7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e Um

— DESCULPEM A INTERRUPÇÃO — DISSE RAN, AINDA SOB A PROTEÇÃO da floresta. — O aroma estava delicioso demais para deixar passar. — Olhava para Lobo quando falou isso, e o brilho por trás de seus olhos fez Scarlet encolher os dedos dos pés. Ela segurou o cabo da arma e puxou até o quadril.
— Claro — disse Lobo depois de um longo silêncio, com a voz grave tensa. — Temos bastante.
— Obrigado, amigo.
O homem contornou a fogueira e passou tão perto de Scarlet que ela precisou se encolher para impedir que o cotovelo encostasse na perna dele. Os pelos de seus braços se arrepiaram.
Ran se sentou do outro lado da fogueira, em frente a ela, relaxado como se a margem fosse sua praia particular. Depois de um momento, Lobo se sentou entre eles. Nada relaxado.
— Lobo, este é Ran — disse Scarlet, corando de constrangimento. — Eu o conheci no trem.
Desejando poder reestruturar suas emoções até virarem indiferença, ela ocupou as mãos virando pedaços de pato. Lobo chegou mais perto dela, se mantendo como obstáculo entre ela e o outro, mesmo que seu rosto ficasse vermelho por estar tão perto das chamas.
— Tivemos uma ótima conversa no vagão-restaurante — disse Ran. — Sobre... o que mesmo? Virtuosos aspirantes a lupinos?
Scarlet olhou para ele com ódio.
— Um tópico que nunca deixa de me fascinar — continuou, com o tom firme enquanto arrancava asas e coxas do pato. — Estas partes estão prontas.
Ela pegou uma coxa e entregou a outra para Lobo. Ran não reclamou das duas asas ossudas, e Scarlet fez uma careta quando ele arrancou um pedaço da primeira e a cartilagem estalou alto nas juntas.
— Bon appétit — disse Ran, puxando a carne com as estranhas unhas afiadas, com os sumos escorrendo pelos braços.
Scarlet mordiscou a carne enquanto os outros dois atacavam seus pedaços como animais, olhando um para o outro com cautela. Ela se inclinou para a frente.
— E então, Ran. Como escapou do trem?
Ran jogou os ossos limpos de uma asa no lago.
— Posso lhe fazer a mesma pergunta.
Ela fingiu que o coração não estava batendo erraticamente.
— Nós pulamos.
— Arriscado — disse Ran com um sorrisinho.
Lobo se enfureceu. O relaxamento que tinha deixado suas feições graciosas antes tinha sumido e sido substituído pelo temperamento efervescente que Scarlet tinha visto na luta. Os dedos agitados, os pés em movimento.
— Ainda estamos muito longe de Paris — disse Ran, ignorando a pergunta de Scarlet. — Que situação infeliz. Para a vítima da peste, é claro.
Scarlet ajeitou a carne do peito.
— É horrível. Estou grata por Lobo estar comigo, senão eu provavelmente ainda estaria presa lá.
— Lobo — disse Ran, pronunciando a palavra lentamente. — Que nome incomum. Foram seus pais que escolheram?
— Importa? — indagou Lobo, jogando o osso longe.
— Só estou puxando conversa.
— Prefiro o silêncio — rosnou Lobo.
Depois de um momento no qual a desconfiança ficou palpável entre eles, Ran fingiu ofegar.
— Me desculpem — disse ele, arrancando o último pedaço de carne dos ossos. — Estou atrapalhando a lua de mel de vocês? Que homem de sorte você é. — Com uma expressão provocativa, colocou a carne na boca.
Lobo enfiou os dedos na areia.
Scarlet forçou os olhos para observar o homem em meio à fumaça e ao calor e se inclinou para a frente.
— É impressão minha ou vocês se conhecem?
Nenhum dos dois negou. O olhar de Lobo estava fixado em Ran, quase a ponto de atacá-lo. Uma desconfiança surgiu nos pensamentos de Scarlet e ela pegou a arma.
— Puxe sua manga.
— Perdão? — disse Ran, lambendo os sumos que escorriam pelo pulso.
Ela ficou de pé e apontou a arma para ele.
— Agora.
Ele hesitou apenas por um momento. Com expressão indecifrável, ele esticou a mão até o punho esquerdo e puxou a manga até o cotovelo. SLOM1126 estava tatuado no músculo do antebraço.
A raiva ferveu dentro de Scarlet, tão quente quanto o carvão na fogueira.
— Por que não me contou que ele era um deles? — sibilou ela, sem tirar o foco da arma e da tatuagem.
Pela primeira vez, Ran ficou tenso.
— Eu estava esperando determinar por que ele está aqui e por que a abordou no trem, mas sem querer alarmar você — respondeu Lobo. — Scarlet, este é Ran Kesley, um Soldado Leal da Ordem da Matilha. Não se preocupe, ele é só um ômega.
Ran franziu o nariz ao ouvir o que Scarlet percebeu ser um insulto baixo.
Ela dividiu a atenção entre os dois.
— Você conseguiu sentir o cheiro dele em mim — disse ela. — Quando voltei à cabine, você sabia, e sabia que ele estava nos seguindo o tempo todo! Como...? — Ela olhou boquiaberta para Lobo. Os olhos nada naturais. Os sentidos apurados. Os dentes. Os uivos. O fato de que ele nunca tinha comido tomate antes. — Quem são vocês?
O sofrimento tomou conta do rosto de Lobo, mas foi Ran quem falou.
— O que exatamente contou a ela, irmão?
Lobo ficou de pé, forçando Ran a inclinar a cabeça para trás para continuar encarando-o.
— Ela sabe que não sou mais seu irmão — disse. — E sabe que ninguém com essa marca é de confiança.
Ran sorriu por causa da ironia.
— Isso é tudo?
— Sei que vocês estão com a minha avó! — gritou ela, assustando um bando de andorinhas que estava na árvore mais próxima.
Quando elas se afastaram, a floresta mergulhou de novo em um silêncio denso, as palavras de Scarlet ainda ecoando. Com a mão começando a tremer, ela a forçou a ficar parada, embora Ran permanecesse acomodado à vontade na margem do lago.
— Vocês estão com a minha avó — disse, mais lentamente. — Não estão?
— Bem. Ela não está aqui comigo...
Fagulhas brancas piscaram na visão de Scarlet, e usou de toda a sua força de vontade para não puxar o gatilho e acabar com a arrogância dele.
— Por que está nos seguindo? — perguntou ela, e a ira que pulsava diminuiu até um latejar controlável.
Conseguia vê-lo calculando a resposta. Ran apoiou a palma da mão na margem pedregosa, se levantou e limpou a terra das mãos.
— Fui enviado para buscar meu irmão — respondeu ele, tão casualmente quanto se tivesse sido mandado ao mercado para comprar leite e pão. — Talvez ele não tenha contado a você que nós somos parte de um grupo de elite com uma missão especial. A missão foi cancelada, e Mestre Jael quer que voltemos. Todos nós.
O estômago de Scarlet deu um nó ao ver o olhar cheio de significado de Ran, mas a expressão de Lobo se mostrava mais desconfiada e sombria do que nunca.
— Não vou voltar — disse ele. — Jael não me controla mais.
Ran fungou.
— Duvido. E você sabe tão bem quanto qualquer pessoa que não permitimos que irmãos nos abandonem. — Ele puxou a manga por cima da tatuagem. — Mas posso confessar que não senti falta de ter um alfa a menos por perto.
O vento mudou de direção, jogando fagulhas da fogueira no rosto de Scarlet, e ela cambaleou para trás, piscando para afastá-las.
— Você achou mesmo que seria uma boa ideia vir até aqui, sem Jael para proteger você? — perguntou Lobo.
— Não preciso da proteção de Jael.
— Isso é novidade.
Com um rosnado, Ran deu um pulo para a frente, mas Lobo desviou dele e retaliou com um golpe do punho na direção do maxilar do outro. Ran bloqueou o golpe, segurou o punho de Lobo e usou o impulso para girá-lo e passar o braço pelo pescoço dele. Lobo esticou o braço, segurou o ombro de Ran e virou-o de cabeça para baixo. Ran caiu com um gemido e seus pés bateram na água.
Ele se levantou em um piscar de olhos.
A mão de Scarlet vacilou, a arma dançando entre os dois e a pulsação disparada. Ran estava tremendo de ira sufocada, enquanto Lobo parecia feito de pedra, sagaz e calculista.
— Acho mesmo que está na hora de você voltar, irmão — disse Ran por entre dentes.
Lobo balançou a cabeça, com mechas úmidas de cabelo caindo na testa.
— Você nunca foi páreo pra mim.
— Acho que você vai ver que eu melhorei muito, alfa.
Lobo riu debochando, e Scarlet sentiu que ele não acreditava que Ran pudesse ser um oponente à sua altura.
— Foi por isso que você nos seguiu? Viu sua chance de melhorar de posição, de me vencer longe da matilha?
— Já falei por que estou aqui. Jael me mandou atrás de você. A missão foi cancelada. Quando ele descobrir sobre essa sua rebeldia...
Lobo se lançou em cima de Ran e o derrubou no chão. A cabeça de Ran caiu na água, e Scarlet ouviu um estalo terrível quando bateu nas pedras duras debaixo da superfície. Ela gritou, correu na direção deles e enfiou as unhas no braço de Lobo.
— Não, pare! Talvez ele possa nos contar alguma coisa!
Os caninos afiados de Lobo estavam à mostra quando ele levantou o punho e deu um soco no rosto de Ran.
— LOBO! Pare! Minha avó! Ele sabe sobre... Lobo, solta ele!
Lobo não parou, e Scarlet deu um tiro de alerta para o alto. O eco se espalhou pela clareira, mas Lobo não se deixou afetar. Os braços de Ran pararam de se debater, escorregaram fracamente pelos antebraços de Lobo e caíram na água.
— Você vai matá-lo! — gritou ela. — Lobo! LOBO!
Quando uma última onda de bolhas surgiu da boca de Ran, Scarlet deu um passo para trás, soltou a respiração e puxou o gatilho de novo.
Lobo sibilou e caiu de lado. Ele colocou a mão no braço esquerdo, onde já havia sangue se espalhando pelo tecido da camisa. Mas o ferimento não era profundo. A bala mal o tinha atingido de raspão.
Ele olhou para Scarlet com surpresa.
— Você acabou de atirar em mim?
— Não tive muita escolha.
Com os ouvidos zumbindo, Scarlet caiu de joelhos e puxou Ran pelos ombros, colocando-o em um ângulo estranho na margem. Ele rolou para o lado, o olho esquerdo já inchando e fechando e o sangue misturado com água pingando do nariz e do maxilar. Com uma tosse rouca, mais sangue e água saíram pela boca e fizeram uma poça no chão.
Scarlet voltou a respirar e olhou para Lobo. Ele não tinha se mexido, mas sua expressão não era mais de ira maníaca, tinha se transformado em algo parecido com admiração.
— Você me recebeu com uma arma na porta da sua casa — disse ele —, e é bom saber que era sério.
Scarlet olhou para ele com irritação.
— Sinceramente, Lobo. O que você está pensando? Ele pode nos contar alguma coisa. Pode ajudar a encontrar minha avó!
O meio sorriso dele diminuiu, e por um momento ele pareceu sentir pena. Dela.
— Ele não vai falar.
— Como você sabe?
— Eu sei.
— Não é uma resposta boa o suficiente!
— Cuidado com a arma.
— O qu...? — Ela baixou o olhar para a margem ao lado, a tempo de ver Ran envolver o cano com os dedos. Ela puxou a arma, arrancando-a das garras de Ran.
Uma risada exausta fez com que mais cuspe sangrento saísse pelos lábios de Ran.
— Vou te matar um dia, irmão. Se Jael não o fizer primeiro.
— Pare de provocá-lo! — gritou Scarlet. Ela ficou de pé longe de Ran, recolocou a trava da arma e a guardou de volta na cintura da calça jeans. — Você não está exatamente em condições de fazer ameaças agora, de qualquer modo.
Ran não disse nada. Os olhos fechados, os lábios entreabertos, uma mancha de sangue na bochecha, e ele respirava devagar e com dificuldade.
Enojada, ela se voltou para Lobo, que afastou a mão do ferimento, o sangue que cobria a palma de sua mão surpreendendo Scarlet. Ele se apoiou no cotovelo e mergulhou a mão na água para tirar a mancha.
Com um suspiro, ela foi até a bolsa, esquecida, e tirou um pequeno kit de primeiros socorros. Lobo não discutiu quando ela abriu ainda mais o rasgo na manga provocado pela bala e assumiu o trabalho de limpar o ferimento e fazer um curativo. A bala tinha lhe atingido de raspão no bíceps.
— Desculpe ter atirado em você — disse —, mas você ia matá-lo.
— Talvez ainda o faça — disse Lobo, observando as mãos dela.
Ela balançou a cabeça e prendeu o curativo.
— Ele não é seu irmão de verdade, é? É coisa da gangue, não é?
Lobo deu um resmungo, mas não disse nada.
— Lobo?
— Falei que não nos dávamos bem.
Scarlet observou o desprezo louco que tomou conta do rosto de Lobo. Os olhos verdes queimavam ao olhar para o corpo prostrado de Ran atrás dela.
— Que bom.
A ferocidade na sua voz afastou um pouco do ódio, e Lobo voltou a atenção para ela.
— Você deve saber as fraquezas dele. Vai saber a melhor forma de interrogá-lo.
Aquele olhar solidário voltou.
— Somos treinados para suportar interrogatórios. Ele não vai nos ajudar.
— Mas ele já nos deu informações. — Depois de guardar o resto do kit, ela o jogou na bolsa. Errou a mira e o kit caiu no chão. — Ele obviamente sabia de alguma coisa quando perguntei da minha avó. E agora essa missão foi cancelada. Do que isso se trata? Tem alguma coisa a ver com ela?
Lobo balançou a cabeça, mas ela detectou uma nebulosidade nos olhos dele.
— Ele nos contou o que queria que nós, que eu soubesse. Ou acreditasse. Eu não apostaria em nada daquilo.
— Como pode ter tanta certeza?
Ele começou a mexer os dedos: fechar, abrir, fechar.
— Conheço Ran. Ele faria qualquer coisa para melhorar de posição. Ao me seguir e me obrigar a voltar, ou mesmo mostrar provas de que lutou comigo e venceu, esperava conseguir exatamente isso. Quanto à missão da qual eu fazia parte quando fui embora... Eles não cancelariam. Era importante demais.
— E minha avó?
Ele franziu a testa de perturbação.
— Certo. Temos que seguir em frente.
Ele testou a força do braço ferido antes de usá-lo de apoio para ficar de pé. A fogueira tinha se resumido a carvões fumegantes, onde rapidamente pisou para apagá-los, ignorando o peito de pato que tinha encolhido e quase virado um pedaço de carvão.
— Não foi isso que eu quis dizer — disse Scarlet, se mantendo firme. — Não devíamos pelo menos tentar interrogá-lo?
— Scarlet, me escute. Ele sabe de alguma coisa que ajudaria? Sim, provavelmente. Mas não vai nos dizer. A não ser que seu plano seja torturá-lo, e mesmo então não tem nada que você possa fazer que o assustaria mais do que o que a matilha vai fazer se ele falar. Já sabemos onde sua avó está. Lidar com ele é perda de tempo.
— E se o levássemos conosco e o oferecêssemos como troca? — sugeriu, observando Lobo rearrumar a bolsa.
Ele riu.
— Troca? Um ômega? — Lobo apontou para Ran. — Ele não vale nada. — Embora a raiva pudesse ser percebida sob aquelas palavras, Scarlet estava feliz que a insanidade temporária havia sumido dos olhos dele.
— Ele vai voltar para a matilha — argumentou — e contar que você está comigo.
— Não importa. — Colocando a bolsa no ombro, Lobo lançou um olhar final de raiva para o irmão. — Vamos chegar lá antes dele.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!