7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e Quatro

— ESCONDA-SE — FALOU CINDER LENTAMENTE. COM DELICADEZA. Com um apelo suave no final da última sílaba. — Esconda-se. Rampion, esconda-se. Esconda-se, Rampion. Desapareça... Suma... Você não existe... Não pode ser vista...
Estava sentada de pernas cruzadas na cama, no escuro, visualizando a nave que a envolvia. As paredes de aço, o motor em movimento, os parafusos e soldas que mantinham tudo unido, o computador central, o vidro grosso das janelas do cockpit, a saída fechada do compartimento de carga, a plataforma sob seus pés.
E, então, ela imaginou a nave invisível.
Passando por radares, que permaneciam em silêncio.
Dissolvendo-se na escuridão sob o olho alerta das estações de satélite.
Dançando graciosamente entre todas as outras naves que lotavam o sistema solar. Sem chamar atenção. Sem existir.
As vértebras dela formigaram, começando na nuca e descendo até o cóccix. Um calor se irradiou, ocupando todos os músculos e todas as juntas, se espalhando pelos dedos e voltando para os joelhos. Circulando.
Ela respirou fundo, relaxou os músculos com a respiração e começou a recitar de novo.
— Esconda-se, Rampion. Rampion, esconda-se. Esconda-se.
— Está funcionando?
Cinder abriu os olhos. Na escuridão, só conseguia ver os pontinhos das estrelas pela janela.
Estavam do lado da Terra oposto ao Sol, a nave oculta na sombra e na vastidão do espaço. Oculta. Escondida. Invisível.
— Boa pergunta — respondeu ela, dirigindo a atenção para o teto como já tinha se tornado hábito, apesar de saber que era ridículo. Iko não estava em um ponto do teto, não estava nem nos alto-falantes que projetavam a voz alegre. Ela estava em todos os fios do computador, em todos os chips, em todos os sistemas. Estava em tudo, menos no aço e nos parafusos que mantinham a nave de pé.
Era meio desconcertante.
— Não faço ideia do que estou fazendo — disse Cinder, olhando pela janela. Não havia naves visíveis no pequeno portal, só estrelas e mais estrelas. Ao longe, uma névoa roxa vaga, talvez um pouco de gás que sobrou da cauda de um cometa. — Você se sente diferente?
Alguma coisa tremeu debaixo de seus pés, delicada como o ronronar de um gatinho. Fez ela se lembrar da forma como a ventoinha de Iko girava rápido demais quando ela estava processando informações.
— Não — disse Iko depois de um minuto, e o tremor parou. — Ainda gigantesca.
Cinder esticou as pernas e permitiu que o sangue voltasse a circular no pé.
— É isso que me preocupa. Sinto que não deve ser fácil. As forças militares da Comunidade das Nações Orientais estão todas atrás de nós. Até onde sabemos, podem ter pedido ajuda a outras forças militares da União, sem mencionar lunares e caçadores de recompensas. Quantas naves você captou nos nossos radares?
— Setenta e uma.
— Certo. E nenhuma delas reparou em nós nem ficou desconfiada? Isso parece provável?
— Pode ser que o que você está fazendo esteja realmente funcionando. Talvez você tenha um talento natural para esse negócio lunar.
Cinder balançou a cabeça, esquecendo que Iko não conseguia vê-la. Queria acreditar que estava provocando alguma coisa, mas a sensação era errada. Lunares tinham controle sobre bioeletricidade, não ondas de rádio. Tinha uma desconfiança de que o cantarolar e a visualização que estava fazendo eram um grande desperdício de tempo.
O que deixava a pergunta: por que eles ainda não tinham sido vistos?
— Cinder, quanto tempo vou ter que ficar assim?
A garota suspirou.
— Não sei. Até conseguirmos instalar outro sistema de controle automático.
— E até você encontrar um corpo novo para mim.
— Isso também. — Ela esfregou as mãos. O calor súbito que tinha preenchido os dedos da mão direita sumiu, e, pela primeira vez, eles estavam mais frios do que os de metal duro.
— Não gosto de ser uma nave. É horrível. — Havia um choramingo óbvio no tom de Iko. — Me dá a sensação de estar menos viva do que nunca.
Cinder se deitou no colchão e observou as sombras escuras. Sabia exatamente o que Iko estava sentindo; pelo breve momento em que funcionou como o controle automático, sentiu como se cérebro estivesse esticado em todas as direções. Como se ela tivesse perdido contato com o corpo físico, tivesse removido o cérebro e estivesse flutuando em um espaço inexistente entre o real e o digital. Ela ficou cheia de pena de Iko, que nunca quis nada além de se tornar mais humana.
— É temporário — disse ela, tirando o cabelo da testa. — Assim que for seguro voltar para a Terra, vamos...
— Ei, Cinder! Está assistindo à rede? — Thorne apareceu na porta, iluminado pelas luzes econômicas do corredor. — Está na hora do cochilo? Acenda as luzes.
Os músculos do ombro de Cinder se contraíram.
— Não consegue ver que estou ocupada?
Thorne observou o quartinho escuro.
— É, sim.
Cinder tirou os pés de cima da cama e se sentou ereta.
— Estou tentando me concentrar.
— Ah. Bom trabalho, colega. Mas você devia ver isso. Estão falando de nós em todos os canais. Estamos famosos.
— Não, obrigada. Prefiro não me ver agindo como louca no evento social mais importante do ano. — Só vira a filmagem do baile, de quando perdeu o pé e rolou pela escada até parar em uma pilha de seda amassada e luvas enlameadas, uma vez, mas foi suficiente.
Thorne balançou a mão.
— Já mostraram os vídeos. E agora, você realizou o sonho de todas as garotas ruivas com menos de vinte e cinco anos.
— Certo, minha vida é mesmo um sonho que virou realidade.
Thorne ergueu a sobrancelha algumas vezes.
— Talvez não, mas pelo menos o sonhador príncipe Kai sabe seu nome.
— Imperador Kai — corrigiu Cinder, franzindo a testa.
— Precisamente. — Thorne inclinou a cabeça para a frente da nave. — Estão iniciando uma coletiva de imprensa para falar sobre você. Achei que não ia querer perder — Thorne se abanou e fingiu que ia desmaiar — os maravilhosos olhos castanhos-chocolate e o cabelo perfeitamente descabelado, e...
Cinder pulou da cama e empurrou Thorne para o batente da porta ao passar.
— Ai — reclamou ele, esfregando o braço. — O que deu nos seus fios?
— Estou ajustando o canal agora. — A voz de Iko seguiu Cinder pelo compartimento de carga até o cockpit, onde a tela principal mostrava o imperador Kai em um pódio em frente a uma plateia de jornalistas. — A coletiva está só começando, e ele está tão lindo hoje!
— Obrigada, Iko — disse Cinder, sentando na cadeira do piloto.
— Ei, essa é minha...
Ela silenciou Thorne com um aceno e ajustou o volume da tela.
— ... que podemos para encontrar os fugitivos — disse Kai. As olheiras sugeriam que fazia tempo que ele não tinha uma boa noite de sono. Ainda assim, vê-lo deixou Cinder quente de saudade e infeliz ao pensar nos últimos momentos em que o viu. Ela, depois de tropeçar na escada, caída no caminho de cascalho com os fios soltando fagulhas no tornozelo.
Ele... enojado, perplexo, desapontado.
Traído.
— Selecionamos nossas naves mais velozes com a tecnologia de busca mais avançada e os melhores pilotos para encontrar os fugitivos. Eles tiveram sorte na fuga até agora, mas não esperamos que a sorte dure. A classe de nave que estão usando não foi feita para períodos longos em órbita. Vão acabar tendo que voltar à Terra, e estaremos prontos para encontrá-los.
— Em que tipo de nave eles estão? — perguntou uma moça na primeira fila.
Kai verificou as anotações.
— É uma nave de carga roubada da República da América, uma Rampion 214, Classe 11.3. Os mecanismos de rastreio foram removidos, e esse é o fator responsável pelas dificuldades que tivemos para detê-los.
Thorne deu uma cutucada nas costas de Cinder com orgulho.
Na tela, Kai assentiu para outro jornalista nos fundos.
— O senhor disse que nossas forças militares estarão esperando quando eles voltarem à Terra. Quanto tempo o senhor acha que isso vai demorar, e o senhor vai interromper a busca espacial até lá?
— De jeito nenhum. Nosso objetivo principal é encontrá-los o mais rápido possível, e planejamos continuar a busca no espaço até que eles sejam encontrados. No entanto, meus especialistas calculam que a nave vai voltar à Terra a qualquer momento, entre dois dias e duas semanas, dependendo do combustível e das reservas de energia deles, e estaremos preparados para isso, se necessário. Sim?
— Minhas fontes me informaram que esse ciborgue, essa Linh Cinder...
— É você — sussurrou Thorne, dando outra cutucada. Ela deu um tapa para afastá-lo.
— ... ganhou um convite VIP para o baile anual e era, na verdade, convidada sua, Vossa Majestade. O senhor nega essa alegação?
— O quê? — perguntou Thorne.
— Convite VIP? — disse Iko.
Cinder deu de ombros e ignorou os dois.
Na tela, Kai se movimentou no pódio, com os braços completamente esticados, para dar a si mesmo espaço para respirar antes de limpar a garganta e se aproximar do microfone de novo.
— Não nego a alegação. Conheci Linh Cinder duas semanas antes do baile. Como muitos de vocês sabem, ela era uma mecânica famosa na cidade, e a contratei para consertar um androide com defeito. E, sim, a convidei para ir ao baile, como minha convidada pessoal.
— O quê?
Cinder se encolheu por causa do grito agudo que saiu dos alto-falantes do cockpit.
— Quando isso aconteceu? É melhor que tenha sido depois que Adri me desmontou, porque se ele convidasse você para o baile e você não me contasse...
— Iko, estou tentando ouvir! — Cinder se contorceu na cadeira. Kai tinha convidado-a para ir ao baile antes de o corpo de Iko ser desmontado e vendido. Cinder teve oportunidade de contar a ela, mas ao mesmo tempo estava tão determinada a não aceitar o convite que não havia lhe parecido importante.
Quando Kai chamou outro jornalista, Cinder percebeu que tinha perdido uma pergunta inteira.
— O senhor sabia que ela era ciborgue? — perguntou uma mulher, com um tom de nojo não disfarçado.
Kai a encarou, parecendo confuso, depois dirigiu o olhar para a multidão. Aproximou os pés do pódio e uma ruga se formou entre as sobrancelhas.
Cinder mordeu a parte interna da bochecha e se preparou para a repulsa certa. Quem convidaria um ciborgue para o baile?
Mas Kai respondeu simplesmente:
— Não vejo por que ela ser ciborgue seja relevante. Próxima pergunta?
Os dedos de metal de Cinder tremeram.
— Vossa Majestade, o senhor sabia que ela era lunar quando fez esse convite?
Parecendo prestes a desmaiar de exaustão, Kai balançou a cabeça.
— Não. É claro que não. Inocentemente, ao que parece, eu estava sob a impressão de que não havia lunares na Comunidade das Nações Orientais. Excetuando-se nossos convidados diplomáticos aqui no palácio, é claro. Agora que trouxeram à minha atenção a forma como conseguem se misturar com a população, vamos tomar medidas adicionais de segurança para impedir que lunares migrem para cá e também para encontrar e deportar qualquer um que possa estar vivendo dentro de nossas fronteiras. Tenho toda intenção de cumprir os estatutos do Acordo Interplanetário do ano 54 da Terceira Era em relação a esse assunto. Sim, segunda fila.
— Com relação a Sua Majestade, a rainha Levana, ela ou alguém da corte lunar falou alguma coisa sobre a fuga da prisioneira?
Kai trincou os dentes.
— Ah, ela falou uma ou duas coisas sobre o assunto.
Atrás de Kai, um oficial do governo limpou a garganta. A irritação evaporou rapidamente do rosto do imperador e foi substituída por uma expressão neutra, calculada.
— A rainha Levana quer que Linh Cinder seja encontrada — acrescentou ele — e que seja punida.
— Vossa Majestade, o senhor acha que esses eventos podem afetar os procedimentos diplomáticos entre a Terra e Luna?
— Acho que não ajudaram.
— Vossa Majestade. — Um homem ficou de pé três fileiras atrás. — Relatos de testemunhas do baile sugerem que a prisão de Linh Cinder foi parte de um acordo entre o senhor e a rainha, e que soltá-la poderia ser motivo para a deflagração de uma guerra. Há motivos para acreditar que a fuga da ciborgue poderia levar a uma ameaça maior à segurança nacional?
Kai ia coçar atrás da orelha, mas percebeu o tique nervoso e pousou a mão de volta no pódio.
— A palavra guerra vem sendo dita entre Terra e Luna há gerações. É minha prerrogativa, como fora a do meu pai, evitar isso a todo custo. Garanto que estou fazendo tudo em meu poder para não prejudicar nosso frágil relacionamento com Luna, começando por encontrar Linh Cinder. Isso é tudo, obrigado.
Ele saiu do palco com uma onda de perguntas não respondidas e foi puxado para uma conversa sussurrada entre integrantes do governo.
Fazendo beicinho, Thorne se encolheu no assento do copiloto.
— Ele não falou de mim. Nem uma vez.
— Nem de mim — disse Iko, sem pena.
— Você não é uma presidiária fugitiva.
— Verdade, mas Sua Majestade e eu nos conhecemos no mercado. Me pareceu que tínhamos uma forte ligação. Você não achou, Cinder?
As palavras foram absorvidas pela interface auditiva de Cinder sem fazer sentido algum. Não respondeu, incapaz de afastar o foco de Kai.
Ele estava sendo forçado a assumir a responsabilidade pelas ações dela. Estava tendo que encarar injustamente as repercussões das decisões dela. Depois da fuga, teve que lidar sozinho com a rainha Levana.
Cinder fechou os olhos para não vê-lo mais e esfregou a têmpora latejante.
— Mas eu sou um fugitivo procurado, como Cinder — prosseguiu Thorne. — Eles perceberam que desapareci, não?
— Talvez estejam agradecidos — murmurou Cinder.
Thorne resmungou alguma coisa incoerente, e em seguida fez-se um longo silêncio, durante o qual Cinder massageou a testa e tentou se convencer de que tinha feito a coisa certa.
Thorne girou e apoiou os pés no braço da cadeira de Cinder, empurrando o cotovelo dela.
— Agora entendo por que você anda tão imune ao meu charme. Eu não fazia ideia de que estava competindo com um imperador. É um adversário difícil, mesmo para mim.
Ela riu com deboche.
— Não seja ridículo. Nem o conheço direito, e agora ele me despreza.
Thorne riu e prendeu os polegares nos passadores do cinto.
— Tenho grandes instintos quando o assunto é amore, e ele não despreza você. Além do mais, convidar um ciborgue para o baile? É preciso coragem. Costumo não gostar de realeza e oficiais do governo por princípio, mas tenho que dar crédito a ele por isso.
Cinder ficou de pé, empurrou os pés de Thorne da cadeira dela e liberou o caminho até a porta.
— Ele não sabia que eu era ciborgue.
Thorne inclinou a cabeça quando ela passou.
— Não sabia?
— É claro que não — disse ela, saindo do pequeno cockpit.
— Mas agora sabe que você é ciborgue e ainda gosta de você.
Ela girou na direção dele de novo e apontou para a tela.
— Você percebeu isso em uma coletiva de dez minutos na qual ele disse que está fazendo tudo que pode para me caçar e me entregar para execução?
Thorne deu um sorrisinho. Com uma voz horrível e arrogante que Cinder supôs ser imitação de Kai, ele disse:
— Não vejo por que ela ser ciborgue seja relevante.
Revirando os olhos, Cinder deu as costas para ele.
— Ei, volte aqui! — As botas de Thorne bateram no chão atrás dela. — Tenho outra coisa para mostrar.
— Estou ocupada.
— Prometo não debochar mais do seu namorado.
— Ele não é meu namorado!
— É sobre Michelle Benoit.
Cinder inspirou lentamente e virou.
— O quê?
Thorne hesitou, com medo de se mover caso ela se irritasse de novo, mas acabou inclinando a cabeça na direção do painel do cockpit atrás.
— Venha dar uma olhada nisso.
Suspirando, Cinder andou até ele e apoiou os cotovelos nas costas de sua cadeira.
Thorne desligou o canal de notícias.
— Você sabia que Michelle Benoit tem uma neta adolescente?
— Não — respondeu Cinder, entediada.
— Ah, tem. A srta. Scarlet Benoit. Supostamente, ela acabou de fazer dezoito anos, mas, ouça só isso, ela não tem nenhum registro hospitalar. Sacou? Minha nossa, sou um gênio.
Cinder fez uma expressão de desprezo.
— Não entendi.
Thorne inclinou o pescoço para trás e olhou para ela de cabeça para baixo.
— Ela não tem nenhum registro hospitalar.
— E daí?
Ele girou a cadeira para olhar para Cinder.
— Você conhece uma única pessoa que não tenha nascido em hospital?
Cinder refletiu.
— Está sugerindo que ela poderia ser a princesa?
— É exatamente o que estou sugerindo.
A tela mostrou um perfil e uma foto de Scarlet Benoit. Era bonita, com curvas pronunciadas e cachos ruivos de cor intensa.
Cinder apertou os olhos para a imagem. Uma adolescente sem registro de nascimento. Parente de Michelle Benoit.
Que conveniente.
— Que bom. Excelente trabalho de detetive, capitão.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!