13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte

CRESS ACORDOU EM MEIO A UMA VARIEDADE VERTIGINOSA DE SENSAÇÕES. Suas pernas latejavam e as solas dos pés doíam. O peso da areia em que eles haviam se enterrado para se manterem aquecidos a empurrava para baixo do pescoço até os dedos dos pés. O couro cabeludo ainda formigava com a estranha e nova leveza. A pele estava seca e coçava, os lábios, rachados.
Thorne se mexeu ao lado dela e se moveu devagar para não deslocar o quadrado de tecido do paraquedas com o qual tinham se coberto para impedir que a areia fosse soprada em seus rostos, embora os grãos nas orelhas e no nariz de Cress provassem que a medida não fora de todo eficiente. Cada centímetro do corpo dela estava coberto de areia. Havia areia debaixo das unhas. Areia nos cantos dos lábios. Areia no cabelo e nas dobras das orelhas. Tentar esfregar os olhos para despertar se mostrou uma operação difícil e dolorosa.
— Fique parada — disse Thorne, colocando a palma da mão no braço dela. — A lona pode ter juntado um pouco de orvalho. Não podemos desperdiçar.
— Orvalho?
— Água que sobe do chão de manhã.
Ela sabia o que era orvalho, mas parecia bobagem esperar que existisse nessa região.
Ainda assim, o ar parecia quase úmido ao redor dela, e ela não discutiu quando Thorne a instruiu para encontrar os cantos da lona e erguê-los, reunindo qualquer umidade nela no meio.
O que eles encontraram quando saíram lá de baixo era um pouco menos do que um único gole de água, enlameado pela areia que caíra sobre o tecido à noite. Ela descreveu o sucesso frustrante para Thorne e viu a decepção gerar rugas em sua testa, embora elas logo sumissem com um movimento de ombros.
— Pelo menos ainda temos bastante água do satélite.
Sendo que bastante eram as duas últimas garrafas cheias de água.
Cress olhou para o horizonte iluminado. Depois de andar quase a noite toda, duvidava que tivessem dormido por mais de duas horas, e tinha a impressão de que seus pés iriam cair no próximo passo que desse. Ficou desanimada quando olhou para as montanhas e percebeu que não pareciam nem um pouco mais perto então do que na noite anterior.
— E seus olhos? — perguntou.
— Bem, me disseram que são sonhadores, mas vou deixar você decidir sozinha.
Ela ficou vermelha e se virou para ele. Thorne estava com os braços cruzados sobre o peito e um sorriso malicioso, mas havia algo de tensão por baixo. Ela percebeu que a leveza no tom dele também soou falsa, encobrindo a frustração que estava fervendo por baixo da atitude cavalheiresca.
— Não posso discordar — murmurou ela.
Apesar de ela querer imediatamente rastejar para baixo do paraquedas e se esconder de constrangimento, valeu a pena ver o sorriso de Thorne ficar um pouco menos forçado.
Eles levantaram acampamento, tomaram um pouco de água e reamarraram as toalhas nos pés de Cress enquanto o provocante orvalho matinal fervia e desaparecia ao redor deles. A temperatura já estava subindo. Antes de fechar a bolsa, Thorne sacudiu os lençóis e fez Cress se enrolar em um deles como se fosse uma túnica, depois ajeitou outro em si, formando uma capa com capuz que ia até as sobrancelhas.
— Sua cabeça está coberta? — perguntou ele, passando o pé no chão até encontrar a barra de metal que estava usando como bengala. Cress tentou imitar da melhor maneira que conseguiu a forma como ele tinha se coberto e confirmou que sim. — Que bom. Sua pele vai fritar como bacon. Isso vai ajudar por um tempo, pelo menos.
Ela mexeu no lençol desajeitado enquanto tentava guiar Thorne pela ladeira na qual tinham acampado. Ainda estava exausta e meio entorpecida de tanto andar. Todos os membros latejavam.
Não tinham atravessado nem quatro dunas quando Cress tropeçou e caiu de joelhos.
Thorne afundou os calcanhares no chão para ganhar firmeza.
— Cress?
— Estou bem — disse ela, levantando-se e tirando areia das canelas. — Só um pouco cansada. Não estou acostumada a fazer tanto exercício.
As mãos de Thorne estavam paradas no ar, como se ele pretendesse ajudá-la a se levantar, mas reparou tarde demais. Lentamente, as mãos voltaram para os lados do corpo.
— Você consegue seguir em frente?
— Consigo. Só preciso entrar no ritmo de novo.
Ela torcia para que isso fosse verdade e que suas pernas não fossem se comportar como cabos frouxos o dia todo.
— Vamos andar até ficar quente demais, depois descansamos. Não queremos nos exaurir demais, principalmente debaixo do sol forte.
Cress começou a descer a duna de novo, contando os passos para passar o tempo.
Dez passos.
Vinte e cinco.
Cinquenta.
A areia ficou quente e começou a queimar as solas dos pés dela pelas toalhas. O sol subiu.
A imaginação de Cress circulava por suas fantasias favoritas, qualquer coisa para mantê-la distraída. Ela era uma náufraga pirata da segunda era. Era uma atleta treinando para uma jornada de cross-country. Era um androide que não conhecia a exaustão, capaz de andar e andar e andar...
Mas os sonhos foram ficando cada vez mais fugidios, a realidade afastando-os com a dor e o desconforto e a sede.
Ela começou a torcer para Thorne permitir que parassem e relaxassem, mas ele não o fez. Seguiram em frente. Thorne estava certo quanto aos lençóis, que impediram que o sol implacável a queimasse, e ela ficou grata pela umidade do próprio suor, que a mantinha mais fria. Cress recomeçou a contar enquanto o suor escorria pela parte de trás dos joelhos, e, apesar de se sentir péssima por pensar assim, parte dela estava feliz por Thorne não poder vê-la nesse estado.
Não que ele fosse imune às provações do deserto. Seu rosto estava vermelho, o cabelo, desgrenhado devido ao contato com o capuz improvisado, e poeira escorria pelas bochechas onde havia a sombra de barba crescendo.
Quando ficou mais quente, Thorne encorajou Cress a beber o resto da água que eles abriram de manhã, que ela bebeu com vontade e só depois percebeu que Thorne não tomou nada. Ela continuava com sede, mas o dia ainda demoraria para terminar e eles só tinham mais uma garrafa. Apesar de Thorne ter dito que não deviam racionar, ela não conseguiu pedir mais considerando que ele não estava bebendo.
Ela começou a cantar para si mesma a fim de passar o tempo, murmurando todas as músicas bonitas que se lembrava da coleção de músicas do satélite. Deixou que as melodias familiares a distraíssem. Caminhar ficou mais fácil por um tempo.
— Essa é bonita.
Ela fez uma pausa e demorou um momento para se dar conta de que Thorne estava falando sobre a música que ela estava cantando, e demorou mais um momento para lembrar qual era.
— Obrigada — disse ela, um pouco insegura. Nunca tinha cantado na frente de ninguém e nunca tinha sido elogiada por isso. — É uma canção de ninar popular em Luna. Eu achava que tinha sido batizada em homenagem a ela, isso antes de perceber o quanto “Crescente” é um nome comum. — Ela cantou o primeiro verso de novo: — Doce lua crescente, bem alta no céu. Sua música é tão doce depois que o sol se põe...
Quando ela olhou para Thorne, ele estava com um leve sorriso nos lábios.
— Sua mãe cantava muitas cantigas para você?
— Ah, não. Dá para perceber se você é cascudo assim que você nasce, então eu só tinha alguns dias quando meus pais me entregaram para ser morta. Não me lembro deles.
O sorriso de Thorne desapareceu, e, depois de um longo silêncio, ele disse:
— Você não devia estar cantando, agora que estou pensando. Vai perder umidade pela boca.
— Ah.
Cress apertou os lábios, colocou a ponta dos dedos no braço de Thorne, o sinal que passou a indicar que estavam começando a descer uma ladeira, e seguiram em frente. A pele dela estava em chamas, apesar do abrigo da túnica improvisada, mas ela foi movida pela ideia de ser quase meio-dia. E apesar de o meio-dia trazer a maior temperatura até o momento, Thorne também prometera um descanso da caminhada.
— Muito bem — disse Thorne enfim, como se as palavras estivessem sendo arrancadas da garganta. — Já chega. Vamos descansar até a temperatura baixar de novo.
Cress gemeu de alívio. Teria continuado a andar o dia inteiro se ele pedisse, mas estava muito feliz por ele não ter feito esse pedido.
— Você está vendo alguma sombra? Ou algum lugar que pareça ficar protegido quando o sol começar a descer?
Cress apertou os olhos e analisou as dunas. Apesar de haver um pouco de sombra perto de uma duna ou outra, ao meio-dia isso era praticamente inexistente. Ainda assim, eles estavam subindo uma duna grande que logo faria alguma sombra, e era o melhor que conseguiriam.
— Por aqui — disse ela, animada pela promessa de descanso.
Mas, quando chegaram ao alto de mais uma duna, uma coisa chamou a atenção dela ao longe. Ela sufocou um gritinho e agarrou o braço de Thorne.
— O que foi?
Ela olhou boquiaberta para a visão gloriosa, lutando para encontrar palavras para descrever. Azul e verde, um contraste intenso contra a areia laranja do deserto.
— Água. E... e árvores!
— Um oásis?
— Sim! Deve ser!
Ela foi tomada pela sensação de alívio. Começou a tremer com a promessa de sombra, água, descanso.
— Venha... Não está longe — disse ela, andando pela areia com energia renovada.
— Cress. Cress, espere! Guarde suas energias.
— Mas estamos quase lá.
— Cress!
Ela nem o escutou direito. Já imaginava a água fresca escorrendo pela garganta. A brisa embaixo da sombra de uma palmeira. Talvez houvesse comida, algum alimento tropical terrestre estranho que ela nunca experimentara e que seria suculento e crocante e refrescante...
Mas o que ela mais pensava era em desabar em uma área coberta de sombra, fresca e protegida do sol, e dormir até o anoitecer trazer de novo temperaturas mais baixas e estrelas sem fim.
Thorne seguiu atrás dela depois de ter desistido de fazê-la parar, e em pouco tempo ela percebeu que estava sendo cruel ao fazê-lo ir tão rápido. Diminuiu o ritmo, mas manteve os olhos no lago que cintilava na base de uma duna.
— Cress, você tem certeza? — perguntou ele quando recuperou o fôlego.
— É claro que tenho certeza. Está bem ali.
— Mas... Cress.
Ela diminuiu o passo.
— Qual é o problema? Você está ferido?
Ele balançou a cabeça.
— Não, só... Tudo bem. Tudo bem, eu consigo acompanhar. Vamos para esse oásis.
Ela sorriu e segurou a mão dele, levando-o pelas areias ondulantes do deserto. Suas fantasias assumiram o controle e eclipsaram o cansaço. As toalhas roçando nos pés tinham deixado as solas quase em carne viva, e os tornozelos estavam queimados na área em que o lençol não os cobria, e seu cérebro girava de sede, mas eles estavam perto.
Muito perto.
Ainda assim, enquanto ela deslizava pela areia fina, parecia que o oásis não se aproximava nunca. Sempre permanecia no horizonte, como se as árvores trêmulas estivessem se afastando a cada passo que dava.
Ela seguiu em frente, desesperada. As distâncias enganavam, mas logo chegariam. Só precisavam continuar andando. Um passo de cada vez, um pé na frente do outro.
— Cress?
— Capitão — ofegou ela —, não... não está longe.
— Cress, estamos chegando perto?
Ela tropeçou e diminuiu o passo drasticamente até parar, ofegando para recuperar o fôlego.
— Capitão?
— Você vê o oásis se aproximar? As árvores parecem maiores do que eram antes?
Ela apertou os olhos para a água, para as árvores, a visão mais linda do mundo, e passou a manga pelo rosto. Estava com tanto calor, mas não ficou suor nenhum no tecido.
A verdade era tão dolorosa que ela quase não teve forças para dizer.
— N-Não. Mas isso é... como pode...
Thorne deu um suspiro, mas não de decepção, apenas de resignação.
— É uma miragem, Cress. É a luz pregando peça nos seus olhos.
— Mas... estou vendo. Tem até ilhas no lago, e árvores...
— Eu sei. Miragens sempre parecem reais, mas você só está vendo o que quer ver. É um truque, Cress. Não está lá.
Ela estava hipnotizada pela forma como a água se quebrava em pequenas ondas, como as árvores tremiam como se uma brisa estivesse provocando os galhos. Parecia tão real, tão tangível. Quase sentia o cheiro, o gosto do vento frio soprando na direção dela.
Cress quase não conseguiu ficar de pé, apenas o medo de ser queimada pela areia quente lhe dando forças.
— Está tudo bem. Muitas pessoas veem miragens no deserto.
— Mas... eu não sabia. Devia saber. Já ouvi histórias, mas não... não achei que elas pudessem parecer tão reais.
Os dedos de Thorne tocaram no lençol e encontraram a mão dela.
— Você não vai chorar, vai? — disse ele, com um tom ao mesmo tempo gentil e severo.
Chorar não era permitido, não com água sendo um bem tão precioso.
— Não — sussurrou ela, e estava falando sério. Não que não estivesse com vontade de chorar, mas porque não sabia se o corpo era capaz de produzir lágrimas suficientes.
— Que bom. Venha. Encontre uma duna para nos sentarmos por um tempo.
Cress afastou a atenção da ilusão amarga e fugidia. Depois de observar as dunas mais próximas, ela o levou na direção de uma encosta virada para o sul. Assim que passara do topo da duna, foi como se um fio fino que a sustentava tivesse se rompido. Cress soltou um gemido de dor e desabou na areia.
Thorne pegou o cobertor e o quadrado de paraquedas na bolsa e esticou para eles se sentarem, para que não tocassem na areia quente, depois puxou as pontas sobre suas cabeças como uma tenda que bloqueava a intensidade do sol.
Ele passou o braço pelos ombros de Cress e a puxou contra si. Ela se sentia tão burra, tão traída; pelo deserto, pelo sol, por seus próprios olhos. E a verdade estava desabando sobre ela.
Não havia água.
Não havia árvores.
Nada além de areia infinita, sol infinito, caminhadas infinitas.
E eles talvez nunca saíssem dessa. Não podiam seguir para sempre. Ela duvidava que aguentaria mais um dia assim, e quem sabia quanto tempo levariam para chegar ao fim do deserto. Não com todas as dunas de areia sendo multiplicadas em mais três, com cada passo na direção das montanhas parecendo mandá-las mais para longe, e eles nem sabiam se as montanhas ofereceriam alguma proteção quando chegassem lá.
— Não vamos morrer aqui — disse Thorne, com a voz suave e tranquilizadora, como se soubesse exatamente para onde os pensamentos a estavam levando. — Já passei por coisa muito pior do que isso e sobrevivi muito bem.
— É mesmo?
Ele abriu a boca, mas fez uma pausa.
— Bem... fiquei na prisão muito tempo, e não foi nenhum piquenique.
Ela ajeitou as toalhas nos pés. As cordas de cabelo tinham começado a machucar a pele.
— O serviço militar também não foi muito divertido, pensando bem.
— Você só ficou lá cinco meses — murmurou ela —, e a maior parte do tempo foi em treinamento de voo.
Thorne inclinou a cabeça.
— Como você sabia disso?
— Pesquisa.
Ela não contou o quanto havia pesquisado o passado dele, e ele não perguntou.
— Bem... Talvez isso seja o pior que já passei. Mas não muda o fato de que vamos sobreviver. Vamos encontrar civilização, vamos nos comunicar com a Rampion e eles virão nos buscar. Aí vamos destronar Levana e receber um monte de dinheiro de recompensa, e a Comunidade vai perdoar meus crimes e vamos todos viver felizes para sempre.
Cress se aconchegou a Thorne enquanto tentava acreditar nele.
— Mas, primeiro, temos que sair deste deserto. — Ele massageou o ombro dela. Era o tipo de toque que a teria enchido de vertigem e esperança se ela não estivesse cansada demais para sentir qualquer coisa. — Você precisa acreditar em mim, Cress. Vou tirar a gente dessa.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!