13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e sete

O TEMPO PASSOU EM UMA NÉVOA, SONHO E REALIDADE SE MISTURANDO. Quando foi arrancada do sono, obrigada a se sentar e beber água. Trechos de conversas confusas. Tremores.
Quando estava com calor e suando e chutou os cobertores finos. Thorne ao lado dela, amarrando uma venda na cabeça. Mãos segurando a garrafa de água nos lábios dela. Beba. Beba. Beba. Tome essa sopa. Beba mais um pouco. Uma gargalhada desconhecida fazendo-a se encolher e se esconder debaixo do cobertor. A silhueta de Thorne sob o luar, esfregando os olhos e falando um palavrão. Ela ofegante no ar quente, certa de que sufocaria debaixo do cobertor e que todo o oxigênio seria sugado para o céu escuro da noite. Desesperada por água. Com coceiras devido à areia ainda presa nas roupas e cabelo.
Luz. Escuridão. Luz de novo.
Por fim, Cress acordou, grogue mas lúcida. A saliva estava densa e grudenta na boca, e ela deitada em uma esteira dentro de uma pequena barraca, sozinha. Estava escuro fora das paredes de tecido fino, e o luar batia na pilha de roupas aos seus pés. Ela procurou o cabelo com a intenção de envolver os pulsos com ele, mas encontrou-o cortado abaixo das orelhas.
As lembranças voltaram, preguiçosas no começo. Thorne no satélite, Sybil e o guarda, a queda e a faca e o deserto cruel que se estendia até o fim do mundo.
Ela ouviu vozes lá fora. Perguntou-se se a noite tinha acabado de começar ou já estava terminando. Perguntou-se por quanto tempo dormiu. Ela parecia se lembrar de braços ao redor de seu corpo, de dedos macios tirando areia de seu rosto. Será que foi sonho?
A barraca foi aberta, e uma mulher, a mais velha da fogueira, apareceu com uma bandeja. Ela abriu um sorriso e colocou a comida no chão, um tipo de sopa com um cantil de água.
— Finalmente — disse ela, com aquele sotaque pesado e desconhecido, rastejando pelos montes de cobertores bagunçados. — Como está se sentindo? — Ela colocou a palma da mão na testa de Cress. — Melhor. Que bom.
— Por quanto tempo eu...?
— Dois dias. Estamos atrasados, mas não importa. É bom ver você acordada.
Ela se sentou ao lado de Cress. A barraca era apertada, mas não desconfortável.
— Você vai ter um camelo para andar quando partirmos. Precisamos manter seus ferimentos limpos. Você teve sorte de termos encontrado você antes da infecção.
— Ferimentos?
A mulher indicou seus pés, e Cress se inclinou. Estava escuro, mas ela sentiu as ataduras. Mesmo dois dias depois, eles ainda estavam doloridos ao toque e os músculos das pernas formigavam de cansaço.
— Onde está...? — Ela hesitou, sem conseguir lembrar se Thorne tinha usado um nome falso. — Meu marido?
— Na fogueira. Ele está nos distraindo com a história do romance explosivo de vocês. Garota de sorte. — Ela deu uma piscadela maliciosa que fez Cress se encolher, depois um tapinha no joelho. Entregou a tigela de sopa para ela. — Coma primeiro. Se você estiver forte o bastante, pode se juntar a nós.
Ela voltou até a entrada.
— Espere. Eu preciso... hã.
Cress corou, e a mulher lançou um olhar de compreensão.
— Tenho certeza de que sim. Venha comigo, vou mostrar onde fazer o que você tiver que fazer.
Havia um par de botas na entrada da barraca, grande demais para ela. A mulher ajudou Cress a enchê-las de tecido até ficarem quase confortáveis, embora as solas dos pés ainda doessem, depois a levou para longe do fogo, para um buraco que cavaram na areia na extremidade do oásis. Dois lençóis tinham sido pendurados para oferecer privacidade, e havia uma palmeira jovem para Cress se apoiar enquanto se aliviava.
Quando terminou, a mulher a guiou de volta até a barraca e a deixou sozinha saboreando a sopa. Seu apetite voltou multiplicado por dez desde a primeira refeição no oásis. Sua barriga parecia vazia, mas o caldo a acalmou enquanto ouvia a conversa dos estranhos. Tentou identificar a voz de Thorne, mas não conseguiu.
Quando saiu rastejando da barraca de novo, viu oito formas sentadas ao redor do fogo. Jina estava mexendo o conteúdo de uma panela meio enterrada na areia, e Thorne se encontrava sentado de pernas cruzadas e relaxado em uma das esteiras. Estava com uma bandana ao redor dos olhos.
— Ela se levantou! — gritou o caçador, Kwende.
Thorne ergueu a cabeça, e sua surpresa ficou clara em um sorriso enorme.
— Minha mulher? — disse ele, mais alto do que o necessário.
Os nervos de Cress saltaram quando ela viu tantos estranhos a olhando. Sua respiração ficou errática, e então pensou em fingir um ataque de tontura para procurar refúgio na barraca de novo.
Mas Thorne ficou de pé, ou tentou, cambaleando em um dos joelhos como se fosse cair bem em cima da fogueira.
— Oh-oh.
Cress correu até o lado dele. Com a ajuda dela, ele se pôs de pé e segurou as mãos dela, ainda trêmulas.
— Cress?
— Sim, cap... hã...
— Você acordou, finalmente! Como está se sentindo? — Ele procurou a testa dela, e a palma da mão pousou primeiro no nariz e depois deslizou até a testa. — Ah, que bom, sua febre baixou. Eu estava tão preocupado.
Ele a puxou em um abraço, e ela sumiu nos braços dele.
Cress deu um gritinho, mas o som foi abafado pelo algodão da camisa dele. Ele a soltou depressa e aninhou o rosto dela com as mãos.
— Minha querida sra. Smith, nunca mais me assuste assim.
Apesar do exagero no ato, Cress sentiu uma alegria no peito ao ver a boca dele, ao sentir as mãos tão carinhosas em suas bochechas.
— Me desculpe — choramingou ela. — Me sinto bem melhor agora.
— Você está com aparência bem melhor. — Seus lábios tremeram. — Pelo menos, estou supondo que esteja. — Thorne enfiou os dedos dos pés na areia e levantou uma ponta de uma vara comprida, pegando-a com facilidade. — Venha, vamos dar uma volta. Para ver se conseguimos ter um tempinho sozinhos nessa nossa lua de mel.
Ele contorceu o rosto em uma piscadela que ficou óbvia mesmo por baixo da venda.
A multidão ao redor da fogueira gritou quando Thorne pegou a mão de Cress. Ela o guiou para longe das provocações, feliz por a escuridão da noite esconder suas bochechas vermelhas.
— Você parece estar se saindo bem — disse ela quando eles se afastaram da fogueira, embora tenha ficado feliz quando Thorne não soltou sua mão.
— Andei treinando caminhar com a bengala nova. Um dos homens a fez para mim, e é bem melhor do que aquela de metal. Mas a organização do acampamento ainda me confunde. Juro que eles ficam mudando as coisas de lugar cada vez que penso que entendi.
— Eu devia estar junto para ajudar você — disse ela quando eles se aproximaram do pequeno lago. — Me desculpe por ter dormido tanto.
Ele deu de ombros.
— Estou feliz por você estar bem. Fiquei preocupado mesmo.
A atenção dela estava voltada para os dedos entrelaçados, como se fosse um farol. Cada movimento, cada batimento, cada passo era espalhado por todo o corpo dela.
Não demorou para que a imaginação dela os colocasse deitados juntos na areia quente, os dedos dele acariciando o cabelo dela, os lábios passeando por seu queixo.
— Então escute — disse Thorne, arrancando-a do sonho. — Falei para todo mundo que, quando chegarmos à cidade, vou chamar meu tio na América e pedir para que mande um transporte, então não vamos seguir com eles.
Cress prendeu o cabelo atrás das orelhas, ainda despertando dos resquícios da fantasia. O toque do ar noturno no pescoço foi inesperadamente agradável.
— E você acha que vamos conseguir fazer contato com sua tripulação?
— É minha esperança. A nave não tem equipamento de rastreamento, mas, considerando que você já descobriu nossa localização uma vez, achei que talvez você pudesse pensar em alguma forma de pelo menos mandar uma mensagem para eles.
Eles contornaram os camelos, que olharam para eles com total desinteresse, enquanto o cérebro de Cress começava a avaliar uma dezena de meios de comunicação possíveis com uma nave não rastreável e o que precisaria para conseguir executar isso. Ela não conseguira fazê-lo do satélite, mas com o acesso correto à rede...
Cress ficou grata quando eles chegaram à barraquinha. Apesar de a caminhada ter sido curta, as botas grandes já tinham começado a queimar. Ela se sentou na esteira, tirou uma de um dos pés e inspecionou as ataduras da melhor forma que pôde no escuro. Thorne se sentou ao lado dela.
— Está tudo bem?
— Espero encontrar sapatos quando chegarmos nessa cidade. — Ela deu um suspiro sonhador. — Meu primeiro par de sapatos de verdade.
Ele deu um sorrisinho.
— Agora você está falando como uma verdadeira mulher terráquea.
Ela olhou para a fogueira para ver se ninguém estava ouvindo.
— Posso perguntar por que você está usando uma venda?
Ele passou os dedos no tecido.
— Acho que eu estava deixando as pessoas pouco à vontade olhando vagamente para o espaço o tempo todo, ou olhando através delas.
Ela baixou a cabeça e tirou a segunda bota.
— Eu não ficava pouco à vontade. Acho que seus olhos são... bem, sonhadores.
Os lábios de Thorne tremeram.
— Então você reparou.
Ele tirou a bandana e a colocou no bolso, depois esticou as pernas.
Cress mexeu com as pontas irregulares do cabelo e olhou para o perfil dele com um sentimento que fez seu corpo todo doer. Finalmente, depois de um agonizante minuto reunindo coragem, ela chegou perto dele e apoiou a cabeça em seu ombro.
— Boa ideia — disse ele, passando o braço pela cintura dela. — Como eles poderiam pensar que não estamos apaixonados?
— Como poderiam? — murmurou ela.
Ela apertou os olhos e tentou decorar a sensação exata dele.
— Cress?
— Humm?
— Estamos bem, certo?
Cress abriu os olhos. Um grupo de palmeiras na frente dela brilhou laranja com a luz trêmula da fogueira, e ela ouviu o estalo de fagulhas, mas o barulho pareceu distante.
— O que você quer dizer?
— É que eu estava pensando, sabe, no que você falou lá no deserto. Achei que era a febre falando, mas, mesmo assim, eu tenho o hábito de falar coisas sem pensar direito nelas, e com você sendo nova nessa coisa toda de socialização... — Ele parou de falar e apertou o braço na cintura dela. — Você é incrivelmente doce, Cress. Eu não quero magoar você.
Ela engoliu em seco, a boca áspera de repente. Nunca tinha pensado que palavras tão gentis pudessem doer, mas não conseguiu deixar de pensar que o elogio dele não queria dizer o que ela desejava que dissesse.
Ela afastou a cabeça do ombro dele.
— Você me acha ingênua.
— Claro, um pouco — admitiu ele, com tanta certeza que pareceu menos insulto do que ser chamada de doce. — Mas eu penso mesmo é que não sou a melhor pessoa para demonstrar toda a bondade que a humanidade tem a oferecer. Não quero que você fique decepcionada demais quando perceber isso.
Cress entrelaçou os dedos no colo.
— Conheço você melhor do que pensa, capitão Thorne. Sei que você é inteligente. E corajoso. E atencioso e gentil e...
— Encantador.
— ... encantador e...
— Carismático.
— ... carismático e...
— Bonito.
Ela apertou os lábios e olhou com raiva para ele, mas o sorriso debochado tinha afastado todos os sinais de sinceridade.
— Me desculpe — disse ele. — Por favor, continue.
— Talvez mais vaidoso do que eu tinha percebido.
Ele jogou a cabeça para trás e riu. E então, para a surpresa dela, esticou a mão e segurou a dela, com o outro braço ainda ao redor da cintura.
— Para quem tem uma experiência social tão limitada, você, minha querida, é uma excelente avaliadora de caráter.
— Não preciso de experiência. Você pode tentar se esconder por trás de sua reputação ruim e das fugas criminosas, mas consigo ver a verdade.
Ainda sorrindo, ele a cutucou com o ombro.
— Que, por dentro, sou apenas um romântico meloso em busca do amor?
Ela enfiou os dedos dos pés na areia.
— Não... que você é um herói.
— Herói? Isso é ainda melhor.
— E é verdade.
Ele escondeu o rosto atrás da mão e levou a de Cress junto no movimento. Ocorreu a ela que essa conversa toda era uma piada para ele. Mas como ele podia não ver?
— Você está me matando, Cress. Quando me viu fazer qualquer coisa que poderia ser considerada heroica? Resgatar você do satélite foi ideia de Cinder, foi você quem impediu um acidente na nossa descida e nos fez passar pelo deserto...
— Não estou falando de nada disso. — Ela soltou a mão da dele. — E quando você tentou arrecadar dinheiro para ajudar a pagar por assistência androide para os idosos? Isso foi heroico, e você só tinha onze anos!
O sorriso dele sumiu.
— Como você sabia sobre isso?
— Eu fiz minhas pesquisas — contou ela, cruzando os braços.
Thorne coçou o maxilar, com a confiança abalada por um momento.
— Tudo bem — disse ele lentamente. — Eu roubei um colar da minha mãe e tentei vender. Quando fui pego, concluí que não me puniriam se achassem que eu estava tentando fazer uma coisa boa, e, como eu teria que devolver mesmo o dinheiro, não importava. Então, inventei a história de dar o dinheiro para caridade.
Ela franziu a testa.
— Mas... se foi isso, o que você ia fazer com ele?
Ele suspirou de forma sonhadora.
— Comprar um aerodeslizador de corrida. O Neon Spark 8000. Nossa, eu queria muito.
Cress piscou. Um aerodeslizador de corrida? Um brinquedo?
— Certo — disse ela, sufocando uma pontada de decepção. — E quando você soltou aquele tigre do zoológico.
— É sério? Você acha que aquilo foi heroico?
— Ele era um pobre animal triste preso por toda a vida! Você deve ter se sentido mal por ele.
— Não exatamente. Eu cresci com gatos robóticos em vez de animais de estimação de verdade e achei que, se o soltasse, ele faria todas as minhas vontades e eu poderia levá-lo para a escola e então seria ridiculamente popular por ser o garoto com o tigre de estimação. — Ele balançou a mão no ar, como se pudesse ilustrar a história enquanto falava. — É claro que, no segundo que ele saiu e todo mundo correu desesperado, eu percebi o quanto minha ideia tinha sido idiota. — Ele apoiou o cotovelo no joelho e aninhou o queixo com a mão. — Esse jogo é divertido. O que mais você sabe?
Cress podia sentir sua visão do mundo desmoronando. Todas aquelas horas revirando os registros dele, justificando os erros, certa de que só ela conhecia o verdadeiro Carswell Thorne...
— E Kate Fallow? — disse ela, quase temendo a resposta.
Ele inclinou a cabeça.
— Kate Fallow... Kate Fallow...
— Quando você tinha treze anos. Uns colegas roubaram o tablet dela e você a defendeu. Tentou recuperar o tablet.
— Ah, aquela Kate Fallow! Uau, quando você pesquisa, pesquisa de verdade, não é?
Ela mordeu o lábio e o observou em busca de uma reação, de alguma coisa que dissesse que, ao menos nessa situação, ela estava certa. Ele salvou a pobre garota. Foi o herói.
— Na verdade, eu tinha uma queda por Kate Fallow — contou ele distraidamente. — O que será que ela anda fazendo atualmente?
Seu coração tremeu, apegando-se a filetes de esperança.
— Está estudando para ser arquiteta.
— Ah. Faz sentido. Ela era ótima em matemática.
— E então? Você não vê o quanto aquilo foi heroico? O quanto foi altruísta e valente?
O canto dos lábios dele tremeu, mas não com entusiasmo, e o sorriso logo sumiu quando virou o rosto para longe dela. Ele abriu a boca para falar, mas hesitou, até que, finalmente, procurou a mão dela de novo.
— É, acho que você está certa — disse ele, apertando. — Talvez haja um pouco de herói em mim mesmo. Mas... de verdade, Cress. Só um pouco.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!