20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e um

Em um determinado momento durante a agitação que aconteceu depois da chegada do imperador Kaito, Jacin se colocou na frente de Winter (seu eterno protetor), e ela agarrou o tecido da camisa dele com a mão fechada. A presença dele era em parte consolo, em parte irritação. Ele bloqueava sua vista.
Mas ela tinha uma visão clara como o nascer do dia quando viu quatro pessoas saírem correndo pela saída que levava aos trens de levitação magnética. As portas se fecharam no meio de uma saraivada de balas. Apesar de estarem longe demais para ver, Winter tinha certeza de que uma daquelas pessoas era Linh Cinder.
Sua querida prima desaparecida, a princesa Selene.
— Atrás deles! — gritou Levana.
Os guardas que foram enviados para revistar a nave do imperador estavam na saída em segundos, tentando abrir a porta, mas elas nem se mexiam.
Levana girou nos calcanhares para encarar Sir Jerrico Solis.
— Envie uma equipe pelo palácio para as entradas do lago, outra pela cidade. Tente interceptá-los na plataforma.
Jerrico prendeu a mão no punho e saiu correndo, mandando oito guardas seguirem junto.
— Aimery — gritou Levana —, mande que todos os trens saindo de Artemísia sejam detidos. Mande revistá-los, assim como todos os túneis e plataformas. Eles não podem sair da cidade. E descubra como conseguiram passar por aquela porta!
Aimery fez uma reverência.
— Eu já convoquei o técnico. Vamos travar todo o sistema.
Com as narinas dilatadas, Levana empertigou a coluna e se virou para encarar o imperador. Ele estava de pé na parte de trás do pequeno grupo, sozinho exceto pela companhia de alguns guardas terráqueos e do conselheiro. Mas não parecia estar com medo. Winter achou que devia estar, mas os lábios dele estavam apertados em um esforço para não sorrir.
Winter inclinou a cabeça e o inspecionou. Ele parecia estar sentindo orgulho. Quase arrogância. Ela começou a sentir culpa por tê-lo provocado antes.
— Clandestinos — disse ele, quando tinha a atenção de Levana. Os ombros se balançaram em um movimento despreocupado. — Que surpresa inesperada.
O rosto de Levana estava ferozmente lindo. De tirar o fôlego de tanta crueldade.
— Você trouxe um inimigo conhecido para o coração do meu país. Em um momento de cessar-fogo mútuo, você cometeu um ato de traição.
Kai nem se mexeu.
— Minha lealdade é à Comunidade das Nações Orientais e à Terra. Não a Luna, e certamente não a você.
Levana apertou os olhos.
— Você parece confiante de que não vou mandar matá-lo por isso.
— Não vai — disse ele, com uma abundância de confiança, como a madrasta de Winter supôs. A princesa se contorceu de repente com medo por ele. — Pelo menos, ainda não — consertou Kai.
Uma sobrancelha perfeita foi erguida.
— Você está certo — disse Levana. — Talvez eu mate seu conselheiro, então. Claro que ele estava ciente dessa sua traição escancarada da minha confiança.
— Faça comigo o que quiser — disse o conselheiro, tão inabalável quanto Kaito. — A minha lealdade é só do meu imperador.
A bochecha de Kai tremeu.
— Se você fizer mal a qualquer um dos seus convidados terráqueos como punição ou ameaça a mim, eu vou me recusar a ir em frente com esse casamento.
— Aí não vou ter mais motivo para mantê-lo vivo.
— Eu sei — disse Kai —, mas também não vai ser imperatriz.
Os olhares deles se confrontaram enquanto Winter, Jacin e os outros guardas observavam. Os batimentos de Winter estavam erráticos enquanto ela esperava a ordem da rainha para matarem o imperador, pela insolência e pelo papel no transporte de Linh Cinder até Artemísia.
A porta do palácio se abriu e um guarda entrou, acompanhando um dos técnicos.
— Minha rainha, chamou?
Aimery deu um passo à frente.
— Houve ordens rigorosas para que as saídas deste porto fossem trancadas, mas parece que aconteceu algo de errado. Sua Majestade quer saber o que foi e ter certeza de que não vai acontecer de novo.
O técnico fez uma reverência e saiu correndo pela plataforma na direção do painel de controle que monitorava as saídas e a câmara enorme das naves depois das portas do porto.
Winter os observava quando seu olhar captou um movimento. Ela franziu a testa, segura de ter visto alguém se abaixando atrás de parte da carga terráquea.
Ou tão segura quanto podia ficar de qualquer coisa que visse, ou seja, não muito.
A madrasta se voltou de novo para o imperador e balançou o braço na direção dele, irritada com a presença.
— Levem os terráqueos para os aposentos deles — disse ela. — E façam com que fiquem lá.
O imperador e seu grupo não ofereceram resistência quando o guarda os levou com mais força do que era necessário. Kai não olhou na direção de Winter, mas quando passou ela viu que ele não estava mais escondendo o sorriso. Ele podia ter se tornado prisioneiro da rainha, mas estava claro que via aquilo como uma vitória.
Os passos altos dos guardas tinham sumido quando o técnico gritou:
— Minha rainha!
Seus dedos estavam dançando nas telas, com o rosto transtornado de pânico. Levana foi na direção dele. O resto do grupo a seguiu, e, apesar de Jacin ter se movido para ficar na frente de Winter, ela se desviou dele e deu um pulo à frente, ignorando seu rosnado.
Ela observou as pilhas de caixas e malas de novo, mas não havia sinal da pessoa misteriosa que imaginou ter visto antes.
— O quê? — disse Levana com rispidez.
O técnico não se virou dos controles. Na tela mais próxima, Winter via um mapa do sistema de transporte e uma mensagem de erro piscando no canto. Jacin apareceu de novo ao lado dela e lhe lançou um olhar gelado por sair do círculo de proteção dele. Ela o ignorou.
— É… — começou o técnico. Ele se virou para outra tela.
— Sugiro que você encontre sua língua, antes que eu a desabilite permanentemente — disse Levana.
O técnico tremeu e se virou para encará-los, embora suas mãos permanecessem inúteis perto das telas.
— O sistema está…
Levana esperou.
Winter ficou muito preocupada com a vida daquele homem.
— … inacessível, minha rainha. Não consigo… eu não consigo acessar os horários dos trens, a sobreposição manual… até as entradas da plataforma principal foram trancadas. Com… com exceção do corredor que a liga a essas docas, que foi a única coisa deixada desimpedida.
Levana apertou os lábios em uma linha firme e não disse nada.
— O sistema foi invadido? — perguntou Aimery.
— S-Sim, acho que sim. Poderíamos levar horas para reconfigurar os códigos de acesso… eu nem sei o que fizeram.
— Você está me dizendo que não consegue nem fazer os trens saindo da cidade pararem? — disse Levana.
O técnico estava pálido.
— Vou continuar tentando, Vossa Majestade. Vou ter um acesso bem melhor ao sistema da sala de controle do palácio, então vou só…
— Você tem algum aprendiz? — perguntou a rainha. — Ou um parceiro de trabalho?
Os pelos do pescoço de Winter se eriçaram.
O técnico gaguejou:
— N-Nós somos três… aqui no palácio… mas eu tenho mais experiência, com mais de vinte anos de serviço leal, e…
— Matem-no.
Um guarda tirou a arma do coldre. Winter virou a cabeça e, apesar de ser um pensamento mesquinho, ela ficou feliz de não ser Jacin o obrigado a cometer o assassinato. Se ele ainda fosse guarda do taumaturgo-chefe, poderia ter sido.
— Por favor, minha rai…
Winter deu um pulo quando o tiro ressoou por sua cabeça, seguido de um som com que ela estava muito familiarizada. Um choramingo. Vindo de trás da pilha de caixas.
Atrás dela, o estalo de fios e estilhaços de plástico sugeria que a bala tinha acertado uma das telas também. O guarda colocou a arma no coldre.
Aimery se virou para a rainha.
— Vou fazer contato com Jerrico, para ver se as equipes dele conseguiram acesso à plataforma, e alertá-lo de que o caminho pode estar fechado.
— Obrigada, Aimery. Alerte também os outros dois técnicos sobre o problema com o sistema de trens.
Aimery pegou o tablet e se afastou do grupo, indo na direção da beirada da plataforma. Ele estava virado para a pilha de caixas, e apesar de a atenção estar no tablet, Winter procurava outro sinal de vida embaixo.
Ali. Um pé, ela pensou, encolhido contra um baú grande.
Winter deu um leve suspiro de alegria e entrelaçou os dedos embaixo do queixo. Todos se viraram para ela, assustados com a sua presença, o que não era incomum.
— Você acha que os terráqueos nos trouxeram presentes, madrasta?
Sem esperar resposta, ela levantou as saias e andou na direção da carga, subindo nas pilhas irregulares de caixas e baús até ter chegado ao nível mais baixo.
— Winter — cortou Levana —, o que você está fazendo?
— Procurando presentes! — gritou ela, rindo. A sombra de Jacin caiu sobre ela lá de cima. Winter conseguia visualizar a expressão dele, até o tremor irritado das sobrancelhas, e sabia que, de onde estava com o resto do grupo da rainha, ele não via o que ela estava vendo.
Uma garota de cabelos louros curtos e olhos azuis apavorados estava bem encolhida. As costas estavam grudadas a uma caixa e o corpo todo tremia.
Winter levantou a cabeça e sorriu, primeiro para Jacin e depois para a madrasta. Esforçando-se ao máximo para não olhar para o sangue na parede mais distante.
— Esta diz que tem vinho da Argentina! Deve ser dos americanos. Podemos brindar a uma tarde tão agitada.
Ela se inclinou sobre a garota trêmula e abriu a caixa com um estalo alto. Em seguida, levantou a tampa.
— Ah, droga, a caixa mentiu. Só tem enchimento.
Segurando a tampa com uma das mãos, ela começou a puxar os papéis picados o mais rápido que conseguiu, espalhando no chão a seus pés. A garota ficou olhando para ela.
A voz da madrasta estava fria como gelo:
— Sir Clay, por favor, escolte sua protegida daqui. Ela está passando vergonha.
As palavras dela carregavam peso demais, mas Winter não tentou decifrá-las. Estava ocupada cutucando a garota com o dedão do pé e indicando para que entrasse na caixa.
As botas de Jacin fizeram barulho nas caixas quando ele desceu na direção dela.
Winter segurou o cotovelo da garota e a empurrou, fazendo com que se mexesse. Ela ficou de joelhos, segurou a beirada da caixa e se jogou lá dentro, o barulho sendo abafado pelo de Winter amassando papel.
Sem esperar para ver se a garota estava confortável, Winter fechou a tampa quando Jacin desceu para seu lado. O sorriso se abriu mais para ele.
— Ah, que bom, você está aqui! Pode me ajudar a carregar esses papéis para meu quarto. Que presente atencioso dos americanos, não acha?
— Princesa…
— Eu concordo, Jacin. Uma caixa cheia de papel é bagunçada demais para ser presente de casamento, mas não devemos ser ingratos.
Ela pegou uma braçada de papel e saiu andando na direção da entrada do palácio, sem ousar olhar para trás.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!