20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e sete


Scarlet estava trabalhando naquela coisa nova que ela gostava de chamar de não reagir.
Era uma habilidade que não ocorria a ela naturalmente. Mas quando era ela quem estava trancada em uma jaula e o inimigo estava do lado de fora, implicando e rindo e sendo idiota, não reagir parecia um hábito melhor do que gritar obscenidades e tentar acertar golpes por entre as barras.
Pelo menos oferecia um pouco mais de dignidade.
— Você não consegue fazer com que ela faça algum truque? — perguntou a mulher lunar, segurando um guarda-chuva de penas de coruja sobre um ombro, embora Scarlet não soubesse de que ela estava se protegendo. De acordo com Winter, faltavam seis dias para eles verem a luz do sol de verdade de novo, e não havia chuva em Luna.
O companheiro da mulher se inclinou, apoiou as mãos nos joelhos e espiou Scarlet por entre as barras. Ele estava usando óculos de sol laranja. Mais uma vez, Scarlet não sabia por quê.
Scarlet, de pernas cruzadas no chão, com as mãos dobradas sobre o colo e o capuz puxado para cobrir a cabeça até as orelhas, olhou para as pessoas.
Sou uma visão de tranquilidade e indiferença.
— Faça alguma coisa — ordenou ele.
Scarlet piscou.
Ele olhou para ela de cara feia.
— Todo mundo diz que os terráqueos são fofos e divertidos. Por que você não faz uma dança para nós?
As entranhas dela se contorceram, querendo mais do que qualquer coisa mostrar àquele homem como ela sabia ser fofa e divertida. Mas, por fora, parecia uma estátua.
— Você é muda ou só é burra? Não ensinam a você naquela pedra lá como se dirigir aos seus superiores?
Sou a essência da paz e da calma.
— Qual é o problema com a mão dela? — quis saber a mulher.
O homem olhou para baixo.
— Qual é o problema com sua mão?
Os dedos dela nem tremeram. Nem o que estava pela metade.
A mulher bocejou.
— Estou entediada, e os terráqueos fedem. Vamos olhar os leões.
O homem se empertigou com as mãos na cintura. Scarlet conseguia vê-lo calculando alguma coisa em pensamento. Ela achava que ele não tentaria usar o dom nela; ninguém a manipulou desde que foi levada para o jardim, e ela estava começando a desconfiar que seu status como bichinho da princesa a estava protegendo dessa tortura, pelo menos.
Ele deu um passo para frente. Atrás dele, Ryu rosnou.
Foi um teste de força de vontade para Scarlet sufocar um sorriso. Ela tinha passado mesmo a gostar daquele lobo.
Apesar de a mulher ter olhado de relance para o cercado do lobo, o homem continuou com a atenção grudada em Scarlet.
— Você está aqui para nos entreter — disse ele. — Então faça alguma coisa. Cante uma música. Conte uma piada. Alguma coisa.
No meu próximo truque, vou vencer uma competição de quem fica mais tempo sério com o babaca de óculos laranja.
O homem rosnou, pegou o guarda-chuva da namorada e o fechou. Segurando o cabo curvo, ele empurrou a ponta pelas barras e cutucou Scarlet no ombro.
Ryu latiu.
A mão de Scarlet subiu na hora e se fechou no tecido de penas. Ela puxou o guarda-chuva fechado, e o homem cambaleou na direção da jaula. Scarlet empurrou o cabo do guarda-chuva na cara dele. Ele gritou e cambaleou para trás, os óculos caindo no chão. Sangue jorrou de seu nariz.
Scarlet deu um sorrisinho enquanto jogava o guarda-chuva do lado de fora; não fazia sentido ficar com ele, pois os guardas tirariam dela. Sufocou a expressão arrogante e voltou à expressão neutra.
Essa coisa de não reagir estava funcionando melhor do que ela esperava.
Depois de xingar e gritar e ficar com a camisa cheia de sangue, o homem pegou a namorada e o guarda-chuva e foi embora na direção da entrada do jardim. Eles provavelmente contariam tudo para os guardas. Ela provavelmente ficaria sem uma refeição ou duas por causa do mau comportamento.
Valia a pena.
Ela encarou os olhos amarelos de Ryu do outro lado e piscou. Em resposta, o lobo ergueu o focinho e uivou, um som curto e alegre.
— Você fez um amigo.
Ela levou um susto. Um guarda estava encostado em uma árvore de folhas grandes, com os braços cruzados e o olhar duro. Ele não era um dos guardas normais dela, mas havia um ar de familiaridade. Ela se perguntou quanto tempo havia que estava ali de pé.
— Nós, animais, ficamos do lado um do outro — disse ela, mas decidiu que isso era o máximo que ele arrancaria dela. Ela não estava ali para entreter os aristocratas lunares mimados e não ia entreter um dos asseclas estúpidos da rainha.
— Acho que faz sentido você gostar daquele ali. Ele tem parentesco com seu namorado.
O coração dela disparou. Um mau presságio surgiu em seu peito.
O guarda se afastou da árvore e andou na frente do cercado de Ryu. Uma das mãos estava no cinto, no cabo de uma faca enorme. O lobo parou, apoiado nas quatro patas com cara de quem não tinha decidido se confiava naquele estranho ou não.
— O pai deste aqui era o lobo cujo DNA coletaram quando começaram a fazer experiências com os soldados. O estimado lobo do ártico da rainha. Já foi um macho alfa. — Ele se virou para Scarlet. — Mas é preciso uma matilha para ser alfa, não é?
— Eu não saberia — respondeu ela.
— Pode confiar na minha palavra. — Ele inclinou a cabeça e a inspecionou. — Você não sabe quem eu sou.
Ele falou isso na hora em que a lembrança estalou. O cabelo louro, o uniforme, o conhecimento sinistro sobre Lobo.
O reconhecimento só a deixou mais cautelosa.
— Claro que sei. A princesa não consegue calar a boca e parar de falar sobre você.
Ela o observou com atenção, curiosa para saber se os sentimentos de Winter eram ao menos parcialmente correspondidos, mas ele não revelou nada.
Era bonito, claro. Tinha ombros largos e maxilar esculpido. Mas não era o que ela estava esperando. A postura denotava condescendência; a expressão, desinteresse. Ele era todo espinhos e frieza enquanto andava na direção da jaula dela.
Era tão oposto à calorosa, aérea e faladeira Winter quanto ela conseguia imaginar.
Jacin não se agachou nem se inclinou, e era doloroso para o pescoço de Scarlet ficar olhando para ele. A antipatia dela aumentou.
— Acredito que ela tenha falado sobre seus amigos.
Winter contou a ela que eles estavam vivos. Que estavam indo buscá-la. Que Lobo sentia muita falta dela.
Agora, ao se encontrar com o famoso Jacin, ela não conseguia imaginá-lo como sendo quem tinha contado essas coisas.
— Eu recebi a mensagem.
Scarlet se perguntou se ele esperava um agradecimento, que não ia receber, considerando que estava ali em Luna, usando aquele uniforme. De que lado ele estava?
Scarlet bufou e se apoiou nos cotovelos, meio deitada. Podia não ser uma postura tão digna, mas ela não ia deixar aquele cara intimidá-la e fazê-la ficar com dor no pescoço.
— Está precisando de alguma coisa?
— Winter acha que você é amiga.
— Uma de nós acha isso.
Depois de um momento, ele revelou uma rachadura na armadura. O menor dos sorrisos.
— O quê? — perguntou ela.
Balançando-se nos calcanhares, Jacin apoiou a mão na faca de novo.
— Eu não sabia que tipo de garota poderia fazer um agente especial perder a cabeça. Fico feliz de ver que não é do tipo idiota.
Ela cerrou os punhos.
— Também não é do tipo que cai em elogios vazios.
Jacin fechou a mão em uma das barras e se agachou, de modo que eles ficaram na mesma altura.
— Sabe por que você ainda está viva?
Ela trincou os dentes e respondeu um tanto contrariada:
— Por causa de Winter.
— Isso mesmo, esquentadinha. Tente não esquecer.
— É difícil esquecer se estou presa na jaula dela, docinho de coco.
O canto da boca de Jacin se enrugou com diversão controlada, mas logo sumiu. Irritante. Ele fez sinal com o cotovelo para a mão dela.
— Quando foi a última vez que alguém verificou isso aí para ver se havia infecção?
— Sei como é uma infecção. — Ela resistiu à vontade de esconder o dedo ferido, mas não ia mesmo mostrar o cotoco do dedo para aquele cara. — Está tudo bem.
Ele fez um som evasivo.
— Dizem que você é bem razoável como piloto.
Ela fez uma careta.
— O que é isso, entrevista de emprego?
— Você já pilotou uma nave lunar?
Pela primeira vez, ele conseguiu a atenção total dela, mas a curiosidade estava lotada de desconfiança.
— Por quê?
— Não é muito diferente de uma nave terráquea. A posição dos controles de voo é um pouco distinta, a decolagem é um pouco mais suave, de modo geral. Acho que você consegue entender como funciona.
— E por que eu preciso saber pilotar uma nave lunar?
O olhar dele pareceu cortá-la, dizendo mais do que as palavras. Ele se levantou.
— Esteja pronta.
— Estar pronta para o quê? E por que você se importa comigo?
— Eu não me importo — disse ele, de forma tão casual que Scarlet acreditou. — Mas me importo com a princesa, e ela precisa de um aliado. — Ele afastou o olhar. — Um aliado melhor do que eu.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!