13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e seis

EMBORA OS PENSAMENTOS DE SCARLET ESTIVESSEM DENSOS COMO lama, seus dedos estavam ágeis e rápidos, dançando pelos movimentos familiares de desligar a nave. Assim como em todas aquelas noites em que voltava para a fazenda ao terminar as entregas. Ela quase sentia o aroma bolorento do hangar da avó, combinado com a brisa fresca e natural vinda dos campos. Ela baixou o trem de pouso e pisou nos freios. A nave assentou, zumbindo por um momento antes de ela desligar o motor, quando ficou em silêncio.
Alguma coisa fez barulho atrás dela. Uma mulher começou a gritar em tom agudo, e a raiva dela era confusa e indistinta no cérebro enevoado de Scarlet.
Uma dor de cabeça começou a latejar na parte da frente do crânio dela e gradualmente ocupou a cabeça toda. Scarlet se encolheu e se encostou no assento do piloto, apertando as palmas das mãos sobre os olhos para bloquear a dor, a confusão, a luz intensa e repentina que explodiu em sua visão.
Scarlet gemeu e se inclinou para a frente. O cinto não a prendeu como os esperava, e logo ela estava encolhida sobre os joelhos, respirando fundo e ofegante, como se quase tivesse se afogado.
Sua boca estava seca, o maxilar doía como se ela tivesse trincado os dentes durante horas. Mas, quando ficou completamente imóvel e respirou fundo baixinho, o latejar na cabeça começou a diminuir. Seus pensamentos clarearam. A gritaria abafada ficou mais intensa e aguda.
Scarlet abriu os olhos. Uma onda de náusea tomou conta dela, mas ela engoliu em seco e esperou passar.
Ela soube imediatamente que essa não era sua nave de entregas e que não estava no hangar da avó. O cheiro era todo errado, o piso estava limpo demais...
— ... quero que tragam já o tenente Hensla, junto com uma equipe completa de busca e identificação de naves...
A voz da mulher disparou como eletricidade pelos nervos de Scarlet, e ela se lembrou. Da nave, do ataque, da arma em sua mão, da bala atingindo Lobo no peito, da sensação de vazio quando a taumaturga invadiu seu cérebro, tomou conta de seus pensamentos, retirou todo o seu senso de identidade e força de vontade.
— ... use o histórico da nave para rastrear a última localização e ver se ainda resta alguma conectividade com a nave principal. Eles podem ter ido para a Terra. Descubram. Encontrem-na.
Scarlet levantou a cabeça o bastante para espiar pela janela lateral da nave de passeio. Luna. Ela estava em Luna, atracada em um espaço fechado que não se parecia em nada com os hangares que ela conhecia e nem com a área de pouso da Rampion. Era grande o bastante para abrigar uma dezena de naves pequenas, e algumas já estavam enfileiradas ao lado da dela, suas formas modernas ornamentadas com a insígnia de Luna. As paredes eram irregulares e pretas, mas com pontinhos cintilantes de luz, para imitar um céu inexistente. Uma luz leve era emitida pelo chão, de forma que as sombras das naves se esticavam como aves de rapina pelas paredes enormes.
No fim da fileira de naves havia uma enorme porta em arco, com pedras cintilantes embutidas que formavam uma lua crescente subindo acima do planeta Terra.
— ... peguei o D-COMM da programadora que nos traiu. Veja se os técnicos de software conseguem usá-lo para rastrear a nave auxiliar...
A porta da nave atrás dela ainda estava aberta, e a taumaturga encontrava-se de pé do lado de fora, gritando com as pessoas que tinham se reunido ao redor: dois guardas de uniformes vermelhos e cinza e um homem de meia-idade que usava uma túnica simples com cinto e estava inserindo informações em um tablet rapidamente. O casaco comprido da taumaturga estava manchado de sangue e encharcado na parte de cima da coxa. Ela estava um pouco curvada, com as mãos sobre o ferimento.
A porta em arco começou a se abrir, criando um pequeno buraco no meio da Terra cintilante. Scarlet se abaixou. Ouviu o clique sutil e o zumbido de imãs, o estalo de passos.
— Finalmente — disse a taumaturga, furiosa. — O uniforme está destruído. Corte o tecido e seja rápido. A bala não atravessou, e o ferimento não... — Ela parou de falar e deu um pequeno gemido.
Ousando erguer o olhar, Scarlet viu que três novas pessoas tinham chegado, vestidas de jalecos de laboratório. Elas trouxeram uma maca flutuante, coberta com o estoque todo de um laboratório de suprimentos médicos, e estavam reunidas em torno da taumaturga, uma desabotoando o casaco enquanto outra tentava cortar um quadrado na calça, apesar de o tecido parecer ter grudado no ferimento.
A taumaturga se recuperou e recompôs a expressão para disfarçar quanta dor estava sentindo, apesar de a pele morena ter assumido uma palidez amarelada. Um dos médicos descolou o tecido do ferimento.
— Mandem Sierra enviar um novo uniforme e façam contato com o taumaturgo Park para informá-lo de que logo haverá mudanças em nossos procedimentos para reunir inteligência em relação a líderes terráqueos.
— Sim, taumaturga Mira — disse o homem de meia-idade. — Falando em Park, você precisa saber que ele já teve uma reunião com o imperador Kaito sobre nossa frota, que parece não estar mais disfarçada.
Ela falou um palavrão.
— Eu tinha me esquecido das naves. Espero que ele tenha sido inteligente o bastante para não contar nada antes de termos estabelecido uma declaração oficial. — Ela fez uma pausa para respirar fundo. — Além do mais, informe Sua Majestade da minha volta.
Scarlet deslizou no assento. Seus olhos se dirigiram para a porta do outro lado da nave. Ela considerou ligar o motor, mas não tinha chance de fugir na nave de passeio da Rampion. Eles deviam estar debaixo do chão, e a saída devia exigir uma autorização especial para ser aberta.
Mas, se ela chegasse a uma das outras naves...
Tentando respirar fundo para se acalmar, ela se deslocou devagar pelo console central até o assento do copiloto.
Ela se preparou, o coração disparado no peito. Contou até três mentalmente e destravou a porta. Abriu muito devagar, para que o movimento não fosse notado pelos lunares atrás. Saiu e pousou os tênis no chão. Enfim via de onde surgia a luz peculiar; o chão todo era feito de azulejos brancos iluminados, fazendo parecer que ela estava andando...
Bem, na lua.
Ela fez uma pausa para ouvir. Os médicos discutiam ferimentos de entrada, o assistente listava horários para uma reunião com a rainha. Pela primeira vez, a taumaturga estava em silêncio.
Respire, respire...
Scarlet se afastou da nave. Seu cabelo estava grudado no pescoço molhado e ela tremia de medo e adrenalina e pela crescente certeza de que isso jamais daria certo. Não conseguiria chegar à nave lunar. Eles dariam um tiro nas costas dela a qualquer momento. Ou ela entraria na nave e não saberia pilotar. Ou a saída não estaria aberta.
Mas os lunares continuavam falando atrás dela, e ela estava tão perto, e isso podia funcionar, tinha que funcionar...
Agachada junto ao corpo branco cintilante da nave lunar, ela lambeu os lábios e aproximou os dedos do painel da porta...
Sua mão parou.
Seu coração despencou.
O ar ao redor dela ficou silencioso, carregado com uma energia que fez todos os pelos de seu braço ficarem em pé. Sua mente permaneceu clara dessa vez, bastante ciente do quanto ela chegou perto de entrar naquela nave e tentar chegar em segurança, e ao mesmo tempo ciente de que nunca teve chance.
Com um estalo, sua mão voltou a se mover e ela a deixou pender ao lado do corpo.
Scarlet forçou o queixo para cima e, usando a lateral da nave para se equilibrar, ficou de pé e se virou para encarar a taumaturga. Sentada na maca flutuante, Sybil Mira usava apenas uma camisola e estava deitada de lado, para que os médicos tivessem acesso ao ferimento. Havia sangue espirrado na bochecha e na testa dela, e o cabelo estava desgrenhado e sujo de ainda mais sangue, mas ela até então parecia intimidante, os olhos cinza grudados em Scarlet, encostada na nave.
Os médicos estavam curvados sobre a coxa dela, trabalhando com atenção, como se tivessem medo de ela reparar que eles permaneciam lá enquanto limpavam e cuidavam e davam pontos. Os dois guardas estavam com as armas na mão, embora suas posturas estivessem relaxadas enquanto eles esperavam ordens.
O assistente, que antes era de meia-idade e comum de todas as formas, tinha mudado. Embora ainda estivesse de túnica com cinto, havia se tornado lindo de uma maneira quase sobrenatural. Vinte e poucos anos, maxilar forte, cabelo preto como breu penteado para trás, revelando um bico de viúva na testa.
Scarlet contraiu o maxilar e forçou o cérebro a lembrar como ele era antes. A não dar peso ao glamour que ele impunha. Era só uma pequena rebelião, mas ela a agarrou com toda a força mental que ainda tinha.
— Essa deve ser a refém tirada da nave da ciborgue — disse o assistente. — O que devo fazer com ela?
O olhar da taumaturga se concentrou em Scarlet com um ódio que poderia ter derretido a carne de seus ossos.
O sentimento era mútuo. Scarlet retribuiu o olhar de raiva.
— Preciso de tempo para falar sobre ela com Sua Majestade — disse Sybil. — Desconfio que ela vá querer estar presente quando a garota for interrogada. — Ela se contorceu quando a dor surgiu em seu rosto. Scarlet percebeu o momento em que a taumaturga perdeu o interesse no destino dela, quando seus ombros relaxaram e ela reuniu a energia que ainda tinha para se deitar na maca. — Não ligo para o que você fizer com ela enquanto isso. Dê para uma das famílias se quiser.
O assistente assentiu e fez um gesto para os guardas.
Em segundos, eles se aproximaram, afastaram Scarlet da nave e prenderam as mãos dela atrás do corpo com algum tipo de amarra que machucou seus pulsos. Quando começaram a levá-la na direção da enorme porta em arco, os médicos e a taumaturga já tinham ido embora.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!