13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e três

DESTA VEZ, QUANDO CRESS ACORDOU, NÃO HAVIA AREIA envolvendo-a (embora houvesse muita), mas braços. Thorne a tinha puxado para tão perto de si que ela podia sentir o subir e descer do peito dele e a respiração na sua nuca. Ela abriu os olhos, ainda grogue.
A noite caíra. A lua tinha voltado, maior do que na noite anterior e cercada de um mar de estrelas que piscavam e cintilavam para eles.
Ela estava com uma sede mortal e não encontrava saliva que umedecesse a língua seca como papel. Começou a tremer, apesar das camadas de lençóis e cobertores, do paraquedas e do calor que subia da pele queimada. Apesar do calor protetor de Thorne.
Com os dentes batendo, ela se aconchegou nele o melhor que conseguiu. O abraço dele ficou mais apertado.
Ela ergueu o olhar. As estrelas estavam se movendo, girando sobre a cabeça dela como um redemoinho tentando sugar o planeta inteiro. As estrelas a estavam provocando.
Rindo.
Ela fechou bem os olhos e deu de cara com visões do sorriso cruel de Sybil. Manchetes de noticiários ecoaram na cabeça dela, faladas na voz nasal de uma criança. QUATORZE CIDADES ATACADAS... MAIOR MASSACRE DA TERCEIRA ERA... DEZESSEIS MIL MORTES...
— Cress. Cress, acorde.
Ela levou um susto, ainda tremendo. Thorne estava acima dela, os olhos cintilando sob o luar.
Ele encontrou o rosto dela, apertou a palma da mão na testa e falou um palavrão.
— Você está com febre.
— Estou com frio.
Ele massageou os braços dela.
— Me desculpe. Sei que você não vai gostar disso, mas precisamos nos levantar. Precisamos seguir em frente.
Foram as palavras mais cruéis que ele poderia ter dito. Ela se sentia fraca demais. O corpo todo parecia feito de areia que desmoronaria à menor brisa.
— Cress, você ainda está aqui?
Ele aninhou as bochechas dela com as mãos. A pele dele estava quente, aconchegante.
— Não consigo.
A língua grudou ao céu da boca quando ela falou.
— Consegue, sim. Vai ser melhor andar à noite, quando está mais fresco, do que tentarmos andar de dia. Você entende isso, certo?
— Meus pés doem... e estou tão tonta...
Thorne fez uma careta. Ela pensou em passar os dedos pelo cabelo dele. Em todas as fotos que viu, mesmo as da cadeia, ele estava tão bem cuidado, tão arrumado. Mas no momento estava desgrenhado, com pelos no queixo e sujeira no cabelo. Mas isso não o deixava menos bonito.
— Sei que você não quer seguir em frente — disse ele. — Sei que merece um descanso. Mas, se ficarmos deitados aqui, você talvez nunca se levante.
Ela não achou a ideia tão ruim. Quando a areia começou a se mexer debaixo dela, ela pressionou a mão no peito dele, procurando os batimentos firmes. Suspirou com alegria quando encontrou. Seu corpo começou a se dissolver, pequenos grãos de areia se espalhando...
— Capitão — murmurou ela. — Acho que estou apaixonada por você.
Ele levantou uma das sobrancelhas. Ela contou seis batimentos antes de ele dar uma gargalhada repentina.
— Não me diga que demorou dois dias inteiros para se dar conta disso. Devo estar perdendo o jeito.
Ela dobrou a ponta dos dedos encostados no peito dele.
— Você sabia?
— Que você é solitária e eu sou irresistível? Sim. Sabia. Venha, Cress, você vai se levantar.
Ela deixou a cabeça cair sobre a areia, o sono ameaçando tomar conta. Se ele ao menos se deitasse ao lado dela e a tomasse nos braços, ela jamais teria que se levantar novamente.
— Cress... ei, chega de dormir. Eu preciso de você. Lembre-se dos gaviões, Cress. Gaviões.
— Você não precisa de mim. Nem estaria aqui se não fosse por minha causa.
— Não é verdade. Bem... só em parte. Já falamos sobre isso.
Ela tremeu.
— Você me odeia?
— É claro que não. E você não devia desperdiçar sua energia falando sobre coisas idiotas.
Thorne passou o braço por baixo dos ombros dela e a obrigou a se sentar.
Cress segurou o pulso dele.
— Você acha que algum dia poderia me amar também?
— Cress, isso é lindo, mas eu não sou o primeiro cara que você conhece? Vamos, levante-se.
Ela virou a cabeça para o lado, sentindo a pressão do medo. Ele não acreditava nela. Não entendia o quanto o sentimento dela era intenso.
— Ah, espadas e ases e estrelas. — Ele gemeu. — Você não está chorando de novo, está?
— N-Não.
Ela mordeu o lábio. Não era mentira. Queria chorar, mas seus olhos estavam secos.
Thorne passou a mão pelo cabelo, e uma nuvem de areia caiu.
— Sim — disse ele com firmeza. — Está óbvio que somos almas gêmeas. Agora, por favor, levante-se.
— Você já deve ter dito para um monte de garotas que as amava.
— Ah, já, mas eu teria reconsiderado se soubesse que você usaria isso contra mim.
Tomada por uma onda de infelicidade, ela desabou ao lado dele. Sua cabeça girava.
— Estou morrendo — murmurou ela, surpresa com a certeza que sentia. — Vou morrer. E nunca nem fui beijada.
— Cress. Cress. Você não vai morrer.
— E nós teríamos um romance tão apaixonado, como nas novelas. Mas não, eu vou morrer sozinha, sem nunca ter tido nem um beijo.
Ele gemeu, mas de frustração, não de coração partido.
— Escute, Cress, odeio ter que dar a notícia, mas estou suado e todo coçando e não escovo os dentes há dois dias. Não é uma boa hora para romance.
Ela deu um gemido e colocou a cabeça entre os joelhos para tentar fazer o mundo parar de girar tão rápido. A falta de esperança da situação estava acabando com ela. O deserto não terminaria nunca. Eles nunca sairiam dali. Thorne nunca a amaria.
— Cress. Olhe para mim. Está olhando para mim?
— Aham — murmurou ela.
Thorne hesitou.
— Não acredito em você.
Suspirando, ela levantou a cabeça para olhar para ele pela cortina do cabelo cortado.
— Estou olhando para você.
Ele se agachou perto dela e procurou o rosto.
— Prometo que não vou deixar você morrer sem ser beijada.
— Estou morrendo agora.
— Você não está morrendo.
— Mas...
— Eu decidirei quando você estiver morrendo e, quando isso acontecer, garanto que você vai ganhar um beijo que vai valer a espera. Mas agora você precisa se levantar.
Ela ficou olhando para ele por um tempo. Os olhos estavam surpreendentemente límpidos, quase como se Thorne conseguisse vê-la, e ele não fez caretas com o silêncio cético dela. Não deu um sorriso indiferente nem ofereceu uma provocação em seguida.
Apenas esperou.
Ela não conseguiu controlar quando sua atenção se desviou até os lábios dele e sentiu uma coisa tremer dentro de si. Determinação.
— Você promete?
Ele concordou.
— Prometo.
Tremendo por causa da dor que a esperava, ela se preparou e esticou as mãos para ele. O mundo se inclinou quando ele a puxou e ela cambaleou, mas Thorne a segurou até estar firme. A fome rugia no estômago vazio. A dor latejava nos pés machucados, subindo pelas pernas e pela coluna. O rosto todo se contorceu, mas ela ignorou da melhor maneira que pôde. Com a ajuda de Thorne, reamarrou o lençol na cabeça.
— Seus pés estão sangrando?
Ela mal os via na escuridão, e ainda estavam envoltos pelas toalhas.
— Não sei. Estão doendo. Muito.
— Sua febre pode ser de infecção. — Ele entregou a ela a última garrafa de água, já pela metade. — Ou você pode estar desidratada. Beba tudo.
Ela fez uma pausa com a garrafa de água já encostada na boca, com cuidado para não perder nem uma gota. Era uma oferta tentadora. Ela podia beber tudo e ainda sentir sede, mas...
— Tudo — disse Thorne.
Ela bebeu até conseguir parar sem a garganta implorar por mais.
— Mas e você?
— Eu já tomei minha parte.
Ela sabia que não era verdade, mas sua tolerância por altruísmo diminuía a cada gole, e em pouco tempo fez o que ele pediu e bebeu tudo. Ficou oscilando com a garrafa virada para o céu, torcendo para conseguir mais uma gota, até ter certeza de não haver mais nada lá dentro.
Ela quase perdeu o equilíbrio e colocou a garrafa vazia com pesar na bolsa-cobertor no ombro de Thorne. Ao olhar para o horizonte, viu as sombras das montanhas, ainda muito distantes.
Thorne pegou a bengala, e ela se obrigou a respirar fundo três vezes antes de começar, torcendo para que lhe desse coragem. Cress estimou a quantidade de passos necessários para chegarem à próxima duna e começou a contar. Um pé na frente do outro. Ar quente para dentro, ar quente para fora. A fantasia de ser uma exploradora corajosa já tinha desaparecido, mas se manteve agarrada à ideia de que Thorne contava com ela.
Subiu a duna, e seus dentes começaram a bater de novo. Tropeçou duas vezes. Tentou se lembrar de fantasias reconfortantes. Uma cama macia, um cobertor velho. Dormir até bem depois do nascer do sol em um aposento com pouca iluminação em que flores cresciam do lado de fora das janelas. Acordar nos braços de Thorne. Os dedos dele tirando o cabelo da testa dela, a pressão de um beijo de bom-dia em sua têmpora...
Mas não conseguia sustentar essas fantasias. Não conhecia um quarto assim, e as visões difíceis de montar eram logo obscurecidas pela dor.
Uma duna veio e foi. Ela já estava ofegante.
Duas dunas. As montanhas permaneciam ao longe, provocantes.
Cada vez que chegavam ao topo de uma duna, ela se concentrava na seguinte. Vamos só chegar lá em cima e vou me sentar por um minuto. Só mais uma...
Mas, em vez de se permitir descansar quando o objetivo era alcançado, ela escolhia outro e seguia em frente.
Thorne não dizia nada quando ela tropeçava e caía de joelhos. Só a ajudava a se levantar e a colocava de pé. Não dizia nada quando ela reduzia o ritmo e passava a rastejar, desde que não parassem. A presença dele era reconfortante; nunca impaciente, nunca grosseira.
Depois de séculos de progresso delirante e enlouquecedor pela areia, quando ela sentia como se todos os membros estivessem prestes a cair, o céu do leste começou a clarear, e Cress percebeu que a paisagem estava mudando. As dunas diminuíam de quantidade e tamanho e, não muito longe, pareciam terminar em uma planície comprida de sol pedregoso e vermelho, com arbustos raros e ásperos. Atrás disso começava o pé das montanhas.
Ela olhou para Thorne e ficou surpresa de ver a evidência de exaustão nas feições dele, embora ele a substituísse por determinação firme quando paravam.
Ela descreveu a paisagem da melhor maneira que conseguiu.
— Você consegue estimar quanto tempo vamos demorar a chegar a esses arbustos?
Ela fez uma estimativa, sem esconder o pânico de que acabasse sendo outra ilusão e que o fim da areia e das dunas fosse se afastar a cada passo que dessem.
— Não.
Ele assentiu.
— Tudo bem. Vamos tentar chegar lá antes que fique quente demais. Talvez consigamos um pouco de orvalho dos galhos.
Orvalho. Água. Só uma lambida, só um gostinho... ela nunca mais esnobaria um gole lamacento que fosse.
Ela recomeçou a andar, as pernas berrando nos primeiros passos, até começarem a ficar dormentes com a infinita caminhada.
E então sua visão encontrou uma coisa grande e branca, e ela ficou paralisada.
Thorne se chocou contra ela, e Cress teria caído se ele não tivesse passado os braços ao redor dos ombros dela para segurá-la.
— O que foi?
— Tem... um animal — sussurrou ela, com medo de assustar a criatura de pé no alto da duna.
Ele já os tinha visto e estava olhando serenamente para Cress. Ela tentou identificá-lo com base do que sabia da vida animal terrestre. Algum tipo de cabra? Uma gazela? Tinha pernas brancas magras sobre patas enormes e uma barriga redonda que mostrava as pontas das costelas. A cara calma era marrom com marcas brancas e pretas, como uma máscara ao redor dos olhos. Dois chifres enormes em espiral subiam da cabeça, dobrando sua altura.
Era o primeiro animal terráqueo que ela via, e era lindo e majestoso e misterioso, observando-a com olhos escuros, sem piscar.
Por um momento, ela imaginou que seria capaz de falar com ele em pensamento, pedir que os levasse até um lugar seguro. Ele reconheceria a bondade dentro dela e sentiria pena, como uma deusa animal antiga enviada para guiá-la até seu destino.
— Animal? — disse Thorne, e Cress percebeu que ele estava esperando que ela explicasse melhor o que estava vendo.
— Tem pernas compridas e chifres e... e é lindo.
— Ah, que bom, estamos de volta a isso então.
Ela percebeu o sorriso no tom dele, mas não ousou afastar o olhar da criatura, com medo de que se dissolvesse no ar como um fantasma.
— Isso pode querer dizer que há uma fonte de água por perto — refletiu Thorne. — Devemos seguir em frente.
Cress deu um passo hesitante. Sentiu a areia escorregando com mais clareza e reconheceu o quanto ela e Thorne eram desajeitados, tropeçando e cambaleando pelas dunas, enquanto essa criatura era tão elegante e calma.
A criatura inclinou a cabeça sem se mexer enquanto Cress se aproximava.
Ela só percebeu que estava prendendo a respiração quando as pálpebras do animal tremeram e ele virou a cabeça na direção de alguma coisa do outro lado da duna.
O estrondo de um tiro soou no deserto.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!