20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte

Cinder estava encostada no canto de um armário de depósito, com o coração disparado na escuridão. Faixas leves de luz entravam pelas frestas da porta, permitindo que ela identificasse os perfis e olhos brilhantes dos companheiros. Ela ouvia o movimento e os barulhos conforme o compartimento de carga ia sendo esvaziado embaixo dos pés deles.
Ela tentou pensar naquilo como um retorno ao lar. Tinha nascido ali, naquela lua, naquela cidade. Ali, seu nascimento fora comemorado. E também, ali, ela teria sido criada para ser rainha.
Mas não importava como tentava pensar na situação; ela não se sentia em casa. Estava escondida em um armário com a possibilidade bem real de ser morta no momento em que alguém a reconhecesse.
Ela olhou para os companheiros. Lobo estava ao lado, com o maxilar tenso e a testa firme de concentração. Na parede oposta, Iko estava agachada com as mãos sobre a boca, como se a necessidade de ficar quieta fosse uma tortura. No silêncio vazio, Cinder detectou um zumbido sutil vindo da androide, uma indicação das máquinas por baixo da pele sintética. O pescoço estava consertado, pois Kai tinha trazido exatamente o que Cinder precisava.
De pé ao lado de Iko, Thorne estava com um braço em volta dos ombros de Cress, sua mão livre coçando o queixo. Encostada nele, Cress parecia mais pálida do que o habitual, com a ansiedade evidente até na escuridão.
Eles eram um grupo heterogêneo com as roupas amarronzadas que Kai havia levado, inclusive um chapéu de tricô preto para cobrir o cabelo azul de Iko, e luvas pesadas para a mão ciborgue de Cinder. Colocá-las gerou muitas lembranças. Houve uma época em que ela usava luvas para tudo, quando tinha tanta vergonha de ser ciborgue que se recusava a mostrar a prótese. Ela não conseguia lembrar quando isso mudou, mas agora as luvas pareciam uma mentira.
Um brilho azul chamou sua atenção para Cress, que tinha ligado um tablet e estava examinando um diagrama do porto real de Artemísia.
— Estamos em uma posição boa — sussurrou ela, inclinando a tela para mostrar a eles.
Havia três saídas do porto, uma que levava ao palácio acima, uma que se ligava às docas públicas de espaçonaves da cidade, e uma que levava aos túneis dos trens de levitação magnética, o destino deles. Os túneis formavam um sistema de transporte subterrâneo complexo, unindo todos os setores de Luna. Cinder estudou o sistema tantas vezes que teria decorado mesmo se não tivesse feito o download do mapa para a interface cérebro-máquina.
Para ela, o sistema parecia uma teia, e a capital Artemísia era a aranha.
Cress estava certa. Os pilotos pararam a nave perto da saída que os levaria para os túneis de trens de levitação magnética. Era o melhor que podiam esperar.
Mas ela não conseguia negar que era tentador abandonar o plano, esquecer a paciência, tentar acabar com tudo ali, naquele instante. Ela estava na porta de Levana.
Estava tão perto. Seu corpo estava todo tenso, pronto para invadir o palácio e seu exército. Ela olhou para Lobo. Os punhos dele ficavam se flexionando. Havia morte em seus olhos. Ele invadiria o palácio com ela, ela sabia, na esperança de Scarlet estar lá. Mas eles nem sabiam se Scarlet ainda estava viva.
Mas era o desespero que a estimulava, não a confiança. Mesmo se passasse pela segurança de Levana e a matasse, também acabaria morta. Aí, algum outro lunar se apresentaria para tomar o trono e Luna não ficaria melhor do que estava antes.
Ela enterrou a tentação no fundo do estômago. A questão ali não era assassinar Levana. Era dar voz aos cidadãos de Luna e garantir que essa voz fosse ouvida.
Ela tentou se distrair repassando o plano em pensamento. Essa era a parte mais perigosa, mas ela torcia para que Levana e sua equipe de segurança estivessem tão ocupadas com os convidados terráqueos chegando que nem reparariam em um grupo de trabalhadores saindo pelo porto real. O objetivo deles era chegar ao Setor MR-9, onde esperavam encontrar os pais de Lobo e receber abrigo temporário, no qual poderiam começar a fase seguinte do plano: informar ao povo de Luna que a verdadeira rainha tinha voltado.
Se eles chegassem lá sem serem detectados, Cinder sabia que teriam chance.
O barulho de passos a assustou. Estava alto demais, como se alguém estivesse no mesmo nível que eles, não abaixo, no compartimento de carga. Ela trocou expressões desconfiadas com os companheiros. Uma porta distante foi fechada, e ela ouviu alguém gritando ordens. Mais passos foram ouvidos em seguida.
— Sou só eu, ou parece que alguém está revistando a nave? — sussurrou Thorne.
As palavras dele espelharam os pensamentos dela. A compreensão logo virou horror.
— Ela sabe que estamos aqui. Estão nos procurando.
Ela olhou para os companheiros, com expressões que iam de pavor a ansiedade, e todos eles, Cinder percebeu com um susto, encaravam-na. Esperando instruções.
Fora do armário apertado, as vozes ficaram mais altas. Alguma coisa caiu no chão.
Cinder apertou os punhos com luvas.
— Lobo, Thorne, assim que um taumaturgo vir um de vocês, vai tentar controlá-los. — Ela lambeu os lábios. — Tenho permissão de assumir o controle de vocês primeiro? Só dos corpos, não das mentes.
— Eu estava esperando você admitir que queria meu corpo — disse Thorne. Ele colocou a mão na arma da cintura. — Fique à vontade.
Lobo pareceu menos animado, mas deu um aceno rápido.
Cinder projetou sua vontade em Thorne com a mesma facilidade com que cortava um pedaço de tofu. A energia de Lobo era mais caótica, mas ela passou tanto tempo treinando com ele a bordo da Rampion que também notou pouca resistência. Cinder sentiu os membros deles como se fossem uma extensão dos seus. Embora soubesse que estava fazendo aquilo para a própria proteção deles, para impedir que fossem transformados em armas do inimigo, ela não conseguiu deixar de sentir que manipulá-los era trair a confiança deles. Era um equilíbrio injusto de poder; a segurança deles era responsabilidade dela.
Ela pensou em Levana, forçando o guarda a receber a bala por ela no baile real, e se perguntou se algum dia tomaria uma decisão semelhante com um dos amigos.
Ela esperava nunca ter que fazer isso.
Uma voz ecoou em um corredor próximo.
— Nada na sala de máquinas. Vocês, separem-se. Revistem esses corredores e relatem o que encontrarem.
Eles estavam perto, e, se houvesse um taumaturgo, ela sabia que não demoraria até ele ou ela estar perto o bastante para detectar a bioeletricidade vinda do depósito. Ela imaginou a disposição da nave e tentou elaborar um plano, mas havia pouca esperança de fugir sem anunciar sua presença.
Eles teriam que lutar para sair da nave. Teriam que lutar até os trens de levitação magnética.
— Cinder — sussurrou Thorne. O corpo dele estava imóvel como uma estátua, esperando a ordem. — Me mande lá para fora.
Cress virou a cabeça para ele, mas Thorne não devolveu o olhar.
Cinder franziu a testa.
— O quê?
— Me mande como isca, pela rampa principal e para longe das portas até os trens. Vou afastá-los por tempo suficiente para vocês saírem pelo compartimento de carga.
— Thorne…
— Ande. — Os olhos dele brilharam. Ele continuou sem olhar para Cress. — Nós chegamos até Luna. Você não precisa de piloto aqui, nem de capitão.
A pulsação dela acelerou.
— Você não precisa…
Lá fora, alguém gritou:
— A sala da imprensa está vazia!
— Pare de desperdiçar tempo — disse Thorne entredentes. — Vou levá-los para longe e dou a volta para encontrar vocês.
Ela sabia que ele estava sendo confiante demais, mas Cinder se viu assentindo na mesma hora em que Cress começou a balançar negativamente a cabeça.
— Meu controle sobre você vai ser intermitente dentro da nave, mas, se eu conseguir encontrá-lo, vou tomá-lo de volta assim que estivermos todos lá fora. — Se eles não tomarem você primeiro, pensou ela, sem querer falar em voz alta. Controlar um terráqueo como Thorne era fácil, mas tirar o controle de um taumaturgo era significativamente mais difícil.
— Entendi. — O maxilar de Thorne se contraiu.
— Tome cuidado — disse Cress, mais um gritinho do que um sussurro, e a atenção de Thorne se voltou para ela por um brevíssimo momento…
Mas Cinder abriu a porta com um chute e jogou Thorne no corredor. Ele bateu na parede, mas se empurrou e cambaleou para a esquerda. Os braços e pernas se moveram conforme ele corria para o convés principal. Não demorou para que estivesse fora do alcance dela. Havia aço demais os separando. Cinder perdeu o controle, e Thorne estava por conta própria.
Segundos depois que seu domínio sobre ele se rompeu, ouviu-se um estrondo. Thorne tinha quebrado alguma coisa.
Cinder torcia para não ser algum artefato de valor inestimável da Comunidade.
Na câmara ao lado, um estampido de pés correu atrás dele. Quando Cinder projetou os pensamentos, não sentiu nenhuma outra bioeletricidade além da de Lobo. Aquele lado da nave estava vazio.
Ela colocou a cabeça no corredor. Não havia sinal de ninguém a bordo. Do outro lado da nave, ouviu gritos.
Cinder correu na direção oposta à qual enviou Thorne. Os outros correram atrás dela, descendo dois níveis em uma escada estreita em espiral, por uma cozinha industrial que fazia a da Rampion parecer brinquedo de criança, e por um corredor utilitário separando as docas das naves de passeio. Eles pararam acima da escotilha que os levaria ao compartimento de carga. Cinder ainda ouvia movimento de pés e barulho de máquinas abaixo, mas não tinha como saber se eram os trabalhadores terráqueos descarregando a carga ou os lunares a inspecionando.
Independentemente de quem fosse, não havia tempo para esperar que partissem. Cinder carregou uma bala no dedo. Eles tinham encontrado munição suficiente a bordo da Rampion, mas ela não conseguia deixar de desejar que Kai tivesse arranjado mais dardos tranquilizantes para ela na Terra.
Tarde demais. Não havia tempo para pensar.
Lobo abriu a escotilha e pulou primeiro. Cinder mais uma vez tomou controle do corpo dele, para o caso de haver lunares lá embaixo, mas não tinha nada a ver com o rosnado e com o brilho dos dentes.
Ela foi atrás dele. O chão estalou quando Iko desceu em seguida, com os baques hesitantes dos passos de Cress na escada logo depois.
Três pessoas que estavam inspecionando as caixas se viraram para olhar para eles. Cinder registrou os uniformes de um taumaturgo de casaco preto e dois guardas lunares na mesma hora em que uma arma disparou.
A perna esquerda deu um pulo embaixo dela, com a onda de choque vibrando pelo quadril até a espinha. A bala acertou a coxa de metal.
Cress gritou e ficou imóvel na escada, e só soltou os degraus quando Iko a segurou e puxou. Cinder mandou as pernas de Lobo se mexerem. Eles correram para trás de uma caixa carregada de mercadorias da Comunidade na hora em que outra bala quicou na parede acima. Uma terceira acertou a caixa e lascou a madeira do outro lado.
Os tiros pararam.
Cinder pressionou as costas na caixa e se reorientou. Ela projetou os pensamentos, encontrou a bioeletricidade dos lunares estalando no aposento, mas é claro que os guardas já estavam sob o controle do taumaturgo.
A rampa que os permitiria escapar da nave ficava do lado oposto do compartimento de carga.
Um silêncio sinistro se espalhou, deixando Cinder assustada, tentando ouvir passos indo na direção deles. Ela esperava que os lunares fossem tentar cercá-los. As armas não ficariam silenciosas por muito tempo.
Os membros de Lobo ficaram imóveis pela primeira vez, e ocorreu a Cinder que ela o mantinha tão imóvel. Só a expressão dele estava viva. Feroz, enlouquecida. Ele era a melhor arma, mas, sob o controle dela, ele seria desajeitado e estabanado, não tão brutal quanto poderia ser sozinho. O treinamento deles a bordo da Rampion se concentrou em deter um inimigo. Desarmá-lo. Afastar uma ameaça.
Ela desejou que eles tivessem passado mais tempo treinando como transformar pessoas em armas. Era uma habilidade na qual Levana e seus seguidores eram excelentes.
Lobo encarou os olhos dela, e um pensamento lhe ocorreu. Ela estava controlando o corpo dele, mas não a mente e as emoções. E se mudasse de tática? Ainda poderia protegê-lo do poder do taumaturgo enquanto permitia que ele fizesse o que fazia melhor.
— Pegue o taumaturgo — sussurrou ela, e soltou o corpo de Lobo, agarrando seus pensamentos. Cinder ofereceu a ele uma visão da primeira coisa terrível que lhe veio à mente: a luta a bordo da Rampion entre eles e Sybil Mira. O dia em que Scarlet foi levada.
Lobo pulou por cima da caixa. Tiros explodiram, balas ricochetearam, paredes tremeram.
Iko rugiu e passou voando por ela, derrubando um guarda que apareceu no canto da visão de Cinder. A arma dele disparou; a bala acertou o teto. Iko deu um soco nele, e a cabeça bateu no chão de metal. O corpo dele parou de se sacudir, inconsciente.
Cinder levantou-se num pulo, segurando a mão ciborgue como uma arma, e viu o segundo guarda se esgueirando pelo outro lado. O rosto dele estava vazio, sem medo. E então, enquanto ela o observava, a expressão passou. Seus olhos se concentraram em Cinder, perplexos.
O taumaturgo tinha perdido o controle dele.
O momento era passageiro. O guarda rosnou e mirou a arma em Cinder, mas era tarde demais. Ela já tinha agarrado a bioeletricidade dele. Com um pensamento, ela o enviou para a inconsciência. Ele ficou de joelhos e caiu de cara no chão com um estrondo.
Sangue jorrou do nariz. Cinder se encolheu.
Um grito ecoou pelo compartimento.
Cinder não conseguia mais ver Lobo, e o terror tomou conta. Ao assumir o controle do guarda, ela se esquecera de proteger a mente de Lobo de…
Os gritos pararam, e logo houve um baque.
Um segundo depois, Lobo apareceu, saindo de trás de uma estante cheia de malas, rosnando e balançando o punho direito.
Com a pulsação latejando, Cinder se virou e viu Iko com o braço ao redor de Cress, muito pálida.
Eles correram para a rampa, e Cinder ficou agradecida pelo fato de o declive estar direcionado para longe da entrada do palácio. Conforme eles iam se esgueirando, ela observava os arredores, tanto com os olhos quanto com o dom lunar. Naquele espaço aberto, sentia um amontoado de gente ao longe e notou que havia terráqueos e lunares misturados.
O caminho deles até as portas dos trens de levitação magnética ao menos estava liberado. Se tomassem cuidado, poderiam ficar escondidos atrás daquela fila de naves. Ao menos até um daqueles lunares sentir a energia vibrante de Lobo e se perguntar o que um soldado modificado estava fazendo ali.
Ela balançou o braço, e eles seguiram pela lateral da rampa. Cinder aguardou o tempo de uma respiração por um sinal de que eles tinham sido notados. Como não houve nenhum, correram até a nave seguinte, e até a seguinte. Cada barulho de passos ressoava nos ouvidos dela. Cada respiração parecia uma ventania.
Um grito a assustou, e, juntos, eles se agacharam atrás do trem de pouso de uma nave elaboradamente pintada da União Africana. Cinder sustentou a mão em posição, com a bala ainda carregada no dedo.
— Ali! — gritou alguém.
Cinder espiou ao redor das pernas da espaçonave e viu uma pessoa correndo entre as naves. Thorne, indo para longe deles a toda a velocidade.
Ainda não controlado por um lunar.
Com o coração aos saltos, Cinder procurou a mente dele, torcendo para alcançá-lo antes de um dos lunares do outro lado da doca…
Sucesso.
Como com Lobo, ela enfiou uma ideia na cabeça dele.
Volte para cá.
Com um susto, Thorne tropeçou e caiu, rolou duas vezes e se levantou. Cinder se encolheu de culpa, mas ficou aliviada quando ele mudou de direção. Thorne contornou duas naves de passeio e desviou de uma saraivada de balas vindas de um grupo de guardas que surgiu da rampa principal da nave de Kai.
— Eu o peguei — disse Cinder. — Vamos.
Mantendo parte do foco em Thorne e o resto em seus movimentos cuidadosos, Cinder ficou perto de Lobo enquanto eles se protegiam atrás de uma nave e saíam de trás dela, ziguezagueando pela plataforma ampla que batia na altura dos ombros por todo o perímetro da doca. A saída surgiu à frente. Uma porta dupla enorme, entalhada com misteriosas runas lunares. Uma placa acima delas indicava o caminho até a plataforma dos trens de levitação magnética.
Eles chegaram na última nave. Ficaram sem proteção. Quando estivessem na plataforma, o terreno seria elevado e aberto.
Cinder olhou para trás. Thorne estava deitado de bruços embaixo da cauda de uma nave individual. Ele sinalizou para eles irem e se apressarem.
— Iko, você e Cress vão primeiro — disse Cinder. Se elas fossem vistas, ao menos não poderiam ser manipuladas. — Vamos dar cobertura a vocês.
Iko se colocou entre Cress e a porta do palácio, e elas correram pelo pequeno lanço de escadas. Cinder virou a arma embutida de um lado para outro, procurando ameaças, mas os guardas estavam concentrados demais em encontrar Thorne para reparar neles.
Um sibilar atraiu a atenção dela de volta à plataforma. Iko e Cress estavam na porta, que permanecia fechada.
O estômago de Cinder despencou.
A porta deveria se abrir automaticamente.
Mas… não. Levana os aguardava. É claro que tomou precauções para garantir que não escapassem.
O rosto dela se contorceu e o desespero a soterrou. Ela lutou para pensar em outra saída. Lobo seria forte o bastante para abrir a porta? Eles conseguiriam abri-la com disparos?
Enquanto revirava o cérebro, uma nova expressão surgiu em Cress, substituindo o pavor de olhos arregalados por determinação. Cinder seguiu o olhar dela até uma cabine de controle circular que ficava entre a entrada que levava aos trens e a do palácio. Antes que Cinder adivinhasse o plano, Cress ficou de quatro e começou a engatinhar junto à parede.
Uma arma disparou. Cress se encolheu, mas seguiu em frente.
Logo em seguida, houve outro disparo, e outro, cada um fazendo Cinder se abaixar mais. Com o terceiro tiro, houve ruído de vidro se estilhaçando.
Cinder se virou com o coração na garganta e procurou Thorne. Ele não tinha se movido, mas estava segurando uma arma mirada para trás. Tinha atirado em uma janela da nave de Kai.
Ele estava criando outra distração, tentando atrair mais atenção para si, a fim de afastá-los de Cress.
Com a garganta seca como areia do deserto, Cinder olhou para trás e viu que Cress tinha chegado à cabine. Ela estava segurando o tablet, com os dedos da outra mão dançando acima de uma invisitela. Iko ainda estava ao lado da porta, agachada, pronta para pular e correr à menor provocação.
Ao lado de Cinder, Lobo estava concentrado em Thorne, pronto para correr para a luta assim que uma fosse iniciada.
Passos soaram na rampa da nave de Kai, e mais guardas lunares ocuparam os corredores. Mas não eram os guardas que preocupavam Cinder. Eles não seriam habilidosos o bastante para detectar Thorne no meio deles. Eram os taumaturgos que a preocupavam, mas ela não conseguia encontrá-los.
Portas assobiaram. Lobo segurou o cotovelo de Cinder antes que ela conseguisse se virar e a puxou para a plataforma.
Cress tinha conseguido abrir a porta.
Iko já estava do outro lado, com as costas em uma parede de corredor, acenando para eles. Tinha sacado a própria arma pela primeira vez e estava procurando um alvo.
— Ali!
Lobo e Cinder subiram a escada. Uma bala ricocheteou na parede, e ela se abaixou e cambaleou pela porta. Eles bateram contra a parede ao lado de Iko.
Cinder olhou para trás, ofegante. Os perseguidores tinham desistido de tentar pegá-los desprevenidos e estavam correndo na direção deles a toda a velocidade. Mas Thorne tinha a vantagem e também abriu mão do esconderijo em nome da velocidade. Cinder alimentou a mente dele com imagens: as pernas correndo tão rápido quanto as de uma gazela, os pés mal tocando o chão. Ela temia que transformá-lo em marionete fosse só desacelerá-lo, mas o encorajamento mental pareceu dar certo. A velocidade dele aumentou. Ele subiu a escada em dois passos.
Por cima do ombro dele, Cinder finalmente viu a taumaturga, uma mulher de cabelo preto curto e casaco vermelho.
Trincando os dentes, ela levantou o braço e disparou. Não sabia onde a tinha acertado, mas a mulher gritou e caiu.
Thorne se jogou pela porta na hora em que os guardas chegaram à base da escada da plataforma. A porta se fechou atrás dele.
Thorne desabou encostado na parede, segurando o peito. As bochechas estavam vermelhas, mas os olhos vibravam de adrenalina enquanto ele olhava para o grupo. Para Cinder, para Iko, para Lobo.
O sorriso crescente sumiu.
— Cress?
Cinder, ainda recuperando o fôlego, balançou a cabeça.
O maxilar dele ficou flácido de pavor. Ele se empurrou da parede e correu para a porta, mas Lobo pulou na sua frente e segurou os braços de Thorne nas laterais do corpo.
— Me solte — rosnou Thorne.
— Não podemos voltar — disse Lobo. — É suicídio.
Para pontuar as palavras dele, uma saraivada de balas acertou a porta, com os estalos metálicos ecoando pelo corredor no qual eles estavam presos.
— Nós não vamos abandoná-la.
— Thorne… — começou Cinder.
— Não! — Thorne soltou um braço e deu um golpe, mas Lobo se abaixou. Em meio momento, Lobo já tinha se virado e prendido Thorne contra a parede, a mão enorme no pescoço dele.
— Ela nos deu essa chance — declarou Lobo. — Não a desperdice.
O maxilar de Thorne se contraiu. Seu corpo estava tensionado como um cabo esticado, pronto para lutar, embora ele não fosse páreo para Lobo. O pânico era visível em cada linha de seu corpo, mas muito lentamente as respirações erráticas começaram a se regularizar.
— Nós temos que ir — disse Cinder, quase com medo de sugerir.
O foco de Thorne se dirigiu para a porta fechada.
— Eu poderia ficar? — sugeriu Iko num tom inseguro. — Eu poderia voltar para pegá-la?
— Não — respondeu Cinder. — Nós ficamos juntos.
Thorne se encolheu, e Cinder percebeu a crueldade das palavras tarde demais. O grupo já estava dividido.
Ela se aproximou para colocar a mão no braço de Thorne, mas pensou melhor.
— Ainda estaríamos lá se não fosse por ela. Nós todos teríamos sido capturados, mas, graças a Cress, não fomos. Ela nos salvou. Agora, temos que ir.
Ele apertou os olhos. Seus ombros murcharam.
Seu corpo todo estava tremendo, mas ele assentiu.
Lobo o soltou, e eles correram.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!