13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e quatro

A CRIATURA HESITOU, PARALISADA, E CAIU PELA DUNA, O SANGUE escorrendo do ferimento na lateral do corpo. Cress deu um grito e tropeçou para trás. Thorne a puxou para baixo, na areia.
— Cress! Você está bem?
Ela estava tremendo, vendo o animal cair e rolar o resto do caminho, com areia grudando no pelo. Tinha vontade de gritar, mas todos os barulhos estavam paralisados dentro dela, e não pensava em nada além de que o animal queria dizer alguma coisa para ela, e naquele momento o mundo estava se inclinando e sumindo, e ela ia vomitar, e havia sangue na areia, e não sabia o que tinha acontecido, e...
— Cress! Cress!
As mãos de Thorne estavam nela, procurando, e Cress percebeu que ele achava que ela tinha levado o tiro. Ela segurou os pulsos dele, apertou com força e tentou passar a verdade pelo toque, pois as palavras não chegavam à boca.
— Eu... Eu estou...
Ela fez uma pausa. Os dois ouviram. Um ofegar, junto com o movimento e o escorregar de passos.
Cress se encolheu no abraço de Thorne quando o pavor tomou conta dela. Um homem apareceu no alto da duna, segurando uma arma.
Ele viu o animal primeiro, morrendo ou morto, mas logo avistou Cress e Thorne com o canto do olho. Deu um grito, quase perdeu o equilíbrio e olhou boquiaberto para os dois.
Suas sobrancelhas desapareceram debaixo de um turbante de tecido. Seus olhos castanhos e a parte de cima do nariz eram tudo o que ela conseguia ver do rosto, pois o resto do corpo estava coberto com uma túnica que ia até os tornozelos, protegendo-o da natureza cruel do deserto. Por baixo da túnica apareciam uma calça jeans e botas desbotadas pelo sol e cobertas de areia.
Ele terminou de inspecionar Cress e Thorne e baixou a arma. Começou a falar, e por um momento Cress pensou que o sol e a exaustão a tivessem deixado maluca, pois não entendeu nem uma palavra que ele disse.
Thorne apertou mais seus braços.
Por um momento, o homem olhou-os em silêncio. Depois, se mexeu, baixou as sobrancelhas e deixou à mostra fios brancos nelas.
— Universal, então? — disse ele com um sotaque pesado que dificultou o entendimento das palavras. Ele examinou as roupas esfarrapadas e os lençóis. — Vocês não são daqui.
— Isso mesmo... senhor — falou Thorne, com voz rouca. — Precisamos de ajuda. Minha... minha mulher e eu fomos atacados e roubados dois dias atrás. Não temos mais água. Por favor, você pode nos ajudar?
O homem apertou os olhos.
— Seus olhos?
Thorne fez beicinho. Tentava esconder sua nova incapacidade, mas seus olhos ainda estavam desfocados.
— Os ladrões me deram um golpe muito forte na cabeça — disse ele —, e minha visão sumiu desde então. E minha mulher está com febre.
O homem assentiu.
— É claro. Meus... — Ele hesitou por causa da língua. — Meus amigos não estão longe. Tem um oásis perto daqui. Temos um... acampamento.
Cress ficou tonta. Um oásis. Um acampamento.
— Tenho que levar o animal — disse o homem, inclinando a cabeça na direção da criatura caída. — Vocês conseguem andar? Talvez... dez minutos?
Thorne massageou os braços de Cress.
— Conseguimos, sim.
Os dez minutos pareceram uma hora para Cress, enquanto seguiam o homem pelo deserto, andando na marca deixada pela carcaça do animal, arrastada na areia. Cress tentou não olhar para o pobre coitado e manteve os pensamentos na promessa de segurança.
Quando viu o oásis, como um paraíso à frente deles, uma explosão repentina de alegria subiu pela garganta dela.
Eles conseguiram.
— Descreva — murmurou Thorne, segurando o cotovelo dela.
— Tem um lago — disse ela, sabendo que era real e sem entender direito como pôde confundir aquela miragem indefinida com uma coisa tão intensa e vibrante. — Azul como o céu e cercado de grama e algumas árvores... palmeiras, eu acho. São altas e finas e...
— As pessoas, Cress. Descreva as pessoas.
— Ah. — Ela contou. — Consigo ver sete pessoas... Não consigo saber o sexo daqui. Todos estão usando túnicas de cores claras por cima da cabeça. E tem... acho que são camelos? Amarrados perto da água. E tem uma fogueira, e algumas pessoas estão arrumando esteiras e barracas. E tem tanta sombra!
O homem com a caça parou no pé da ladeira.
— O homem está nos esperando — disse Cress.
Thorne se inclinou para perto dela e deu um beijo em sua bochecha. Cress ficou imóvel.
— Parece que conseguimos, sra. Smith.
Quando eles se aproximaram do acampamento, as pessoas ficaram de pé. Dois integrantes do grupo foram até a areia para recebê-los. Apesar de estarem com a túnica por cima da cabeça, eles puxaram a cobertura para baixo do queixo, e Cress viu que havia uma mulher. O caçador falou com eles na outra língua, e uma mistura de solidariedade e curiosidade surgiu nos rostos desses estranhos, mas não sem um toque de desconfiança.
Apesar dos olhos da mulher serem os mais rígidos do grupo, ela foi a primeira a sorrir.
— Que terrível provação pela qual vocês passaram — disse ela, com um sotaque não tão pesado quanto o do caçador. — Meu nome é Jina, e este é meu marido, Niels. Bem-vindos à nossa caravana. Venham, temos bastante comida e água. Niels, ajude o homem com a bolsa.
O marido se aproximou para tirar a bolsa improvisada do ombro de Thorne. Apesar de ter ficado mais leve conforme a água foi sendo bebida, a expressão de Thorne foi de alívio por se livrar do peso.
— Temos um pouco de comida aí — disse ele. — Kits de nutrição, basicamente. Não é muito, mas é de vocês se nos ajudarem.
— Obrigada pela oferta — agradeceu Jina —, mas isso não é uma negociação, meu jovem. Nós vamos ajudar vocês.
Cress ficou grata por não fazerem perguntas quando ela e Thorne foram levados até a fogueira. As pessoas se mexeram e olharam para eles com curiosidade enquanto abriam espaço em esteiras trançadas. O caçador os deixou e foi levando a carcaça do animal para alguma outra parte do acampamento.
— Que tipo de animal era aquele? — perguntou Cress, com os olhos grudados na marca deixada pelo corpo arrastado.
— Um adax do deserto — respondeu Niels, entregando para ela e para Thorne cantis cheios de água.
— Era lindo.
— Também vai ser delicioso. Agora, beba.
Ela queria sentir tristeza pelo animal, mas a água era uma distração abençoada. Desviou a atenção para o cantil e fez o que ele mandou, bebendo até o estômago doer de saciedade.
As pessoas ficaram em silêncio, e Cress sentiu a presença da curiosidade e dos olhares ao redor. Evitou olhar nos olhos deles e chegou mais perto de Thorne inconscientemente, até ele não ter escolha além de colocar o braço ao redor dela.
— Somos muito gratos a vocês — disse ele, oferecendo um sorriso fácil a ninguém em particular.
— Foi muita sorte vocês terem nos encontrado, ou Kwende ter encontrado vocês — falou Jina. — O deserto não é um lugar gentil. Vocês devem ter uma estrela da sorte muito forte.
Os lábios de Cress se esticaram em um sorriso.
— Você é muito nova. — As palavras soaram acusatórias aos ouvidos de Cress, mas o rosto da mulher estava gentil. — Há quanto tempo estão casados?
— Somos recém-casados — disse Thorne, apertando Cress. — Era para ser nossa lua de mel. Acho que a estrela da sorte não é tão forte assim.
— E eu não sou tão nova quanto pareço — acrescentou Cress, sentindo que tinha que oferecer alguma coisa ao fingimento. Mas sua voz falhou, e ela logo se arrependeu de falar.
Jina piscou.
— Você vai ser grata por essa juventude um dia.
Cress baixou o olhar de novo e ficou feliz quando uma colher larga e uma tigela de comida fumegante foram colocadas na sua frente, de onde saía um cheiro exótico, temperado e intenso.
Ela hesitou e arriscou um olhar de lado para a mulher que entregou a tigela, sem saber se era para compartilhar ou passar para a pessoa seguinte ou comer de forma lenta e delicada ou...
Mas em poucos momentos todos ao redor da fogueira estavam apreciando a própria comida com satisfação. Vermelha de fome, Cress colocou a tigela no colo. Mordiscou lentamente no começo, tentando identificar os alimentos terráqueos. As ervilhas ela reconheceu facilmente, pois também existiam em Luna, mas havia outros tipos de legumes que ela não reconheceu, misturados com arroz e cobertos com um molho denso e aromático.
Ela pegou um pouco de alguma coisa amarelada e firme. Mordeu e descobriu que era macio e saía fumaça de dentro.
— Não existe batata no lugar de onde você vem?
Cress levantou o olhar e viu Jina observando-a com curiosidade. Ela engoliu.
— Este molho — disse ela baixinho, torcendo para Jina não perceber que ela estava fugindo da pergunta. Batatas, claro! As batatas de Luna eram mais escuras, sua textura mais esfarelada. — O que é?
— Só um curry simples. Gostou?
Ela assentiu com entusiasmo.
— Muito. Obrigada.
Ao perceber que todos os olhos estavam direcionados a ela, Cress enfiou o resto da batata na boca depressa, apesar de os temperos estarem deixando suas bochechas coradas. Enquanto ela comia, um prato de carne seca lhe foi passado (ela não perguntou de que animal), e depois uma tigela cheia de frutas laranja suculentas, e frutas secas, doces, e verdes de vários sabores, mais do que as frutas secas de proteína que Sybil costumava levar para ela.
— Vocês são comerciantes? — perguntou Thorne, aceitando o punhado de frutas secas que Cress colocou na mão dele.
— Somos — disse Jina. — Fazemos essa viagem quatro vezes por ano. Estou chateada pela ameaça de ladrões. Não temos esse tipo de problema há séculos.
— São tempos de desespero — falou Thorne, dando de ombros. — Se você não se importa de eu perguntar, por que camelos? Faz o estilo de vida de vocês parecer tão... segunda era.
— De jeito nenhum. Ganhamos nossa vida servindo muitas das menores comunidades do Saara, e muitas delas nem têm ímãs nas ruas, muito menos rotas de comércio.
Cress reparou na mão de Thorne apertando mais a tigela. O Saara. Então a observação que ela fizera das estrelas estava certa. Mas a expressão dele permaneceu impassível, e ela se obrigou a fazer o mesmo.
— Por que não usar veículos com rodas, então?
— Usamos ocasionalmente — contou um dos homens —, em circunstâncias especiais. Mas o deserto é cruel com as máquinas. Não são tão de confiança quanto os camelos.
Jina pegou algumas fatias da fruta doce e grudenta e colocou em cima do curry.
— Nossa vida pode não ser luxuosa, mas nos mantemos ocupados. Nossas cidades contam conosco.
Cress ouviu com atenção, mas manteve o foco na comida. Uma vez que se encontravam em segurança, abrigados e alimentados, ela estava desenvolvendo um novo medo: de que a qualquer momento um desses homens ou mulheres fosse olhar para ela e ver alguma coisa diferente, alguma coisa não muito... terráquea.
Ou que reconhecesse Thorne, um dos fugitivos mais procurados do planeta.
Sempre que ousava erguer o olhar, via a atenção voltada a ela e Thorne. Encolheu-se em cima da tigela de comida, tentando afastar os olhares curiosos e torcendo para ninguém falar com ela. Estava certa de que qualquer palavra que dissesse a marcaria como diferente, que só o ato de olhar nos olhos deles faria com que se entregasse.
— Não são muitos os turistas que vêm aqui — disse o marido de Jina, Niels. — Os estrangeiros costumam vir para mineração ou arqueologia. Este lado do deserto está quase esquecido desde que os surtos começaram.
— Ouvimos que os surtos não estão tão ruins quanto dizem — comentou Thorne, mentindo com uma facilidade que deixou Cress atônita.
— Você ouviu errado. O surto de peste está tão ruim quanto pensam. Pior.
— Para que cidade vocês estão viajando? — perguntou Jina.
— Ah, para a cidade que vocês forem — respondeu Thorne, sem nem hesitar. — Não queremos ser um peso para vocês. Vamos ficar em qualquer cidade que tenha tela de comunicação. Er... vocês não teriam por acaso um tablet, teriam?
— Temos — disse a mulher mais velha, talvez na casa dos cinquenta anos. — Mas o acesso à rede é ruim aqui. Só teremos boa conexão quando chegarmos em Kufra.
— Kufra?
— A próxima cidade de comércio — explicou Niels. — Vamos demorar mais um dia para chegar lá, mas você deve encontrar o que precisar.
— Vamos descansar hoje durante o dia e a noite, e partimos amanhã — disse Jina. — Vocês precisam descansar, e queremos evitar o sol alto.
Thorne deu um sorriso grato.
— Não sei como agradecer.
Uma onda de tontura se espalhou na cabeça de Cress, obrigando-a a colocar a tigela no chão.
— Você não parece bem — disse alguém, ela não sabia quem.
— Minha mulher estava se sentindo mal antes.
— Você devia ter dito. Ela pode estar com insolação. — Jina ficou de pé e colocou a comida de lado. — Venha, você não deve ficar tão perto do fogo. Vocês podem ficar na barraca de Kwende esta noite, mas precisam beber mais antes de dormir. Jamal, me traga cobertores úmidos.
Cress aceitou a mão que a puxou para ficar de pé. Virou-se para Thorne e reuniu coragem para dar um pequeno beijo nada teatral na bochecha dele, mas, assim que se inclinou, o sangue lhe subiu à cabeça. O mundo girou. Pontos brancos surgiram em seus olhos e ela desabou na areia.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!