7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e Oito

KAI ANDOU POR TODO O ESCRITÓRIO, DA PORTA ATÉ A ESCRIVANINHA, da escrivaninha até a porta. Dois dias tinham se passado desde que Levana dera o ultimato: encontrar a garota ciborgue ou ela atacaria.
O prazo estava acabando, e cada hora fazia o medo de Kai aumentar. Não dormia havia mais de quarenta e oito horas. Com a exceção de cinco coletivas de imprensa nas quais ainda não tinha nada novo a relatar, também não saiu do escritório.
Ainda não havia sinal de Linh Cinder.
Nenhum sinal do dr. Erland.
Como se eles tivessem simplesmente desaparecido.
— Ah! — Ele passou as mãos pelo cabelo até o couro cabeludo doer. — Lunares.
O alto-falante em sua escrivaninha zumbiu.
— O androide real Nainsi pede permissão para entrar.
Kai soltou o cabelo com um gemido baixo. Nainsi estava sendo boa com ele nos últimos dias, levando quantidades absurdas de chá e não dizendo nada quando levava as xícaras ainda cheias e frias embora. Ela o encorajava a comer e lhe lembrava quando uma coletiva estava chegando, ou que tinha esquecido de retornar as mensagens do governador-geral da Austrália. Se não fosse pelo título, “androide real Nainsi,” ele quase esperaria que uma humana entrasse pelas portas todas as vezes que era anunciada.
Kai se perguntou se seu pai tinha sentido a mesma coisa em relação aos seus assistentes androides. Ou talvez Kai só estivesse delirando.
Afastando os pensamentos inúteis, Foi para trás da escrivaninha.
— Sim, entre.
A porta se abriu, e as rodinhas de Nainsi rolaram sobre o tapete. Não estava carregando a bandeja de comida que ele esperava.
— Vossa Majestade, uma mulher chamada Linh Adri e a filha, Linh Pearl, pediram uma reunião imediata. Linh-jiĕ diz que tem informações importantes sobre a fugitiva lunar. Eu a encorajei a procurar o Chefe Huy, mas ela insistiu em falar com o senhor diretamente. Verifiquei a identificação dela, e parece ser quem diz ser. Não tive certeza se devia mandá-la embora.
— Tudo bem. Obrigado, Nainsi. Mande-a entrar.
Nainsi saiu do escritório. Kai olhou para a camisa e abotoou o colarinho, mas concluiu que não havia nada que pudesse fazer quanto ao tecido amassado.
Um momento depois, duas estranhas entraram no escritório. A primeira, uma mulher de meia-idade com cabelo começando a ficar grisalho, e a outra, uma adolescente com cabelos densos e lisos que caíam pelas costas. Kai franziu a testa quando as duas fizeram uma reverência exagerada na sua frente, e só quando a garota deu um sorriso tímido foi que ele se sentiu um idiota porque o cérebro embotado pela exaustão não percebeu os nomes delas quando Nainsi as anunciou. Linh Adri. Linh Pearl.
Não eram completamente estranhas. Tinha visto a garota duas vezes antes, uma na barraca de Cinder na feira, outra no baile. Ela era a meia-irmã de Cinder.
E a mulher.
A mulher.
Seu sangue gelou com a lembrança dela, piorada pelo olhar quase tímido que a adolescente lhe lançava agora. Ele também a tinha visto no baile. Quando ela estava prestes a bater em Cinder por ousar aparecer.
— Vossa Majestade — disse Nainsi, atrás delas. — Eu gostaria de apresentar Linh Adri-jiĕ e a filha, Linh Pearl-mèi.
As duas fizeram reverências de novo.
— Sim, oi — disse Kai. — Vocês são...
— Eu era a guardiã legal de Linh Cinder — disse Adri. — Por favor, perdoe a invasão, Vossa Majestade Imperial. Sei que o senhor é muito ocupado.
Ele limpou a garganta, desejando agora ter deixado o colarinho aberto. Já o estava estrangulando.
— Por favor, sentem — disse, apontando para os sofás ao redor da lareira holográfica. — Pode ir, Nainsi. Obrigado.
Kai andou na direção da poltrona, determinado a não se sentar ao lado de nenhuma das duas. Elas, por sua vez, se sentaram com as costas eretas no sofá, para não amassar os laços nas costas dos quimonos, e colocaram as mãos recatadamente no colo. A semelhança entre as duas era incrível, e, é claro, não se pareciam em nada com Cinder, cuja pele sempre foi queimada pelo sol, cujo cabelo era mais liso e mais fino, e que demonstrava uma confiança implícita mesmo quando estava tímida e gaguejando.
Kai se controlou para não sorrir com a lembrança de Cinder tímida e gaguejando.
— Infelizmente não fomos apresentados de maneira formal quando nossos caminhos se cruzaram no baile na semana passada, Linh-jiĕ.
— Ah, Vossa Alteza Imperial é muito gentil. Adri, por favor. Para falar a verdade, estou tentando me distanciar da tutelada que agora carrega o nome do meu marido. E tenho certeza de que o senhor se lembra da minha adorável filha.
Ele direcionou a atenção para Pearl.
— Sim, nos conhecemos na feira. Você estava com alguns pacotes que queria que Cinder guardasse.
Ele ficou feliz em ver que a garota ruborizou e torceu para que estivesse se lembrando do quanto foi rude naquele dia.
— Também nos encontramos no baile, Majestade — disse Pearl. — Falamos sobre minha pobre irmã, minha irmã verdadeira, que adoeceu e faleceu recentemente da mesma doença que levou seu ilustre pai.
— Sim, eu me lembro. Minhas condolências por sua perda.
Aguardou a esperada retribuição de condolências, mas ela não aconteceu. A mãe estava ocupada demais examinando o trabalho em madeira do escritório; a filha estava ocupada demais examinando Kai com falsa timidez.
Ele batucou no braço da poltrona.
— Meu androide me disse que vocês têm informações importantes para compartilhar, certo? Sobre Linh Cinder?
— Sim, Majestade. — Adri voltou a atenção para ele. — Obrigada por nos receber tão de repente, mas tenho informações que acho que poderiam ser úteis em sua busca por minha tutelada. Como cidadã preocupada, é claro que quero fazer o possível para ajudar e garantir que ela seja presa antes de causar mais danos.
— É claro. Mas perdoe-me, Linh-jiĕ, eu tinha a impressão de que você já tinha sido contatada e interrogada pelas autoridades como parte da investigação, não?
— Ah, sim, nós duas conversamos com homens muito gentis — disse Adri —, mas, depois disso, uma nova situação chegou à minha atenção.
Kai apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Vossa Majestade, acredito que o senhor conheça a filmagem das quarentenas, de cerca de duas semanas atrás, na qual uma garota atacou dois medidroides, não?
Ele assentiu.
— Claro. A garota que falou com Chang Sunto, o garoto que se recuperou da peste.
— Bem, na época eu estava distraída demais por ter acabado de perder minha filha caçula, mas desde então pude ver melhor o vídeo e estou convencida de que a garota é Cinder.
Kai franziu a testa, já repassando o vídeo na mente. A garota não foi vista claramente, pois a gravação era granulada e trêmula e só mostrava vislumbres das costas dela.
— É mesmo? — refletiu, tentando não parecer muito interessado. — O que faz você pensar isso?
— É difícil perceber pelo próprio vídeo, e eu não teria certeza do que digo se não fosse pelo fato de estar rastreando a identificação de Cinder naquele dia, pois ela vinha se comportando de maneira suspeita havia algum tempo. Sei que estava perto das quarentenas. Antes, pensei que só estivesse tentando fugir das tarefas domésticas, mas agora vejo que aquela aberraçãozinha tinha uma intenção muito mais sinistra em mente.
Ele ergueu as sobrancelhas.
— Aberração?
As bochechas de Adri ficaram vermelhas.
— Mesmo isso é muito gentil para ela, Vossa Majestade. O senhor sabe que ela nem é capaz de chorar?
Kai se encostou na poltrona. Depois de um momento ele percebeu que, em vez de ficar enojado como Adri claramente esperava, estava apenas curioso.
— É mesmo? Isso é normal em... em ciborgues?
— Não tenho como saber, Majestade. Ela foi o primeiro e espero que último ciborgue que terei a infelicidade de conhecer. Não consigo entender por que criamos ciborgues. São criaturas perigosas e orgulhosas, que andam por aí se achando melhores do que todo mundo. Como se merecessem tratamento especial por suas... excentricidades. Não passam de sugadores de nossa sociedade trabalhadora.
O colarinho começando a coçar, Kai limpou a garganta.
— Entendo. Você tinha dito alguma coisa sobre provas de que Cinder estava perto das quarentenas, não? E de que... fez alguma coisa sinistra?
— Sim, Vossa Majestade. Se o senhor puder fazer a gentileza de olhar minha página de identificação, verá que carreguei um vídeo que é bem incriminador.
Kai soltou o tablet do cinto, pensando nas filmagens da quarentena enquanto procurava a página de Adri. O vídeo estava no alto, uma imagem de baixa qualidade marcada com o símbolo dos androides policiais da Comunidade das Nações Orientais.
— O que é?
— Quando Cinder não atendeu minhas mensagens naquele dia e tive certeza de que ela ia fugir do país, fiz, como era meu direito e mandei que ela fosse capturada. Essa é a filmagem de quando a encontraram.
Prendendo a respiração, Kai iniciou o vídeo. Era a filmagem de um aerodeslizador, direcionada para uma rua poeirenta cercada de armazéns abandonados. E ali estava Cinder, ofegante e furiosa. Ela levantou um punho fechado para um androide.
— Eu não roubei isto! Pertence à família dela, não a você nem a mais ninguém!
A câmera tremeu quando o aerodeslizador pousou e o androide se aproximou dela.
Com expressão de raiva, Cinder deu meio passo para trás.
— Não fiz nada de errado. Aquele medidroide estava me atacando. Foi legítima defesa.
Kai observou com ombros tensos o androide falar em sua voz monótona sobre os direitos da guardiã legal dela e o Ato de Proteção dos Ciborgues, até que Cinder acabou concordando em acompanhá-lo e o vídeo terminou.
Kai levou meros quatro segundos para achar a filmagem da garota atacando o medidroide das quarentenas e apertou mais o aparelho ao encaixar as peças do quebra-cabeça. Sentiu-se como um tolo pela centésima vez naquela semana.
Fazia sentido ser Cinder. É claro que era Cinder. Tinha dado o antídoto horas antes para o dr. Erland bem na frente dela. Erland deve ter passado para ela, e ela o deu para Chang Sunto. E, apesar de as câmeras não terem conseguido uma boa imagem, o rabo de cavalo agitado e a calça cargo eram os mesmos.
Engolindo em seco, desligou o vídeo e prendeu o tablet no cinto.
— Do que ela estava falando, o que ela não roubou? Que pertence à família dela?
Adri apertou a boca, e rugas profundas surgiram sobre o lábio superior.
— Uma coisa que realmente pertencia à família dela, àqueles que respeitariam apropriadamente os falecidos. E Cinder mutilou algo que já foi muito precioso a mim para conseguir.
— Ela o quê?
— Acredito que ela tenha roubado o chip de identificação da minha filha minutos depois da sua morte. — Adri colocou a mão na seda que cobria sua barriga. — Pensar nisso faz meu estômago revirar, mas sei que devia ter esperado. Cinder sempre teve inveja das minhas filhas, sempre teve mágoa. Apesar de não poder imaginá-la chegando a um nível tão baixo antes, agora que conheço a verdadeira natureza dela, não me surpreendo. Merece ser encontrada e punida pelo que fez.
Kai se afastou do veneno naquela voz, não conseguindo ligar as acusações às lembranças que tinha de Cinder. Pensou nos caminhos que se cruzaram no elevador, nos olhos dela cheios de tristeza enquanto falava da irmã doente. Na forma como perguntou se Kai dançaria com ela caso a garota milagrosamente sobrevivesse.
Ou será que todas as lembranças que tinha de Cinder não passavam de truque lunar? O que realmente sabia sobre ela?
— Tem certeza?
— Os relatos alegam que a arma usada contra os androides foi um bisturi, e tudo aconteceu momentos depois que recebi a mensagem me informando que minha filha... minha filha... — Seu queixo tremeu, os nós dos dedos ficaram brancos entrelaçados no colo. — E consigo -la tentando pegar a identificação de Peony naquela cabeça inumana dela. — Ela fez uma cara de desgosto. — Me dá calafrios pensar nisso, mas é precisamente o tipo de coisa que ela faria.
— E você acha que ela ainda poderia estar com esse chip de identificação?
— Isso, Majestade, não tenho como dizer. Mas é uma possibilidade.
Com um movimento afirmativo de cabeça, Kai ficou de pé. Adri e Pearl olharam para ele, mudas, antes de ficarem rapidamente de pé também.
— Obrigado por me trazer essas informações, Linh-jiĕ. Vou preparar imediatamente um rastreio para a identificação dela. Se estiver com o chip, vamos encontrá-la.
Enquanto falava, se viu implorando às estrelas para Adri estar errada. Para Cinder não ter guardado o chip de identificação. Mas era um desejo burro, um desejo imaturo. Ele precisava encontrá-la, e só tinha mais um dia para isso. Não queria descobrir o que Levana faria se falhasse.
— Obrigada, Vossa Majestade — disse Adri. — Só quero saber que a memória da minha filha não será manchada só porque fui generosa o bastante e permiti que aquela garota horrível entrasse na minha família.
— Obrigado — respondeu, sem saber por que estava agradecendo. Só parecia a coisa certa a dizer. — Se tivermos mais perguntas, vou pedir que alguém entre em contato com você.
— Sim, é claro, Majestade — disse Adri com uma reverência. — Só desejo ajudar meu país e ver essa garota horrenda pagar pelo que fez.
Kai baixou a cabeça.
— Você sabe que, quando for encontrada, a rainha Levana pretende que seja executada, não sabe?
Adri cruzou as mãos delicadamente à frente do corpo.
— Tenho certeza de que a lei existe por um motivo, Vossa Majestade.
Apertando os lábios, Kai se afastou do sofá e as levou na direção da porta.
Depois de mais duas reverências, Pearl saiu da sala batendo os cílios para Kai até não conseguir inclinar mais o pescoço para trás, mas Adri fez uma pausa na porta. Fez mais uma reverência.
— Foi uma grande honra, Majestade.
Ele sorriu rigidamente.
— Eu estava pensando... não que isso tenha a mínima importância, mas só a título de curiosidade... se isso levar a qualquer descoberta na investigação... devo esperar algum tipo de recompensa por minha ajuda?

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