26 de janeiro de 2019

Capítulo 10

Meira

GRITOS ABAFADOS ME tiram do sono. Antes que eu consiga fazer qualquer coisa para ajudar, a porta principal de meu quarto se abre, e, em meio ao cinza enevoado da noite, vejo Garrigan entrar. Ele me olha, mas gesticulo para que saia.
— Nessa precisa mais de você — digo, e Garrigan vai devagar até a porta que conecta o meu quarto àquele que Nessa reivindicou como os “aposentos apropriados a uma dama de companhia”. Quando Garrigan abre apenas o bastante para entrar, os gritos desesperados da irmã dele disparam ao meu encontro.
— Shhh, Nessa, shh. — A voz apaziguadora de Garrigan tenta.
Rolo para o lado, fecho os olhos, envolvo a cabeça com as mãos. Por cima do choro intermitente de Nessa, Garrigan fala. Mas não são mais palavras de conforto, é uma música que me prende ao colchão.
— Deite a cabeça na neve — canta Garrigan, hesitante a princípio, mas com mais confiança conforme se deixa levar pela letra. — Deixe a tristeza no gelo. Pois tudo que um dia foi calmo, doce criança, será seu esta noite. Deite o coração na neve. Deixe as lágrimas no gelo. Pois tudo que um dia foi quieto, doce criança, será seu esta noite.
Arquejo quando o silêncio se instaura. Silêncio puro — nem mesmo um soluço de Nessa. Depois de alguns longos momentos dessa paz delicada, a porta se abre de novo e me sento para encarar Garrigan.
Ele para ao me ver, o corpo enrijece.
— Minha rainha?
A preocupação de Garrigan me deixa desconfortável, antes que eu sinta o calor descendo por minhas bochechas. Estou chorando.
— Onde aprendeu isso?
Garrigan se aproxima, os ombros relaxam um pouco.
— Deborah encontrou a partitura nos escombros do palácio e tocou um dia e... — Garrigan ri, um som baixo e sussurrado, para não acordar Nessa de novo. — Eu me lembrei dela. Acho que nossa mãe costumava cantar.
Uma imagem me atinge. Algo invocado pelos resquícios da música de Garrigan no ar; algo que vejo sempre que olho para ele ou Conall ou Nessa, mas jamais posso admitir.
A vida de Garrigan, como deveria ter sido. Ele cantando essa música para o próprio filho, criando uma família junto com a de Conall e de Nessa. E os pais deles vivos e felizes.
— Você... — Minha pergunta hesita. — Você se arrepende da pessoa em quem a guerra o transformou?
O rosto de Garrigan revela primeiro espanto, depois mágoa.
— Não, minha rainha. E você?
— Eu... Deixa pra lá. — Sacudo a cabeça. — Boa noite.
Garrigan hesita, mas não insiste.
— Boa noite, minha rainha. Se... Nessa tiver mais pesadelos, estarei do lado de fora.
Ouço as palavras que ele não diz:
Se você tiver pesadelos, vou protegê-la do mesmo jeito.
Sorrio, algo sincero e simples, e Garrigan sai fazendo uma reverência. Fico sozinha em um silêncio completo, imperturbado, mesmo a magia em meu peito está maravilhosamente calma.
Garrigan não se arrepende de quem é agora. Sir não se arrepende. Dendera não se arrepende. Nessa, Conall, Alysson, Theron — todos estão feridos pelo que aconteceu conosco, mas nenhum deles parece ansioso para fazer algo que não seja seguir em frente. Encontrar as chaves, abrir o abismo, criar um novo mundo.
Dou um cutucão na magia. Ela não se acende diante de minha curiosidade suave, talvez porque eu esteja tão exausta.
Certa vez, isso teria sido algo sobre o qual eu falaria com Hannah. Ela teria me ajudado — ou me dado conselhos enigmáticos e irritantes que eu só desvendaria à beira de nossa destruição. Mas ela ainda era alguém com quem eu podia contar, alguém resiliente e forte.
Como Mather.
Deito de volta devagar, me aninhando confortavelmente.
Não. Sou forte sozinha, digo a mim mesma. Encontrarei a Ordem e conquistarei aliados para Inverno — tudo isso como rainha Meira. Esta sou eu agora. E se continuar tentando, algum dia não precisarei lutar tanto para ser rainha. Simplesmente será parte de mim. Não vai me ferir.
Algum dia.


Quatro dias depois, o palácio está em polvorosa com as partidas.
Os outonianos se organizam para voltar ao reino deles enquanto Noam supervisiona os preparativos de uma caravana para levar o filho, eu e uma combinação de acompanhantes cordellianos e invernianos pelo mundo. Noam já mandou notícias para Verão, Yakim e Ventralli para que nos esperem, ainda sustentando nosso pretexto de conhecer o mundo para benefício de Inverno. Noam não mencionou o novo plano de Theron, o que apazigua apenas uma pequena parte de minha ansiedade conforme desço as escadas nesta manhã clara, usando um vestido de viagem branco de lã com saia em camadas. Ideia de Dendera.
Pessoas lotam a área diante do palácio, uma mistura de trabalhadores o reconstruindo e os grupos que vão embora no fundo do pátio. Invernianos também se reúnem, aqueles que ficarão durante minha ausência: Sir, Alysson, Deborah, Finn e Greer. Cavalos e carruagens estão diante deles na estrada de terra, a neve foi afastada em pilhas enquanto mais flocos caem das nuvens. Apresso os passos até a trilha estreita.
Theron desce do cavalo quando me aproximo.
— Tenho...
Um grito de satisfação dispara pelo ar. Olho por cima do ombro a tempo de ver alguns trabalhadores invernianos grunhirem, chocados, conforme saem da frente de uma força invisível que abre caminho desde os fundos do pátio até nós.
A fonte do grito passa por debaixo das pernas de um trabalhador sem sorte, momentos antes de chegar a uma jovem muito agitada. O redemoinho não para e nem vê contra quem se chocará a seguir. Ela salta pela neve e se atira na minha direção, e depois que os bracinhos curtos se fecham em torno de minhas pernas, ergue o rosto, boquiaberta, com grandes olhos castanhos e roupa verde volumosa e um sorriso grande, só gengivas.
— ME-ILA! — grita ela, e me abraça tão entusiasmada que é espantoso meu vestido não ter rasgado.
Abro os braços, incapaz de segurar o sorriso que se abre em meu rosto.
— Oi, Shazi.
Theron também ri.
— Acho que fez uma amiga.
— Não tenho certeza se deixei uma boa impressão quando arrastei ela e os pais em passeios bem longos por Jannuari, mas Shazi não parece me odiar muito — digo, e Shazi dá um gritinho do fundo da garganta.
A agitação dela chama a atenção dos membros da corte outoniana, e uma delas se afasta da multidão. Nikoletta se agacha e abre os braços, o que faz Shazi me soltar e saltar até ela, o que faz com que as duas caiam na neve. Mas Nikoletta ri tanto quanto ou talvez mais do que a filha.
Nikoletta se compõe levemente e fica de pé enquanto Shazi pisa na neve, rindo das próprias pegadas. Theron sorri para a prima, uma adoração que reflete aquela dos membros da corte outoniana, ainda preparando os cavalos deles. As esperanças de toda essa gente se apoia naquela minúscula cabecinha, com o sorriso contagiante e a pequena mancha de molho no vestido. Outono não tem uma herdeira do sexo feminino há duas gerações, e sem um condutor de sangue feminino, estavam quase tão mal quanto Inverno. Shazi não poderá usar o condutor por pelo menos mais dez anos, no entanto — não até ser capaz de entendê-lo e conscientemente impulsionar o poder do objeto para o reino.
Shazi sente que estou encarando e segura algo no pescoço.
— Meila — declara a menina, e caminha de volta até mim, tentando me entregar o que quer que esteja no pulso dela, mas a corrente que o prende ao pescoço de Shazi não permite que vá muito longe.
Eu me ajoelho e Shazi coloca um anel na palma de minha mão, um círculo dourado sustentando uma pirâmide de joias em gota e um pequeno diamante. O conjunto de joias emite um brilho avermelhado — o condutor de Outono.
Um arquejo se segura em minha garganta assim que o objeto toca minha pele. Imagens preenchem minha mente, fragmentos de coisas que saem da memória de Shazi para a minha, exatamente como o que acontece quando Noam me toca. Caspar perseguindo uma Shazi risonha em volta de uma tenda amarelo-pálido. Acordando para ver o rosto coberto de lágrimas de Nikoletta enquanto explosões de canhão ecoam ao fundo, e pessoas gritando, suplicando para que se apressem. Caspar beijando a cabeça de Shazi e se afastando com os olhos cheios de lágrimas, e algum leve rompante de terror percorrendo o corpo dela, sabendo que se ele partir, pode jamais retornar.
Fico de pé, o condutor cai da palma de minha mão e recai sobre Shazi. Mas ela sorri e fecha o punho sobre o anel.
— Folti, Meila!
Meus olhos percorrem o rosto de Shazi. Forte. Ela quer que o condutor dela me torne forte — provavelmente ouviu desde que nasceu que aquilo a fará forte um dia.
Sorrio para Shazi.
— Obrigada, princesa Shazi.
Ela sorri de novo, satisfeita com minha resposta, apesar da falta de emoção que torna minhas palavras ásperas. Parte de mim tem vontade de rir — uma criança está tentando me reconfortar. Meu pânico é tão óbvio assim, ou Shazi já é tão observadora?
— Obrigada por virem — digo a Nikoletta, porque preciso falar para desatar o nó na garganta. — Sinto muito pela visita não poder ter sido mais longa.
O sorriso dela é cansado, como se entendesse. E como cresceu com Noam como irmão mais velho, talvez entenda.
— Soubemos que vai para Verão. — Nikoletta olha para a multidão antes de se aproximar de mim. — Meu sobrinho me mostrou um tratado muito intrigante. É uma meta ambiciosa, mas saiba que Outono ajudará como puder.
Meus olhos se arregalam e viro para Theron quando a mão dele desce até minha lombar.
— Outono assinou — explica Theron. — Logo depois de mim. Estão cientes da natureza delicada do tratado.
Reviro os olhos. Odeio precisar traduzir conversa política.
Caspar assinou o tratado depois de Theron — secretamente, ainda por cima. Theron tentou mostrar para mim no dia anterior, mas eu... Bem. Mentir para ele sobre o que penso de suas metas me magoa mais e mais, e não queria precisar fingir mais apoio a isso.
Mas é apenas o começo.
— Sim — consigo dizer, com a voz fraca. Viro para Nikoletta. — Eu... espero que dê frutos.
Nikoletta assente, refletindo, antes de suavizar a atitude dela.
— Sei como é difícil ser uma jovem governante. Fica mais fácil com o tempo, eu juro.
Meu peito se esfria um pouco. Queria poder contar a ela o quanto me sinto grata por Nikoletta não ser como o irmão.
— Obrigada — digo, de novo.
Eles partem logo depois, serpenteando para fora de Jannuari e de volta ao próprio reino, a primeira de muitas partidas do dia. A ausência da corte de Outono me coloca em ação — quero sair antes de perder a coragem, e quando verifico os suprimentos no cavalo, uma tarefa que Dendera declara ser “inapropriada para uma rainha”, dois trenós avançam.
Eu me viro e seguro um punhado da saia na mão quando vejo Noam analisando os trenós, uma careta deixa o rosto dele ríspido. Mas não discute sobre a presença deles; não exige que os espólios ali dentro sejam movidos para seu cofre.
— Não acredito que está aceitando isso agora — murmuro.
Theron verifica duas vezes as faixas da sela e me lança um olhar de empatia.
— Não está... Só está tirando vantagem da situação.
— Tão cordelliano.
Theron encolhe o corpo, mas não replica, e não peço desculpas.
Noam caminha até nós, como se ouvisse a deixa, com os braços às costas.
— Um de meus navios estará à espera no rio Feni.
— Que bondade sua — disparo, com os dentes trincados.
Noam inclina a cabeça.
— Não se esqueça do que discutimos, senhora rainha. As condições de seu retorno não são negociáveis.
Traga as chaves ou a farsa de que Cordell se importa com Inverno chega ao fim.
Ódio queima subindo do meu estômago até a garganta, mas não digo nada. Uma rainha não diria.
Noam se vira para ir embora, seguindo para a própria caravana, uma destinada a Gaos, para que possa inspecionar a entrada para o abismo de magia por conta própria. Espero que tente chegar até a porta. Pelo menos uma vez.
Subo no cavalo quando Sir se aproxima.
— Cuidaremos de tudo e você será informada de qualquer mudança — diz ele.
Pisco para Sir. Apenas ordens agora, ordens e dever e orgulho, é tudo que ele é.
O vento sopra na direção contrária, fazendo flocos de neve rodopiarem por meus cachos brancos soltos. Luto para manter o sorriso no rosto, mas quanto mais Sir fica de pé ali, disparando informações sobre minha ausência, menos consigo me ater à determinação. Um único momento de sinceridade e voltarei a ser uma rainhazinha obediente. Serei perfeita e calma e inexpressiva — alguém de quem Sir continuará a sentir orgulho.
— Entendo por que o fez — sussurro, interrompendo a explicação dele sobre quais novas minas serão abertas enquanto eu estiver fora. — Entendo por que escondeu tudo de mim e de Mather e por que está tudo invertido agora. Mas o que não entendo é por que odiava tanto quem eu era. Por que sabia o quanto eu precisava que você me amasse, mas se recusou a me dar isso. Me culpava por tudo? — Arquejo, o ar parece rarefeito. — Talvez fosse culpa minha. Causei muitos dos nossos problemas, eu sei que sim, mas juro... Serei uma rainha melhor.
A testa de Sir se desenruga, o rosto dele fica inexpressivo, uma estátua de pedra que tomou vida.
— Isso não é culpa sua.
Espero que ele diga mais. Que me diga que não me odeia, jamais odiou.
— Esperaremos seu retorno ansiosamente, minha rainha — diz Sir, com uma reverência.
Não me dou ao trabalho de ver quem mais deseja me dar adeus. Com um gesto das rédeas, o cavalo avança, ziguezagueando até a frente da caravana.
Conforme cavalgo, alguém leva o próprio cavalo até meu lado. Ele se inclina sobre o espaço entre nós e coloca a mão na minha, um pequeno gesto que me faz olhar para ele, para o sorriso suave e para a forma como os cabelos dourados oscilam ao ar nevado.
— Vai ficar tudo bem — promete Theron.
— Duvido.
Ele faz um gesto de ombros.
— Somos as pessoas mais capazes que conheço. Encontraremos as chaves, venceremos meu pai, e o mundo ficará em paz.
Lanço um olhar de exasperação para Theron.
— Seu otimismo é irritante.
— Isso não me impede de estar certo — diz ele, sorrindo.
Olho por cima do ombro, percorro a multidão com os olhos até ver os invernianos perto do palácio se dispersarem. Alysson segue para os chalés e Sir vai embora... e Mather.
Ele está com um grupo de rapazes, em parte ouvindo-os, em parte me observando. Eu me viro, de olhos fechados, e deixo que a mão de Theron guie nossos cavalos pelas ruas.

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