13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e um

— PRONTO — DISSE O DR. ERLAND, CORTANDO AS PONTAS DA LINHA cirúrgica. — É tudo o que posso fazer por ele.
Cinder molhou os lábios e percebeu que tinham começado a rachar devido à secura.
— E? Ele vai... por acaso ele vai...?
— Temos que esperar e ver. Ele tem sorte de as balas não terem perfurado um pulmão, senão ele não teria chegado até aqui. Mas perdeu muito sangue. Vou monitorar os anestésicos com atenção por mais um ou dois dias. Quero que ele fique sedado. Os soldados de Levana são feitos como armas descartáveis; são muito eficientes quando estão saudáveis, mas as alterações genéticas fazem com que seja difícil para eles descansarem, mesmo quando seus corpos precisam de tempo para se recuperarem de um ferimento.
Ela olhou para os ferimentos de Lobo, costurados com linha azul-escura que formava caroços e ondas feias onde antes havia pele aberta. Várias outras cicatrizes marcavam o peito nu, curadas havia tempos. Era óbvio que ele já tinha passado por muita coisa. Não era possível que esse fosse ser o fim dele depois de tudo.
Uma mesa ao lado dela continha uma bandeja pesada com as duas pequenas balas que o doutor retirou. Pareciam pequenas demais para causar tanto dano.
— Não posso deixar mais ninguém morrer — sussurrou ela.
O doutor parou de limpar os instrumentos cirúrgicos e olhou para ela.
— Eles podem ser tratados como bens descartáveis pela rainha, mas também são resistentes. — Ele colocou o bisturi e a pinça em um líquido azul. — Com o descanso adequado, é possível que ele se recupere completamente.
— Possível — repetiu ela estupidamente. Não era o bastante.
Ela se afundou na cadeira de madeira ao lado da cama de Lobo e colocou a mão na dele, torcendo para que ele apreciasse o toque, apesar de ela não ser Scarlet.
Ela fechou bem os olhos quando a onda de remorso tomou conta dela. Scarlet. Lobo ficaria furioso quando acordasse. Furioso e arrasado.
— Agora talvez você possa me dar a honra de contar como conseguiu estar em companhia tanto de um soldado lunar e de um guarda real lunar, dentre todos os aliados possíveis na galáxia.
Ela suspirou. Foi preciso um tempo para organizar os pensamentos e encontrar o começo da história. Ela acabou decidindo contar a ele sobre a procura por Michelle Benoit e que esperava descobrir mais sobre a mulher que protegeu seu segredo até a morte. Que estava procurando pistas sobre seu passado, quem a levou para a Terra e por que alguém colocaria tanta esperança em uma criança que, na época, tinha apenas três anos e estava à beira da morte depois da tentativa de assassinato da rainha.
Explicou que eles seguiram as pistas até Paris, onde ela descobriu que Michelle Benoit estava morta, mas acabou encontrando a neta dela. Scarlet... e Lobo. Que eles se tornaram aliados. Que Lobo a estava treinando para usar suas habilidades mentais e lutar.
Ela contou sobre o ataque a bordo da Rampion e que Sybil Mira levara Scarlet, e que agora só havia ela e Lobo... e o guarda, em que ela queria confiar, sentia que precisava confiar, mas nem sabia o nome dele.
— Ele disse que serve à princesa — disse Cinder, suas palavras frágeis e delicadas. — De alguma forma, ele sabia sobre mim.
Erland mexeu no cabelo desgrenhado.
— Talvez ele tenha ouvido a taumaturga Mira ou a própria rainha falando sobre você. Você tem sorte de a lealdade dele ser à coroa. Muitos dos asseclas de Levana prefeririam matar você e pedir uma recompensa a vê-la reconhecida como rainha.
— Eu percebi.
Ele riu com deboche, como se não estivesse feliz em reconhecer que o guarda podia ser um aliado, afinal.
— E falando em reconhecer você como a verdadeira rainha...
Ela se encolheu na cadeira e apertou a mão de Lobo.
— Srta. Linh, passei anos planejando a hora em que a encontraria novamente. Você deveria ter vindo direto até mim.
Cinder franziu o nariz.
— Foi exatamente por isso que não vim.
— E o que isso quer dizer?
— Quando você foi até minha cela e jogou essa história de princesa em cima de mim... como eu poderia reagir? De repente deixei de ser ninguém e passei a realeza perdida, e você esperava que eu desse pulinhos e aceitasse esse destino que você criou em sua cabeça, mas nem considerou que talvez não fosse o destino que eu quero? Não fui criada para ser princesa nem líder. Eu só precisava de tempo para entender quem eu era... sou. De onde vim. Achei que talvez essas respostas estivessem na França.
— E estavam?
Ela deu de ombros e lembrou-se do laboratório subterrâneo que eles encontraram na fazenda Benoit, com o tanque de animação suspenso onde ela dormiu, parcialmente viva, por oito anos. Onde uma pessoa sem nome e sem rosto lhe deu um novo nome, uma nova história e novos membros robóticos.
— Algumas, sim.
— E agora? Está pronta para aceitar seu destino ou ainda está procurando?
Ela franziu a testa.
— Sei que sou quem você diz que sou. E alguém tem que deter Levana. Se esse alguém tem que ser eu, bem... sim. Eu aceito isso. Estou pronta.
Ela olhou para Lobo e engoliu as palavras seguintes: Pelo menos, eu achava que estava pronta, antes de estragar tudo.
— Que bom — disse o doutor. — Porque está na hora de desenvolvermos um plano. A rainha Levana não pode reinar mais, e não podemos deixar que reine na Terra.
— Eu sei. E concordo. Eu tinha um plano, na verdade. Nós tínhamos um plano.
Ele ergueu uma sobrancelha para ela.
— Íamos usar o casamento a nosso favor, ainda mais que toda a imprensa estará presente. Íamos passar pela segurança do palácio, e eu ia me infiltrar na cerimônia e... fazê-la parar.
— Parar o casamento? — perguntou Erland, sem parecer impressionado.
— Sim. Eu ia dizer para todo mundo quem eu sou. Com todas as câmeras e a imprensa e o mundo todo vendo, eu ia insistir que Kai não podia se casar com ela. Ia contar para o mundo os planos de Levana de invadir todos os países da Terra, para que os outros líderes se recusassem a aceitá-la como líder mundial. E depois eu exigiria que Levana abrisse mão da coroa... e a passasse para mim.
Ela se afastou de Lobo ao perceber que a palma da mão tinha ficado quente demais. Esfregou-a com nervosismo na perna da calça.
A expressão do dr. Erland ficou sombria. Ele esticou a mão e beliscou Cinder com força acima do cotovelo.
— Ai, ei!
— Humph. Por um momento, pensei que você fosse outra das minhas alucinações, porque certamente seu plano não poderia ser tão idiota.
— Não é idiota. A notícia se espalharia em minutos. Não tem nada que Levana poderia fazer para impedir.
— Claro que se espalharia. Todo mundo alegaria estar testemunhando o surto da ciborgue maluca que se acha princesa.
— Poderiam examinar meu sangue, como você fez. Eu posso provar.
— É claro que Sua Majestade ficaria pacientemente esperando enquanto você estivesse fazendo isso. — Ele bufou, como se falasse com uma criança pequena. — A rainha Levana está com as garras enfiadas tão fundo na Comunidade que você estaria morta antes de terminar a palavra princesa. Seu imperador Kai faria qualquer coisa para aplacá-la agora. Para garantir que uma guerra não exploda de novo e para pôr as mãos no antídoto para a letumose. Ele não se arriscaria a enfurecê-la só para validar a alegação de uma garota de dezesseis anos que já é uma criminosa procurada.
Ela cruzou os braços.
— É possível.
Ele ergueu a sobrancelha para Cinder, e ela se afundou na cadeira.
— Tudo bem — disse Cinder. — O que você sugere? É claro que você entende tudo dessa história de revolução política, então faça o favor de me esclarecer, ó grande enrugado.
O dr. Erland pegou o chapéu em uma escrivaninha pequena e colocou na cabeça.
— Você poderia começar aprendendo a ter boas maneiras, senão ninguém vai acreditar que você poderia ser da realeza.
— Certo. Tenho certeza de que etiqueta ruim é o motivo número um para a maioria das revoluções fracassadas.
— Já terminou?
— Ainda não.
Ele a perfurou com o olhar, e ela retribuiu.
Então, Cinder revirou os olhos.
— Sim, terminei.
— Que bom. Porque temos muito a discutir, a começar por como vamos fazer você chegar a Luna.
— Luna?
— Sim. Luna. A pedra no céu que você está destinada a governar. Imagino que você conheça, não?
— Você espera que eu vá para Luna?
— Não hoje, mas em algum momento, sim. Você está perdendo tempo com essa coisa de casamento e espalhar notícias pela imprensa. As pessoas de Luna não ligam para o que o pessoal da Terra pensa. Proclamar sua identidade aqui não vai persuadi-los a se rebelar contra a monarca e nem a coroar você como rainha.
— É claro que vai. Sou a herdeira por direito!
Ela recuou, impressionada com as próprias palavras. Nunca tinha se sentido tão envolvida com sua identidade e tão determinada a exigir seu lugar. Era uma sensação estranha, parecida com orgulho.
— Você é a herdeira por direito — falou o médico. — Mas precisa convencer as pessoas de Luna, não as pessoas da Terra. O povo lunar precisa ser informado de que você está viva. Só com eles do seu lado você pode esperar ter algum sucesso em exigir seu direito de nascença. É claro que Levana não vai desistir facilmente.
Ela massageou o pescoço e esperou que os avisos de adrenalina se dissipassem.
— Tudo bem. Vamos dizer que você esteja certo e que essa seja a única forma. Como é que vamos chegar a Luna? Os portos de entrada não são todos subterrâneos? E, acredito, intensamente monitorados?
— Exatamente aonde quero chegar. Precisamos encontrar uma forma de fazer você entrar escondida pelos portos. Obviamente, não podemos usar sua nave... — Ele parou de falar e esfregou a bochecha. — Vai ser preciso uma estratégia cuidadosa.
— Ah, que bom, mais estratégias. Eu adoro.
— Enquanto isso, sugiro que você não se aventure muito longe do coração desta cidade e fique dentro de sua nave o máximo possível. Não é totalmente seguro aqui.
Cinder fez expressão de irritação.
— Caso você não tenha reparado, todo mundo já me viu. Não adianta me esconder agora.
— Não era isso que eu queria dizer. Essa área sofreu mais casos de letumose do que qualquer outra na Terra. Apesar de não haver nenhum caso severo em mais de um ano, não podemos baixar a guarda. Não com você.
— Hã... sou imune. Lembra? Aquela pequena descoberta que gerou toda essa confusão?
Ele deu um suspiro longo e lento. A derrota na expressão dele gerou uma onda de preocupação pela espinha dela.
— Doutor?
— Já vi evidências de que a doença está sofrendo mutações — disse o dr. Erland. — E de que os lunares podem não ser mais imunes. Pelo menos, não todos nós.
Ela ficou arrepiada. Era incrível como os antigos medos voltavam depressa. Depois de semanas sendo invencível frente a um dos assassinos mais impiedosos da Terra, a ameaça estava de volta. A imunidade dela poderia estar em risco.
E ela estava na África, onde tudo começou.
Uma batida à porta assustou os dois. O guarda estava de pé na porta, ainda úmido depois de tomar um banho e usando roupas militares da Terra encontradas na Rampion.
Apesar de os ferimentos não estarem mais visíveis, Cinder reparou que a postura dele estava tensa e favorecendo o lado não ferido.
Em suas mãos havia uma bandeja de pão árabe com um cheiro intenso de alho.
— Ouvi vocês falando. Achei que a cirurgia devia estar terminada — disse ele. — Como está seu amigo?
Cinder olhou para Lobo. Ele também estaria vulnerável.
Todos no aposento eram lunares, ela percebeu com um susto. Se o dr. Erland estivesse certo, todos estavam vulneráveis.
Cinder precisou engolir em seco para destravar a voz.
— Ele ainda está vivo. — Ela se afastou de Lobo e esticou a mão para o guarda. — Aliás, me chamo Cinder.
Ele apertou os olhos.
— Eu sei quem você é.
— É, mas achei que seria bom uma apresentação formal agora que estamos do mesmo lado.
— Foi isso que você decidiu?
Cinder franziu a testa, mas, antes que pudesse responder, ele passou a bandeja com os pães para a outra mão e apertou a dela.
— Jacin Clay. É uma honra.
Sem saber como interpretar o tom dele, que parecia quase debochado, Cinder se afastou e olhou para o doutor, que estava com os dedos pressionados no pulso de Lobo.
Evidentemente, ele não tinha intenção de participar das apresentações.
Cinder limpou as mãos na calça e olhou para a bandeja.
— E aí? Você sabe usar uma arma, pilotar uma espaçonave fazer pães?
— Isso foi trazido por umas crianças. — Ele empurrou a bandeja na direção de Cinder. — Disseram que era para você, mas eu falei que você estava ocupada.
Ela achou estranho.
— Para mim?
— ‘Para a ciborgue’, para ser específico. Pareceu improvável ter outra por aqui.
— Ah. Eu queria saber por quê.
— Desconfio que não vai ser o único presente que você vai receber dos cidadãos de Farafrah — disse o dr. Erland.
— Por quê? Essas pessoas não me conhecem.
— É claro que conhecem, ou pelo menos sabem de você. Não estamos tão isolados do mundo como pode parecer. Até eu já tinha fama quando cheguei.
Ela colocou a bandeja na escrivaninha.
— E não entregaram você? E o dinheiro da recompensa? E o fato de você ser lunar? Eles não se importam?
Em vez de responder, o dr. Erland desviou o olhar para Jacin, que estava encostado como uma estátua na porta. Era fácil esquecer a presença dele em um aposento quando ficava tão parado, falando tão pouco. Sem dúvida aprendera isso em seu treinamento de guarda. Sem dúvida estava acostumado a passar despercebido.
Mas, apesar de Cinder ter feito a escolha de confiar nele, era óbvio pela expressão do doutor que ela estava sozinha nessa decisão.
— Certo — disse Jacin, se desencostando da parede. — Vou dar uma olhada na nave. Tomar conta para que ninguém esteja retirando parafusos para guardar de lembrança.
Ele saiu do quarto de hotel sem olhar para trás, e seus passos mancos quase pareciam um gingado.
— Eu sei, ele parece meio... bronco — disse Cinder depois que ele saiu. — Mas ele sabe quem eu sou e salvou minha vida, além da de Lobo. Deveríamos tratá-lo como aliado.
— Você pode fazer a escolha de revelar todos os seus segredos, srta. Linh, mas não quer dizer que preciso revelar os meus, e nem os das pessoas desta cidade.
— O que você quer dizer?
— As pessoas daqui não ligam de sermos lunares porque não somos os únicos. Estimo que quinze por cento da população de Farafrah e de outros oásis vizinhos seja composta de lunares, ou de descendentes de lunares. É para cá que muitos do nosso povo escolhem vir quando fogem. Eles imigram para cá desde a época da rainha Channary. Talvez até antes.
— Quinze por cento? — perguntou ela. — E os terráqueos sabem?
— Não é amplamente discutido, mas parece ser de conhecimento comum. Eles passaram a viver em harmonia juntos. Quando a peste se espalhou, muitos lunares passaram a cuidar dos doentes e a enterrar os mortos, pois não pegavam a doença. É claro que ninguém sabia que eles eram os portadores originais. Quando essa teoria foi apresentada, as duas raças já estavam misturadas demais. Eles trabalham juntos agora, ajudam uns aos outros a sobreviverem.
— Mas é ilegal abrigar fugitivos lunares. Levana ficaria furiosa.
— Sim, mas quem vai contar a ela? Ninguém liga para uma cidade pobre e tomada pela doença no Saara.
Com os pensamentos fervilhando, ela pegou um pedaço de pão que reluzia de azeite dourado e estava coberto de ervas. O interior macio ainda fumegava quando ela o partiu.
Era um presente... dos lunares. De seu povo.
Seus olhos se arregalaram e ela olhou para o doutor de novo.
— Eles todos sabem? Sobre... mim?
Ele fungou.
— Eles sabem que você desafiou a rainha. Sabem que continua a desafiá-la. — Pela primeira vez desde que chegou, Cinder pensou detectar um sorriso por baixo da expressão irritada do doutor. — E eu posso tê-los levado a acreditar que, um dia desses, você pretenda assassiná-la.
— O qu... assassiná-la?
— Deu certo — disse ele, dando de ombros como um pedido de desculpas. — Essas pessoas seguirão você a qualquer lugar.

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