13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e oito


ELES DECIDIRAM PASSAR UM DIA A MAIS NO ACAMPAMENTO, PARA garantir que Cress estivesse completamente recuperada, mas partiram cedo na manhã seguinte, desmontando as barracas e enrolando as esteiras sob um céu ainda escuro. Jina disse para Cress que eles deviam chegar em Kufra no fim da tarde e que, por estarem começando tão cedo, deviam percorrer uma boa distância antes que o calor escaldante tomasse conta da areia. Eles fizeram uma refeição rápida de carne seca, pegaram tâmaras nas tamareiras e deixaram para trás o santuário do oásis.
Apesar de exigir muita rearrumação de mercadorias e equipamento, Cress recebeu um camelo para montar. Ela ficou grata, a mera ideia de andar já provocava nela vontade de chorar, mas logo descobriu que o animal também não era a epítome do conforto. Em horas, suas mãos doíam de segurar as rédeas e suas panturrilhas estavam vermelhas e irritadas. A capa que o pessoal da caravana emprestara para ela a protegia melhor do sol, mas, com o passar do dia, não houve descanso do calor.
Viajaram para o leste, em paralelo às montanhas. Thorne ficou ao lado dela, com uma das mãos apoiando as bolsas presas à sela e com a ponta da nova bengala, mais leve, roçando na areia. Ainda usando a venda, ele andava com facilidade enganosa. Cress sugeriu que ele fosse no camelo várias vezes, mas ele sempre recusava. Ela sentiu que isso estava se tornando uma questão de orgulho. Ele estava provando, talvez para si mesmo, que era capaz de andar sem assistência, que conseguia ser independente, que podia manter um sorriso no rosto enquanto fazia isso.
Eles passaram a maior parte da manhã em silêncio, e Cress não pôde deixar de se perder nas fantasias que giravam mais em torno da ponta dos dedos dele fazendo desenhos na parte de dentro de seu pulso.
Ao meio-dia, estavam sob ataque de um sol impiedoso e da areia soprada pelo vento que os golpeava, tentando penetrar nas dobras das roupas. Mas o sol não estava mais nos rostos, e gradualmente as dunas deram espaço a um platô duro e rochoso.
À tarde, quando o sol estava em seu pior momento, eles chegaram a um leito de rio seco e pararam para descansar. Encontraram uma área com sombra debaixo de um penhasco quadrado, e dois dos homens saíram andando e voltaram um pouco depois com todos os cantis cheios até a boca. Jina explicou que havia um poço escondido em meio a umas pedras ali perto, alimentado pela mesma fonte subterrânea sobre a qual ficava Kufra, a cidade para onde eles estavam indo.
Subir no camelo depois da pausa foi uma tortura, mas Cress lembrou a si mesma que qualquer coisa era melhor do que andar.
A tarde levou-os a mais terrenos rochosos, seguidos de algumas horas de dunas. Eles passaram por uma cobra, e Cress percebeu que era a única com medo dela, apesar de Kwende confirmar que era venenosa. A cobra se encolheu e os viu passar com olhos preguiçosos, sem nem se dar ao trabalho de sibilar nem de mostrar os dentes, como as cobras nas novelas sempre faziam. Mesmo assim, de seu ponto de vista vantajoso, Cress monitorou onde Thorne pisava, e suas pulsações só diminuíram de velocidade quando a cobra não podia mais ser vista atrás deles.
E então, quando Cress tinha certeza de que a parte de dentro de suas coxas estava em carne viva, Thorne levantou a mão e mexeu até encostar a palma no joelho dela.
— Está ouvindo isso?
Ela prestou atenção, mas só ouviu o barulho familiar dos camelos andando.
— O quê?
— Civilização.
Ela apertou as rédeas do camelo, mas o barulho só se separou do silêncio do deserto quando eles chegaram ao topo da duna seguinte. E ela viu.
Uma cidade surgiu na frente deles, abrindo-se no deserto entre penhascos pedregosos. As construções eram todas compactadas e próximas, mas mesmo de longe Cress via as manchas verdes das árvores entre elas. Não parecia possível que uma cidade existisse no meio de um deserto tão intenso e impiedoso, mas ali estava ela, sem nenhum preâmbulo. Um passo, deserto. Passo seguinte, paraíso.
— Você está certo — disse Cress suspirando, com olhos arregalados. — Estamos quase lá. Conseguimos.
— Como é?
— Não sei por onde começar. Parece lotada. Tem pessoas e construções e ruas e árvores...
Thorne riu.
— Você acabou de descrever todas as cidades no planeta.
Ela não conseguiu se impedir de rir com ele, tomada de euforia de repente.
— Me desculpe. Deixa eu ver. A maior parte das construções é feita de pedra, ou talvez argila, e são de uma cor meio castanha, meio pêssego, e a cidade toda é cercada de um muro alto de pedra, e tem muitas palmeiras em todas as ruas. Tem um lago que parece ir até o meio da cidade, quase de uma ponta a outra, e vejo barquinhos nele, e tantas árvores e plantas, e acho... que para o norte, depois das casas, acho que estão plantando algum tipo de alimento. Ah!
— O quê? Ah o quê?
Animais! Pelo menos algumas dezenas... Cabras, talvez? E... aquele ali tem um carneiro! São iguaizinhos aos que vi na rede!
— Me conte sobre as pessoas.
Ela desviou o olhar das criaturas, descansando na pouca sombra que conseguiam encontrar, e tentou observar as pessoas andando nas ruas. Apesar de estar chegando a noite, o que parecia ser a rua principal ainda estava cheia de lojas ao ar livre abertas, com paredes de tecidos de estampas vibrantes tremendo na brisa.
— São muitas. A maioria usa túnicas como nós, mas tem muito mais cor.
— E qual é o tamanho da cidade?
— Tem centenas de construções!
Thorne deu um sorrisinho.
— Tente controlar o entusiasmo, garota da cidade. Eu falei para todo mundo que nos conhecemos em Los Angeles.
— Certo. Me desculpe. É que... conseguimos, capitão.
A mão dele desceu pela perna dela e envolveu um tornozelo.
— Vou ficar feliz de sair dessas dunas, mas vai haver muito mais coisas em que tropeçar aqui do que no deserto. Tente não ir para muito longe, certo?
Cress olhou para o perfil dele e reconheceu o olhar tenso de preocupação pela curva dos lábios, pela ruga entre as sobrancelhas. Ela não via aquele olhar desde que se encontraram com os viajantes e começou a achar que ele estava ficando mais à vontade com a cegueira. Mas talvez só estivesse tentando esconder sua fraqueza dos outros.
— Não vou sair de perto de você — disse ela.
Ficou claro a partir do momento em que entraram na cidade que a caravana era conhecida, esperada e estava atrasada. Os viajantes não desperdiçaram tempo e montaram uma barraca em meio às lojas para descarregar a mercadoria, enquanto Cress tentava absorver a arquitetura e os detalhes e a beleza que a cercavam. Apesar de a cidade ter parecido esbranquiçada e arenosa de longe, de perto ela conseguiu perceber variações vibrantes de laranja e cor-de-rosa decorando as laterais das construções, e azulejos azul-cobalto ao redor de portas e degraus. Quase toda superfície tinha algum tipo de decoração, de contornos dourados a arcos detalhadamente entalhados a uma enorme fonte no meio da praça principal. Cress espiou a água borbulhante quando eles passaram, hipnotizada pelo desenho de explosão na base do chafariz.
— O que você acha? — perguntou Jina.
Cress sorriu.
— É de tirar o fôlego.
Jina olhou as barracas do mercado ao redor e as frentes das construções como se nunca tivesse olhado para nada daquilo.
— Essa sempre foi uma das minhas paradas favoritas ao longo do nosso caminho, mas mal dá para reconhecer em comparação a algumas décadas atrás. Quando eu estava aprendendo a fazer negócios, Kufra era uma das cidades mais bonitas do Saara... mas aí a peste atacou. Quase dois terços da população foi aniquilada em poucos anos, e muitas pessoas fugiram para outras cidades ou saíram da África. Casas e negócios foram abandonados, plantações queimaram no sol. Estão tentando se recuperar desde então.
Cress piscou e olhou de novo, além da bela ornamentação e das paredes pintadas de forma vibrante, tentando ver a cidade que Jina descreveu, mas não conseguiu.
— Não parece abandonada.
— Não aqui, na praça principal. Mas, se você seguir para as áreas do norte ou do leste, é praticamente uma cidade fantasma. Muito triste.
— Mas então era uma cidade muito rica? — perguntou Thorne, inclinando a cabeça. — Antes da peste?
— Ah, sim. Kufra ficava em muitas rotas mercantes entre as minas de urânio na África central e no Mediterrâneo. Um dos recursos mais valiosos da Terra, e quase temos o monopólio. Com exceção da Austrália, mas há demanda suficiente para compartilharmos.
— Urânio — disse Thorne. — Para energia nuclear.
— Também é o que alimenta a maioria dos motores de naves espaciais atuais.
Thorne assobiou, parecendo impressionado, embora Cress achasse que ele já devia saber disso.
— Me sigam — falou Jina. — Tem um hotel depois da esquina.
Jina os levou pelo labirinto apertado das barracas do mercado, passando por todo tipo de coisas, desde caixas repletas de tâmaras açucaradas a mesas cobertas de queijos de cabra frescos a uma clínica de medidroides oferecendo exames de sangue de graça.
Depois de deixar as ruas do mercado para trás, eles passaram por um portão velho e entraram em um jardim no meio de um pátio, cheio de mais palmeiras e uma árvore com grandes frutas amarelas penduradas nos galhos. Cress sorriu quando os reconheceu e ficou morrendo de vontade de falar sobre os limões, mas sufocou a empolgação.
Eles entraram em um pequeno saguão, com uma porta em arco que levava a uma sala de jantar, onde algumas pessoas estavam reunidas ao redor de uma mesa jogando cartas. A sala tinha um aroma de perfume doce e inebriante, quase intoxicante.
Jina se aproximou de uma garota sentada atrás da mesa e elas falaram na outra língua antes de ela se voltar para eles.
— Eles vão deixar o quarto de vocês na nossa conta. Aqui tem uma cozinha pequena, vocês podem pedir o que precisarem. Tenho trabalho a fazer, mas vou pedir sapatos para você quando tiver oportunidade.
Cress agradeceu repetidamente até Jina sair andando para concluir seus negócios.
— Quarto oito, no andar de cima — informou a recepcionista, entregando a Cress uma pequena placa com uma chave de sensor. — E juntem-se a nós em nossa competição noturna de Royals no saguão do restaurante, à esquerda. As primeiras três rodadas são cortesia para hóspedes.
Thorne inclinou a cabeça na direção da área de jantar.
— Não diga.
Cress olhou para os jogadores reunidos ao redor da mesa.
— Quer ir ver?
— Não, não agora. Vamos achar nosso quarto.
No segundo andar, Cress encontrou a porta marcada com um oito pintado de preto. Quando passou a placa e abriu a porta, sua atenção foi direto para uma cama encostada à parede, coberta por um mosquiteiro de cor creme pendurado em quatro traves altas. Os travesseiros e cobertores com bordado dourado e franjas eram bem mais elaborados do que os lençóis que ela tinha no satélite, e infinitamente mais convidativos.
— Descreva — disse Thorne, fechando a porta atrás deles.
Ela engoliu em seco.
— Hã. Bem. Tem... uma cama.
Thorne fez um ruído de susto.
— O quê? Este quarto de hotel tem cama?
Ela fez expressão de raiva.
— Quero dizer que só tem uma.
— Somos casados, querida.
Ele andou pelo quarto até sua bengala bater em uma escrivaninha.
— Isso é uma escrivaninha pequena — disse ela. — Tem uma tela acima. E aqui tem uma janela. — Ela abriu a cortina. A luz do sol entrou e bateu no chão. — Dá para ver toda a rua principal daqui.
Cress ouviu um baque e se virou. Thorne tinha tirado os sapatos e caído esparramado no colchão. Ela sorriu, querendo apenas deitar-se ao lado e apoiar a cabeça no ombro dele e dormir por muito, muito tempo.
Mas tinha uma coisa que ela queria ainda mais.
Pela única outra porta no quarto, ela viu uma pequena pia de porcelana e uma banheira antiquada com pés em forma de garras.
— Vou tomar um banho.
— Boa ideia. Eu vou também.
Ela arregalou os olhos, mas Thorne já estava rindo. Ele se apoiou nos cotovelos.
— Quero dizer — retrucou ele, mexendo os dedos no ar — que vou tomar quando você acabar.
— Certo — murmurou ela, e entrou no banheiro.
Cress podia nunca ter estado em um banheiro terráqueo antes, mas sabia o bastante para perceber que aquele não era de uma tecnologia avançada. A pequena luz no teto era acionada por um interruptor na parede e não por computador, e a pia tinha duas torneiras manchadas, uma de água quente e uma de água fria. O chuveiro era um disco de metal enorme posicionado sobre a banheira e boa parte da porcelana branca tinha sido danificada com o tempo, deixando à mostra o ferro preto por baixo. Havia uma barra com toalhas brancas e fofas penduradas, em condições bem melhores do que a toalha que Cress usava no satélite.
Ela despiu-se com mais de um suspiro de alegria. As roupas de baixo grudavam nela com uma camada de suor e sujeira. As ataduras nos pés estavam cheias de areia e sangue seco, mas as bolhas tinham se reduzido a pele rosada e fina. Ela jogou tudo em uma pilha no chão e abriu a torneira. A água saiu com força e fria. Ela entrou assim que conseguiu aguentar e achou-a surpreendentemente boa em contato com as queimaduras de sol no rosto e nas pernas.
A água esquentou rápido, e em pouco tempo uma nuvem de vapor a envolvia. Ela encontrou um sabonete enrolado em papel encerado. Com um gemido de êxtase, Cress se sentou na água e ensaboou o cabelo, impressionada com o quanto estava curto e leve e como era fácil de limpar.
Enquanto tomava banho, ela começou a cantarolar, imaginando sua ópera favorita tocando nos alto-falantes do satélite. Cercando-a e animando-a. O cantarolar baixinho virou cantoria, com palavras impulsivas e estrangeiras. Ela cantou uma das italianas lentas favoritas, murmurando a melodia quando esquecia a letra. Quando chegou ao fim da música, estava sorrindo debaixo da água que caía.
Cress abriu os olhos. Thorne estava encostado à porta do banheiro.
Ela se empurrou até o fundo da banheira e passou os braços sobre o peito. Uma cascata de água caiu no chão.
— Capitão!
O sorriso dele aumentou.
— Onde você aprendeu a cantar assim?
O rosto dela ficou vermelho.
— Eu... eu não... não estou de roupa!
Ele ergueu uma das sobrancelhas.
— Sim. Estou ciente disso. — Ele apontou para os próprios olhos. — Não precisa esfregar na cara.
Cress encolheu os dedos no fundo da banheira.
— Você não devia... não devia...
Ele levantou as mãos.
— Tá, tudo bem, me desculpe. Mas isso foi lindo, Cress. De verdade. Que língua era?
Ela tremeu, apesar do vapor.
— Italiano antigo. Não sei o que todas as palavras querem dizer.
— Hã. — Ele se virou para a pia. — Bem... eu gostei.
A vergonha começou a sumir quando ela o viu tatear pela torneira.
— Você está vendo alguma toalhinha?
Ela disse onde estavam as toalhas, e, depois de derrubar outro sabonete no chão, ele encontrou uma toalha limpa e a molhou na pia.
— Acho que vou para o saguão um pouco — disse ele, passando a toalha pelo rosto e deixando marcas limpas em meio à sujeira.
— Por quê?
— Para ver se consigo mais informações sobre este lugar. Se encontrarmos um daqueles bairros abandonados, seria o melhor lugar para Cinder e os outros virem nos buscar... depois de fazermos contato.
— Se você me der um minuto, eu posso...
Ela parou de falar quando viu Thorne tirando a camisa. Seu coração subiu para a garganta quando ela o viu torcer a toalha antes de lavar os braços e o pescoço, o peito e as axilas. Depois de deixar a toalhinha de lado, ele colocou as mãos em concha debaixo da água e passou água no cabelo.
Os dedos dela tremeram com um desejo repentino e irresistível de tocar nele.
— Pode deixar — disse ele, como se ela não tivesse acabado de perder a capacidade de formar frases coerentes. — Vou trazer comida.
Cress jogou água em si mesma, mandando seu cérebro se concentrar.
— Mas... você disse que há coisas em que tropeçar e que eu não devia sair de perto... Você não quer que eu vá?
A mão dele tateou pela parede até encontrar uma das toalhas penduradas. Ele a pegou e esfregou no rosto e no cabelo, fazendo-o ficar de pé.
— Não precisa. Não vou demorar.
— Mas como você vai...?
— Pode deixar, Cress. Vou ficar bem. Talvez você possa dar uma olhada naquela tela para ver se descobre um jeito de fazer contato com a tripulação. — Ele pegou a camisa na bancada e balançou, espalhando pó e areia, antes de vesti-la pela cabeça. Acertou a bandana sobre os olhos. — Seja sincera. Estou parecendo um criminoso famoso e procurado?
Ele fez uma pose e completou-a com um sorriso estonteante. Com o cabelo desgrenhado, as roupas imundas e a bandana, Cress tinha que admitir que ele estava quase irreconhecível em comparação às fotos da prisão. Mas, de alguma forma, ainda incrivelmente lindo.
Ela suspirou.
— Não. Não parece.
— Que bom. Vou ver se consigo umas roupas limpas quando estiver lá embaixo.
— Tem certeza de que não precisa de mim?
— Eu estava exagerando antes. Estamos na civilização agora. Pode deixar.
Ele era puro carisma quando jogou um beijo e saiu.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!