7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e Seis


A PLATAFORMA SUBTERRÂNEA ESTAVA BEM-ILUMINADA E REPLETA de androides e carrinhos flutuantes prontos para recolher a carga do trem. Scarlet seguiu Lobo até as sombras de outro trem de carga. Esperaram um androide dar a volta antes de se esgueirarem até a plataforma.
Lobo segurou o pulso dela e a puxou, se escondendo atrás de um carrinho lotado de caixas. Um momento depois, Scarlet viu um androide entrar no vagão do qual ela e Lobo tinham acabado de sair, a luz azul saindo pela porta.
— Esteja pronta para correr quando o trem partir — disse Lobo, ajeitando a bolsa no ombro.
Segundos depois, o trem se ergueu nos trilhos e começou a deslizar de volta para o túnel. Scarlet correu na direção dos trilhos, mas foi puxada para trás pelo capuz. Soltou um grito estrangulado e se chocou no corpo de Lobo.
— O qu...?
Ele colocou um dedo na boca.
Scarlet olhou para ele com irritação e puxou o capuz, mas logo ouviu também. O zumbido de um trem que se aproximava.
Foi na terceira linha, e passou voando sem nenhuma indicação de parar, sumindo na escuridão de novo com a mesma rapidez que chegou.
Lobo sorriu.
— Agora podemos ir.
Chegaram à outra plataforma sem dar de cara com mais nada, vistos apenas por um homem de meia-idade que os observou com curiosidade por cima do tablet.
Scarlet olhou para o próprio aparelho quando eles chegaram à rua. A cidade estava silenciosa na madrugada. Haviam saído da Gare de Lyon, cercados de avenidas cheias de lojas e escritórios. Embora Lobo tentasse esconder, Scarlet notou que ele estava farejando em busca de alguma coisa.
Ela só conseguia sentir o cheiro da cidade. De metal e asfalto, e pão sendo assado na padaria mais próxima, na esquina.
Lobo seguiu para o noroeste.
A rua estava ladeada de imponentes estruturas de belas artes da segunda era e floreiras penduradas em janelas envoltas em pedra. Havia uma torre de relógio decorada ao longe, com a face iluminada exibindo dois ponteiros largos e algarismos romanos; abaixo uma tela digital que dizia 04h26 ao lado de um anúncio do mais moderno modelo de androide doméstico.
— Estamos muito longe? — perguntou Scarlet.
— Não muito. Podemos ir andando.
Viraram à esquerda em uma rotatória, Lobo meio passo à frente, curvado como se estivesse se protegendo. O olhar de Scarlet seguiu pelo braço dele, pelo ferimento com curativo que não parecia mais incomodá-lo, até os dedos inquietos. Queria esticar a mão até a dele, mas achou impossível. Então, enfiou as duas nos bolsos do moletom.
Havia um abismo se abrindo entre eles, destroçando o que tinham compartilhado no trem.
Estavam quase lá, perto da avó dela, perto da Ordem da Matilha.
Talvez ele a estivesse levando em direção à morte.
Talvez Lobo estivesse marchando em direção à própria morte.
Ela ergueu a cabeça, se recusando a provocar medo em si mesma com pensamentos soturnos. Tudo que importava agora era salvar sua avó, e estavam muito perto. Muito perto.
As residências antigas se apertavam, mais próximas à rua, conforme deixavam o cruzamento movimentado para trás. Só havia ocasionais sinais de vida: um gato se lambendo na janela de uma chapelaria, um homem de terno andando rapidamente de um hotel para um aerodeslizador. Passaram por uma tela que mostrava um comercial de xampu que prometia mudar a cor do cabelo da pessoa de acordo com o humor.
Ela já desejava a solidão da fazenda de novo. Era a única realidade que conhecia. A fazenda e a avó e as entregas semanais. E agora, Lobo. Essa era a realidade que queria.
Lobo acelerou o passo, mas os ombros estavam encolhidos de novo. Scarlet trincou os dentes, esticou a mão e segurou o pulso dele.
— Não posso deixar você fazer isso — disse, com mais raiva do que pretendia. — Só me diga onde fica e vou sozinha. Só me diga o que fazer. Me dê alguma pista sobre o que vou encontrar, e vou pensar em alguma coisa, mas não posso deixar você ir comigo.
Ele a encarou por um longo tempo, e ela tentou ver delicadeza naqueles olhos verdes e austeros, mas o calor e o desespero que estavam tão evidentes no trem agora tinham sido substituídos por uma resolução fria. Ele afastou o braço.
— Está vendo o homem sentado em frente ao café fechado do outro lado da rua?
Ela virou o rosto e viu o homem sentado em uma das mesas na rua. Um dos tornozelos estava apoiado no joelho da outra perna e o cotovelo, nas costas da cadeira. Estava olhando para eles e não tentou disfarçar. Quando Scarlet olhou nos seus olhos, o homem deu uma piscadela.
Um arrepio percorreu sua pele.
— Integrante da matilha — disse Lobo. — Passamos por outro na estação, dois quarteirões atrás. E... — Inclinou a cabeça. — Se o fedor for algum sinal, estamos prestes a dar de cara com outro quando dobrarmos a próxima esquina.
O coração dela disparou de repente.
— Como eles sabiam que estávamos aqui?
— Desconfio que estavam esperando por nós. Deviam estar rastreando sua identificação.
Era o que as pessoas faziam quando fugiam e não queriam ser encontradas: elas arrancavam os chips de identificação.
— Ou a sua — murmurou ela. — Se tiverem acesso a um rastreador de identificação, talvez estivessem seguindo você.
— Pode ser. — A voz dele soou indiferente, e ela percebeu que isso não era novidade para Lobo. Será que ele achava isso possível? Será que foi assim que Ran os encontrou?
— É melhor então irmos descobrir o que eles querem. — Lobo virou, e ela precisou correr para acompanhá-lo.
— Mas são só três. Você consegue lutar com eles, não consegue? Você disse que conseguia... — Scarlet hesitou. Ele tinha dito que conseguia vencer uma luta contra seis lobos. Quando esses animais selvagens tinham virado sinônimo daqueles homens, daquela Ordem da Matilha? — Você ainda pode fugir. Ainda há chance — concluiu.
— Eu disse que protegeria você, e é isso que vou fazer. Não tem sentido continuar essa discussão.
— Não preciso da sua proteção.
— Precisa. — A palavra se misturou ao barulho sintético de um vídeo de música em um outdoor próximo. — Precisa, sim.
Scarlet parou na frente dele e firmou os pés. Ele quase se chocou com ela.
— Não — disse ela. — O que preciso é saber que não sou responsável pelo que fizerem com você. Você precisa parar de ser burro e sair daqui. Pelo menos dê uma chance a si mesmo!
Lobo olhou por cima da cabeça dela para um local ao longe. Scarlet ficou tensa, se perguntando se ele tinha captado a presença de um quarto integrante da matilha, ou até mais.
Engoliu em seco e olhou para o homem no café, que estava coçando a orelha e observando-os com divertimento óbvio no rosto.
— A burrice não é tentar proteger você — disse Lobo, voltando a atenção para ela. — A burrice é que quase acredito que vai fazer diferença.
Ele a contornou ignorando a mão que se levantara para impedi-lo. Os pensamentos dela ficaram confusos com a ideia de que tinha escolha. Podia fugir com ele, sair da cidade e não voltar nunca. Podia escolher não ir em busca da avó, afinal, e talvez salvar a vida dele.
Mas não era uma escolha real. Mal o conhecia. Apesar da dor no coração, apesar de tudo. Jamais conseguiria viver consigo sabendo que tinha abandonado a avó quando estava tão perto.
Ela virou só uma vez, quando eles estavam dobrando uma esquina, e viu que o homem do café tinha sumido.
Um quarteirão depois, as lembranças da Quarta Guerra Mundial surgiram de repente. Havia as marcas de queimadura e fachadas desmoronando de uma cidade atingida pela guerra. Não havia sobrado belos prédios suficientes para atrair o interesse de quem lutava pela preservação, e a mera quantidade de destruição devia ter sido demais para possibilitar a reconstrução. Incapaz de demolir a história da cidade, o governo deixou aquele quarteirão como estava. Os bairros, apesar de separados por poucas ruas, pareciam estar a quilômetros um do outro.
Sufocando um gritinho, Scarlet reconheceu o enorme prédio que ocupava o outro lado da rua, com as janelas em arco quebradas e as estátuas de homens de roupas antiquadas, muitos com membros quebrados e algumas alcovas vazias. Le Musée du Louvre, uma das poucas atrações à qual o pai a tinha levado quando criança. O prédio, parcialmente desmoronado no lado oeste, estava instável demais para se entrar, mas ela e o pai ficaram de pé na calçada enquanto ele falava sobre as valiosas obras de arte que foram destruídas nos bombardeios, das poucas que tiveram a sorte de terem se tornado espólio de guerra.
Muitas ainda não tinham sido encontradas, mais de um século depois.
Era uma das poucas lembranças boas que tinha do pai, e havia se esquecido completamente.
— Scarlet.
Ela virou a cabeça de repente.
— Por aqui. — Lobo inclinou a cabeça na direção de outra rua.
Ela assentiu e o seguiu sem olhar para trás.
Apesar do estado destruído do bairro, estava claro que aquelas ruas antigas não estavam completamente abandonadas. Um pequeno motel anunciava na janela: “Venha passar a noite com fantasmas de civis mortos.” Uma loja de artigos de segunda mão exibia manequins sem cabeça vestidos em uma série de tecidos vibrantes.
No cruzamento, Lobo parou em uma praça de concreto com entrada coberta para o metrô e uma placa que indicava que a plataforma estava fechada, e que a mais próxima ficava no Boulevard des Italiens.
— Está pronta?
Ela seguiu o olhar decidido até um prédio enorme e belo à frente. Anjos e querubins montavam guarda nas gigantescas portas em arco.
— O que é isso?
Lobo seguiu o olhar dela.
— Já foi um teatro de ópera e uma maravilha arquitetônica. Mas a guerra chegou e foi convertido em depósito de artilharia e, depois de um tempo, de prisioneiros de guerra. Quando mais ninguém o queria, nós o pegamos.
Scarlet franziu a testa ao ouvir a palavra nós.
— Parece meio ostensivo para uma gangue de rua secreta, não acha?
Você desconfiaria de que havia uma coisa horrível morando aí dentro?
Como ela não respondeu, ele virou para observá-la enquanto se aproximavam do teatro enorme. Mais uma vez, perguntou:
— Está pronta?
Ela prendeu a respiração e examinou os entalhes: rostos sombrios e belos, bustos de homens olhando para ela, uma enorme sacada sem metade dos balaústres. Scarlet cerrou os dentes, atravessou a rua, subiu os degraus que ocupavam a largura do prédio e passou pelos anjos silenciosos e maltratados sob o pórtico de entrada.
— Estou pronta — respondeu, observando a confusão de pichações nas portas.
— Scarlet.
Ela virou de frente para ele, surpresa pela rouquidão que ouviu na voz dele.
— Me desculpe.
Ele teve o cuidado de não tocar nela ao passar.
Ela ficou com a boca seca quando avisos dispararam em sua cabeça e Lobo abriu a porta mais próxima e entrou nas sombras.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!