3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e Três

KAI CRAVOU AS UNHAS NOS JOELHOS QUANDO O CÂNTICO DOS protestos cessou. Torin virou-se para ele, a expressão espelhando espanto, embora o conselheiro tivesse sido mais rápido em disfarçar. O sucesso da rainha em acalmar a multidão fora fácil demais; Kai esperava pelo menos por um pouco de luta por parte dos cidadãos.
Engolindo em seco, Kai metamorfoseou o rosto de volta ao autocontrole.
— É um truque muito útil — disse Sybil, sentando na ponta de uma chaise lounge diante da fogueira holográfica. Ela entrelaçou as mãos. — Especialmente ao lidar com cidadãos desobedientes, que nunca são tolerados em Luna.
— Ouvi dizer que, quando os cidadãos são desobedientes, em geral há uma boa razão para isso — disse Kai. Torin lançou uma expressão de alerta, com o cenho franzido, mas ele o ignorou. — E lavagem cerebral não parece exatamente uma solução apropriada.
Sybil juntou as mãos no colo polidamente.
— Apropriada é uma palavra tão subjetiva. Essa solução é efetiva, e dificilmente se pode argumentar contra ela.
Levana voou para o parlatório com os punhos fechados. A pulsação de Kai se acelerou quando o olhar da rainha caiu sobre ele. Estar na presença dela era como sentar-se em um ambiente confinado que ficava rapidamente sem oxigênio.
— Poderia parecer — disse ela, enunciando com cuidado cada palavra — que você está violando o Acordo Interplanetário do ano 54 da T.E., artigo 17.
Kai fez seu melhor para continuar indiferente diante da acusação, mas não conseguia evitar um espasmo que fazia tremer seu olho direito.
— Receio não ter memorizado o Acordo Interplanetário na íntegra. Quem sabe você possa me esclarecer sobre o artigo em questão?
Ela respirou fundo pelas narinas dilatadas. Mesmo então — mesmo com todo o ódio e a raiva aparentes em seu rosto —, ela era deslumbrante.
— O artigo 17 declara que nenhuma das partes do acordo deve de modo consciente abrigar ou proteger fugitivos lunares.
— Fugitivos lunares? — Kai olhou para Torin, mas o conselheiro manteve a expressão neutra. — Por que você pensaria que estamos abrigando fugitivos lunares?
— Porque acabei de ver um no seu jardim, em meio àqueles protestantes insolentes. Isso não deve ser tolerado.
Kai se levantou e cruzou os braços.
— Essa é a primeira vez que escuto falar de lunares em meu país. Exceto pela companhia presente, é claro.
— O que me leva a acreditar que você tem feito vista grossa para o problema, exatamente como seu pai fazia.
— Como posso fazer vista grossa para uma coisa da qual nunca ouvi falar?
Torin limpou a garganta.
— Com o devido respeito, Vossa Majestade, posso assegurar que monitoramos todas as naves espaciais que entram e saem da Comunidade. Embora não possamos negar a possibilidade de que alguns lunares estejam sendo contrabandeados sob o nosso radar, posso prometer que fazemos todo o possível para cumprir o Acordo Interplanetário. Além disso, mesmo que um fugitivo lunar residisse na Comunidade, parece improvável que ele se arriscasse a ser descoberto vindo a um protesto sabendo que você estaria presente. Talvez você tenha se enganado.
Os olhos da rainha arderam lentamente.
— Eu reconheço os meus quando os vejo, e há um deles dentro dos muros desta cidade. — Ela apontou para a varanda. — Quero que a encontrem e a tragam até mim.
— Certo — disse Kai —, isso não será problema em uma cidade de dois milhões e meio de habitantes. Deixe só eu ligar meu detector especial de lunares e já resolveremos isso.
Levana jogou a cabeça para trás.
— Você não vai querer testar minha paciência com seu sarcasmo, jovem príncipe.
Ele contraiu o rosto.
— Se você é incapaz de encontrá-la, então designarei um regimento de meus próprios guardas para que venham até a Terra, e eles a encontrarão.
— Isso não será necessário — disse Torin. — Nós pedimos perdão por duvidarmos de você, Vossa Majestade, e estamos ansiosos para cumprir a parte do acordo concernente ao nosso país. Por favor, nos dê tempo para preparar a coroação e o festival, e começaremos nossa busca pela fugitiva tão logo nosso recursos permitam.
Levana estreitou os olhos para Kai.
— Você pretende deixar que seu conselheiro sempre tome as decisões por você?
— Não — disse Kai, deixando escapar um sorriso frio. — Em algum momento, terei uma imperatriz para isso.
O olhar da rainha Levana se suavizou, e Kai mal pôde conter as palavras seguintes. E não será você.
— Tudo bem — disse Levana, virando-se e sentando-se ao lado de sua taumaturga. — Esperarei que ela, e mais qualquer outro fugitivo lunar que esteja em seu país, seja entregue em Luna um ciclo lunar depois de sua coroação.
— Está bem — disse Kai, esperando que Levana esquecesse aquela conversa antes que o prazo se esgotasse. Lunares em Nova Pequim: ele nunca ouvira nada tão absurdo.
A raiva desapareceu tão completamente do rosto de Levana que parecia que os últimos minutos tinham sido um sonho. Ela cruzou as pernas, de forma que a fenda no vestido transparente exibiu a pele branca como leite. Kai relaxou a mandíbula e olhou pela janela, sem saber se coraria ou vomitaria.
— Falando na sua coroação — disse a rainha —, trouxe um presente para você.
— Que atencioso — respondeu, sarcástico.
— Sim. Eu não estava certa se deveria esperar até a grande noite, mas concluí que poderia passar uma impressão errada se tentasse retardar isso.
Incapaz de negar sua curiosidade aguçada, Kai dirigiu o olhar à rainha.
— É mesmo?
Ela inclinou a cabeça, cachos ruivos caindo em cascata sobre o peito, e estendeu os dedos na direção de seu segundo taumaturgo, o homem do casaco vermelho. Ele tirou um frasco de vidro, não maior do que o dedo mindinho de Kai, da manga e o pousou na palma da mão de Levana.
— Quero que você saiba — disse Levana — que tenho um grande interesse no bem-estar da Comunidade, e ver sua luta contra a letumose tem sido de partir o coração.
Kai enterrou as unhas nas palmas das mãos.
— Você provavelmente não está ciente, mas tenho uma equipe de pesquisadores dedicada a estudar a doença há alguns anos, e parece que finalmente meus cientistas descobriram um antídoto.
O sangue subiu à cabeça de Kai.
— O quê?
Levana apertou o frasco entre o polegar e o indicador e o estendeu para ele.
— Esta dose deve ser suficiente para curar um homem adulto — disse ela, e depois estalou a língua. — Que hora inadequada, não é?
O mundo girou. Os dedos de Kai queriam tanto estrangulá-la que seus braços começaram a tremer.
— Vá em frente — disse Levana, um calor persistente no olhar. — Pegue.
Kai deu um tapa no frasco, arremessando-o da mão da rainha.
— Há quanto tempo você tem isso?
As sobrancelhas da rainha se arquearam.
— Por quê? Somente foi confirmado como um antídoto de fato horas antes de minha partida.
Ela estava mentindo. E nem tentava esconder o fato de que estava mentindo.
Bruxa.
— Vossa Alteza — disse Torin com a voz baixa, pousando a mão firme no ombro de Kai. Primeiro com gentileza, depois apertando, como um aviso. A pulsação de Kai começou a filtrar as fantasias de assassinato, mas apenas de maneira superficial.
Levana cruzou as mãos no colo.
— Este frasco é seu presente. Espero que o ache útil, jovem príncipe. Acredito que seja tanto do meu interesse quanto do seu varrer essa doença de seu planeta. Meus cientistas poderiam preparar milhares de doses até o fim do mês. Entretanto, tal empreitada, possível graças a seis anos de trabalho e pesquisa, exigiu muito esforço de meu próprio país, então tenho certeza de que você entenderá que preciso de alguma compensação. Isso levará a negociações mais aprofundadas.
Os pulmões de Kai se comprimiram.
— Você guardaria isso para si? Quando tantos estão morrendo? — Foi uma pergunta estúpida. Ela já havia guardado o antídoto por tempo suficiente. Por que a incomodaria se mais terráqueos sofressem nesse meio-tempo?
— Você tem muito que aprender sobre política. Acho que em breve descobrirá que tudo gira em torno de dar e receber, meu querido e belo príncipe.
O sangue de Kai pulsava em suas têmporas. Ele sabia que seu rosto tinha ficado vermelho, que sua raiva era o objetivo do jogo dela, mas não se importava. Como ela ousava usar isso como objeto de barganha política? Como ela ousava?
Sybil rapidamente ficou de pé.
— Nós temos companhia.
Liberando a respiração presa, Kai seguiu o olhar de Sybil até a entrada, feliz por desviar o olhar da rainha, e arfou.
— Nainsi!
O sensor de Nainsi piscou.
— Vossa Alteza, perdoe minha interrupção.
Kai balançou a cabeça, tentando dispersar sua surpresa.
— Como… quando…?
— Minha consciência foi restaurada há uma hora e vinte e sete minutos — disse o androide. — E agora estou me apresentando para o trabalho. Deixe-me oferecer minhas condolências pela perda precoce do imperador Rikan. Meu coração está partido com a notícia.
Kai ouviu a rainha Levana rir com desdém atrás dele.
— A ideia de que uma pilha de metal possa sentir alguma emoção é insultante. Tirem essa monstruosidade daqui.
Kai franziu os lábios, pensando em uma série de palavras a dizer sobre como faltava a ela um coração, mas em vez disso se virou para Torin.
— De fato, deixe-me tirar essa monstruosidade da presença de Sua Majestade e reativá-la em suas funções.
Ele meio que esperava que Torin o repreendesse pelo plano de fuga deplorável, mas Torin pareceu aliviado que a discussão tivesse acabado. Kai notou que ele ficara pálido e se perguntou o quão difícil havia sido para ele dominar seu próprio mau humor.
— É claro. Quem sabe Vossa Majestade queira conhecer os jardins?
Kai olhou cheio de ódio para a rainha Levana e juntou os calcanhares.
— Obrigado pelo presente tão cheio de consideração — disse ele com uma breve reverência.
— O prazer é meu, Vossa Alteza.
Kai deixou o recinto com Nainsi. Quando chegaram ao corredor principal, ele soltou um grito gutural e socou com o punho a parede mais próxima, e se apoiou nela, pressionando a testa no emboço.
Quando sua respiração estava sob controle, ele se virou, de repente querendo chorar — de raiva, de desespero, de alívio. Nainsi estava de volta.
— Você não pode imaginar como estou feliz em vê-la.
— É o que parece, Vossa Alteza.
Kai fechou os olhos.
— Você não faz ideia. Os últimos dias. Eu tinha certeza de que nossa pesquisa tinha se perdido.
— Todos os registros parecem intactos, Vossa Alteza.
— Bom. Precisamos retomar a pesquisa imediatamente. Agora é mais importante do que nunca.
Ele lutou para conter o pânico que crescia dentro de si. Faltavam nove dias para sua coroação. A rainha Levana estava na Terra havia menos de vinte e quatro horas e já tinha transformado as negociações de aliança em um caos. Quais outros segredos ela revelaria antes da coroação, quando a função de proteger seu país cairia de fato sobre ele?
Sua cabeça latejava. Ele a desprezava, por tudo o que ela era, por tudo que fizera, por como transformara o sofrimento na Terra em um jogo político. Mas ela estava enganada se achava que ele se tornaria seu animalzinho de estimação. Ele a enfrentaria o tempo que suportasse, da maneira que pudesse. Encontraria a princesa Selene. O dr. Erland copiaria o antídoto. Sequer dançaria com Levana naquele baile absurdo se pudesse evitar — que a diplomacia fosse para o inferno.
Lembrar-se do baile de repente atraiu nuvens negras para os pensamentos de Kai. Abrindo um olho, ele observou o androide.
— Por que a mecânica não veio com você?
— Ela veio — respondeu Nainsi. — Deixei-a esperando do lado de fora do palácio. A entrada dela não foi permitida sem um passe oficial.
— Do lado de fora do palácio? Ela ainda está lá?
— Suspeito que sim, Vossa Alteza.
Kai apertou o frasco no bolso.
— Ela disse alguma coisa sobre o baile? Sabe se ela mudou de ideia?
— Ela não mencionou baile algum.
— Está bom. Bem. — Engolindo em seco, ele tirou as mãos dos bolsos e esfregou as palmas nos lados da calça, percebendo o quão quente sua raiva contida as tornara. — Eu realmente espero que ela tenha mudado de ideia.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!