21 de janeiro de 2019

Capítulo 10

— DESCULPE. NÃO sei o que mais fazer. Ele chegará em algumas horas.
Estou no escritório do sonho anterior. A lareira quente, o cheiro almiscarado de carvão queimando, a janela aberta que deixa flocos de neve entrarem. Os 23 que escaparam naquela noite e que passariam a viver nas planícies Rania com duas crianças, todos reunidos nas preparações para a partida. E Hannah, a força silenciosa dela hesitando conforme se ajoelha ao lado de... Alysson?
Por que estou sonhando com isso de novo?
Alysson está sentada em uma cadeira diante de Sir, que se inclina sobre o encosto com a cabeça baixa na altura do peito. Ambos estão sombrios, em parte choram, em parte não, tentando permanecer fortes diante da rainha. Alysson fecha os braços ao redor de um pequeno emaranhado de cobertores.
— Não sei mais o que posso fazer — fala Hannah, aos sussurros, esticando os dedos longos e pálidos para tocar o montinho nas mãos de Alysson. A mão minúscula de alguém se levanta e Hannah a segura, fechando as duas mãos em volta da primeira.
Mãe.
— Não precisam ir — diz Hannah. — Não precisam me obedecer.
A Rainha de Inverno suplicando ao general e à esposa dele.
Alysson ergue o rosto para a Rainha, com uma das mãos ainda ao redor de Mather e a outra se movendo para segurar a de Hannah.
— Nós faremos — sussurra ela. — É claro que faremos. Por Inverno.
— Todos faremos. — Agora é Sir. Ele ergue o rosto, alerta e concentrado. — Pode confiar em nós, minha rainha.
Hannah fica de pé, os dedos se esticam distraidamente para o filho. Ela acena ou faz uma reverência com a cabeça, permanecendo calada por tanto tempo que, quando uma explosão soa distante, todos saltam.
— Sinto muito por fazer isso com todos vocês — sussurra Hannah. — Muito mesmo...
— Lady Meira?
Acordo sobressaltada, esperando explosões, pronta para pegar aquele minúsculo bebê e correr. São necessários dois suspiros profundos e alguns momentos de concentração no dossel da cama antes que eu acredite que não estou naquele escritório — estou em Cordell. Estou no palácio de Noam com Rose debruçada sobre mim, animação estampada no rosto dela.
Foi apenas um sonho. Outro sonho sobre Hannah. Mas por que pareceu tão real?
— Está pronta para se tornar linda, Lady Meira? — pergunta Rose, olhando para minhas piscadas regulares na direção do dossel.
Ergo uma sobrancelha.
— Está dizendo que já não sou linda?
A expressão de Rose se desfaz.
— Não! É claro que não... quero dizer...
— Tudo bem, Rose. Estou brincando. — Passo as pernas para fora da cama e avalio a situação diante de mim. Mais três criadas vieram com Mona e Rose, cada uma segura uma sacola ou uma peça de roupa. Isso é parte do que quer que Sir esteja planejando, acho... me deixar bonita, como depenar uma galinha antes de cozinhar. Não posso ir a um baile com as roupas de viagem e me envergonho de não ter percebido antes. Nunca usei nada mais arrumado do que as mesmas roupas puídas de sempre. Não tenho certeza se quero estar mais arrumada; sempre que Dendera descreveu vestidos de baile para mim, meus únicos pensamentos eram Doce neve, isso parece muito tecido desnecessário saias provavelmente foram inventadas como um dispositivo para evitar que mulheres fugissem.
— É claro, Lady Meira — diz Rose, e se vira para as criadas. — Meninas! Vamos começar!
Ergo as mãos.
— Ei... agora? Esperem! Quero minhas roupas e chakram... Ai!
Todas as cinco garotas me cercam de uma vez. Elas me tiram da cama e me enfiam sobre uma mesa de vestir que me faz sentir como uma das árvores de ouro tolas de Noam, com pessoas inquietas abaixo de mim.
— Mona, pernas e pés. Cecily, corpete e mangas. Rachel e Freya, cabelos e rosto. — Rose entra no ritmo como um general faria sobre um bando de capitães confusos, ordenando e brigando. As garotas me puxam, de um modo e de outro, me enfiando em camadas de tecido e me cobrindo de pós e óleos esquisitos. Uma pega meu cabelo e o coloca para cima em um penteado cacheado, outra pinta algo brilhoso em meus lábios e bochechas, outra enfia sapatos de saltos duros em cada pé, outra ainda puxa as cordas de um corpete tão apertado que consigo sentir o gosto do interior do meu estômago.
— Tem... certeza... de que tudo isso... é... necessário? — disparo, entre puxões do corpete. Entendo querer estar mais apresentável para um baile, mas todo esse desconforto é realmente necessário? Não posso apenas colocar um vestido simples? Ou, melhor ainda, não ir? Mas Sir e Mather estarão nesse baile, e não quero esperar até ter acabado para descobrir o que estão planejando. Se eu preciso sofrer com alguns cadarços de corpete apertados demais, então tudo bem.
Rose, com o dedo no lábio inferior, ergue uma sobrancelha para mim. Ela se vira para o armário, sem dizer uma palavra, e o abre. Do lado de dentro de cada porta há um espelho, e embora os varais estejam cheios de vestidos e camisolas, estou concentrada demais no reflexo que me encara de volta para reparar nas roupas.
As criadas de Noam são talentosas. Ou sou mais bonita do que eu achava.
O vestido em que me enfiam — ou no qual ainda estão me enfiando — é de um vermelho rubi profundo, oscilante, farfalhante, com um desenho dourado complexo bordado no corpo. O dourado rodopia para cima, formando duas alças finas que deslizam logo abaixo de minha clavícula, exibindo o colar de ouro trançado que uma das garotas prendeu em meu pescoço. Meus cabelos, um emaranhado imenso de cachos presos no alto, pende bagunçado, mas deliberadamente, com algumas mechas brancas oscilando livremente ao redor do rosto.
— Bem? — Rose cruza os braços. Ela parece bastante satisfeita consigo mesma.
Fecho a boca. Talvez ser um pouco mais arrumada não seja tão terrível.
— Você é... boa no que faz.
Rose suspira conforme as garotas recuam. A agressão terminou. Algumas delas emitem ruídos para mim:
— Você não é linda? Ele vai se apaixonar por você, com certeza...
Ergo um dedo e olho ao redor.
— Esperem. Ele quem?
Mona fecha a sacola de suprimentos.
— O Príncipe Theron, Lady Meira. Ele vai ficar caidinho!
O filho de Noam. Franzo a testa, segurando distraidamente o tecido da saia. Sabia que estava me esquecendo de algo.
As garotas começam a sair, Rose as coloca para fora com ordens severas de verem se os outros convidados precisam de assistência emergencial. Salto para baixo do pedestal e seguro o braço de Rose.
— O General William e o Rei Mather. — Falar o título dele sai surpreendentemente fácil, o que me causa um certo desconforto. — Onde estão?
— Estão se arrumando também, Lady Meira. Disseram que se você quisesse falar com eles, a encontrariam na biblioteca antes do baile.
— E quando é o baile?
— Em dez minutos.
Bato na testa para combater uma enxaqueca repentina.
— Lady Rose, se quer que eu vá a esse baile, me dirá exatamente onde fica a biblioteca. Agora.
Rose aponta para o corredor e para a esquerda.
— Duas esquerdas, uma direita. Primeira porta à direita.
Começo a agradecer, mas então percebo — estou usando um vestido de baile. Quantas vezes terei essa oportunidade? Abaixo em uma reverência acentuada, a saia se afofa conforme desço, o tecido me engole. Rose aplaude quando fico de pé de novo e começo a correr para a porta. Então paro, pego a lápis-lazúli e enfio a pequena pedra azul em uma das dobras do vestido. Apenas algo a segurar.
Duas esquerdas. Uma direita. Primeira porta à direita.
Repito as instruções conforme corro, galopando além de criadas apressadas e pessoas chiques que não conheço. Realeza cordelliana, provavelmente. Correr em um vestido já é bem difícil, mas correr em um vestido de baile é como tentar correr amarrada em uma tenda, então, por fim, admito a derrota e levanto a confusão de seda.
Alguns cortesãos que passam erguem as sobrancelhas, mas disparo além deles, feliz demais por poder mover as pernas livremente para me importar de verdade com os olhares de ultraje. Eu estava certa — saias são invenções destinadas a tornar a corrida mais difícil.
A porta da biblioteca já está aberta quando entro correndo, mas o cômodo está vazio. Livros preenchem as prateleiras por três andares, e janelas tão altas quanto as prateleiras deixam entrar os raios de sol poente. Três sacadas me envolvem acima e um piano de cauda está no centro do andar inferior, mas não há pessoas, nem mesmo um criado tirando o pó dos livros em um canto.
Corro para dentro do cômodo e verifico cada andar por sinais de Sir ou Mather ou Dendera, qualquer um. Quanto mais cantos vazios vejo, mais forte meu coração bate.
Eles não estão aqui.
A ausência deles me tira da tranquilidade de me arrumar para o baile, de poder tomar banho, do luxo e dos requintes de Bithai. Aqui estou eu, de pé, na biblioteca de Cordell, agindo como uma donzela estrangeira, com vestido de baile e perfume de lavanda com baunilha. Eu deveria aceitar isso. Não deveria me importar que não descobrirei nada antes do baile, porque esse tipo de normalidade é o que Sir queria para mim, não é? Dançar e rir e usar vestidos de babados. Ter uma vida mais fácil.
Porém, por mais que seja legal ter uma banheira cheia de água fumegante, por mais que meu vestido seja bonito, eu nunca quis esse tipo de vida. Dendera falava dos dias em que Inverno estava íntegro e a corte intacta, quando a Rainha Hannah dava bailes exuberantes como todos os outros reinos do mundo. As damas usavam vestidos de cor marfim requintados e os homens vestiam ternos azul-escuros, tudo brilhava com prateado e branco. Eu ouvia as histórias de Dendera e sorria devido às imagens, mas eram os contos das batalhas de Inverno que preenchiam meus sonhos. Contos de proteção do reino. De lutar pela terra. Defender o povo.
Não que os cortesãos fossem menos dignos de Inverno do que os soldados que lutavam pelo reino, mas eu jamais quis a vida que Dendera disse que tinha. Eu quis uma vida própria, uma vida na qual podia sentir que era parte de Inverno. E isso, para mim, vinha pela luta pelo reino.
Um pedaço de pergaminho no apoio de partitura chama minha atenção e eu o pego. Algo sobre a forma como a letra se curva, com uma caligrafia frenética e irregular, como se quem quer que tenha escrito estivesse com pressa de escrever o poema, me atrai até ele.

Palavras me fizeram.
Elas me transformaram desde meu primeiro fôlego;
Pequenas linhas pretas gravadas em meu corpo enquanto eu me agitava e gritava.
E aprendia o significado delas.
Dever. Honra. Destino.
Eram lindas tatuagens ao coração.
Então eu as tomei e guardei e tornei-as minhas,
Trancafiadas dentro de mim, e só as tirei
Quando outros não entenderam seu significado.
Dever. Honra. Destino.
Acreditei em tudo.
Acreditei nele quando disse que eu era seu maior dever.
Quando disse que eu seria sua maior honra.
Acreditei em ninguém mais além dele e nas três palavras.
Dever. Honra. Destino.
Acreditei demais.

Há dor nas palavras, a mesma dor do tipo “quero mais do que isso” que torna meu vestido menos bonito. Ela me tira o fôlego. Esperava algo assim largado por aí se estivéssemos em Ventralli, que é conhecida pelos artistas, mas não em Cordell. Cordell é dinheiro e poder e fazendas férteis. Quem escreveu isso?
— Lady Meira?
Viro rapidamente, o pergaminho flutua até o chão, o vestido farfalha como um grande funil vermelho. A princípio, acho que é Noam. Mesma compleição alta, mesmo cabelo dourado, mesmos olhos castanho-escuros. Mas esse homem não é velho o bastante para ter cabelos grisalhos; é apenas poucos anos mais velho do que eu e a pele é macia, exibe apenas um trecho de barba por fazer no queixo. Ele é muito mais bonito do que Noam também, não é tão severo, parece mais disposto a cantar uma balada do que a governar um reino.
Aliso o vestido.
— Príncipe Theron — tento adivinhar.
Um lampejo de curiosidade ilumina o rosto dele. Então os olhos de Theron recaem sobre o pergaminho que está entre nós no tapete, com as palavras para cima, e a luz se dissipa. Theron se abaixa, pega o papel, amassa no punho como se pudesse desintegrar o poema com a pura força de vontade.
— Folhas douradas — xinga Theron, detêm-se e sorri. O papel em suas mãos se desintegrando, a despeito de suas cuidadosas bases de boa educação. — Desculpe-me. Isto é... não é nada.
Franzo a testa.
— Você escreveu isso?
A boca de Theron se contrai, lutando contra admitir ou retomar o curso da conversa.
Indico o papel que ele coloca devagar sobre a mesa.
— É bom — digo. — Você é talentoso.
Parte do pânico de Theron se esvai.
— Obrigado — diz ele, com cautela, ao mesmo tempo em que os cantos da boca se erguem. Não é o sorriso de rosto inteiro de Mather, mas ainda me desarma, faz minhas pernas fraquejarem sob as camadas de saias e anáguas.
Pigarreio, tirando a concentração do filho surpreendentemente atraente de Noam e voltando-a para o motivo pelo qual estou ali. Mesmo que Sir ou Mather apareçam agora, precisaríamos conversar diante de Theron. Então, levanto a saia de uma forma um pouco mais digna de uma dama e caminho até ele.
— Aparentemente, sou requisitada em um baile — digo. — Não quero arriscar ser vítima da ira de Rose. Também está a caminho?
Theron assente e coloca a mão em meu braço quando passo por ele, com tanta suavidade que sinto um formigamento indescritível percorrer meu corpo. Uma única faísca de raio criada pelos dedos dele naquele pequeno ponto de meu braço.
— Estou. Gostaria de companhia? Achei que seria um bom momento para nos conhecermos. — Os olhos de Theron se voltam para o pergaminho. — Digo, adequadamente.
Quão longe pode ser o baile?
— Sim, obrigada.
Theron me oferece o braço. Paro, com a sobrancelha erguida, antes de passar a mão por ele e repousar os dedos no veludo verde da manga de Theron.
— Então — começo, conforme seguimos para a esquerda no salão —, você é o filho do Rei de Cordell. Como é isso?
Theron ri.
— Às vezes é benéfico, outras, horrível. Você é linda... como é isso?
O salto de meu sapato se agarra em um ângulo estranho e tropeço para a frente.
Ninguém jamais me chamou assim antes. Dendera disse que eu era “uma coisinha bonita” certa vez, e Mather... Suspiro, revendo cada interação que já tive com ele, e me desapontando um pouco. Ele jamais disse nada assim para mim e, até agora, jamais tinha percebido — nem o quanto queria que dissesse. Isso me deixa agonizantemente ciente do fato de que Theron está me olhando e apenas o encaro, sem saber o que fazer.
— Perdoe-me — diz Theron, com o rosto pálido. — Não deveria ter sido tão direto. Ainda estamos nos conhecendo. Prometo que, com o tempo, verá que sou muito mais encantador do que pareço a princípio.
— Bem, espero que tenhamos muito tempo a sós juntos para que você me convença de seu charme. — Arregalo os olhos quando ouço o que falei. — Ah. Não. Quero dizer... bem, quero dizer isso, mas não tão presunçoso quanto pareceu.
Theron sacode a cabeça.
— Temos todo o tempo que desejar, Lady Meira. Não vou apressá-la.
Viramos mais uma vez e uma das duas grandes escadas desce diante de nós. A conversa animada de convidados se mistura à música que ecoa do salão de baile abaixo, algo alegre e com instrumentos de corda. Cheiros de comida sobem... presunto ao mel, tortas de lavanda, o odor mais pungente de licor, o aroma de café como o de nozes. Por um segundo, apenas inspiro tudo, meu estômago ronca sob os cheiros refinados, então...
— Espere — digo, minha mente processando as palavras dele. — Não vai me apressar para quê?
O rosto de Theron exibe confusão, juntando peças que não consigo ver, e ele recua, tirando o braço de mim.
— Ninguém contou a você — sussurra Theron.
Ao mesmo tempo, as peças se unem em minha mente.
— Você sabe! Sabe o que Noam e Sir e Mather...
Theron assente. Ele exibe uma serenidade que Noam não tem, algo gracioso e calmo que faz todos os movimentos parecerem deliberados.
— Sim — sussurra ele. Theron olha para o corrimão, para o salão de baile abaixo, então, de volta para mim. — Eu... sinto muito. Supus que alguém tivesse contado a você. Meu pai e o Rei Mather chegaram a um acordo. Ajudaremos Inverno...
Bato palmas, feliz. Sir conseguiu! Inverno tem um aliado.
Mas Theron não terminou.
— ...contanto que estejamos ligados a Inverno.
Minhas mãos congelam no meio do aplauso.
— Ligados?
Ele suspira. Sinto Theron pegar minha mão antes que eu consiga ver, a pele dele aquece meus dedos em um aperto forte, íntimo.
Recuo, me chocando contra uma pequena mesa decorativa atrás de mim. O vaso sobre ela cai e se quebra no chão, água e flores sujam o tapete espesso.
Mas apenas encaro Theron. O Rei Mather fez um acordo com Noam.
Ele ligou Cordell a Inverno. Usando a mim.

7 comentários:

  1. sinto tanta raiva nesse momento que nem consigo expressar

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  2. Já tô shippando o novo casal

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    1. Sir fazer isso é compreensível mas foi uma bela traição de Mather. Que mim desculpe Mather mas prefiro Meira com Theron.

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  3. Olha a minha teoria sendo certa. Eles n iam fazer isso se ela so fosse uma orfã

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  4. N Ã O A C R É D I T O!!!
    Tô com um misto de raiva e esperança... Pra mim certeza que ela é herdeira, provavelmente irmã de Matger como Emy já tinha suspeitado...
    Entendo os motivos mais acho uma covardia e traição de Sir e Mather de não contarem nada a ela... Deixa ela ser lançada nessa as escuras... E pelo jeito esse acordo já é BEM antigo.
    Por outro lado... A química que rolou entre eles me conforta.
    Ahhhhhh tô amando esse livro.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!