3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e Sete

O AERODESLIZADOR FEZ UM RUÍDO AO PARAR DO LADO DE FORA da quarentena. Cinder saltou da porta lateral e imediatamente recuou, cobrindo o nariz com o cotovelo.
Suas entranhas pesaram com o fedor de carne podre intensificado pelo calor da tarde. Junto à entrada, um grupo de medidroides estava carregando um aerodeslizador com cadáveres que seriam retirados, suas formas inchadas e sem cor, cada um com uma fenda vermelha no pulso. Cinder desviou o olhar, mantendo os olhos longe e segurando a respiração enquanto passava por eles para entrar no armazém.
A luz do sol foi de muito intensa a turva, filtrada pelas películas verdes nas claraboias ao longo do teto. Antes, a quarentena estava quase vazia; agora, estava superlotada de vítimas — de todas as idades, de todos os gêneros. Ventiladores de teto pouco faziam para aplacar o calor sufocante e o cheiro de morte que tornava o ar pesado.
Medidroides transitavam com um murmúrio por entre as camas, mas não havia um número suficiente para atender a todos os doentes.
Cinder andou despercebida por um corredor, engasgando com respirações superficiais sob a manga da blusa. Ela avistou o cobertor verde bordado de Peony e correu para o pé da cama.
— Peony!
Como Peony não se mexeu, ela esticou a mão e a pousou em seu ombro. O cobertor estava macio, morno, mas o volume embaixo dele não se movia.
Tremendo, Cinder agarrou a ponta da coberta e a puxou.
Peony lamuriou, um protesto brando, que gerou calafrios de alívio pelos braços de Cinder. Ela desmoronou ao lado da cama.
— Pelas estrelas, Peony. Eu vim assim que soube.
Peony semicerrou os olhos turvos para ela. Seu rosto estava pálido, os lábios descascando. As nódoas escuras em seu pescoço começavam a desbotar para um tom de alfazema na pele fantasmagórica. Com os olhos em Cinder, ela tirou o braço de debaixo do cobertor e abriu os dedos, exibindo as pontas preto-azuladas e o tom amarelado das unhas.
— Eu sei, mas vai ficar tudo bem. — Ainda ofegando, Cinder desabotoou o bolso lateral da calça cargo e tirou a luva que normalmente vestia sua mão direita. O frasco estava em um dos dedos, protegido. — Eu trouxe uma coisa para você. Você consegue se sentar?
Peony fechou a mão em um punho sem força e a enfiou novamente debaixo do cobertor. Seus olhos estavam ocos. Cinder não achava que ela a ouvira.
— Peony?
Uma mensagem ecoou na cabeça de Cinder. O visor mostrou que havia uma nova mensagem de Adri, e a onda familiar de ansiedade que vinha com ela fechou a garganta de Cinder.
Ela rejeitou a mensagem.
— Peony, me escute. Preciso que você se sente. Você consegue fazer isso?
— Mamãe? — sussurrou Peony, a saliva se amontoando no canto dos lábios.
— Ela está em casa. Ela não sabe… — Que você está morrendo. Mas é claro que Adri sabia. O comunicado fora enviado para ela também.
Com a pulsação disparada, Cinder se curvou sobre Peony e deslizou o braço por baixo do ombro dela.
— Vamos, vou ajudar você.
A expressão de Peony não mudou — o olhar cadavérico e vazio —, mas ela deixou escapar um grunhido de dor quando Cinder a ergueu.
— Sinto muito — disse Cinder —, mas preciso que você beba isto.
Outro alerta, outra mensagem de Adri. Dessa vez, a irritação aflorou em Cinder e ela desligou sua rede, bloqueando quaisquer novas mensagens.
— É do palácio. Deve ajudar. Você compreende? — Ela manteve a voz baixa, preocupada com a hipótese de outros pacientes ouvirem e a atacarem. Mas o olhar de Peony continuou inexpressivo. — Uma cura, Peony — sibilou nos ouvidos da menina. — Um antídoto.
Peony nada disse, a cabeça jogada no ombro de Cinder. Seu corpo estava mole, mas ela era leve como uma boneca de madeira.
A garganta de Cinder parecia cheia de areia enquanto ela olhava para os olhos vazios de Peony, que se fixavam para além dela, através dela.
— Não… Peony, você me ouviu? — Cinder puxou Peony completamente para junto de si e destampou o frasco. — Você tem que beber isso. — Ela levou o frasco aos lábios de Peony, mas ela não se moveu. Não recuou. — Peony.
Com a mão trêmula, ela virou a cabeça de Peony para trás. Seus lábios magros se abriram.
Cinder forçou a mão a ficar firme enquanto erguia o frasco, preocupada em não desperdiçar uma gota sequer. Ela encostou o frasco contra os lábios de Peony e segurou a respiração, mas parou. Seu coração estava descontrolado. Sua cabeça pesava com as lágrimas que não viriam. Ela sacudiu a cabeça duramente.
— Peony, por favor.
Quando nenhum som ou ar passou pelos lábios da irmã, Cinder baixou o frasco. Ela enterrou a cabeça na dobra do pescoço de Peony, rangendo os dentes até que a mandíbula doesse. Cada respiração a alfinetava ao descer pela garganta, sofrível por causa do fedor em volta dela, mas mesmo agora ela conseguia sentir o odor do xampu de Peony, de tantos dias atrás.
Segurando firmemente o frasco, ela soltou Peony com delicadeza, deixando que ela deslizasse de volta ao travesseiro. Seus olhos ainda estavam abertos.
Cinder socou o colchão. Um pouco do antídoto espirrou em seu polegar.
Esfregando os olhos até que estrelas aparecessem diante dela, ela desmoronou e enterrou a cara no cobertor.
— Maldição. Maldição. Peony!
Balançando-se em seus calcanhares, ela respirou longa e irregularmente.
Observou o rosto em forma de coração de sua irmãzinha e seus olhos sem vida.
— Eu mantive minha promessa. Trouxe isso para você. — Ela mal se conteve para não esmagar o frasco no punho. — Além disso, falei com Kai. Peony, ele vai dançar com você. Ele me disse que dançaria. Não entende? Você não pode morrer. Estou aqui… Eu…
Uma dor de cabeça dilacerante a lançou contra a cama. Ela agarrou a ponta do colchão e abaixou a cabeça, deixando-a pender. A dor vinha do alto de sua espinha de novo, mas não a sobrepujou como antes. Foi apenas um calor desconfortável, como uma queimadura de sol interna.
Passou, deixando apenas um fraco latejamento e a imagem do olhar vazio de Peony a assombrando. Ela ergueu a cabeça, tampou o frasco com dedos fracos e guardou-o novamente dentro do bolso. Esticando a mão, ela fechou os olhos de Peony.
Cinder ouviu o familiar esmigalhar das rodas no concreto sujo e avistou um medidroide vindo em sua direção, sem água ou panos úmidos em seus pegadores. Ele parou do outro lado da cama de Peony, abriu o torso e pegou um bisturi.
Cinder esticou o braço por cima da cama e agarrou o pulso de Peony com a mão enluvada.
— Não — disse ela, mais alto do que pretendia. Os pacientes mais próximos viraram a cabeça na sua direção.
O sensor do androide virou-se para ela, ainda escuro.
Ladrões. Condenados. Fugitivos.
— Você não pode pegar essa aqui.
O androide continuou onde estava, sua face branca inexpressiva, o bisturi saindo de seu torso. Com um pouco de sangue seco grudado na ponta.
Sem falar, o androide esticou um de seus braços livres para a frente e pegou o cotovelo de Peony.
— Eu fui programado…
— Eu não me importo com o que você foi programado para fazer. Nesta aqui você não vai tocar. — Cinder arrancou o braço de Peony do pegador do androide, que deixou arranhões profundos na pele dela.
— Eu devo remover e preservar o chip de identificação dela — disse o androide, esticando o braço de novo.
Cinder se curvou sobre a cama e cravou a mão no sensor do androide, bloqueando-o.
— Já falei que você não vai pegá-lo. Deixe-a em paz.
O androide girou o bisturi, enterrando a ponta na luva de Cinder. Houve um retinido de metal contra metal. Cinder recuou, surpresa. A lâmina ficou presa no grosso tecido de suas luvas de trabalho.
Rangendo os dentes, ela retirou o bisturi da luva e o afundou no sensor do androide. Vidro se estilhaçou. A luz brilhante amarela piscou e se apagou. O androide recuou, os braços de metal balançando, alertas altos e mensagens de erro saindo de suas caixas de som ocultas.
Cinder movimentou-se rapidamente por cima da cama e golpeou a cabeça do androide com o punho. Ele se espatifou no chão, silenciado, os braços ainda se mexendo.
Ofegando, Cinder olhou em volta. Os pacientes que não estavam tão fracos sentados na cama, piscando os olhos turvos. Um medidroide que estava a quatro camas de distância deixou seu paciente e andou em sua direção.
Cinder respirou fundo. Abaixando-se, pegou o bisturi no sensor estilhaçado do androide. Virou-se para Peony — as cobertas desarrumadas, os arranhões em seus braços, as pontas dos dedos azuis pendendo da lateral da cama. Ajoelhando-se ao lado dela, pediu apressadamente perdão enquanto agarrava o frágil pulso da irmã.
Ela inseriu o bisturi na pele macia. Sangue brotou da ferida e molhou sua luva, misturando-se a anos de sujeira. Os dedos de Peony se mexeram quando Cinder passou por um tendão, fazendo com que ela se sobressaltasse.
Quando o corte estava grande o bastante, ela o abriu com o polegar, revelando o músculo vermelho brilhante. Sangue. Seu estômago se contorceu, mas ela enterrou a ponta da lâmina tão cuidadosamente quanto pôde, levantando o chip quadrado.
— Eu sinto tanto, sinto muito mesmo — sussurrou ela, pousando o pulso mutilado na barriga de Peony e se levantando. O barulho das rodas do medidroide se aproximava.
— Cinzas, cinzas…
Ela girou na direção da voz seca e melódica, segurando com firmeza o bisturi em uma das mãos, o chip de Peony protegido na outra.
O menininho na cama seguinte se encolheu novamente quando seus olhos dilatados viram a arma. A cantiga de ninar cessou. Cinder levou um momento para reconhecê-lo. Chang Sunto, do mercado. O filho de Sacha. Sua pele brilhava de suor, os cabelos negros emaranhados em um lado da cabeça de tanto dormir. Cinzas, cinzas, todos nós morremos…
Todos os que estavam fortes o suficiente para sentar estavam olhando para ela.
Inspirando rapidamente, Cinder se voltou na direção de Sunto. Ela pescou o frasco no bolso e o forçou nos dedos melados do menino.
— Beba isso.
O medidroide chegou ao pé da cama, e Cinder o empurrou para longe. Ele tombou no chão como um peão caído. Os olhos delirantes de Sunto a seguiram sem reconhecê-la.
— Beba isso! — ordenou ela, tirando a tampa e forçando o frasco na sua boca. Ela esperou que os lábios dele se fechassem ao redor do frasco e então correu.
O sol momentaneamente a cegou enquanto ela voltava para a rua. Com a passagem para seu aerodeslizador bloqueada pelos medidroides e duas camas com pacientes mortos, ela girou e correu na outra direção.
Virou uma esquina e já havia andado quatro quadras quando ouviu outro aerodeslizador suspenso, o zumbido de ímãs despertando debaixo dos seus pés.
— Linh Cinder — chamou uma voz estrondosa saída da caixa de som —, você está, por meio deste, intimada a parar e ser levada de modo pacífico sob custódia.
Ela praguejou. Eles a estavam prendendo?
Firmando os pés no chão, ela se virou, ofegante, para olhar o aerodeslizador branco. Era um veículo usado para a manutenção da ordem pública, guiado por mais androides. Como haviam chegado tão rápido a ela?
— Eu não o roubei! — gritou Cinder, firmando o punho que segurava o chip de Peony. — Ele pertence à família dela, não a vocês nem a ninguém mais.
O aerodeslizador pousou no chão, o motor ainda funcionando. Um androide apareceu na rampa, sua luz amarela escaneando Cinder de cima a baixo enquanto se aproximava dela. Tinha uma arma de eletrochoque no pegador.
Ela recuou, os calcanhares chutando escombros na rua deserta.
— Não fiz nada de errado — disse ela, as mãos estendidas na direção do androide. — Aquele medidroide estava me atacando. Foi legítima defesa.
— Linh Cinder — disse a voz mecânica da máquina —, fomos contactados por sua guardiã legal em virtude de seu desaparecimento não autorizado. Você está violando o Ato de Proteção aos Ciborgues e foi classificada como um ciborgue fugitivo.
Cinder semicerrou os olhos, confusa. Uma gota de suor escorreu por sua sobrancelha quando ela olhou do androide que havia falado para um segundo androide que estava descendo a rampa do aerodeslizador.
— Esperem — disse ela, baixando as mãos. — Foi Adri quem enviou vocês?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!