7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte

OS ÍMÃS DOS TRILHOS FICARAM EM SILÊNCIO, E ELES SÓ OUVIAM os sons dos próprios passos na vegetação, e os gritos dos pássaros migratórios. Apenas uma sugestão de luz penetrava pela cobertura formada pelas árvores, e a floresta tinha cheiro de seiva de árvore e do outono que se aproximava.
O tempo se arrastava, embora o tablet de Scarlet indicasse que nem uma hora havia se passado desde que o trem tinha parado. Scarlet reparou primeiro nos sons que não pertenciam à floresta: rodinhas esmagando terra e cascalho — dezenas de androides circulavam pela área.
Lobo se afastou dos trilhos e caminhou pela vegetação até a segurança do bosque. Scarlet guardou o tablet a fim de poder usar as duas mãos para subir em troncos caídos e tirar galhos e teias de aranha do cabelo. Depois de um tempo, colocou o capuz na cabeça, o que limitava sua visão, mas se sentia mais protegida contra as coisas que roçavam e a cutucavam.
Eles subiram uma encosta pelas raízes de um pinheiro que parecia prestes a cair por cima dos trilhos. Do alto, Scarlet podia ver o brilho do sol reluzindo no teto metálico do trem. De vez em quando, a sombra de um passageiro surgia nas janelas. Scarlet não conseguia imaginar estar entre eles. Sem dúvida todo mundo sabia o que era a “emergência médica” àquela altura.
Quanto tempo demoraria para exames serem feitos em todos os passageiros em busca da peste e determinar quem poderia sair? Por quanto tempo eles manteriam pessoas saudáveis em quarentena? Isto é, se as deixarem sair?
Para impedir fugas, um pequeno exército de androides fiscalizava os arredores do trem, com sensores amarelos piscando em janelas e portas e se dirigindo ocasionalmente para a floresta.
Apesar de achar que não conseguiam vê-la tão acima dos trilhos, ela desceu e tirou o moletom muito lentamente. Lobo a viu tirar os braços das mangas, feliz por ela estar usando por baixo uma camiseta preta, bem melhor para se camuflarem. Ela amarrou o moletom na cintura.
Melhor?, disse ela com movimentos labiais, mas Lobo só afastou o olhar.
— Vão perceber que desaparecemos — sussurrou ele.
O androide mais próximo se virou na direção deles e Scarlet se abaixou, com medo de que até seu cabelo pudesse chamar atenção.
Quando o androide se afastou, Lobo seguiu em frente e levantou um galho de árvore para Scarlet passar por baixo.
Eles seguiram em ritmo lento, agachados para não serem vistos. Parecia que cada passo que Scarlet dava fazia outra criatura ir correndo se esconder (um esquilo, uma pequena andorinha), e ela estava com medo de os androides conseguirem encontrá-los pela mera perturbação da vida selvagem, mas não houve nenhum alarme de aviso vindo dos trilhos.
Eles só pararam uma vez, quando um raio de luz azul dançou nos troncos acima de suas cabeças. Scarlet imitou Lobo e se deitou no chão, ouvindo o coração disparado, o fluxo de adrenalina nos ouvidos.
Com um susto, sentiu os dedos quentes de Lobo em suas costas. Firmes e tranquilizadores, se mantiveram lá enquanto ela observava a luz do androide passar de um lado para outro pela floresta. Ela arriscou um leve inclinar de cabeça até conseguir ver Lobo ao seu lado, imóvel, com todos os músculos contraídos, exceto os dedos da outra mão, que estavam batendo sem parar em um pedregulho, botando para fora a energia nervosa que não tinha para onde ir.
Ela observou os dedos, meio hipnotizada, e não se deu conta de que a luz tinha se afastado até a pressão do toque de Lobo sumir de suas costas.
Eles seguiram em frente.
Em pouco tempo, o trem ficou para trás, e o barulho da civilização perdida se abafou pelo barulho de grilos e sapos. Quando Lobo pareceu seguro de que não estavam sendo seguidos, ele os guiou para fora da floresta e de volta aos trilhos.
Apesar da crescente distância entre eles e o trem, nenhum dos dois falou.
Assim que o sol beijou o horizonte, quase ofuscante em um daqueles raros momentos em que podia ser visto por entre as árvores, Lobo parou e virou para trás. Scarlet parou poucos passos à frente e seguiu o olhar dele, mas não viu nada além de arbustos densos e longas sombras sem fim.
Com os ouvidos em alerta, procurando outro uivo, Scarlet não conseguiu ouvir nada além de pios de pássaros e, acima, os gritos dos morcegos.
— Mais lobos? — perguntou ela.
Um longo silêncio, seguido de um aceno positivo curto.
— Mais lobos.
Scarlet prendeu a respiração até quando ele recomeçou a andar. Estavam caminhando havia horas sem sinal de outro trem, de cruzamento de trilhos ou de civilização. Por um lado, era um lugar bonito, com ar fresco, flores selvagens, criaturas que se aproximavam para ver Scarlet e Lobo antes de voltarem correndo para seus abrigos.
Mas, por outro lado, seus pés e costas estavam doendo, a barriga estava roncando, e agora Lobo estava dizendo que criaturas da floresta menos amáveis estavam por perto.
Um tremor subiu pelos braços dela. Ela desamarrou o moletom da cintura, vestiu e fechou o zíper até o pescoço. Ao pegar o tablet, ficou desanimada ao ver que só tinham percorrido vinte e oito quilômetros; tinham mais cinquenta a percorrer até chegarem à estação seguinte.
— Tem um cruzamento daqui a oitocentos metros.
— Que bom — disse Lobo. — Os trens que estavam marcados para passar por esses trilhos não vão passar tão cedo. Devemos começar a ver alguns trens depois do cruzamento.
— E quando o trem vier — disse ela —, como você planeja nos colocar nele?
— Da mesma maneira que saímos do último. — disse, abrindo um sorriso malicioso. — Foi como pular de um celeiro, não foi?
Ela olhou com raiva.
— A comparação não funciona tão bem para pular de volta para um trem.
A resposta dele foi o mesmo sorriso malicioso, e Scarlet virou o rosto, pensando que talvez não quisesse saber qual era o plano dele, desde que tivesse um. Um arbusto de florescimento tardio tremeu na lateral do caminho, e o coração de Scarlet pulou até uma marta-do-pinheiro-europeia aparecer e depois sumir em meio às árvores.
Ela suspirou, irritada com sua inquietação.
— E então — perguntou a Lobo, virando para trás. — Quem ganharia em uma luta: você ou uma matilha de lobos?
Ele franziu a testa, bem sério.
— Depende — respondeu lentamente, como se estivesse tentando entender o motivo da pergunta. — De que tamanho é a matilha?
— Sei lá, qual é o normal? Seis?
— Eu poderia ganhar de seis — disse ele. — Mais do que isso seria difícil.
Scarlet deu um sorriso debochado.
— Você não corre perigo de baixa autoestima, pelo menos.
— O que quer dizer?
— Nada. — Ela chutou uma pedra no caminho. — E você contra... um leão?
— Um gato? Não me insulte.
Ela riu, um som agudo e surpreendente.
— E um urso?
— Por quê, você viu um aqui?
— Ainda não, mas quero estar preparada caso precise salvar você.
O sorriso pelo qual estava esperando iluminou o rosto dele, mostrando seus dentes brancos.
— Não sei. Nunca precisei lutar contra um urso. — Ele inclinou a cabeça para o leste. — Tem um lago naquela direção, a uns cem metros. Seria bom pegar água.
— Espere.
Lobo fez uma pausa e olhou para ela.
A testa de Scarlet estava franzida quando ela virou para ele.
— Faça isso de novo.
Ele deu meio passo para trás, com os olhos tensos de nervosismo.
— Fazer o quê?
— Sorrir.
A ordem foi recebida com a reação oposta. Lobo se encolheu, com o maxilar tenso como se quisesse garantir que os lábios ficassem fechados.
Scarlet hesitou apenas por um momento antes de esticar a mão para ele. Lobo fez uma careta, mas não se moveu quando ela aninhou o queixo dele na mão e delicadamente abriu os lábios com o polegar. Ele inspirou e encostou a língua na ponta de um dente da direita.
Mas eles não eram normais. Eram quase como presas, com caninos afiados e longos.
Ela se deu conta, tarde demais, de que pareciam dentes de lobo.
Lobo afastou o rosto e trincou os dentes de novo. Seu corpo todo permaneceu tenso, desconfortável. Ela o viu engolir em seco.
— Implantes?
Ele coçou a nuca, incapaz de olhar para ela.
— Aquela Ordem da Matilha leva essa coisa de lobo a sério mesmo, não é? — Ao ver que suas mãos ainda estavam no ar, com os dedos perigosamente próximos de virar o rosto de Lobo de volta, ela as baixou e enfiou nos bolsos da frente. De repente seu coração estava disparado. — Tem mais alguma coisa estranha da qual eu deva saber? Uma cauda, talvez?
Ele finalmente olhou para ela, corado por se sentir insultado até ver que ela estava sorrindo.
— Estou brincando — disse, dando um sorriso de desculpas. — São só dentes. Pelo menos, não estão implantados na sua cabeça, como aquele cara da luta.
Demorou um pouco, mas logo seu constrangimento começou a sumiu e a expressão de raiva se suavizou. Os lábios se curvaram de novo, mas não era outro sorriso verdadeiro.
Ela cutucou o pé dele com o dela.
— Tudo bem, aceito esse sorriso por enquanto. Você disse que ouviu um rio aqui perto?
Parecendo agradecido por mudar de assunto, Lobo se afastou dela.
— Um lago — respondeu. — Estou sentindo o cheiro.
Scarlet apertou os olhos na direção que ele apontou, mas não viu nada além de árvores, as mesmas árvores.
— É claro que está — disse ela, seguindo-o em meio à vegetação baixa.
E ele estava certo, embora fosse um laguinho bem pequeno, mantido fresco por um riacho que chegava de um lado e seguia pelo outro. A margem mudava de grama para pedras antes de desaparecer sob a superfície, e os galhos de um amontoado de faias pendiam até perto da água.
Scarlet puxou as mangas, jogou água no rosto e tomou muitos goles. Não tinha percebido o quanto estava com sede até ver que não conseguia parar de beber. Lobo se ocupou molhando as mãos e passando os dedos molhados pelo cabelo, deixando-o de pé para todos os lados, como se tivesse ficado arrumadinho demais durante a caminhada.
Refrescada, Scarlet ficou de cócoras e olhou para Lobo.
— Não acredito.
Ele olhou nos olhos dela.
— Suas mãos não estão agitadas — continuou, indicando a palma da mão apoiada no joelho, que imediatamente se flexionou e formou um punho desconfortável sob o escrutínio dela. — Talvez a floresta esteja tendo um bom efeito em você.
Lobo pareceu pensar nisso, com as sobrancelhas franzidas enquanto enchia a garrafa de água e a guardava na bolsa.
— Pode ser — disse ele. — Ainda temos comida?
— Não. Eu não sabia que precisaríamos de suprimentos. — Scarlet riu. — Agora que você falou, aqui estou eu achando que o ar fresco deve estar fazendo milagres, quando na verdade você deve estar com hipoglicemia. Vamos, talvez a gente encontre frutas selvagens ou alguma coisa parecida.
Ela ficou de pé, mas ouviu um grasnido do outro lado do lago. Seis patos estavam entrando na água, nadando e mergulhando a cabeça na superfície.
Scarlet mordeu o lábio.
— Ou... você acha que consegue pegar um desses?
Ao ver os patos, um sorriso ousado se abriu em seu rosto.
Ele fez parecer fácil, se aproximando dos pássaros desatentos como um verdadeiro predador. Mas, se Scarlet estava impressionada, e talvez estivesse, não era nada comparado ao espanto dele ao vê-la depenar uma ave como uma especialista, fazendo buracos na pele para permitir que a camada externa de gordura escorresse enquanto assava.
A parte mais difícil foi acender o fogo, mas com uma busca rápida no tablet e o uso inteligente da pólvora de uma das balas da arma, Scarlet ficou logo hipnotizada pela fumaça cinza de uma pequena fogueira subindo para a copa das árvores.
A atenção de Lobo estava voltada para a floresta enquanto esticava as longas pernas à frente do corpo.
— Há quanto tempo você mora na fazenda? — perguntou, afundando o calcanhar na terra.
Scarlet apoiou os cotovelos nos joelhos e olhou com impaciência para o pato.
— Desde que eu tinha sete anos.
— Por que você foi embora de Paris?
Ela olhou para Lobo, mas a atenção dele estava voltada para a água tranquila.
— Eu estava infeliz lá. Depois que minha mãe foi embora, meu pai preferia passar o tempo no bar, e não comigo. Então fui morar com grand-mère.
— E você era mais feliz lá?
Ela deu de ombros.
— Demorei para me acostumar. Deixei de ser uma criança mimada da cidade e passei a acordar ao amanhecer e cumprir tarefas. Tive meus momentos de rebeldia. Mas não era a mesma coisa... Quando morava com meu pai, eu tinha ataques de birra, quebrava coisas, inventava histórias e fazia qualquer coisa para chamar a atenção dele. Para fazer com que ele se importasse. Mas nunca fiz nada disso com grand-mère. Nós nos sentávamos no jardim nas noites quentes e conversávamos, e ela ouvia o que eu tinha a dizer. Tratava minhas opiniões como se fossem válidas, como se eu tivesse algo importante a dizer. — Seus olhos embaçaram quando repousaram sobre as cinzas abaixo das chamas. — Metade do tempo, acabávamos brigando, porque nós duas temos opiniões fortes e somos teimosas demais para admitir que estamos erradas sobre alguma coisa, mas sempre chegávamos a um ponto, todas as vezes, em que uma de nós gritava tão alto ou quase saía de cara amarrada batendo a porta, e aí de repente minha avó começava a rir. E é claro que eu começava a rir também. Ela dizia que eu era igual a ela. — Scarlet engoliu em seco e abraçou os joelhos. — Dizia que eu ia acabar tendo uma vida difícil, porque era igualzinha a ela. — Scarlet passou as palmas das mãos pelos olhos, secando as lágrimas antes que escorressem.
Lobo esperou que a respiração dela ficasse regular e perguntou:
— Sempre foram só vocês duas?
Ela assentiu, e quando teve certeza de que não haveria mais lágrimas, afastou as mãos. Fungou e esticou a mão para virar a ave, que já estava ficando no ponto.
— É, só nós duas. Grand-mère nunca se casou. Quem quer que tenha sido meu avô, já tinha sido jogado pra escanteio muito tempo antes. Ela nunca falou sobre ele.
— E você não tem irmãos? Nem... irmãos adotivos? Dependentes?
— Dependentes? — Scarlet passou a manga pelo nariz e olhou para ele. — Não, só eu. — Ela colocou um galho a mais na fogueira. — E você? Tem irmãos?
Lobo fechou os dedos sobre as pedras.
— Um. Um irmão mais novo.
Scarlet mal conseguiu ouvir acima do estalo das chamas. Mas sentiu o peso dessas quatro palavras. Um irmão mais novo. A expressão de Lobo não demonstrava afeição nem frieza. Parecia uma pessoa que seria protetora com um irmão mais novo, mas sua expressão endureceu.
— Onde ele está agora? — perguntou ela. — Ainda mora com seus pais?
Lobo se inclinou para a frente e ajeitou a asa do pato mais próxima dele.
— Não. Nenhum de nós fala com nossos pais há muito tempo.
Scarlet olhou para a ave.
— Não se dar bem com os pais. Acho que é uma coisa que temos em comum, então.
Lobo segurou a coxa do pato, e foi só quando uma fagulha voou para cima dele, que ele recolheu o braço.
— Eu amava meus pais — disse ele com um carinho que havia faltado quando falou do irmão.
— Ah — disse ela sem jeito. — Eles morreram?
Ela fez uma careta por causa do jeito rude de falar, desejando apenas uma vez saber quando segurar a língua. Mas Lobo pareceu mais resignado do que magoado quando mexeu nas pedras ao lado.
— Não sei. Virar integrante da matilha envolve regras. Uma delas é cortar laços com todas as pessoas do seu passado, inclusive a família. Principalmente a família.
Ela balançou a cabeça, confusa.
— Mas, se você tinha um lar bom, por que foi se juntar à matilha?
— Não tive escolha. — Ele coçou atrás da orelha. — Meu irmão também não teve quando foram buscá-lo alguns anos depois, mas isso nunca pareceu incomodá-lo como me incomodou... — Ele parou de falar e jogou uma pedra na água. — É complicado. E não importa mais.
Ela franziu a testa. Era inconcebível que uma pessoa pudesse escolher esse estilo de vida, deixar para trás lar e família para se juntar a uma gangue violenta. Mas, antes que pudesse insistir, a atenção de Lobo se dirigiu para os trilhos de trem e ele deu um pulo.
Scarlet virou e seu coração foi até a garganta.
O homem do vagão-restaurante saiu das sombras, silencioso como um gato. Ainda estava sorrindo, mas não era nada como aquele sorriso provocativo e paquerador que ela tinha visto.
Ela demorou para se lembrar do nome dele. Ran.
Inclinando a cabeça para trás, Ran farejou o ar com desejo.
— Ótimo — disse ele. — Parece que cheguei na hora do jantar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!