7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e Sete

A PORTA SE FECHOU ATRÁS DELES. SCARLET SE VIU NO SAGUÃO imenso de uma casa de ópera, escuro como piche, exceto por calorosas e tremeluzentes chamas de velas além dos arcos. O saguão estava tomado por silêncio, poeira e pedaços de mármore quebrado no chão.
A poeira entrou na garganta de Scarlet, e ela lutou para não tossir enquanto se deslocava na direção da luz. Os passos soaram absurdamente altos no prédio vazio e oco quando passou entre duas colunas gigantescas.
Scarlet ficou sem ar. A luz vinha de uma de duas estátuas que flanqueavam uma enorme escadaria dupla. Eram duas mulheres envoltas em tecidos leves no alto de um pedestal, cada uma segurando um buquê de tochas. Dezenas de velas de cera brilhavam e tremiam, projetando uma camada alaranjada e fantasmagórica no saguão. A escadaria, entalhada em mármore branco e vermelho, estava sem algumas balaustradas, e uma das estátuas similares à primeira estava sem cabeça e o braço que antes sustentara o candelabro.
Seu pé se afundou em uma poça e Scarlet pulou para trás, primeiro olhando para baixo, para o piso quebrado de mármore, depois para cima. Três andares de sacadas se erguiam acima e, no centro, aonde quase não chegava luz, havia um teto pintado com uma claraboia quadrada no centro. Parecia que a vidraça não estava lá havia tempo.
Abraçando o próprio corpo, Scarlet virou para Lobo. Ele tinha parado de pé entre as colunas.
— Talvez estejam dormindo — disse ela, tentando parecer indiferente.
Lobo saiu das sombras e andou até a escadaria. Seu corpo estava tão tenso quanto os das estátuas que os observavam.
O olhar de Scarlet se dirigiu para os corrimões acima, mas ela não viu movimento, nenhum sinal de vida. Nenhum lixo. Nenhum cheiro de comida. Nenhum som de fala nem de telas. Até os sons da rua tinham desaparecido atrás das portas enormes.
Trincou os dentes e a raiva despertou dentro de si, com a sensação terrível de estar presa como um rato em uma ratoeira. Passando por Lobo, andou na direção da escada até os dedos dos pés tocarem o primeiro degrau.
— Olá? — gritou ela, olhando para cima. — Vocês têm visita!
As palavras ecoaram, hostis e desafiadoras.
Nenhum som. Nenhum alarme.
E então, no silêncio, um som leve de sino. Scarlet levou um susto ao ouvir o ruído que ecoava entre os pilares de mármore, apesar de vir, abafado, de seu bolso.
Com o coração disparado, pegou o tablet na hora em que a voz computadorizada começou a falar.
— Mensagem para mademoiselle Scarlet Benoit de L’hôpital Joseph Ducuing em Toulouse.
Scarlet piscou. Hospital?
Com as mãos tremendo, abriu a mensagem.

30 AGO 126 T.E.
O OBJETIVO DESTA MENSAGEM É INFORMAR A SCARLET BENOIT, DE RIEUX, FRANÇA, FEDERAÇÃO EUROPEIA, QUE ÀS 05H09 DE 30 AGO 126, LUC ARMAN BENOIT, DE PARIS, FRANÇA, FEDERAÇÃO EUROPEIA, FOI DECLARADO MORTO PELO MÉDICO DE PLANTÃO ID #58279. SUPOSTA CAUSA DA MORTE: INTOXICAÇÃO POR ÁLCOOL.
FAVOR RESPONDER DENTRO DE 24 HORAS CASO DESEJE UMA AUTÓPSIA FEITA AO CUSTO DE 4500 UNIVS.
COM NOSSOS SENTIMENTOS,
EQUIPE DO L’HÔPITAL JOSEPH DUCUING, TOULOUSE

Mergulhada em confusão, seu coração perdeu o ritmo. Não conseguia absorver a mensagem, o cérebro a ficava repassando, de novo e de novo. Visualizou o pai da última vez que o viu, perdido em devaneios, torturado e com medo. Como tinha gritado com ele. Dissera que jamais queria voltar a vê-lo.
Como ele podia estar morto, apenas vinte e quatro horas depois? E não devia ter recebido uma mensagem quando ele deu entrada no hospital? Não devia ter recebido um aviso?
Com o equilíbrio instável, olhou para Lobo.
— Meu pai está morto — disse, o sussurro mal se espalhando no espaço enorme. — Intoxicação por álcool.
Ele abriu a boca.
— Tem certeza?
A desconfiança dele demorou a ser percebida por causa da total apatia dela.
— Você acha que mandaram a mensagem por engano?
Um toque de pena brilhou nos olhos dele.
— Não, Scarlet. Mas acho que ele estava correndo um risco muito pior do que o prazer de beber.
Ela não entendeu. Seu pai tinha sido torturado, mas as marcas de queimadura não o teriam matado. A insanidade também não.
Em meio à névoa em seu cérebro, um instinto delicado e insinuante a mandou olhar para cima. Ela olhou.
Atrás de Lobo, ladeado por dois pilares que sustentavam castiçais apagados, havia um homem. Esguio e magro, com cabelo escuro e ondulado e olhos quase negros que ardiam à luz das chamas. Teria um sorriso agradável se Scarlet não tivesse levado um susto tão grande, tanto com a presença dele quanto pelo silêncio, e também pelo fato de Lobo não parecer surpreso por ele estar ali, nem se dar ao trabalho de olhar apesar de certamente sentir sua presença.
Mais apavorante do que tudo eram as roupas. Usava um casaco vermelho carmim largo na cintura com mangas longas e largas. Runas bordadas em dourado brilhavam nas beiradas. Era quase como uma fantasia de criança, uma imitação da horrível corte lunar.
O medo vibrou no peito de Scarlet. Isso não era uma fantasia. Era um pesadelo, uma história de horror contada para fazer com que as crianças se comportassem.
Um taumaturgo. Um taumaturgo lunar.
— Oi — disse o homem, com uma voz doce e suave como caramelo derretido. — Você deve ser mademoiselle Benoit.
Ela cambaleou para trás no primeiro degrau e segurou o corrimão para se equilibrar. Em frente, Lobo baixou os olhos e virou. O homem o cumprimentou com um aceno educado.
— Alfa Kesley, fico feliz que tenha voltado em segurança. E, se entendi corretamente a mensagem que a moça acabou de receber, a tarefa de Beta Wynn em Toulouse também deve ter sido concluída. Parece que logo a matilha estará completa.
Lobo apertou o punho contra o peito e fez uma leve reverência.
— Fico feliz em saber, Mestre Jael.
Scarlet engoliu em seco e apoiou o quadril no corrimão.
— Não — disse, achando a voz na segunda tentativa. — Ele me trouxe aqui para encontrar minha avó. Não é mais parte do seu grupo.
O sorriso do homem foi caloroso e compreensivo.
— Entendo. Tenho certeza de que você deve estar ansiosa para ver sua avó. Espero poder reunir vocês duas em breve.
Scarlet fechou as mãos.
— Onde ela está? Se você a machucou...
— Ela está bem viva, eu garanto — disse o homem. Sem nenhuma mudança de expressão, se voltou para Lobo. — Me conte, alfa, você conseguiu cumprir seus objetivos?
Lobo baixou a mão ao lado do corpo. A obediência emanava dele como um disfarce leve e absurdo.
Uma dor de cabeça latejou nas têmporas de Scarlet. Os nervos zumbiam enquanto ela esperava, torcendo e desejando que ele contasse ao homem que tinha abandonado a matilha ridícula e nunca ia voltar.
Mas a esperança não demorou muito. Foi descartada antes mesmo de Lobo abrir a boca.
Esse homem não era um criminoso rebelde, um integrante de uma gangue paramilitar. Se era mesmo um taumaturgo, um taumaturgo de verdade de pé à frente dela, ele trabalhava para a coroa lunar.
E Lobo... o que isso fazia de Lobo?
— Eu a interroguei da melhor forma que pude — respondeu Lobo. — Ela só tem uma única lembrança vaga, mas duvido tanto da utilidade quanto da confiabilidade. O tempo e o estresse parecem ter afetado as lembranças, e a essa altura não tenho dúvidas de que criaria histórias falsas se acreditasse que poderiam ajudar a avó.
O taumaturgo ergueu a cabeça, refletindo. Alfa Kesley.
O coração de Scarlet martelou dentro do peito, pronto para sufocá-la.
Eu a interroguei da melhor forma que pude.
— Lobo.
Ele não olhou para ela. Não se moveu, nem suspirou, nem reagiu. Era uma estátua. Era um peão.
O taumaturgo emitiu um som triste.
— Não importa. — Em seguida, depois de um silêncio no qual Scarlet sentiu como se a escada estivesse desmoronando abaixo de si, acrescentou: — Ômega Kesley deveria ter informado a você que nossos objetivos mudaram. Vossa Majestade não está mais preocupada em identificar Selene.
Os dedos de Lobo tremeram.
— Ainda assim, está claro para mim que madame Benoit ainda não revelou todos os seus segredos. Talvez possamos encontrar outro uso para a mademoiselle.
Lobo levantou a cabeça ligeiramente.
— Se ela tivesse qualquer informação adicional, teria me contado. Tenho certeza de que a confiança dela era completa.
Scarlet meio que despencou no corrimão de mármore, segurando a base da estátua sem cabeça para não cair no chão.
— Tenho certeza de que você se saiu muito bem — disse o taumaturgo. — Não fique alarmado. Vou cuidar para que seus esforços recebam o reconhecimento apropriado.
— Quem é Beta Wynn? — perguntou Scarlet. — Qual era a missão dele em Toulouse? — A voz estava fraca, tomada de descrença enquanto ela tentava se equilibrar na escada. Lutou para acreditar que era um pesadelo. Em pouco tempo, acordaria no trem, nos braços de Lobo, e tudo aquilo aconteceria de maneira muito diferente. Mas não acordou, e o taumaturgo continuava olhando para ela com olhos escuros e solidários.
— A missão de Beta Wynn era matar seu pai de forma que não despertasse suspeitas — respondeu, sem problema nenhum, como se estivesse dizendo que horas eram. — Ofereci uma chance ao seu pai. Se ele tivesse encontrado alguma coisa útil na propriedade de madame Benoit, acho que eu realmente teria pensado em deixá-lo viver, talvez como escravo. Mas ele falhou após o prazo que demos, por isso fui obrigado a mandar silenciá-lo. Sabia muito sobre nós, entende, e tinha cumprido sua função. Infelizmente, temos pouca tolerância com terráqueos inúteis.
Ele sorriu, e a expressão pareceu fazer as entranhas de Scarlet se retorcerem, não por ser um sorriso cruel, mas por ser um sorriso gentil.
— Você parece estar se sentindo mal, mademoiselle. Talvez precise descansar um pouco antes de estar pronta para ver sua avó. Rafe, Troya, podem levar a moça para o quarto que preparamos para ela?
Os dois surgiram das sombras, homens que não passavam de manchas na lembrança de Scarlet. Eles a levantaram pelos cotovelos, sem se darem o trabalho de amarrá-la ou algemá-la.
A mente dela apagou e, antes que percebesse, estava enfiando a mão na cintura da calça.
A mão de Lobo chegou lá primeiro, e seu braço tocou de leve na lateral do corpo dela. A respiração ficou presa na garganta e Scarlet ficou paralisada, observando o rosto dele com olhos arregalados. Os olhos cor de esmeralda estavam vazios quando ele levantou as costas do moletom e puxou a arma.
Ele ia matá-los.
Ele ia protegê-la.
Girando a arma de forma a segurá-la pelo cano, Lobo a entregou a um dos captores.
Quando a severidade dele sumiu e indicou a presença de alguma coisa parecida com remorso, Scarlet firmou o maxilar.
— Um Soldado Leal da Ordem da Matilha?
Ela percebeu a dor quando ele engoliu em seco.
— Não. Agente Especial Lunar.
O salão girou.
Lunar. Ele era lunar. Trabalhava para eles.
Trabalhava para a rainha.
Scarlet virou a cabeça e forçou as pernas a serem fortes, se recusando a ser carregada como uma criança quando a guiaram até outra escadaria, que levava aos andares subterrâneos do teatro. Mas se recusou a dar a eles o prazer de uma luta.
A voz do taumaturgo soou atrás dela, benevolente.
— Você tem minha permissão para descansar até o pôr do sol, Alfa Kesley. Posso ver que seu esforço o exauriu.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!