se move, desconfortável, ao meu lado, girando o machado na palma da mão. Consigo sentir Theron olhando para Mather, ambos presos em uma teia de constrangimento que me cerca. Estou no centro de uma disputa esquisita de posse entre o Rei de Inverno e o Príncipe de Cordell. Como, em nome de tudo que é gelado, isso aconteceu?
Mas não sinto empatia por Mather. Não quando ele se aproxima de mim, com as botas emitindo um ruído ao esmagarem a grama, respirando devagar, dolorosamente.
Estou ciente demais de quanta atenção está sobre nós quando Mather para ao meu lado, perto o bastante para que eu consiga senti-lo se fechar os olhos.
— Podemos conversar? — murmura ele.
Os pelos na minha nuca se arrepiam. NãoPor que deveria conversar com você de novo na minha vida?
Mas não deveria estar com raiva de Mather. É tudo culpa de Sir.
Olho de volta para Theron, que não me olha mais. O corpo dele girou e Theron encara o alvo ao lado do meu mastro, então flexiona o braço atrás do corpo, cada músculo das costas se tensiona quando ele gira o machado. Gira e gira, com mais e mais força, até que tudo irrompa em um único lançamento que manda o machado circulando de ponta a ponta pelos ares. Ele atinge o centro do alvo, o cabo oscila devido à força.
Theron se vira para mim, metade do rosto está iluminada pelo início de um sorriso.
— Minha arma preferida não importa — diz ele, continuando nossa conversa como se nada tivesse acontecido. Os olhos de Theron se voltam para Mather, por cima do meu ombro. — Não importa o que eu use, sempre atinjo o alvo.
Minhas sobrancelhas se erguem. Mather inspira atrás de mim. Cada corpo no pátio de treinamento congelado de curiosidade e, junto com essa curiosidade, há uma tensão de aviso, o leve cutucar de uma briga prestes a começar.
Mather se aproxima de minhas costas, a voz baixa e controlada ao meu ouvido.
— Meira, por favor.
Theron olha para o lado, fixa os olhos nos meus quando sorri, um sorriso largo e brilhante, e se vira para caminhar pela longa trilha para recuperar o machado. Ele atinge o alvo não importa o que use. Não importa a situação em que seja atirado. Não importa o pouco de controle que tenha sobre a vida.
Não consigo conter a risada quando me viro para Mather e guardo o chakram.
— O que posso fazer por você, meu rei?
Mather empalidece. Passando a mão pelo rosto, ele se recompõe rapidamente e um rigor determinado percorre Mather. Ele acena para o celeiro.
— Venha comigo.

4 comentários:

  1. meira vc devia destruir o esse idiota do mather inferno

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  2. UI o negoço tá esquentando... ou será esfriando???!!!

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  3. minha noza. hauhsuahsuahsau amei

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  4. Rapaz se fosse eu no lugar dela eu fugia e deixava que eles se virassem pra arrumar outro jeito de salvar inverno mas como Meire n e egoísta como eu, tô adorando ela e esse boy magia novo

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Boa leitura, E SEM SPOILER!