20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e seis

Pela primeira vez desde que o abandonou, Cress se viu sentindo saudades do satélite. Os aposentos de Jacin eram menores do que os do satélite. As paredes eram tão finas que ela não ousava nem cantar para passar o tempo. E, quando precisava ir ao banheiro, tinha que esperar Jacin sair do turno dele para poder levá-la escondido até o lavatório compartilhado entre os guardas e suas famílias, que viviam todos naquela ala subterrânea do palácio. Uma vez, ela encontrou outra pessoa, e apesar de ser só a esposa de um guarda que sorriu com gentileza para ela sem nenhum sinal de desconfiança, o encontro deixou Cress abalada.
Ela sentia a rainha e a corte ao redor. Vivia ciente o tempo todo de que, se uma pessoa a reconhecesse como cascuda, seria a morte. Talvez com tortura e um interrogatório primeiro. Ela ficou doente de ansiedade por sua segurança, e apavorada pelo destino dos amigos. Ficava frustrada porque Jacin nunca tinha notícias sobre eles.
Ela disse para si mesma que era bom sinal. Jacin saberia se eles fossem encontrados.
Não saberia?
Cress se distraiu fazendo o que podia para ajudar a causa de Cinder com os poucos recursos disponíveis para ela nos aposentos de Jacin. Ela ainda tinha o tablet, e apesar de não ousar enviar mensagens por saber que podiam ser facilmente rastreadas, conseguia se conectar com o sistema de transmissão da rainha pelo nódulo holográfico embutido na parede de Jacin. Havia nódulos por toda a parte em Luna, eram tão comuns quanto os netscreens na Terra, e as transmissões podiam ser invadidas com a mesma facilidade. Ela ainda tinha o vídeo pré-gravado de Cinder no tablet, mas temia fazer alguma coisa com ele sem saber se Cinder e os outros estavam prontos. Então, passou o tempo interrompendo mensagens de propaganda da rainha e tentando pensar em um jeito de indicar para os amigos que estava viva e em relativa segurança. Ela não conseguia pensar em nada que não fosse óbvio ou obscuro demais, e era tímida demais para fazer qualquer coisa que pudesse alertar a rainha de sua presença.
Ela desejou várias vezes ter acesso à mesma tecnologia que tinha no satélite. Sentia-se mais isolada do mundo do que jamais tinha estado, sem imprensa para acompanhar além da aprovada pela coroa. Sem ter como mandar uma mensagem direta. Sem acesso à rede de vigilância de Luna e nem aos sistemas de segurança, e, portanto, sem ter como cumprir os deveres que Cinder passou para ela. Conforme as horas viravam dias, ela foi ficando mais ansiosa e desnorteada, doida para sair do espaço fechado e fazer alguma coisa.
Ela estava alterando a trilha sonora de uma mensagem real sobre “as corajosas vitórias contra os terráqueos de mente fraca” quando passos fortes no corredor a fizeram interromper a tarefa.
Os passos pararam na porta de Jacin. Cress desconectou o tablet, se jogou para fora da cama de Jacin e entrou embaixo dela, encostando-se o máximo possível na parede. Lá fora, ela ouviu a digitação de um código e uma verificação de digital na fechadura. A porta se abriu e fechou.
Ela prendeu a respiração.
— Sou eu — soou a voz de Jacin, tão desanimada quanto todos os dias.
Expirando, Cress saiu do esconderijo. Ela ficou no chão, com as costas na lateral da cama. Era o único lugar para se sentar naquele quartinho, e ela se sentia culpada de tirar isso de Jacin, embora não se lembrasse de vê-lo se sentando na presença dela. Ele até dormia no chão desde a chegada dela, sem discussão nenhuma sobre o assunto.
— Alguma novidade? — perguntou ela.
Jacin se encostou na porta, com os olhos escuros virados para o teto. Ele parecia estranhamente abalado.
— Não.
Cress puxou os joelhos até o peito.
— O que foi?
Ainda hipnotizado pelo teto, ele murmurou:
— Você desabilitou as câmeras das docas.
Ela piscou.
— Pode fazer de novo? Com qualquer câmera do palácio?
Ela esticou a mão para alcançar o cabelo. O hábito de mexer nele era difícil de abandonar, embora já estivesse curto havia semanas.
— Se eu tivesse acesso ao sistema. Mas não tenho.
Ele abriu a boca, fez uma pausa, fechou novamente.
Cress franziu a testa. Jacin nunca era de conversar, mas isso era incomum até para ele.
Por fim, ele disse:
— Eu consigo acesso ao sistema para você.
— Por que vamos desabilitar câmeras?
O peito dele subiu, e o foco desceu pelas paredes de pedra até parar em Cress.
— Você vai embora. Você, Winter e aquela ruiva vão deixar o palácio. Esta noite.
Cress se levantou.
— O quê?
— Winter não pode ficar aqui, mas não quer ir embora sem aquela amiga dela. Você pode me ajudar a tirá-las daqui, e isso vai ser seu bilhete de saída. — Ele começou a massagear a têmpora. — Você sabe para onde Cinder estava indo, certo? Pode encontrá-la. Ela vai proteger Winter. É bom que proteja.
Uma desconfiança subiu pela espinha dela à menção de Cinder. Era um truque? Ele estava tentando obter informação sobre ela para ser vendida para a rainha em troca de privilégios? Ele já tinha feito isso.
— Vai parecer suspeito se um bando de atualizações de câmeras cair de repente — disse ela.
Ele assentiu.
— Eu sei, mas espero que vocês estejam longe quando alguém reparar.
Ela mordeu o lábio. Podia colocar um timer, tentar fazer os blecautes parecerem falhas aleatórias de energia ou uma falha de sistema, mas até isso tinha o potencial de ser descoberto.
Jacin começou a andar de um lado para outro. Ela conseguia ver os pensamentos dele a toda. Um plano estava se formando na cabeça dele, embora nem começasse a imaginar como ele planejava tirá-las do palácio sem ninguém ver, principalmente porque a princesa Winter era tão reconhecível.
— O que aconteceu? — perguntou Cress. — Levana descobriu sobre mim?
— Não. Foi outra coisa. — Ele estava apertando o alto do nariz. — Ela vai mandar matar Winter. Tenho que tirá-la daqui. Acho que sei um jeito. Posso organizar tudo, mas… — Os olhos dele ficaram suplicantes. — Você vai me ajudar?
O coração de Cress se apertou. No pouco tempo que conhecia Jacin, ele parecera frio, sem coração, até cruel às vezes. Mas naquele momento estava desmoronando, quase aos pedaços.
— Desabilitando as câmeras? — indagou ela.
Ele fez que sim.
Ela olhou para o tablet. Apesar de tê-lo soltado do nódulo holográfico quando foi para baixo da cama, o cabo de conexão ainda estava pendurado nele. Era a oportunidade dela.
Poderia escapar do palácio, ir para longe da cidade e de todos os seus perigos. Poderia estar com os amigos de novo. Poderia estar em segurança, esta noite.
A tentação tomou conta dela. Tinha que sair dali.
Mas, quando virou o rosto na direção de Jacin novamente, ela estava balançando a cabeça.
O choque ficou aparente no rosto dele.
— Vai ser mais seguro para a princesa e para Scarlet se... — Ela engoliu em seco, mas a saliva entalou na garganta. — ... se eu ficar para trás.
— O quê?
— Nossa melhor chance de a alteração nas câmeras passar despercebida vai ser se eu operar a falha no sistema manualmente. Posso desligar as câmeras por períodos curtos, fazer com que pareçam mais falhas de energia aleatórias. Um blecaute total atrairia atenção demais, e apagar uma porção das câmeras daria uma pista à rainha do lado para que Winter e Scarlet foram. Mas, se eu desabilitar e reiniciar seções aleatórias do sistema de vigilância ao mesmo tempo… posso dar a impressão de que foi coincidência. — Ela bateu com o dedo no lábio inferior. — Posso montar uma distração também. Talvez um alarme em outra parte do palácio, para afastar as pessoas das duas. E todas as trancas dos caminhos principais também podem ser alteradas remotamente.
Ela estava ficando confiante da decisão. Ficaria para trás a fim de dar a Winter e Scarlet uma chance melhor de escaparem.
— Você é louca — disse Jacin. — Você quer morrer neste palácio?
Ela enrijeceu.
— Levana não sabe que estou aqui. Enquanto você me mantiver escondida…
— Assim que Levana souber que deixei Winter escapar, ela vai me matar.
Ela apertou os punhos, irritada por ele estar abrindo buracos em sua coragem recém-descoberta.
— Scarlet foi capturada durante uma tentativa de me resgatar. E Winter me protegeu, apesar de não ter que fazer isso, e sei que isso a colocou em muito perigo. É assim que posso compensar as duas.
Jacin a encarou, e ela viu o momento em que ele aceitou sua decisão. Era a melhor chance e ele sabia. Jacin se virou, os ombros murchando.
— Fui piloto de Sybil por mais de um ano — disse ele. — Eu soube de você por mais de um ano, mas não fiz nada para ajudar.
A confissão dele foi uma facada no peito de Cress. Ela sempre tinha achado que Sybil ia sozinha, nunca se dera conta de que tinha um piloto com ela até ser tarde demais. Talvez Jacin pudesse ter ajudado, até tê-la salvado.
Eles jamais saberiam.
Ele não pediu desculpas. O que fez foi firmar o maxilar e olhar nos olhos dela.
— Vou proteger Winter com minha vida. Em segundo lugar, prometo proteger você também.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!