20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e oito

O coração de Winter palpitou quando ela abriu a porta de vidro enorme do jardim. Sons de vida selvagem se espalharam pelo corredor: pássaros piando nas gaiolas suntuosas, macacos tagarelando nas árvores, cavalos brancos relinchando nos estábulos ao longe.
Ela fechou a porta antes que o calor saísse e observou os caminhos bifurcados, mas não havia sinal de Jacin. O jardim ocupava vários hectares dessa ala do palácio, um labirinto de gaiolas com barras e cercos de vidro. Estava sempre úmido e perfumado com flores exóticas, um aroma que mal encobria o odor animal.
Era o lugar favorito dela, já antes mesmo de Scarlet morar ali. Ela sempre se sentia à vontade com os animais, que não sabiam nada de controle mental e manipulação. Eles não se importavam se ela era bonita ou se era a enteada da rainha ou se estava ficando louca. Ela não se lembrava de ter tido um episódio de loucura naquele lugar, cercada dos amigos. Ali, ela ficava mais calma. Ali, podia fingir que estava no controle dos próprios sentidos.
Ela prendeu um cacho atrás da orelha e se afastou da porta. Passou pelo lar gelado da raposa do ártico, que estava encolhida junto a um tronco de bétula, com o focinho enfiado na cauda densa. A jaula ao lado abrigava uma fêmea de leopardo da neve com a ninhada de três filhotes brincalhões. Do outro lado do caminho cheio de musgo havia uma coruja branca dormindo. Abriu os olhos enormes quando Winter passou.
Ela observou o cercado de Ryu à frente, mas ele devia estar dormindo na toca, pois não o viu em lugar nenhum. E ali estava Scarlet, a única criatura do jardim que não era feita de pelos ou penas brancas, e ela exibia sua diferença com desafio, no cabelo ruivo e no casaco com capuz que nunca tirava apesar da umidade. Ela estava sentada com os joelhos encolhidos perto do peito, olhando para o musgo do lado de fora da jaula.
Levou um susto quando Winter se aproximou.
— Oi, amiga. — Winter se ajoelhou na frente da jaula de Scarlet.
— Oi, maluca — disse Scarlet. Pareceu um termo carinhoso. — Como estão as paredes do castelo hoje?
Winter cantarolou, pensativa. Ela estava tão distraída que mal vinha prestando atenção às paredes.
— Não tão sangrentas quanto o habitual — determinou ela.
— Já é alguma coisa. — Scarlet puxou os cachos para o lado. O cabelo estava escuro com oleosidade e sujeira, fazendo desaparecer o ruivo explosivo que já tinha feito Winter pensar em uma cauda de cometa. Ela também perdeu muito peso desde que foi capturada. Winter sentiu uma pontada de culpa. Deveria ter levado um lanche.
O olhar de Scarlet avaliou Winter com um toque de desconfiança, prestando atenção no vestido leve que cintilava mais do que o habitual.
— Você está… — Ela fez uma pausa. — Não importa. Qual é a ocasião?
Winter juntou as mãos.
— Jacin pediu para me encontrar com ele aqui.
Scarlet assentiu sem surpresa.
— É, ele passou aqui ainda há pouco. — Ela inclinou o queixo para o caminho. — E foi por ali.
Winter se levantou de novo, os joelhos tremendo. Por que estava tão nervosa? Ele era Jacin, que a viu coberta de lama e de arranhões quando eles eram crianças, que fazia curativo nos machucados dela quando se arranhava, que a abraçava quando as visões ficavam intensas e a trazia de volta com seus sussurros.
Mas alguma coisa soou diferente quando ele pediu que ela o encontrasse ali.
Pela primeira vez, ele pareceu nervoso.
Ela passou metade da noite se perguntando o que isso queria dizer, e sua mente sempre lhe mostrava uma possibilidade, uma esperança leve.
Ele ia dizer que a amava. Não queria fingir mais, apesar da política, apesar da madrasta dela. Não podia passar nem mais um dia sem beijá-la.
Ela tremeu.
— Obrigada — murmurou para Scarlet. Ajeitando a saia, ela seguiu pelo caminho.
— Winter.
Ela parou. Scarlet estava segurando a barra mais perto do rosto.
— Tome cuidado.
Winter inclinou a cabeça.
— O que você quer dizer?
— Eu sei que você gosta dele. Sei que confia nele. Mas só… tome cuidado.
Winter deu um sorriso. A pobre e desconfiada Scarlet.
— Se você insiste — disse ela, virando para o outro lado.
Ela o viu assim que fez a curva do cercado de Ryu. Jacin estava em uma ponte com vista para o lago central do jardim, com cascatas borbulhantes. Uma família de seis cisnes estava reunida abaixo, enquanto ele jogava os pedaços de pão que tinha nos bolsos.
Ele estava usando o uniforme, pronto para começar o turno como guarda pessoal dela. Seu cabelo ficava tão claro na luz obscura do jardim que, por um momento horrível, Winter imaginou que ele era um dos animais de Levana, um dos bichinhos dela.
Ela afastou o pensamento quando Jacin a olhou. A expressão dele era sombria, e sua euforia sumiu. Não era um encontro romântico, afinal. Claro que não. Nunca era.
Mas a decepção não afastou a fantasia do quanto ela queria que ele a imprensasse contra as barras e a beijasse até ela não conseguir pensar em mais nada.
Ela limpou a garganta e se aproximou.
— Isso é um tanto clandestino — disse ela, cutucando-o com o ombro enquanto ele esvaziava o pão que tinha nos bolsos.
Jacin hesitou antes de cutucá-la de volta.
— O jardim é aberto ao público, Alteza.
— Sim, e as portas vão se trancar em cinco minutos. Não tem ninguém aqui.
Ele olhou por cima do ombro.
— Você está certa. Acho que é mesmo clandestino.
Um novo sussurro de esperança surgiu entre as orelhas dela. Talvez. Talvez…
— Ande comigo — disse Jacin, descendo da ponte. Ela o seguiu ao redor do lago. A atenção dele estava grudada no chão, uma das mãos roçando o cabo da faca. Sempre o guarda.
— Tem alguma coisa…?
— Tem — sussurrou ele, como se saísse de pensamentos profundos. — Tem uma coisinha ou duas.
— Jacin?
Ele massageou a testa. Winter não lembrava a última vez que ele pareceu tão inseguro.
— Na verdade, tem um monte de coisas que eu gostaria de dizer a você.
O coração dela pulou. Lutando contra os pensamentos enlouquecidos na cabeça, ela só conseguiu dizer um atordoado:
— Ah?
Jacin desviou o olhar para ela, mas não o sustentou, e voltou a observar o caminho.
Eles atravessaram outra ponte entalhada em marfim. A maioria dos cisnes tinha se espalhado, mas um ainda estava indo atrás dele, mergulhando a cabeça na água. Do outro lado do caminho havia lebres albinas que os viram passar com olhos vermelhos e narizes tremendo.
— Desde que éramos crianças, eu só queria proteger você.
Os lábios dela formigaram. Ela queria que ele parasse de andar para poder olhá-lo no rosto. Mas ele não parou e a levou por afloramentos rochosos e flores pesadas e caídas.
— Por saber que você estava no julgamento, eu só pensava: tenho que sobreviver a isso. Não vou fazê-la ficar ali me vendo morrer.
— Jacin…
— Mas fui burro de achar que poderia proteger você para sempre. Não dela.
O tom dele ficou duro. As emoções de Winter ficaram em frangalhos pela mudança constante na conversa.
— Jacin, o que está acontecendo?
Ele inspirou fundo, tremendo. Eles completaram a volta no lago, e ela viu que Ryu estava acordado, andando atrás das barras.
Jacin parou de andar, e Winter afastou a atenção do lobo. Estava presa pelo olhar azul-gelo de Jacin. E engoliu em seco.
— Ela quer matar você, princesa.
Winter tremeu, primeiro por causa da intensidade das palavras dele e segundo por causa do significado. Achava que uma declaração dessas deveria tê-la chocado, mas desde que Levana provocou suas cicatrizes, ela estava esperando isso.
Sua decepção por Jacin não a ter levado até ali para confessar seu amor foi mais potente do que saber que a madrasta a queria morta.
— O que eu fiz?
Ele balançou a cabeça e a tristeza profunda voltou.
— Nada que pudesse evitar. O povo ama você demais. Levana se deu conta do quanto. Ela acha que você pode ser uma ameaça à coroa dela.
— Mas eu nunca poderia ser rainha — disse ela. — A linhagem. As pessoas nunca…
— Eu sei. — A expressão dele foi solidária. — Mas não importa.
Ela recuou e ouviu as palavras dele novamente. Ditas com tanta certeza. Ela quer matar você, princesa.
— Ela contou isso para você?
Um único aceno curto.
Pontos pretos piscaram em seu campo de visão. Ela deu um passo para trás e segurou a grade do cercado de Ryu. Atrás, ouviu um rosnado, seguido do focinho de Ryu nos dedos.
Não tinha se dado conta de que ele estava ali.
— Ela mandou você me matar.
O maxilar dele se contraiu. Com culpa, ele olhou para o lobo.
— Sinto muito, princesa.
Quando o mundo parou de girar, ela ousou olhar para a câmera acima do ombro dele.
Ela raramente prestava atenção às câmeras, mas então se perguntou se a madrasta estava assistindo, esperando para ver a enteada ser assassinada para proteger seu trono de uma ameaça imaginária.
— Por que ela faria isso com você?
Ele riu, como se alguém tivesse enfiado uma faca em seu peito e ele não tivesse escolha além de achar divertido.
— Comigo? É sério?
Ela se obrigou a se empertigar. Ao relembrar a expectativa que sentiu pelo encontro, pensou no quanto fora ingênua e boba.
— Sim — disse ela com firmeza. — Como ela pode ser tão cruel de pedir logo a você, dentre todas as pessoas?
O rosto dele se suavizou.
— Você está certa. É tortura.
Lágrimas surgiram nos olhos dela.
— Ela ameaçou alguém, não foi? Vai mandar matar alguém se você não fizer isso.
Ele não respondeu.
Ela fungou e piscou para tentar afastar as lágrimas. Ele não precisava contar. Não importava quem era.
— É egoísmo da minha parte, mas fico feliz de ser você, Jacin. — A voz dela tremeu. — Sei que vai ser rápido.
Ela tentou imaginar. Ele usaria a faca? Uma arma? Ela não fazia ideia de qual era o jeito mais rápido de morrer. Não queria saber.
Jacin devia ter feito as mesmas perguntas. Na noite anterior toda. Naquele dia todo. Devia estar planejando como fazer, com medo daquele encontro tanto quanto ela o vinha desejando.
Seu coração se partiu por ele.
Atrás dela, Ryu começou a rosnar.
— Winter…
Fazia tanto tempo que ele não a chamava pelo nome. Sempre princesa. Sempre Alteza. O lábio dela tremeu, mas ela se recusou a chorar. Não faria isso com ele.
Os dedos de Jacin se fecharam no cabo da faca.
Era tortura. Jacin parecia estar com mais medo do que quando passou pelo julgamento. Estar sofrendo mais do que quando seu tronco ficou em carne viva com as chibatadas.
Era a última vez que ela o veria.
Era seu último momento. Seu último suspiro.
De repente, toda a política e todos os jogos deixaram de ter importância. De repente, ela se sentiu ousada.
— Jacin — disse, com um sorriso trêmulo. — Você deve saber. Não consigo me lembrar de uma época em que não amava você. Acho que essa época não existiu.
Os olhos dele se encheram de mil emoções. Mas, antes que ele pudesse dizer o que queria, antes que pudesse matá-la, Winter agarrou a frente da camisa dele com as duas mãos e o beijou.
Ele derreteu bem mais rápido do que ela esperava. Quase na mesma hora, como se estivesse esperando aquele momento, segurou os quadris dela e a puxou para perto com uma possessividade que a sufocou. Os lábios estavam desesperados e famintos quando ele mergulhou no beijo, apertando-a contra a grade. Ela ofegou, e ele intensificou o beijo, enfiando uma das mãos no cabelo dela pela nuca.
A cabeça dela girou, desnorteada pelo calor e por uma vida inteira de desejo.
A outra mão de Jacin deixou o quadril de Winter. Ela ouviu o som de metal quando a faca foi tirada da bainha. Winter tremeu e o beijou mais intensamente, injetando naquele momento todas as fantasias que já teve.
A mão de Jacin escorregou de seus cabelos. O braço a envolveu. Ele a segurou contra si como se eles não pudessem ficar próximos o bastante. Como se pretendesse absorver o corpo dela.
Soltando a camisa dele, Winter encontrou seu pescoço, seu maxilar. Sentiu as pontas dos fios de cabelo dele com os polegares. Ele fez um ruído, e ela não discerniu se era desejo ou dor ou lamento ou uma mistura de tudo. O braço se contraiu nas costas dela. O peso mudou quando ele levantou a faca.
Winter fechou os olhos com força.
Por ter visto tantas mortes na vida, ela teve o pensamento distante de que aquela não era uma forma muito ruim de morrer.
Ele baixou o braço depressa e Winter ofegou, um sopro de ar os separava. Seus olhos se abriram. Atrás dela, Ryu latiu, mas o som se transformou em um choramingo traído.
Os olhos de Jacin também estavam abertos, azuis e arrependidos.
Winter tentou recuar, mas ele a segurou com firmeza. Ela não tinha para onde ir, presa entre Jacin e a grade como estava. Por cima do ombro dele, a luz de uma câmera brilhava perto do teto. A respiração dela saiu entrecortada. A cabeça girou. Ela não diferenciava seus batimentos dos de Jacin.
Jacin. Que estava com as bochechas vermelhas e o cabelo desgrenhado. Jacin, que ela finalmente ousou beijar, Jacin, que retribuiu o beijo.
Mas, se ela ainda esperava ver desejo no rosto dele, ficou decepcionada. Ele estava paralisado de novo.
— Me faça um favor, princesa — sussurrou ele, com a respiração quente sobre sua boca. — Na próxima vez que alguém disser que vai matar você, não simplesmente deixe que matem.
Ela olhou para ele, atordoada. O que ele fez?
Os joelhos de Winter cederam. Jacin a segurou e a deslizou pelas grades do cercado. A mão dela tocou em uma coisa quente e úmida escorrendo por baixo da grade.
— Você está bem, princesa — murmurou Jacin. — Você está bem.
— Ryu? — A voz dela falhou.
— Vão achar que o sangue é seu. — Ele estava explicando alguma coisa, mas ela não entendeu. — Espere aqui. Não se mexa até eu apagar as luzes. Entendeu? Princesa?
— Não me mexer — sussurrou ela.
Jacin se afastou, e ela ouviu a faca ser arrancada da carne do lobo. O corpo cambaleou contra a grade. Jacin aninhou a bochecha com as cicatrizes, observando-a para ter certeza de que ela não estava tendo um surto, para ter certeza de que ela tinha entendido, mas ela só conseguia entender a umidade grudenta que encharcava a saia.
Sangue escorria pelo caminho. Litros e litros de sangue estavam pingando do teto de vidro, pingando nos braços dela, enchendo o lago.
— Winter.
Ela olhou para Jacin, boquiaberta, incapaz de falar. A lembrança do beijo foi encoberta por uma coisa terrível e injusta. Ryu. O doce e inocente Ryu.
— Até as luzes se apagarem — repetiu ele. — Então, quero que você pegue sua amiga ruiva e saia dessa porcaria de tabuleiro de jogo. — Jacin passou o polegar pela pele dela, despertando-a do choque. — Agora se finja de morta, princesa.
Ela caiu e encontrou alívio nessa ordem. Eles estavam participando de um jogo. De um jogo. Como quando eram crianças. É um jogo e o sangue não é real e Ryu…
Ela contraiu o rosto por causa das lágrimas. Um soluço ficou trancado na garganta.
Jacin a apoiou no muro da jaula e seu calor sumiu em seguida. O peso das botas se afastou, deixando uma trilha de passos grudentos.

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