3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e Seis


O PRÍNCIPE KAI CHEGOU À REUNIÃO COM DEZESSETE MINUTOS de atraso. Foi recebido pelos olhares decepcionados de Torin e quatro outros oficiais do governo, todos sentados em uma longa mesa, junto com mais uma dezena de rostos surgindo de seus respectivos netscreens na parede forrada de telas diante dele. Embaixadores de cada país da Terra — Reino Unido, Federação Europeia, União Africana, República da América e Austrália. Uma rainha, dois primeiros-ministros, um presidente, um governador-geral, três representantes de Estado e dois representantes de província. Um texto ao longo da parte inferior das telas prestativamente exibia seus nomes, títulos e afiliações de países.
— Que gentil da parte do jovem príncipe nos agraciar com sua presença — disse Torin, enquanto os oficiais em volta da mesa se levantavam para saudar Kai.
Kai fez um gesto para afastar o comentário de Torin.
— Pensei que você poderia precisar da minha tutela.
Na parede coberta de telas, a primeira-ministra da África, Kamin, grunhiu de maneira nada feminina. Todos os outros permaneceram em silêncio.
Kai caminhou para se sentar em seu lugar habitual, mas Torin o impediu, gesticulando para a cadeira ao fim da mesa. A cadeira do imperador. Com a mandíbula tensa, Kai trocou de lugar. Ele olhou para a fileira de rostos — embora cada um dos líderes do mundo estivesse a milhares de quilômetros de distância, olhando de seus próprios netscreens de parede, parecia que seus olhares estavam focados nele, desaprovadores.
Kai limpou a garganta, tentando não se inquietar.
— A ligação da conferência é segura? — perguntou ele, a questão trazendo de volta suas preocupações em relação ao chip de comunicação direta que Cinder encontrara dentro de Nainsi. As telas nessa sala eram equipadas com D-COMMs para que eles pudessem promover reuniões internacionais sem temer que alguém os ouvisse pela rede. O chip havia sido colocado dentro de Nainsi por um dos comparsas de Levana pelo mesmo motivo: sigilo, privacidade? Se fosse isso, o que exatamente ela havia descoberto?
— É claro — disse Torin. — As redes foram verificadas por aproximadamente vinte minutos, Vossa Alteza. Estávamos discutindo a relação da Terra com Luna quando você se dignou a se juntar a nós.
Kai juntou as mãos.
— Certo. A relação a que se refere é aquela em que a rainha dominatrix dá um ataque de pirraça e nos ameaça com guerra toda vez que não consegue as coisas exatamente como quer? É essa relação?
Ninguém riu. O olhar de Torin se focou em Kai.
— O momento é inconveniente, Vossa Alteza?
Kai limpou a garganta.
— Peço desculpas. Isso foi inapropriado. — Ele viu os rostos dos líderes da Terra o observando de milhares de quilômetros de distância. Apertou as mãos embaixo da mesa, sentindo-se como uma criança sentada em uma das reuniões do pai.
— Obviamente — disse o presidente Vargas, da América —, a relação entre a Terra e Luna tem sido tensa há muitos anos, e o reinado da rainha Levana apenas piorou as coisas. Não podemos culpar nenhuma das partes, mas o que é importante aqui é que consertemos isso, antes…
— Antes que ela comece uma guerra — completou um representante de uma região da América do Sul —, como o jovem príncipe já observou.
— Mas se os relatórios na rede não estiverem equivocados — disse o governador-geral Williams, da Austrália —, o diálogo entre a Terra e Luna foi retomado. Pode ser verdade que Levana esteja na Terra agora mesmo? Mal acreditei nas notícias quando as ouvi.
— Sim — disse Torin, todos os olhares voltados para ele. — A rainha chegou na tarde de ontem, e sua taumaturga-chefe, Sybil Mira, está hospedada em nossa corte há duas semanas.
— Levana informou a vocês o propósito da visita? — perguntou a primeira-ministra Kamin.
— Ela diz que quer chegar a um acordo de paz.
Um dos representantes da República da América deu uma gargalhada.
— Eu só acredito vendo.
O presidente Vargas ignorou o comentário.
— O momento é um tanto suspeito, não é? Logo depois… — Ele não terminou.
Ninguém olhou para Kai.
— Nós concordamos — disse Torin —, mas não pudemos recusar a requisição quando veio.
— Realmente parece que ela está mais disposta a discutir uma aliança com a Comunidade do que com qualquer um de nós — disse o presidente Vargas —, mas as condições dela eram sempre insatisfatórias. Elas mudaram?
Kai olhou de canto de olho enquanto o peito de Torin lentamente se expandia.
— Não — respondeu ele. — Até onde sabemos, as condições de Sua Majestade não mudaram. Sua meta continua a ser consagrar a aliança pelo casamento com o imperador da Comunidade.
Embora os rostos na sala e nos netscreens tenham tentado permanecer estáticos, o desconforto se instalou entre eles. Kai apertou tanto as mãos que suas unhas deixaram marcas de luas crescentes na pele. Ele sempre desprezara a diplomacia dessas reuniões. Todos pensando a mesma coisa, ninguém com coragem o bastante para dizer.
E é claro que seriam todos solidários ao destino de Kai, mas, ainda assim, gratos por não ser nenhum deles. Ficariam bravos com a possibilidade de a rainha Levana se infiltrar em qualquer país da Terra com seu regime ditatorial, mas certos de que isso seria melhor do que ver o exército dela atacando o planeta.
— A posição da Comunidade — continuou Torin — também não mudou.
Aquilo pareceu agitar a todos.
— Você não se casará com ela? — perguntou a rainha Camilla do Reino Unido, as rugas em sua testa se aprofundando.
Kai endireitou os ombros, em posição de defesa.
— Meu pai era firme em sua decisão de evitar tal aliança, e acredito que suas razões sejam tão pertinentes hoje quanto eram na semana passada, ou no ano passado, ou na última década. Tenho que considerar o que é melhor para o meu país.
— Você disse isso a Levana?
— Eu não menti para ela.
— E qual será o próximo passo dela? — conjecturou o primeiro-ministro da Europa, Bromstad, um homem de cabelos claros e olhar gentil.
— O que mais? — disse Kai. — Ela pretende acrescentar mais ofertas de barganha até que aceitemos.
Olhares se encontraram pelas telas. Os lábios de Torin ficaram brancos, seus olhos suplicando a Kai que fosse mais sutil. Kai podia adivinhar que Torin não tinha a intenção de mencionar o antídoto, pelo menos não até que planejassem seu próximo passo — mas a letumose era uma pandemia que afetava a todos. Eles tinham no mínimo o direito de saber que talvez existisse um antídoto. Isso considerando que Levana não tivesse mentido para eles.
Kai respirou fundo, espalmando as mãos na mesa.
— Levana alega ter encontrado a cura para a letumose.
Os netscreens pareceram estalar com surpresa, embora os líderes reunidos estivessem perplexos demais para falarem.
— Ela trouxe uma única dose consigo, e eu a entreguei para nossa equipe de pesquisa. Não sabemos se é realmente um antídoto até termos a oportunidade de estudá-lo. Se ele for real, precisamos encontrar uma maneira de replicá-lo.
— E se não pudermos?
Kai olhou para o governador-geral australiano. Ele era bem mais velho do que o pai de Kai. Eram todos muito mais velhos do que ele.
— Eu não sei — respondeu ele. — Mas farei o que for preciso pela Comunidade. — Ele pronunciou muito cuidadosamente a palavra “Comunidade”.
De fato, tinham a força de uma aliança entre seis países e um planeta. Mas tinham seus próprios laços, e ele não se esqueceria disso.
— Mesmo assim — disse Torin —, podemos ter esperanças de que ela seja razoável e de que consigamos convencê-la a assinar o Tratado de Bremen sem uma aliança consagrada por casamento.
— Ela vai recusar — disse um representante de Estado da Federação Europeia. — Não devemos nos iludir. Ela é teimosa…
— É claro, a família imperial da Comunidade não é a única com sangue real com que ela poderia alimentar esperanças de casamento — argumentou o representante de estado africano. Ele disse isso sabendo que seu próprio país não seria uma escolha, já que não era regido por uma monarquia. Qualquer laço de matrimônio seria superficial e passageiro demais. Ele continuou: — Acho que deveríamos explorar todas as possibilidades para apresentarmos uma proposta, não importando o que Levana resolva fazer em seguida. Uma oferta que nós, como um grupo, achemos que pode beneficiar os cidadãos de todo o planeta.
Kai seguiu a atenção do grupo para a rainha Camilla, do Reino Unido, que tinha um filho solteiro com trinta e poucos anos, uma idade mais próxima à de Levana do que a de Kai. Ele percebeu o quão passiva a rainha tentava parecer e teve que se conter para não passar uma imagem de presunção. Era bom virar a mesa.
E ainda, politicamente, não havia dúvida de que Kai era a melhor opção aos olhos de Levana. O príncipe do Reino Unido era o mais jovem de três irmãos e talvez nunca viesse a se tornar rei. Kai, por outro lado, seria coroado na próxima semana.
— E se ela rejeitar qualquer outro? — perguntou a rainha Camilla, erguendo uma sobrancelha que sofrera muitas intervenções cirúrgicas rejuvenescedoras ao longo dos anos. Quando ninguém respondeu a pergunta, ela continuou: — Não quero levantar alarme falso, mas vocês levaram em conta que a razão de ela ter vindo à Terra talvez seja assegurar essa aliança à força? Talvez sua intenção seja manipular a mente do jovem príncipe para que se case com ela.
O estômago de Kai se revirou. Ele podia ver seu desassossego espelhado nos rostos dos demais diplomatas.
— Ela poderia fazer isso? — perguntou ele.
Como ninguém respondeu rapidamente, ele se virou para Torin.
Levou muito, muito tempo para que Torin balançasse a cabeça, parecendo assustadoramente incerto.
— Não — disse ele. — Talvez em teoria, mas não. Para manter tal manobra, ela nunca poderia sair do seu lado. Tão logo você não estivesse mais sob a influência dela, poderia provar que o casamento não foi legítimo. Ela não se arriscaria a isso.
— Você quer dizer que nós esperamos que ela não se arrisque a fazer isso — falou Kai, sem se sentir muito consolado.
— E quanto à filha da rainha Levana, a princesa Inverno — lembrou o presidente Vargas —, houve alguma discussão acerca dela?
— Enteada — disse Torin. — E o que deveríamos discutir sobre a princesa lunar?
— Por que não podemos formar uma aliança em casamento com ela? — perguntou a rainha Camilla. — Ela não pode ser pior do que Levana.
Torin cruzou as mãos em cima da mesa.
— A princesa Inverno é filha de outra mãe, e seu pai era um mero guarda do palácio. Ela não tem sangue real.
— Mas talvez Luna ainda honrasse uma aliança de casamento com ela — disse Kai. — Será que não?
Torin suspirou, parecendo desejar que Kai mantivesse a boca fechada.
— Politicamente, talvez, mas isso não muda o fato de que a rainha Levana está na difícil posição de precisar se casar e gerar um herdeiro para continuar a linhagem por sangue. Não acho que ela vá aceitar casar a enteada enquanto ela mesma precisar arranjar um casamento apropriado.
— E não há esperança — disse o primeiro-ministro africano — de que os lunares aceitem algum dia a princesa Inverno como rainha?
— Somente se você conseguir convencê-los a abandonar suas superstições — respondeu Torin —, e todos sabemos o quão profundamente eles valorizam sua cultura. Senão eles sempre insistirão em um herdeiro de sangue real.
— E se Levana nunca gerar um herdeiro? O que eles farão então?
Kai olhou para seu conselheiro e ergueu uma sobrancelha.
— Não sei ao certo — respondeu Torin. — Tenho certeza de que a família real tem um monte de primos distantes que estão loucos para clamar o trono.
— Então, se Levana tem que se casar — disse o representante da América do Sul —, e se ela somente se casará com um imperador da Comunidade, e o imperador da Comunidade se recusa a casar com ela, o que acontecerá então? Chegamos a um impasse.
— Talvez — respondeu o governador-geral Williams — ela concretize suas ameaças.
Torin sacudiu a cabeça.
— Se o desejo dela fosse começar uma guerra, oportunidades não faltaram.
— Parece claro — argumentou o governador-geral — que o desejo dela é se tornar imperatriz. Mas não sabemos o que ela planeja fazer caso vocês não…
— Na verdade, nós temos, sim, uma ideia — disse o presidente Vargas, a voz pesada. — Temo que não precisemos mais especular se Levana pretende iniciar uma guerra contra a Terra. Nossas fontes me levam a acreditar que a guerra não só é provável como iminente.
Um rumor inquieto percorreu a sala.
— Se nossas teorias estiverem certas — disse o presidente Vargas —, Levana planeja investir contra a Terra dentro dos próximos seis meses.
Kai se inclinou para a frente, brincando com a gola da camisa.
— Que teorias?
— Parece que a rainha Levana está reunindo um exército.
Confusão se instalou no recinto.
— Certamente Luna tem um exército já faz algum tempo — disse o primeiro-ministro Bromstad. — Não é novidade nem é um absurdo. Não podemos exigir que eles não tenham um exército, por mais que queiramos.
— Não é o exército comum de Luna, soldados e taumaturgos — disse o presidente Vargas —, nem é como qualquer exército que nós tenhamos na Terra. Aqui estão algumas fotografias que nossas unidades orbitais operacionais conseguiram obter.
A imagem do presidente sumiu e foi substituída por uma imagem distorcida, como se tivesse sido tirada de muito longe. Fotos de satélite tiradas sem a luz do sol. Ainda assim, na imagem granulada, Kai conseguia distinguir filas e filas de homens de pé. Ele semicerrou os olhos e outra fotografia apareceu na tela, essa mais de perto, mostrando as costas de quatro homens vistas de cima, mas Kai notou, com um choque, que não eram homens. Seus ombros eram largos demais, muito arqueados. Seus perfis pouco discerníveis eram muito alongados. Suas costas estavam cobertas pelo que aparentava ser pelo.
Outra imagem apareceu na tela. Mostrava uma meia dúzia de criaturas, seus rostos uma mistura de homem e besta. Seus narizes e mandíbulas se projetavam bizarramente da cabeça, os lábios torcidos em caretas perpétuas. Pontos brancos irrompiam da boca — Kai não podia vê-los com clareza, não podia afirmar, mas lhe davam a distinta impressão de serem presas.
— O que são essas criaturas? — perguntou a rainha Camilla.
— Mutantes — respondeu o presidente Vargas. — Nós acreditamos que sejam lunares transformados por engenharia genética. Esse é o projeto que presumimos estar sendo executado há muitas décadas. Estimamos seiscentos deles somente nesse batalhão, mas suspeitamos que haja mais, provavelmente na rede de tubos de lava sob a superfície da Lua. Podem ser milhares, muitos milhares, pelo que sabemos.
— E eles possuem magia? — Foi uma pergunta hesitante, proposta pelo representante de província do Canadá.
A imagem desapareceu, mostrando o presidente americano de novo.
— Não sabemos. Não conseguimos vê-los treinando ou fazendo qualquer outra coisa que não ficar em formação e marchar para dentro e para fora das cavernas.
— Eles são lunares — disse a rainha Camilla. — Se não estiverem mortos, possuem magia.
— Não temos provas de que eles tenham matado as crianças não dotadas de dom — interrompeu Torin. — E por mais excitante que seja olhar para essas imagens e criar especulações loucas, precisamos manter em mente que a rainha Levana ainda não atacou a Terra, e não temos evidências de que tais criaturas se destinam a tal ataque.
— Qual mais poderia ser a finalidade delas? — perguntou o governador-geral Williams.
— Trabalho manual? — argumentou Torin, desafiando qualquer um a negar tal possibilidade. O governador-geral fungou, mas não disse nada. — Nós devemos, é claro, nos preparar para o caso de uma guerra começar. Mas nesse meio-tempo, nossa prioridade precisa ser formar uma aliança com Luna, não afastá-la com paranoia e desconfiança.
— Não — disse Kai, apoiando o queixo no punho. — Eu acho que esse é o momento perfeito para paranoia e desconfiança.
Torin franziu o cenho.
— Vossa Alteza.
— Parece que todos deixaram passar o ponto óbvio dessas imagens.
O presidente Vargas estufou o peito.
— O que você quer dizer?
— Você disse que provavelmente eles estão formando esse exército há décadas? Aprimorando seja qual for a ciência que usam para gerar essas… criaturas?
— É o que parece.
— Então por que só os percebemos agora? — Ele gesticulou em direção à tela em que as imagens haviam estado. — Centenas deles, de pé do lado de fora como se não tivessem nada melhor para fazer. Aguardando para serem fotografados. — Ele cruzou os braços em cima da mesa, observando enquanto expressões de incerteza se viraram em sua direção. — A rainha Levana queria que víssemos seu exército assombrado. Ela queria que tomássemos conhecimento.
— Você acha que ela está nos ameaçando? — perguntou a primeira-ministra Kamin.
Kai fechou os olhos, a imagem das filas de bestas fresca em sua mente.
— Não. Acho que ela está tentando me ameaçar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!