3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e Oito

O SILÊNCIO CONSTRANGEDOR NO SALÃO DE JANTAR ERA QUEBRADO apenas pelo retinir dos hashis na porcelana e o arrastar dos pés dos servos. Somente servos humanos estavam presentes — uma concessão à enorme desconfiança de Levana em relação aos androides. Ela dizia que eles iam contra os valores morais humanos e as leis da natureza ao conceder emoções falsas e pensamentos a máquinas fabricadas pelos homens.
Kai sabia, no entanto, que ela só não gostava de androides porque não podia manipular a mente deles.
Sentando-se em frente à rainha, Kai se viu lutando para não olhar para ela — era ao mesmo tempo uma tentação e uma repulsa, e ambos os sentimentos o irritavam. Torin estava ao seu lado, e Levana era flanqueada por Sybil e o segundo taumaturgo. Os dois guardas lunares se apoiavam nas paredes. Kai se perguntou se eles alguma vez comiam.
O assento do imperador na cabeceira permaneceria vazio até a coroação. Ele também não queria olhar para aquela cadeira vazia.
Levana fez um gesto extenso, floreado, chamando a atenção de todos para si, embora tenha resultado apenas em um gole de chá. Seus lábios se torceram quando ela pousou a xícara, seu olhar encontrando o de Kai.
— Sybil me contou que seu pequeno festival acontece todos os anos — disse ela, a cadência da voz suave como uma cantiga de ninar.
— Isso mesmo — disse Kai, erguendo um empanado de camarão com os hashis. — Acontece sempre na nona lua cheia de cada ano.
— Ah, que encantador da parte de vocês basear seus feriados nos ciclos do meu planeta.
Kai sentiu vontade de zombar da palavra planeta, mas engoliu suas palavras.
— É a celebração do fim da Quarta Guerra Mundial — disse Torin.
Levana estalou a língua.
— Esse é o problema de tantos pequenos países em um só globo. Tantas guerras.
Algo espirrou no prato de Kai. Ele olhou para baixo e viu que o recheio do empanado transbordara para fora da massa.
— Talvez nós devamos agradecer por a guerra já ter acontecido e por ter forçado os países a formarem os conglomerados que existem agora.
— Eu não acredito que isso tenha aumentado o bem-estar dos cidadãos — disse Levana.
A pulsação de Kai vibrou em seus ouvidos. Milhões de pessoas haviam morrido na Quarta Guerra Mundial; culturas inteiras foram devastadas, dezenas de cidades reduzidas a escombros — inclusive a Pequim original. Sem falar nos inúmeros recursos naturais que foram destruídos por meio de guerras nucleares e químicas. Sim, ela tinha toda razão; o bem-estar dos cidadãos sofrera muitos danos.
— Mais chá, Vossa Alteza? — perguntou Torin, sobressaltando Kai. Ele percebeu que vinha segurando os hashis como armas.
Resmungando para si mesmo, ele se sentou para trás na cadeira, permitindo que o servo enchesse novamente sua xícara.
— Podemos dar crédito à guerra por ter gerado o Tratado de Bremen — disse Torin —, que desde então tem sido benéfico a todos os países da União Terráquea. Esperamos, é claro, ver sua assinatura no documento algum dia em breve, Vossa Majestade.
Os lábios da rainha se abriram em um esgar.
— De fato. Os benefícios do tratado são amplamente discutidos em seus livros de história. E, ainda assim, não consigo deixar de sentir que Luna, um único país regido por uma única governante, oferece um arranjo ainda mais perfeito. Aquele que é justo e benéfico para todos os habitantes.
— Isso presumindo que o governo vigente é justo — disse Kai.
Um lampejo de desdém se mostrou no maxilar da rainha, mas quase instantaneamente se desfez em um sorriso sereno.
— Isso, é claro, Luna tem, como mostram centenas de anos sem nem um levante sequer, nem mesmo o menor dos protestos. Nossos livros de história atestam isso.
Chocante. Kai resmungaria se não tivesse sentido o olhar furioso de Torin sobre ele.
— Esse é o legado que todo governante deseja — disse Torin.
Os servos tomaram a frente e retiraram os primeiros pratos, substituindo-os por sopeiras de prata.
— Minha rainha está tão ansiosa para forjar um acordo entre Luna e a Terra quanto vocês — disse Sybil. — É uma vergonha que o acordo não tenha sido acertado durante o reinado de seu pai, mas estamos esperançosas de que você, Vossa Alteza, seja mais receptivo aos nossos termos.
Kai novamente se esforçou para diminuir a tensão das mãos, a fim de não saltar por cima da mesa e enfiar os hashis nos olhos da bruxa. Seu pai tentara todos os acordos imagináveis para chegar a uma aliança com Luna, exceto a única coisa com a qual não podia concordar. A única coisa que ele sabia que, com certeza, significaria o fim da liberdade de seu povo. Um casamento com a rainha Levana.
Mas ninguém se opôs ao comentário de Sybil. Nem mesmo ele. Kai não conseguia tirar a imagem do encontro daquele dia da cabeça. As mutações lunares, o exército de criaturas bestiais. Aguardando.
Os calafrios que percorriam seu corpo não eram causados apenas pelo que vira, mas pelo que podia imaginar não ter visto. Se ele estivesse certo, então Levana tinha exibido seu exército, como uma ameaça. Mas ele sabia que ela não mostraria todas as suas cartas assim tão fácil.
Então o que mais estaria escondendo?
E ele se arriscaria a descobrir?
Casamento. Guerra. Casamento. Guerra.
Os servos simultaneamente ergueram os domos de prata das bandejas, liberando nuvens de vapor com odor de alho e óleo de gergelim.
Kai balbuciou um agradecimento ao servo que estava atrás dele, mas suas palavras foram interrompidas por um engasgo da rainha. Ela afastou a cadeira da mesa. As pernas guincharam no contato com o chão.
Perplexo, Kai seguiu o olhar da rainha para o prato. Em vez de finos filés de carne de porco e talharim de arroz, o prato da rainha trazia um pequeno espelho de mão dentro de uma moldura branca e prateada.
— Como você ousa? — Levana virou os olhos flamejantes para a serva que lhe trouxera a refeição, uma mulher de meia-idade com finos cabelos cinzentos. A serva cambaleou para trás, seus olhos tão redondos quanto o espelho.
Levana se levantou tão rápido que sua cadeira caiu no chão. Um coro de pernas de cadeira rangeu no chão quando todos os demais se levantaram também.
— Fale, sua terráquea nojenta! Como você ousa me insultar?
A serva ergueu a cabeça, muda.
— Vossa Majestade — começou Kai.
— Sybil!
— Minha rainha.
— Essa humana demonstrou desrespeito. Isso não deve ser tolerado.
— Vossa Majestade! — disse Torin. — Por favor, acalme-se. Nós não sabemos se a culpada é esta mulher. Não devemos tirar conclusões precipitadas.
— Então ela deve servir de exemplo — disse Sybil, bem tranquilamente —, e o verdadeiro culpado sofrerá com a dor de sua consciência, o que com frequência é uma punição bem pior.
— Essa não é a forma como funciona nosso sistema — disse Torin. Seu rosto estava vermelho. — Enquanto você estiver na Comunidade, se comportará de acordo com as nossas leis.
— Não seguirei suas leis enquanto elas permitirem que a desobediência floresça — respondeu Levana. — Sybil!
Sybil contornou a cadeira caída da rainha. A serva recuou, curvando a cabeça, murmurando desculpas e implorando por piedade, sem saber o que ela dissera.
— Pare com isso! Deixe-a em paz! — disse Kai, apressando-se na direção da serva.
Sybil apanhou uma faca da mesa de serviço e ofereceu o cabo à mulher. A mulher a pegou, chorando, implorando enquanto o fazia.
Kai ficou boquiaberto, e em seguida enojado e fascinado quando a serva virou a lâmina contra si mesma, segurando o cabo com as duas mãos.
O belo rosto de Sybil continuou complacente.
As mãos da serva tremeram e lentamente ergueram a faca até que a ponta brilhante estivesse pronta para se enterrar no canto de seu olho.
— Não — choramingou a serva. — Por favor.
O corpo todo de Kai tremeu quando ele percebeu o que Sybil pretendia forçar a mulher a fazer. Com o coração disparando, ele endireitou os ombros.
— Fui eu.
O salão ficou estático, silencioso, exceto pelos soluços estabanados da mulher.
Todos se viraram para Kai. A rainha, Torin, a serva com o minúsculo arranhão vermelho junto à pálpebra, a faca ainda na mão.
— Fui eu — repetiu ele. Kai olhou para Sybil, que o observava sem expressão alguma no rosto, e depois para a rainha Levana.
A rainha fechou ambas as mãos coladas ao lado do corpo. Seu olhar sombrio fervia de raiva. Sua pele tremeluzia. Em um único, fugidio momento, ela ficou horrível, com sua respiração cansada e o escárnio no sorriso de seus lábios cor de coral.
Kai passou a língua seca no céu da boca.
— Eu mandei que alguém na cozinha pusesse o espelho na sua bandeja. — Ele pressionou os braços firmemente nas laterais do corpo para evitar que tremessem. — Era para ser uma brincadeira amigável. Entendo agora que foi uma decisão estúpida e que uma brincadeira não pode ultrapassar os limites culturais. Tudo que posso fazer é me desculpar e pedir o seu perdão. — Ele alinhou o olhar ao de Levana. — Mas, se não for possível você me perdoar, então pelo menos direcione sua ira para mim e não para a serva, que não tinha a menor ideia de que o espelho estava aí. A punição deve recair inteiramente sobre mim.
Se ele achava antes que a tensão era extrema, agora estava engasgando por causa dela.
A respiração de Levana se normalizou enquanto seus olhos avaliavam as opções. Ela não acreditava nele — era mentira, e todos no salão sabiam disso.
Mas ele havia confessado.
Ela abriu as mãos, esticando os dedos pelo tecido do vestido.
— Liberte a serva.
A energia se dispersou. Kai sentiu seus ouvidos estalarem como se a pressão do ar no salão tivesse mudado.
A faca retiniu no chão e a serva cambaleou para trás, batendo em uma parede. As mãos trêmulas se espalmaram em seus olhos, seu rosto, sua cabeça.
— Agradeço sua honestidade, Vossa Alteza — disse Levana, seu tom de voz estável e vazio. — Aceito seu pedido de perdão.
A mulher chorosa foi levada do salão de jantar. Torin esticou o braço pela mesa, pegou o domo de prata e cobriu o espelho.
— Tragam para a nossa mais nobre hóspede a entrada.
— Isso não será necessário — disse Levana. — Perdi o apetite.
— Vossa Majestade — disse Torin.
— Vou me recolher aos meus aposentos — disse a rainha. Ela ainda desafiava Kai do outro lado da mesa, seus olhos frios e calculistas, e ele, ainda incapaz de desviar o olhar. — Aprendi algo valioso a seu respeito esta noite, jovem príncipe. Espero que você tenha aprendido algo sobre mim também.
— Que você prefere governar por meio do medo à justiça? Sinto muito, Vossa Majestade, mas eu já sabia isso a seu respeito.
— Não, de fato. Espero que tenha notado que sou capaz de escolher minhas brigas. — Os lábios dela se torceram, sua beleza retornando totalmente. — Se é isso o que é preciso para vencer a guerra.
Ela saiu do salão como uma pena, como se nada tivesse acontecido, seus empregados atrás. Apenas quando os guardas, cujos pés soavam como cavalos galopando, deixaram os corredores, Kai se deixou desabar na cadeira mais próxima, a cabeça pendendo sobre os joelhos. Seu estômago estava pesado. Cada nervo se agitava.
Ele ouviu uma cadeira sendo levantada e Torin se posicionar ao lado dele com um suspiro pesado.
— Deveríamos descobrir de quem é a culpa pelo espelho. Se foi alguém da equipe, deve ser suspenso enquanto a rainha estiver no palácio.
Kai ergueu a cabeça o bastante para olhar para a ponta da mesa, vendo o alto domo de prata na frente da cadeira abandonada pela rainha. Inalando um pouco de ar, ele esticou o braço para a frente e descobriu o espelho, então pegou seu cabo delgado. Era tão liso quanto vidro, mas brilhava como diamante quando ele o virou contra a iluminação turva. Ele só vira material parecido uma vez antes.
Em uma nave espacial.
Virando a face do espelho na direção de Torin, ele sacudiu a cabeça, enojado.
— Mistério resolvido — disse ele, virando novamente o espelho para que o conselheiro pudesse ver a estranha runa lunar entalhada na parte de trás da moldura.
Os olhos de Torin se arregalaram.
— Ela estava testando você.
Kai deixou o espelho virado para a mesa. Esfregou a testa com os dedos esticados, ainda tremendo.
— Vossa Alteza. — Um mensageiro bateu os calcanhares na porta. — Tenho uma mensagem urgente da Secretaria de Saúde e Segurança Pública.
Kai inclinou a cabeça, semicerrando os olhos para o mensageiro através da franja.
— Não era possível mandar um comunicado? — perguntou ele, checando seu cinto com a mão livre antes de lembrar que Levana solicitara que não houvesse tablets no jantar. Ele grunhiu e chegou para a frente na cadeira. — Qual é a mensagem?
O mensageiro entrou no salão de jantar, os olhos brilhando.
— Houve um distúrbio na quarentena do Distrito 29. Uma pessoa não identificada atacou dois medidroides, incapacitando um deles, e em seguida fugiu.
Kai franziu o cenho, se endireitando.
— Um paciente?
— Não temos certeza. O único androide que poderia ter gravado uma boa imagem foi o incapacitado. Outro androide pegou relances do acontecido de longe, mas apenas das costas do agressor. Não conseguimos chegar a uma identificação certa. Mas o culpado não parecia doente.
— Todos na quarentena estão doentes.
O mensageiro hesitou.
Kai segurou com força os braços da cadeira.
— Nós precisamos encontrá-lo. Se ele tem a doença…
— Parece ser uma mulher, Vossa Alteza. E tem mais. As cenas que temos a mostram conversando com outro paciente, momentos após ela ter atacado o primeiro medidroide. Um garoto cujo nome é Chang Sunto. Ele deu entrada na quarentena ontem com letumose em estágio dois.
— E?
O servo limpou a garganta.
— O garoto parece estar se recuperando.
— De quê? Do ataque?
— Não, Vossa Alteza. Se recuperando da doença.

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