21 de janeiro de 2019

Capítulo 11

SOU UM PEÃO que eles usaram para criar uma aliança com Cordell.
Minha língua parece grudar na garganta, me sufocando enquanto estou de pé ali, encarando Theron. Só pode ser fruto da minha imaginação hiperativa, porque o Rei de Cordell jamais concordaria em casar o filho — herdeiro de um dos mais ricos dos reinos Ritmo — com uma simples camponesa de um reino Estação. Estou errada. Só posso estar.
— Diga que Mather nos uniu a Cordell por um tratado ou algo assim. Um pedaço de papel insignificante — imploro. — Diga que não é... o que penso que é.
Mas Theron não diz nada, o que só alimenta mais o meu pânico. A boca dele se abre inutilmente, mas Theron apenas suspira, os olhos recaem sobre mim em silêncio.
Levo a mão à barriga, o tecido do vestido parece suave contra meus dedos, e engulo o nó apertado na garganta. Mather fez isso. Meu peito se enche de uma nova emoção — traição. Como ele pôde — por que ele — não. Não. Não perderei a cabeça com isso, porque ainda não faz sentido nenhum. Por que Cordell concordaria em me aceitar? Deve haver algo que Mather e Sir não me contaram.
Bem, obviamente, há muito que não me contaram, mas estão no baile no momento.
E eu os obrigarei a falar.
— Você está bem? — fala Theron, por fim, mas não tenta me tocar de novo. Seria mais fácil caso ele fosse terrível, caso não se importasse se eu estava bem. Mas Theron parece magoado. Será que também é apenas um peão?
Pelo poema que Theron pegou do chão — provavelmente.
— Sinto muito — diz ele. Theron olha para o corrimão. — Sei que é repentino, mas este baile é para você. Para mim. Nós.
Nós. Parece uma palavra estrangeira.
Eu me afasto da parede, minha determinação feroz de marchar até aquele baile e confrontar Mather e Sir e exigir respostas agora é substituída por pesar. Porque quando eu vir Mather e Sir, eles me verão com Theron. Mather vai sorrir e me parabenizar e tentar explicar por que isso é o melhor para Inverno. Que o único bem que podemos fazer por nosso reino é o casamento para criar uma aliança porque somos crianças inúteis. Que o beijo antes de deixarmos o acampamento foi um adeus, nada mais. Que embora eu jamais tenha visto Inverno ou o povo escravizado do reino ou colocado os pés no território do reino, espera-se que eu sacrifique tudo, porque até Inverno estar livre, eu não tenho importância.
Imediatamente me odeio por pensar isso. Outros invernianos sofrem escravidão enquanto estou noiva do príncipe herdeiro de Cordell — alguém toque a marcha da piedade, a pobre Meira está noiva de um lindo príncipe.
Minha vida poderia ser pior. Muito pior.
Então por que a ideia de pegar a mão estendida de Theron faz com que eu me sinta vazia?
Meus dedos estão enfiados no bolso, fechados com força sobre o lápis-lazúli.
Liberto a mão, luto contra a vontade de atirar a pedra idiota o mais longe possível. Não quero nada disso. Não preciso de Mather ou de Sir. Jamais precisei.
Coloco a mão na de Theron e os dedos quentes dele se fecham em volta dos meus conforme seguimos para a escada. Ter Theron para me apoiar me dá uma força que eu não esperava. Algo infinitamente mais poderoso do que a falsa força da pedra azul, ainda pesada em meu bolso.
Chegamos. Olhamos por cima do corrimão para os muitos cordellianos que esperam abaixo. A maioria dignitários, os homens de uniformes verde-escuros com bordas douradas como o de Theron, as mulheres com vestidos vermelhos ou azuis e joias em tons de roxo, como eu. E, no canto mais afastado, a delegação de invernianos, usando o que suponho serem roupas emprestadas também — ternos verdes alinhados para os homens, vestidos esvoaçantes para as mulheres. Sir e Dendera e Alysson e Finn e Greer e Henn e Mather.
Mather me encara, e mesmo do outro lado do salão, o rosto dele estremece, como se trincasse os dentes. Quando encontro seu olhar, encaro-o, ele vira o rosto.
A música para subitamente, violinos se dissipam em um choro suave. Abaixo de nós, à esquerda, uma plataforma foi erguida para a orquestra, mas Noam agora está de pé nela também, com uma das mãos erguidas em triunfo na direção do filho e de mim.
— Senhoras e senhores, honrados convidados — começa Noam. Ele está tão feliz. Exuberantemente feliz. — Apresento-lhes o Príncipe Theron Haskar e sua futura esposa, Lady Meira de Inverno!
Futura esposa.
Arquejo, inspirando pausadamente, incapaz de levar ar para os pulmões. É real. Isso. Theron.
A multidão recua como se Noam tivesse anunciado que os destituiria dos títulos, a alegria de estarem no baile se torna choque. Obviamente, o arranjo de Noam não é algo que todos os cortesãos aceitam de braços abertos. De alguma forma, saber disso me faz sentir um pouco melhor. Não muito, mas o bastante para que, quando a multidão comece os aplausos pouco entusiasmados, eu consiga acenar levemente para todos.
Mather vê minha reação e se vira para Sir, que dispara algo para ele antes de os dois seguirem para as grandes portas de vidro à direita do salão de baile. Portas que se abrem para cercas-vivas perfeitas, passarelas de paralelepípedo, fontes borbulhantes sob o céu noturno.
Então é assim que eles querem agir.
Quando Theron e eu chegamos à pista de baile, uma multidão de nobres nos ataca, tagarelando perguntas que parecem inocentes, mas, no fundo, são insultos. Perguntas como: “Achei que você e minha filha tinham se dado tão bem, Vossa Alteza”, e “Não quer dançar com minha sobrinha? Ela gostou tanto de sua companhia no último inverno. Quero dizer, não Inverno. Nossa estação. Nossa estação normal.”
A boca de Theron se escancara, incapaz de dizer uma palavra. O duque gordo, cuja sobrinha se divertiu tanto no último inverno, segura o braço de Theron, persistência torna o rosto rechonchudo dele rosado.
— Insisto, meu príncipe! — diz o homem, e arrasta Theron para a multidão.
Theron olha para mim, os olhos se lançando para o duque, então de volta. Será que deveria resistir? Deveria ficar comigo?
Sacudo a cabeça e aceno com a mão diante do rosto para indicar calor. Theron responde a meu aceno com um único meneio de cabeça. Ele entende.
Depois que Theron se vai, o restante dos membros da corte me olham, seus olhos semicerrados me examinam como se eu fosse algum ser mítico que ganhou vida. Faço uma reverência e viro o rosto do julgamento deles, seguindo para as portas da varanda. Que pensem o que quiserem. Que conspirem e digam coisas terríveis sobre mim. Esse não é meu reino. Pelo menos não deveria ser.
Escancaro uma porta. Estrelas brilham no céu negro acima de mim; olhos pequenos, reluzentes, observam conforme bato a porta e mergulho para o incrível frio da noite do outono de Cordell. A pureza do frio me atinge, ameaçando puxar para fora o grito que estive segurando durante os últimos dez minutos.
— Meira.
Eu me viro na direção de Mather e Sir, de pé à entrada de um labirinto de cerca-viva. Metade de mim quer correr até eles e chorar e implorar para ir embora, metade quer começar a atirar pedras nas cabeças deles.
Mas sou uma soldada. Uma soldada inverniana. E, aparentemente, uma futura Rainha de Cordell.
Então, pego um punhado de pedras ao lado da passarela e atiro-as contra os dois conforme me aproximo.
— Seus... grandes... e terríveis... traidores! — Tropeço e paro a um centímetro de Mather. A última pedra o atinge no ombro e ele encolhe o corpo, esfregando o machucado.
— Meira, acalme-se — diz Sir, colocando a mão em meu braço.
Seguro o pulso dele e empurro Sir de volta para a cerca, minha outra mão vai até a garganta dele antes que eu perceba o que estou fazendo. Estou prendendo Sir contra uma muralha de arbustos. Jamais achei que estaria nessa situação.
— Por quê? — resmungo para ele. — Por que faria isso comigo?
Sir não resiste; se resistisse, eu estaria no chão com alguns dedos quebrados.
— Não tivemos escolha.
— Não — disparo. — Eu não tenho escolha. Você forçou essa decisão sobre mim. Por quê?
— Fui eu — responde Mather.
Meu corpo inteiro estremece. Não, não foi ele. Não poderia. Porque Mather, de todas as pessoas, sabe como é ouvir de Sir que ele será casado com alguma realeza qualquer, que jamais conheceu, porque só serve para isso. Mather não me disse que sabia o quanto era ruim ser valorizado pelas coisas erradas?
Não signifiquei nada para ele?
Solto Sir e me viro, com o corpo dormente da cabeça aos pés.
— Quando Dendera e eu chegamos a Bithai, me encontrei com Noam — começa Mather. — Expliquei o que aconteceu. Temos metade do medalhão; estamos muito mais perto de conseguirmos nosso condutor de volta. E agora, com Noam já ajudando Outono, eu disse a ele que os interesses de Inverno e de Cordell são quase idênticos. Se Noam derrubar Primavera, Outono será salvo. Mas...
— Outono não precisa que o reino de Primavera seja derrubado.
A voz ecoa da escuridão e todos nos viramos, nos concentrando na silhueta imponente à entrada do labirinto de cerca-viva.
Noam. Vou arrancar os olhos dele pelas narinas.
Não tenho certeza se Sir lê meus pensamentos ou minha súbita expressão pronta para matar, mas ele segura meu pulso para me conter.
— Outono precisa de tempo. Precisa de alguns anos para manter a Sombra das Estações distante enquanto a princesa Shazi cresce. Quando ela tiver idade o suficiente para usar o condutor, Outono conseguirá cuidar sozinho de Primavera. — Noam dá um passo para o lado e se recosta casualmente em uma estátua na entrada do labirinto de cerca-viva. — Não é do meu interesse iniciar uma guerra declarada contra um reino Estação.
Mather avança na direção de Noam.
— O que o faz pensar que Shazi conseguirá conter Primavera quando for mais velha? Independentemente da força de Outono, o reino de Primavera não se contentará em permanecer dentro das próprias fronteiras. Você já viu a crueldade de Angra! Ele vai se espalhar por onde puder...
Noam ergue a mão.
— Já percorremos essa estrada, Rei Mather. E conhece minha opinião.
Mather murmura.
— Minha mãe não entregou o poder dela a Angra. Ela não desistiu.
Mas Noam o ignora.
— Angra não é tão ambicioso a ponto de tentar se expandir para um reino Ritmo. Os problemas dos reinos Estação permanecerão entre os reinos Estação, e minha sobrinha não será tão fraca quanto Hannah. — Noam volta o sorriso para mim. — E acredito que Inverno tenha potencial. Acredito que poderão reabrir as minas e reconstruir seu reino. Então, sim, Cordell ajudará Inverno. Daremos apoio e segurança, contanto que nosso apoio e segurança não se estendam para uma guerra entre Cordell e Primavera.
Sacudo a cabeça, incapaz de compreender as palavras dele. Não faz sentido. Ele vai nos ajudar — mas não vai nos ajudar? Acha que Inverno será restaurado, mas não fará nada para nos levar até lá. O que acha que vai acontecer?
Algo que Noam disse se destaca, e respiro fundo.
— Vai tomar nossas minas porque está ligado a Inverno agora. Tentará encontrar o abismo. — Eu me desvencilho da mão de Sir e disparo até Noam, meus dedos querem puxar o chakram e cortar o crânio dele. — Vai destruir nosso reino para encontrá-lo!
Noam dá um passo na minha direção.
— Política não deixa muito espaço para presentes, Lady Meira. Não posso arcar com o custo de dar algo a outro reino por nada em troca. Sim, espero pagamento.
Ódio se acumula em meu corpo e perco o fôlego.
— Você tem tudo — disparo. — Cordell tem tudo. Tem até mesmo Outono agora, e mesmo assim quer os recursos de outro reino Estação? Pode não encontrar, sabe disso, certo? O que o faz pensar que terá mais sorte do que o povo que viveu ali por milhares de anos?
Noam leva a mão ao condutor dele; a joia roxa no cabo da adaga brilha contra o quadril do rei.
— Está na hora de um reino Ritmo tentar onde os reinos Estação fracassaram. Sim, Cordell está ligado a Outono e, sim, vou devastar aquele reino em busca da entrada do abismo, mas se não estiver na parte de Outono das montanhas Klaryn, então o quê? Você é jovem. Esteve afastada da política. Mas, em breve, aprenderá que é assim que as coisas funcionam, esse é seu novo mundo.
Recuo de volta para Sir.
— Não. Diga a ele que não faremos isso, não em Inverno. Não deixaremos...
Mas os olhos de Sir se abaixam. O corpo inteiro dele parece prestes a se dissolver e eu nunca, na vida inteira, o vi mostrar tanta emoção de uma vez.
Estamos à mercê total de Noam, até que ele decida nos ajudar ou nos atirar de volta à escuridão, onde ninguém mais virá ao resgate. Sempre presumi que Sir tinha um plano para quem nossos aliados seriam depois que conseguíssemos o medalhão de volta.
Se essa é a melhor opção — uma armadilha — então, será que algum outro se incomodaria em nos ajudar? Ou será que os demais reinos Ritmo prefeririam esperar que nos desintegrássemos sob a Sombra das Estações e, só então, apareceriam para reivindicar nosso reino e, por extensão, acesso ao abismo de magia? Com as próprias lutas internas, nenhum dos outros reinos Estação é forte o bastante para derrubar Angra.
Estamos presos.
Recuo um passo, Mather coloca a mão em minhas costas, a deixa ali, o polegar dele se move devagar sobre o tecido de meu vestido.
Não, não, não.
— Lady Meira. — Noam indica o salão de baile com o braço. — Este baile é em sua honra. Vai levantar suspeitas se ficar sumida por muito tempo.
Sacudo a cabeça, mas começo a andar para a frente, os pés me levam na direção da luz do baile. Quando estou ao lado de Noam, paro.
— Por que eu?
O sorriso de Noam hesita por meio segundo e ele olha para Sir com interesse.
— É parte do acordo que você receba um título decente em Inverno. Pelas folhas douradas de Cordell, foi levada a crer que seria esquecida pela história depois que Inverno se reerguesse? Que não seria importante para seu reino restabelecido?
Olho por cima do ombro, para Mather, Sir. Ao lado de Noam, que está tranquilo e relaxado, os dois parecem derrotados à luz tremeluzente do salão de baile. Noam disse mais coisas que fazem sentido nos últimos minutos do que Sir jamais disse. A triste percepção faz algo se encaixar, algo que abafa a dor no fundo do meu estômago.
Jamais quis ser esquecida, mas Sir jamais me disse que eu não seria. Ele jamais me levou a crer que eu importava para Inverno além de minha responsabilidade de ter uma vida normal e segura depois que nosso reino estivesse livre de Angra, independentemente do quanto eu tentasse, com fervor, provar a Sir que era mais do que isso. Ele apenas me deixou pensar que eu seria esquecida em meio a tudo isso, que não era importante o suficiente para fazer diferença.
E agora é isso. É assim que vou fazer diferença para Inverno. Como um peão de casamento.
— Sim — sussurro. — Eu acreditava nisso.


Deixar Mather e Sir para trás parece um pesadelo. Um pesadelo em que quero que Mather corra atrás de mim e lute contra Noam e admita que ele jamais faria isso comigo, deixar que me casasse com outra pessoa, porque esteve apaixonado por mim esse tempo todo.
Noam abre a porta do salão de baile para mim, sorrindo conforme a música e os risos da corte ecoam para fora.
— Você é parte desta família agora — diz Noam, quando a porta se fecha atrás de nós. — E seria de grande utilidade lembrar que meu filho tem opções. Muitas opções mais benéficas que não nos envolvem em uma guerra. Meu reino progride, se adapta e muda, enquanto seu povo apodrece em estagnação como pedras erodidas em um córrego, sentadas sobre poder, mas sem se importar nem um pouco que ele esteja ali. Este é um favor, garantido apenas por minha generosidade.
Contenho um grunhido. Noam passa a mão em volta de meu braço, me parando e, quando os dedos grossos dele se apertam contra minha pele, uma lembrança me vem à mente, uma das lições de Sir sobre linhagens das cortes. Noam tinha uma esposa. Mãe de Theron, Melinda DeFiore, uma princesa de Ventralli. Em minha mente, vejo Noam ajoelhado ao leito dela, o corpo frágil de Melinda afundando aos poucos para as garras firmes da morte. Ela estava doente, muito doente, mas há algo errado com Noam — ele a deixou morrer?
Sacudo a cabeça. Quando Sir me contou como ela morreu? Deve ter contado.
Lembro tão vividamente que, em algum momento durante as lições, deve ter mencionado a morte da Rainha Melinda de Cordell.
Noam me sacode e me puxa do lampejo de memória ao apertar meu braço com mais força, me segurando da mesma forma que Theron segurou. Não, não da mesma forma. Theron foi cuidadoso, ele se certificou de que eu soubesse que poderia me afastar a qualquer momento. Noam me agarra como se fosse meu dono. Ele é dono de tudo em Cordell e está acostumado que cada pessoa, animal e planta se curvem para o poder do condutor dele. E, embora eu não seja cordelliana e o condutor de Noam não possa, de fato, me afetar, ainda sinto o poder que ele empunha quando fecha a mão sobre a minha e aperta. Ele é meu dono agora.
Casais passam rodopiando por nós, ao ritmo rápido da música orquestral. A risada deles serve de fundo para o olhar de ódio de Noam, ainda disfarçado pela aura de tranquilidade agradável.
— Você precisa de mim — sibila Noam. — Inverno precisa de mim. Você vai começar o treinamento adequado sobre modos de etiqueta e sobre história cordelliana. Aconselho você a não recusar esse treinamento e a me obedecer em tudo.
Um tremor percorre meu braço. Nesse momento, enquanto Noam se alimenta de meu medo e se regozija em poder, vejo Herod, sibilando ameaças como se fosse um gato e eu fosse um pássaro com as asas presas nas garras dele.
Puxo o braço do domínio de Noam.
— Foi isso que sua esposa fez? Ela o desobedeceu? — disparo, jogando a acusação como se fosse um chakram em uma sala escura.
Quando a expressão do rosto de Noam se desfaz, parte da minha repulsa por ele se liberta. É a última coisa que Noam esperava ouvir de mim, de qualquer um, e aquilo o derruba de qualquer que fosse o pedestal em que ele se mantivesse.
— O que... — A boca de Noam se abre. Então se fecha. Abre de novo e, quando o faz, o choque dele se dissipa e dá lugar ao ódio, ele agarra meu pulso em ameaça.
Cravo as unhas na pele dele.
— Você pode ter me prendido nisto. — Dou um puxão e me desvencilho de Noam. — Mas não é o primeiro homem a me subestimar, então, vou aconselhá-lo a começar a me tratar com um pouco mais de respeito, Rei Noam.
Antes que ele possa responder, viro e mergulho nas fileiras de dançarinos, disparando em ziguezague entre eles até chegar ao centro dos corpos em movimento e dos tecidos oscilantes. Cores giram ao meu redor — ouro reluzente, verde-escuro, azul vindo diretamente da parte mais profunda do mar Destas. As cores e a música se combinam e criam um embalo estranho no caos, um canto estranhamente pacífico no centro do salão de baile, cercado por música e pelos círculos rodopiantes de pessoas. Quase me relaxa.
Quase.
Levo as mãos em concha ao rosto e expiro, inspiro, expiro de novo. Apenas continue respirandoNão importa o que aconteça, não importa quem se volte contra mim, não importa qual suíno arrogante pense que tem poder sobre mim, ainda sou eu. Sempre serei eu.
Quem é essa? Aparentemente, uma garota de vestido cor de rubi e maquiagem borrada, sendo escrutinizada pela classe alta de Cordell. Alguém que pode tratar o Rei de Cordell com tanta repulsa quanto ele me trata. Uma dama. Isso não deve estar certo.
Definitivamente não sou alguém importante para Mather ou Sir. Definitivamente não sou alguém que terá qualquer posição no novo reino de Inverno, não importa o que Noam pense. Apenas alguém que é jogada para qualquer posição que precisa ser preenchida, usada e reusada como uma vela em uma noite de lua nova, até que eu me apague em uma poça de submissão e obediência.
Eu queria ser uma soldada. Alguém que mereceria uma posição em Inverno. Alguém para quem Sir olharia com orgulho. Alguém para quem Mather olharia e...
Não.
É isso que Sir quer que eu seja. Ele deixou surpreendentemente claro que se fosse do jeito dele — e veja, finalmente aconteceu do jeito dele — eu jamais seria uma soldada. E Mather pode simplesmente pular do palácio de quatro andares de Bithai e cair em uma árvore dourada.
A mão de alguém pega meu cotovelo e dou um salto para trás quando encaro os olhos de Mather. Ele me abraça, nos colocando em uma pose adequada de dança, como se pudesse sentir o quanto estou perigosamente perto de bater nele.
— Só quero conversar — implora Mather, conforme nos movemos pelo mar de corpos, ao som da música.
— Bem, eu não quero — respondo, e me desvencilho dos braços dele. As pessoas nos olham conforme passam, mas recuso-me a começar a dançar com Mather de novo, apesar da forma como ele estende os braços, com o rosto contraído e os olhos vítreos.
Mather afasta a emoção do rosto, uma camada sólida de nada. Escondendo-a, removendo-a, fingindo que não significa nada para ele, quando deveria significar tudo.
Sacudo a cabeça. Não vou chorar. Não mostrarei emoção também.
— Achei que tivesse dito que sabia — começo, as palavras ásperas contra minha garganta. — Que sabia como era ser considerado inútil por motivos além do próprio controle. Mas aqui estou eu, um peão em um casamento arranjado, porque você e Sir me consideraram inútil para qualquer outra coisa. Obrigada, Mather. Obrigada por finalmente me mostrar meu lugar.
Mather respira fundo, passa a mão pelas mechas de cabelo que se soltaram da fita que segura todo o resto para trás. Ele sacode a cabeça, mas não diz nada. Ou não consegue, ou não diz, e as lágrimas que ameaçam cair de meus olhos finalmente caem. Eu as limpo furiosamente e, quando começo a deslizar para a multidão, Theron aparece.
Ele parece tão arrasado quanto me sinto, mas passou os últimos minutos dançando, além de ser o brinquedinho do pai dele. Os olhos de Theron disparam para Mather antes de ele olhar de volta para mim e erguer uma sobrancelha.
Paro de olhar para Mather. Este é meu lugar agora. É aqui que pertenço.
— Sinto muito — digo a Theron. A música alta abafa minha voz, fazendo parecer que estou apenas dizendo as palavras sem emitir som, para o ar.
Os lábios de Theron se inclinam em um sorriso que não alcança os olhos.
— Eu também — diz ele, e estende a mão.
Sinto quando Mather vai embora, levando o ar pesado de tensão consigo. Meus olhos se fixam em Mather quando ele se junta a Sir fora da multidão de dançarinos, e um aperto percorre minha garganta e cai em meu coração quando Mather olha de volta para mim. Os olhos dele se viram para Theron, então de volta para mim, e ele empurra Sir para fora do caminho para seguir para as escadas. Sir segura o braço de Mather e murmura algo para ele, e Mather responde murmurando algo de volta.
Então ele vai embora, some escada cima e pelo corredor.
Sir se vira, encontra Alysson e vai embora também.
— Lady Meira? — Theron força um sorriso, a mão dele ainda está estendida. Algo nela parece permanente, como se, caso eu a pegue, todos com quem me importo desaparecerão.
Eles já desapareceram. E tudo o que tenho agora, tudo o que terei para sempre, está diante de mim, com um meio sorriso torto e olhos semicerrados devido ao próprio estresse.
Sacudo a cabeça.
— Apenas Meira — digo, quando pego a mão de Theron e deixo que ele me puxe para si. Minha bochecha mal alcança o rosto dele, minha têmpora para logo ao lado da barba por fazer no queixo de Theron. Um cheiro delicado de lavanda e algo como páginas gastas de um livro emanam dele. Deslizamos para trás e para a frente, suave e tranquilamente, embora a música que pulsa da orquestra ainda seja rápida e forte. Como se disséssemos: Nós fazemos a música aqui. Não vocês.
— Apenas Meira — repete Theron. Ele ajeita os braços ao redor de minhas costas e olha para além da distância entre nós, então acena, decidido. — Ficaremos bem. Juntos.
Não consigo dizer nada. Viro o rosto para o lado e fecho os olhos, lutando contra a frieza que me preenche com as palavras dele. Juntos. Nós dois, apenas nós, enquanto todos ao nosso redor são varridos para longe.
— Não quer mais do que isto? — sussurro, finalmente encarando Theron.
Os olhos dele estão suaves, relaxados, mas minha pergunta faz a suavidade ficar tensa. Os lábios de Theron se abrem e a resposta que sai parece tanto com os pensamentos disparando em minha mente que, por um momento, acho que talvez eu a tinha dito.
— Todos os dias de minha vida.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!