20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e três

Jacin estava aborrecido ao extremo quando Winter o levou até o elevador.
— Por que estou com uma sensação ruim sobre isso? — resmungou ele, olhando para Winter com expressão desconfiada.
— Você tem uma sensação ruim sobre tudo — disse ela, cutucando-o com o ombro. Era um gesto brincalhão, que sempre a deixava ansiosa pela retribuição. Desta vez, não foi retribuído. Ela franziu a testa. — Esqueci uma coisa no porto. Só vai demorar um segundo.
Ela bateu os cílios para Jacin.
Ele fez cara feia e afastou o rosto. Estava no modo guarda. O uniforme. A postura. A incapacidade de sustentar o contato visual por mais de meio segundo.
O guarda Jacin não era seu Jacin favorito, mas ela sabia que era só um disfarce, que foi dado a ele contra a vontade.
Ela estava se coçando para contar a verdade desde o momento em que saíram do porto. Estava tomada de ansiedade pelo destino da garota que colocou dentro da caixa.
Estaria ela ainda escondida? Teria tentado fugir e se juntar aos amigos? Teria sido encontrada? Capturada? Morta?
Aquela garota era aliada de Linh Cinder e talvez amiga de sua Scarlet também. O medo pela vida da garota deixou Winter em uma agitação inquieta pelas duas horas que se obrigou a esperar no quarto, para não chamar atenção para sua volta às docas. Seu conhecimento do sistema de vigilância do palácio a impediu de contar o segredo até para Jacin. Foi um segredo difícil de guardar.
Mas, se ela estava agindo de um jeito esquisito, nem Jacin questionou. Sem dúvida, a empolgação do dia era motivo mais do que suficiente para a agitação.
— O que foi? — perguntou Jacin.
Winter afastou o olhar da tela do elevador acima da porta.
— Como?
— O que você esqueceu no porto?
— Ah. Você vai ver.
— Princesa…
As portas se abriram. Ela segurou o braço dele e o puxou pela galeria extravagante onde os artemísios podiam esperar o transporte. Aquele nível estava vazio, como ela esperava. Apesar de ter sido fácil para Winter obter acesso ao porto com os guardas do palácio acima (foi preciso pouco mais do que um beicinho emburrado e uma rejeição desafiadora dos resmungos de Jacin), os portos estavam interditados durante a visita terráquea. Para a segurança das naves e dos pertences deles, dissera Levana, mas Winter sabia que era para impedir que qualquer pessoa tentasse ir embora.
Os portos estavam silenciosos quando eles entraram na plataforma principal. O chão iluminado fazia as sombras das naves parecerem monstruosas no teto alto, e as paredes amplas ecoavam cada passo, cada respiração. Winter imaginou ouvir seus batimentos trovejantes sendo ricocheteados de volta até ela.
Ela saiu andando pela plataforma com Jacin logo atrás, caminhando rápido. Não conseguiu deixar de olhar para a cabine de controle, e, apesar de ainda haver uma tela quebrada e algumas manchas escuras na parede, o corpo do técnico tinha sumido. Até onde ela sabia, os substitutos dele ainda estavam no centro de controle principal do palácio tentando recuperar o acesso ao sistema defeituoso.
Ela voltou a atenção para o nível mais baixo, e um alívio infinito tomou conta de si ao ver a carga intocada. Embora a bagagem pessoal dos embaixadores tivesse sido levada para as suítes, os presentes e as mercadorias de troca foram deixados para trás para serem buscados depois.
Winter viu a caixa de vinho argentino. Seu passo acelerou.
— Estrelas do céu — resmungou Jacin. — Se você me trouxe até aqui para pegar mais papel…
— Papel — disse Winter, subindo nas caixas de uma forma que não era adequada a uma dama — é um recurso muito difícil de se obter. Os setores madeireiros têm demanda em excesso por material de construção. Já precisei trocar um par de sapatinhos de seda por meia dúzia de cartões, sabia?
Era parcialmente verdade. Boa parte dos produtos de papel disponíveis nas lojas de Artemísia eram feitos de polpa de bambu, um dos poucos recursos que cresciam em abundância nos setores agricultores. Mas o bambu também contribuía para a manufatura têxtil e de móveis, e até esse papel tinha suprimento limitado.
Winter gostava de papel. Gostava do jeito firme e tátil como amassava nos dedos dela.
Jacin se sentou em uma caixa de plástico, com as pernas penduradas na beirada. Na solidão serena das docas, o guarda Jacin se retirou.
— Você quer transformar papel de embalagem em cartão?
— Ah, não — disse ela. — Não tenho interesse em papel.
Ele ergueu uma das sobrancelhas.
— No vinho, então?
Winter abriu a caixa.
— Nem no vinho.
Ela prendeu a respiração e arremessou a tampa, que caiu ao lado da próxima caixa.
Winter se viu olhando para um caixote imenso, com uma camada de garrafas de vinho bem embaladas, e nenhum sinal da garota.
O coração dela despencou.
— O quê? — Jacin se inclinou para espiar dentro da caixa. Seu rosto foi tomado por uma camada de preocupação. — Princesa?
Ela abriu os lábios, mas voltou a fechá-los. Virou-se em um círculo lento, examinando as caixas empilhadas ao redor. A garota poderia ter entrado em qualquer uma delas.
Ou poderia ter fugido.
Ou poderia já ter sido encontrada por alguém.
Jacin desceu de onde estava e segurou o cotovelo dela.
— O que foi?
— Ela sumiu.
— Ela?
— Tinha… — Ela hesitou. Seu olhar se dirigiu a uma das muitas câmeras discretas por toda a doca. Apesar de a rainha certamente ter mandado desligá-las quando estava ali, Winter não fazia ideia se já tinham sido religadas ou não.
Jacin se irritou de impaciência, mas também de preocupação. Verificar as câmeras era o primeiro sinal de que alguém estava indo contra a vontade da rainha. Depois de uma observação rápida do teto, ele balançou a cabeça.
— Não tem luz nenhuma. Ainda estão desligadas. — Mas ele falou com a testa franzida. — Conte para mim o que está acontecendo.
Winter engoliu em seco.
— Tinha uma garota. Acho que ela veio com Linh Cinder e os companheiros. Eu a vi se esgueirando por essas caixas enquanto a rainha estava discutindo com o técnico, então a escondi aqui. Mas… agora ela sumiu.
Jacin se balançou nos calcanhares. Winter esperava que ele chamasse a atenção dela por fazer uma coisa tão perigosa, e logo na frente da rainha. Mas, depois de uma longa hesitação, ele perguntou:
— Como ela era?
— Pequena. Com cabelo louro curto. Estava com medo. — Lembrar-se da expressão apavorada da garota fez Winter tremer. — Talvez ela tenha tentado se juntar aos companheiros. Ou… ou será que voltou para a nave do imperador?
O olhar de Jacin tinha perdido o foco.
— Cress — sussurrou ele, virando-se. Ele soltou o cotovelo de Winter, subiu nas caixas e pulou para a plataforma acima.
— O quê? Jacin? — Ela levantou a saia acima dos joelhos e correu atrás dele. Quando voltou para a plataforma, Jacin estava na cabine de controle, abrindo armários cheios de fios e cabos e peças de computador que Winter não entendia.
Ele encontrou a garota atrás da terceira porta que abriu, com o corpo encolhido em uma posição tão apertada que Winter não conseguia acreditar que não tinha sufocado.
Os olhos arregalados grudaram em Jacin e se arregalaram ainda mais do que era possível.
Winter parou de repente quando Jacin esticou a mão para o armário e puxou a garota. Ela deu um gritinho e tentou recuperar o equilíbrio enquanto Jacin fechava a porta. A garota soltou o braço da mão dele e recuou para a parede, tremendo como um animal enjaulado.
Em vez de esticar a mão para ela de novo, Jacin deu um passo para trás e apertou a ponte do nariz. Ele falou um palavrão.
— Princesa, você tem que parar de colecionar esses rebeldes.
Ignorando-o, Winter se aproximou da garota, com as mãos em sinal de calma.
— Nós não vamos machucar você — disse ela. — Está tudo bem.
A garota lançou um olhar rápido a ela antes de se virar para Jacin. Apavorada, mas também com raiva.
— Meu nome é Winter — disse ela. — Você está ferida?
— Nós não podemos ficar aqui — falou Jacin. — As câmeras vão ser religadas a qualquer minuto. É um milagre ainda não terem sido.
A garota continuou olhando para ele com ferocidade tímida.
— Espere. — Jacin riu. — Você as desabilitou, não foi?
A garota não disse nada.
Winter virou a atenção para Jacin.
— Ela as desabilitou?
— Essa garota era o segredo mais bem guardado da rainha. Ela consegue usar qualquer sistema de computador. — Ele cruzou os braços, com a expressão severa virando quase um sorriso. — É você que anda mexendo no transporte também.
Os lábios da garota se tornaram uma linha fina.
— Qual é seu nome? — perguntou Winter.
Como a garota continuou sem responder, Jacin falou:
— O nome dela é Cress. Ela é cascuda e é aliada de Linh Cinder. — Ele coçou a têmpora. — Imagino que você não tenha um plano sobre o que vamos fazer com ela.
— Nós poderíamos levá-la escondida para a ala de convidados. Tenho certeza de que o imperador terráqueo cuidaria dela. Ele os ajudou a chegar aqui, afinal.
Jacin fez que não.
— Ele está cercado de segurança demais. Jamais conseguiríamos chegar perto com ela. Além do mais, quanto menos gente que conhece você a ajudasse, menos chance haveria de Levana descobrir.
A garota, Cress, pareceu relaxar quando ficou claro que Winter e Jacin não iriam mandar executá-la. Winter sorriu para ela.
— Eu nunca conheci uma cascuda. Que dom maravilhoso. Não consigo sentir você, é como se você nem estivesse aqui, apesar de estar bem na minha frente. — Seu sorriso se alargou. — Isso deixaria minha madrasta furiosa.
— Foi um cascudo que matou os últimos rei e rainha — disse Jacin. — Talvez possamos transformá-la em uma assassina.
Winter se virou para ele, estupefata.
— Ela parece assassina?
Ele deu de ombros.
— Ela parece capaz de desabilitar todo o nosso sistema de trens de levitação magnética?
— Eu não desabilitei. — A voz de Cress soou baixa, mas Winter ficou tão surpresa de ouvi-la falar que foi como se tivesse dado um grito. — Só mudei os parâmetros de acesso para a rainha não o desligar.
Jacin ficou encarando-a.
— Mas você poderia desabilitar se quisesse.
Depois de um momento, a garota baixou o olhar para o chão.
— Temos que encontrar um lugar para ela — disse Winter, puxando um cacho de cabelo. — Um lugar seguro.
— Por quê? — perguntou Cress. — Por que vocês estão me ajudando?
Winter não sabia se a garota estava perguntando para ela ou para Jacin, mas ele respondeu primeiro com um resmungo:
— Boa pergunta.
Winter deu um empurrão no ombro do guarda. Ele mal se mexeu.
— Porque é a coisa certa a fazer. Vamos proteger você. Não vamos, Jacin?
Como Jacin não disse nada, Winter o empurrou de novo.
— Não vamos?
Jacin suspirou.
— Acho que podemos levá-la escondida até o alojamento dos guardas. Não fica longe e não vamos ter que entrar na parte principal do castelo.
Com descrença óbvia, Cress disse:
— Você vai me proteger?
— Meio contra a vontade — retrucou Jacin. — Mas parece que sim.
— Enquanto pudermos — disse Winter. — E, se a oportunidade surgir, vamos fazer o melhor para juntar você aos seus amigos.
Pela primeira vez, as defesas de Cress começaram a baixar.
— Eles escaparam?
— Parece que sim. Ainda não foram encontrados, pelo que eu saiba.
— Mas a rainha não vai parar de procurar — acrescentou Jacin, como se as duas não soubessem disso.
Cress tinha parado de tremer. A expressão dela ficou pensativa enquanto observava Jacin. Finalmente, ela perguntou:
— Por acaso o alojamento dos guardas tem acesso à rede de transmissão real?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!