3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte

A ESPAÇONAVE LUNAR NÃO ERA MUITO DIFERENTE DAS NAVES terráqueas, exceto pelo fato de que brilhava como se tivesse diamantes incrustados, e uma série de runas douradas circulava seu casco em uma linha ininterrupta. A nave estava clara demais sob o sol da tarde, e Kai teve que semicerrar os olhos para olhar. Ele não sabia se as runas eram mágicas ou se a intenção deles era que parecessem assim. Não sabia se a nave era feita de um material decorativo e brilhante, ou se apenas a haviam pintado dessa forma. Ele só sabia que doía olhar para ela.
A nave era maior do que o transporte pessoal em que a taumaturga-chefe da rainha, Sybil, viera à Terra, e ainda assim relativamente pequena para toda a importância que trazia consigo: menor do que a maioria das naves de passageiros e menor do que qualquer transporte de carga que Kai já vira. Era uma nave particular, feita apenas para a rainha lunar e seu séquito.
A nave pousou sem nenhum solavanco. Vapor se levantou do concreto em ondas borbulhantes. A fina seda da camisa de Kai colou em suas costas e um fio de suor começou a escorrer pelo seu pescoço — à noite, o comitê de boas-vindas estaria protegido pelas paredes de pedra, mas agora estava sob o ataque do sol de agosto.
Eles aguardaram.
Torin, ao lado de Kai, não se inquietou. Seu rosto estava impassível, expectante. Sua tranquilidade só serviu para inquietar Kai ainda mais.
Do outro lado de Kai, Sybil Mira estava vestida com seu casaco branco oficial com runas bordadas, similares àquelas que se encontravam na nave. O material parecia leve, ainda que a cobrisse do alto do pescoço até as juntas de cada mão, e as caudas alargadas ficassem penduradas para além dos joelhos. Ela devia estar morrendo de calor, mas parecia completamente serena.
Poucos passos atrás dela estava o guarda louro, com as mãos unidas atrás das costas. Dois dos guardas reais de Kai postavam-se de cada lado da plataforma. Isso era tudo. Levana insistira para que ninguém mais a recebesse na plataforma.
Kai enterrou as unhas nas palmas das mãos em uma tentativa de manter o desdém longe do rosto e esperou pacientemente enquanto o calor grudava sua franja à testa.
Finalmente, quando a rainha pareceu ter se cansado de fazê-los sofrer, a rampa da nave desceu, revelando escadas prateadas.
Dois homens desembarcaram primeiro — ambos altos e musculosos. Um era pálido, com cabelo cor de laranja selvagemente desgrenhado, e vestia a mesma armadura de guerra e armamentos do guarda de Sybil. O outro era escuro como o céu da noite, sem nem um fio de cabelo sequer, e usava um casaco como o de Sybil, com mangas boca de sino e bordadas. O dele, entretanto, era vermelho, anunciando que estava abaixo de Sybil, um taumaturgo suplente. Kai ficou feliz em saber o suficiente sobre a corte lunar para reconhecer isso, pelo menos.
Ele observou enquanto os dois homens mapeavam a plataforma, as paredes em volta e o grupo reunido com expressões estoicas antes de se postarem cada um de um lado da rampa.
Sybil esgueirou-se para a frente. Kai tragou o ar sufocante.
A rainha Levana apareceu no topo da escada. Ainda usava um véu muito longo e muito claro sob o sol implacável. Seu vestido branco roçava os quadris enquanto ela descia os degraus e aceitava a mão de Sybil.
Sybil se curvou sobre um joelho e tocou as articulações do pé da rainha com a testa.
— Nossa separação foi insuportável. Estou feliz em mais uma vez poder servi-la, minha rainha. — Em seguida ela ficou de pé e, com um único movimento singelo, ergueu o véu de Levana, ajustando-o para trás.
O ar quente entrou na garganta de Kai, sufocando-o. A rainha parou somente o tempo necessário para parecer que estava deixando seus olhos se acostumarem à claridade da luz do sol na Terra — mas Kai suspeitava de que na verdade ela queria que ele a visse.
Era de fato linda, como se alguém tivesse medido com precisão científica a perfeição e usado as informações para moldar um único exemplo ideal da espécie. Seu rosto tinha uma leve forma de coração, com maçãs altas e um pouco coradas. Cabelos castanho-avermelhados caíam em cachos sedosos até a cintura, e sua pele imaculada de mármore cintilava como madrepérola ao sol brilhante. Seus lábios eram extremamente vermelhos, o que dava a impressão de que a rainha tinha bebido uma caneca de sangue.
Um arrepio sacudiu Kai de dentro para fora. Ela era sobrenatural.
Kai arriscou um olhar para Torin e viu que ele sustentava o olhar de Levana sem nenhuma emoção aparente. Ver a determinação de seu conselheiro fez com que a mesma perseverança percorresse Kai. Lembrando-se de que era apenas uma ilusão, forçou-se a olhar para a rainha de novo.
Os olhos de ônix dela brilharam ao pousarem sobre ele.
— Vossa Majestade — disse Kai, levando o pulso ao coração —, é uma grande honra recebê-la em meu país e em meu planeta.
Os lábios dela se torceram. Uma doçura iluminou o seu rosto — inocente como o de uma criança. Isso o inquietou. Ela não fez nenhuma reverência, nem sequer assentiu. Em vez disso, ergueu a mão.
Kai hesitou, encarando a pele pálida, translúcida, perguntando-se se apenas tocá-la era o bastante para destruir a mente de um homem.
Recompondo-se, pegou a mão dela e deu um rápido beijo em seus dedos.
Nada aconteceu.
— Vossa Alteza — disse ela em uma voz ritmada que reverberou pela espinha de Kai. — É uma grande honra ser tão bem recebida. Quero novamente oferecer minhas sinceras condolências pela perda de seu pai, o grande imperador Rikan.
Kai sabia que ela não sentia de forma alguma a morte de seu pai, mas nem a expressão nem o tom de sua voz o demonstravam.
— Obrigado — respondeu ele. — Espero que tudo corra de acordo com suas expectativas durante a visita.
— Estou ansiosa pela famosa hospitalidade da Comunidade Oriental.
Sybil deu um passo à frente, os olhos respeitosamente evitando a rainha Levana.
— Eu inspecionei pessoalmente suas instalações, minha rainha. Elas são inferiores a nossas acomodações em Luna, mas acho que serão adequadas.
Levana não tomou conhecimento de sua taumaturga, mas seu olhar se suavizou, e o mundo mudou. Kai sentiu que o chão se abria embaixo dele. Que o ar havia sido tragado da atmosfera terrestre. Que o sol se apagara, fazendo com que a rainha etérea fosse a única fonte de luz na galáxia.
Lágrimas brotaram no fundo de seus olhos.
Ele a amava. Precisava dela. Faria qualquer coisa para agradá-la.
Enterrou as unhas nas palmas das mãos o mais fundo que conseguiu, quase gritando de dor, mas funcionou. O controle da rainha se desfez, ficando apenas a bela mulher — não a adoração desesperada por ela.
Kai sabia que ela estava consciente do efeito que tinha sobre ele enquanto o príncipe lutava para acalmar a respiração irregular, e ainda que ele quisesse detectar arrogância em seus olhos negros, não viu nada. Nada mesmo.
— Se você vier comigo — disse ele, a voz levemente rouca —, lhe mostrarei seus aposentos.
— Isso não será necessário — disse Sybil. — Estou bem familiarizada com a ala dos hóspedes e posso levar Sua Majestade eu mesma. Gostaríamos de um momento para conversarmos a sós.
— É claro — respondeu Kai, esperando que seu alívio não ficasse muito evidente.
Sybil liderou o caminho, o taumaturgo suplente e os dois guardas marchando atrás. Ignoraram a presença de Kai e Torin ao passarem, mas Kai não duvidava de que eles golpeariam seu pescoço em um segundo caso ele fizesse qualquer movimento suspeito.
Ele deixou escapar uma respiração trêmula quando se foram.
— Você a sentiu? — perguntou em um tom que era pouco mais que um sussurro.
— É claro — disse Torin. Seus olhos estavam voltados para a nave, mas ele podia estar olhando para Marte, pelo foco de seu olhar. — Você resistiu bem a ela, Vossa Alteza. Sei que foi difícil.
Kai passou as mãos pelos cabelos, procurando uma brisa, qualquer brisa, mas não havia.
— Não foi tão difícil. Foi apenas por um momento.
Os olhos de Torin encontraram os dele. Foi uma das poucas vezes em que Kai vira sincera simpatia naquele olhar.
— Ficará mais difícil.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!