7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e Nove

A CELA DE PRISÃO DE SCARLET TINHA COMEÇADO A VIDA COMO CAMARIM. Os contornos vagos de espelhos e penteadeiras estavam evidentes na parede, e as fileiras de lâmpadas que os cercavam estavam reduzidas a buracos vazios. O tapete tinha sido arrancado, deixando a pedra fria embaixo à mostra, e a porta sólida de carvalho tinha sido retirada das dobradiças e deixada abandonada em um canto, substituída por barras de ferro e uma fechadura com leitor de chip de identificação.
A fúria de Scarlet a manteve andando de um lado para o outro do aposento, chutando as paredes e rosnando por entre as barras durante toda a noite e a maior parte do dia. Pelo menos, parecia que quase um dia inteiro tinha se passado (pareciam meses, na verdade), mas ficar presa no subterrâneo do teatro significava que não tinha indicação nenhuma de tempo fora as duas refeições que lhe foram levadas. O “soldado” que fez a entrega não disse nada quando ela perguntou por quanto tempo a deixariam ali e exigiu ver a avó imediatamente. Só deu um sorrisinho irônico por entre as barras, de uma forma que fez a pele dela ficar arrepiada.
Ela acabou deitando no colchão sem cobertor, fisicamente exausta. Ficou olhando para o teto com raiva. Odiando-se. Odiando aqueles homens que a mantinham prisioneira. Odiando Lobo.
Ela trincou os dentes e afundou as unhas no colchão gasto e rasgado.
Alfa Kesley.
Se o visse de novo, lhe arrancaria os olhos. Ela o estrangularia até ele ficar com os lábios azuis. Ela...
— Acabou se cansando?
Cinder levantou com o susto. Um dos homens que a tinha levado para a cela estava de pé do outro lado; Rafe ou Troya, não sabia.
— Não estou com fome — falou.
O homem olhou para ela com desprezo. Cada um deles parecia carregar aquele mesmo sorriso sem humor, como se tivesse sido enfiado na cara deles.
— Não vim oferecer comida — retrucou, e passou o pulso pelo escâner. Segurou as barras e abriu a porta. — Vou levar você para ver sua preciosa grand-mère.
Scarlet se levantou do colchão e toda a sua exaustão se evaporou.
— De verdade?
— São as minhas ordens. Vou precisar amarrar você, ou pretende me acompanhar de boa vontade?
— Vou acompanhar você. Só me leve até ela.
Ele a examinou com o olhar. Depois de determinar que não era uma ameaça, deu um passo para trás e indicou o corredor longo e escuro.
— Você primeiro.
Assim que saíram para o corredor, ele segurou o seu pulso e baixou o rosto, de forma que ela sentiu a respiração quente no pescoço.
— Faça qualquer coisa estúpida e vou descontar meu desprazer na velha, entendeu?
Ela tremeu.
Sem esperar resposta, ele a soltou e a cutucou entre as omoplatas, empurrando-a pelo corredor.
O coração de Scarlet disparou. Estava quase delirante de tanto cansaço e da promessa de ver a avó, mas isso não a impediu de avaliar a prisão. Seis portas de barras de ferro se enfileiravam no corredor, todas às escuras. O homem a empurrou em uma esquina, e subiram uma escadaria estreita e entraram por uma porta.
Estavam nos bastidores. Objetos cênicos velhos e poeirentos ocupavam os cantos, e cortinas pretas estavam penduradas como fantasmas na escuridão. A única luz vinha da iluminação suave nos corredores da plateia, e Scarlet teve que apertar os olhos enquanto o soldado a levava até o palco, depois descia os degraus até a plateia vazia. Uma seção inteira de assentos tinha sido removida, deixando buracos onde as cadeiras ficavam presas ao piso inclinado. Outro grupo de soldados estava ali, de pé, nas sombras, como se estivessem tendo uma conversa jovial antes de Scarlet e seu captor os interromperem. Scarlet manteve os olhos grudados firmemente no final do corredor. Achava que nenhum deles era Lobo, mas não queria descobrir caso estivesse errada.
Chegaram aos fundos do teatro e Scarlet abriu uma das enormes portas.
Estavam em um balcão com vista para o saguão e para a grande escadaria. Não entrava luz do sol nenhuma pelo buraco no teto. Obviamente, ela perdera o dia todo.
Seu captor segurou-a pelo cotovelo e a afastou da escada, passando por mais estátuas apavorantes de querubins e anjos. Ela soltou o braço preso e tentou guardar o caminho na memória, criar uma planta do teatro na mente, mas era difícil se concentrar sabendo que veria a avó. Finalmente.
O pensamento de ser mantida presa por esses monstros durante quase três longas semanas lhe embrulhou o estômago.
Subiram ainda outra escada até o primeiro balcão e depois até o segundo. Portas fechadas levavam de volta ao teatro, aos assentos mais altos, mas o soldado passou por eles e seguiu para outro corredor. Finalmente, seu captor parou em frente a uma porta fechada, segurou a maçaneta e abriu.
Tinham chegado a um dos camarotes particulares que davam vista para o palco, com apenas quatro cadeiras de veludo vermelho em duas fileiras.
Sua avó estava sentada sozinha na fileira da frente, a trança grossa e grisalha pendurada no encosto da cadeira. As lágrimas contra as quais Scarlet vinha lutando havia tanto tempo surgiram de repente.
— Grand-mère!
A avó levou um susto, mas Scarlet já estava correndo de encontro a ela. Caiu de joelhos no espaço entre as cadeiras e a frente do camarote e se deitou no colo da avó, chorando em cima da calça jeans. A mesma calça jeans suja que ela sempre usava para cuidar do jardim. O aroma familiar de terra e feno saía do tecido, fazendo Scarlet chorar ainda mais.
— Scarlet! O que você está fazendo aqui? — perguntou a avó, colocando as mãos nas costas da neta. Ela falou com severidade e irritação, mas também com gentileza. — Pare com isso. Você está fazendo papel de boba. — Afastou Scarlet do colo. — Pronto, pronto, se acalme. O que está fazendo aqui?
Scarlet se sentou nos calcanhares e olhou para o rosto da avó com olhos aguados. Olhos vermelhos revelavam a exaustão de sua avó, por mais firme que seu maxilar estivesse. Ela também estava à beira das lágrimas, mas ainda não tinha sucumbido ao choro. Scarlet segurou as mãos dela e apertou-as. Estavam macias, como se três semanas longe da fazenda tivessem acabado com anos de calosidades.
— Vim buscar você — disse. — Depois que papai me contou o que aconteceu, o que estavam fazendo com você, tive que vir procurá-la. Você está bem? Está ferida?
— Estou bem, estou bem. — disse, passando os polegares pelos nós dos dedos de Scarlet. — Mas não gosto de ver você aqui. Não devia ter vindo. Esses homens... eles... Você não devia estar aqui. É perigoso.
— Vou tirar nós duas daqui. Prometo. Pelas estrelas, senti tanto sua falta. — Soluçando, ela apoiou a testa nos dedos entrelaçados das duas, ignorando as lágrimas quentes que escorriam. — Encontrei você, grand-mère. Encontrei você.
A avó soltou uma das mãos e afastou uma mecha embaraçada da testa de Scarlet.
— Eu sabia que você me encontraria. Sabia que viria. Venha, sente ao meu lado.
Sufocando as lágrimas, Scarlet saiu do colo da avó. Havia uma bandeja ao lado com uma xícara de chá, meia baguete e uma tigela pequena de uvas-rubi que pareciam intocadas. A avó pegou a bandeja e entregou-a para o soldado na porta. Ele deu um sorriso amarelo, mas recebeu a bandeja e saiu, fechando a porta. O coração de Scarlet se expandiu — ela não ouvira a porta sendo trancada. Estavam sozinhas.
— Sente-se aqui, Scarlet. Senti tanto a sua falta, mas estou muito zangada. Você não devia ter vindo. É perigoso demais... mas agora você está aqui. Ah, querida, você está exausta.
— Grand-mère, eles não monitoram você? Não têm medo de você fugir?
O rosto da mulher idosa se anuviou e ela deu tapinhas na cadeira vazia.
— É claro que me monitoram. Nunca fico realmente sozinha aqui.
Scarlet examinou a parede que as separava do camarote particular ao lado, coberta de papel de parede vermelho descascado. Talvez houvesse alguém ali agora, escutando a conversa delas.
Ou o grupo de soldados que ela viu na plateia do térreo... Se os sentidos deles eram tão intensos quanto os de Lobo, eles provavelmente conseguiam ouvi-las mesmo lá de baixo. Ignorando a vontade de gritar obscenidades, ela se sentou na cadeira e segurou as mãos da avó com força. Por mais macias que tivessem se tornado, também estavam mortalmente geladas.
— Tem certeza de que está bem? Eles não machucaram você?
A avó sorriu com cansaço.
— Eles não me machucaram. Ainda não. Mas não sei o que planejaram, e não confio neles nem um pouco, não depois do que fizeram com Luc. E falaram de você. Fiquei morrendo de medo de terem ido atrás de você também, querida. Eu queria que você não tivesse vindo. Eu devia ter me preparado melhor para isso. Devia saber que isso ia acontecer.
— Mas o que eles querem?
A avó olhou para o palco escuro.
— Eles querem informações que não posso dar, que teria dado na mesma hora se pudesse. Teria dado semanas atrás. Qualquer coisa para voltar para casa, para você. Qualquer coisa para mantê-la em segurança.
— Informações sobre o quê?
A avó respirou lentamente.
— Querem saber sobre a princesa Selene.
A pulsação de Scarlet se acelerou.
— Então é verdade? Você sabe mesmo alguma coisa sobre ela?
A avó levantou as sobrancelhas.
— Então eles contaram para você? Por que desconfiam de mim?
Ela assentiu, sentindo culpa por saber o segredo que a avó guardou por tanto tempo.
— Me contaram sobre Logan Tanner. Que acham que ele trouxe Selene para a Terra e que ele pode ter pedido sua ajuda. Eles me disseram que acham que ele é meu... meu avô.
As rugas na testa da avó ficaram mais profundas, e ela lançou um olhar preocupado para a parede atrás de Scarlet, na direção do outro camarote, antes de voltar a atenção para a neta.
— Scarlet. Meu amor. — Sua expressão era gentil, mas ela não prosseguiu.
A garota engoliu em seco, se perguntando se, depois de todos aqueles anos, a avó não conseguia suportar revirar o passado. Um romance tão curto, mas que a afetava havia tanto tempo.
Será que ela sabia que Logan Tanner estava morto?
— Grand-mère, eu me lembro do homem que foi lá em casa. O homem da Comunidade das Nações Orientais.
A avó inclinou a cabeça para cima com paciência.
— Pensei que ele tivesse ido lá para me levar, mas não foi isso, foi? Vocês dois estavam falando da princesa.
— Muito bom, querida Scarlet.
— Por que você simplesmente não diz o nome dele? Você deve se lembrar, e aí poderiam ir atrás dele. Ele não vai saber onde a princesa está?
— Não querem mais saber da princesa.
Ela mordeu o lábio. A frustração cresceu dentro de si. Estava tremendo.
— Então, por que não nos soltam?
A avó apertou os dedos de Scarlet. Anos arrancando ervas daninhas e cortando legumes os tinham deixado fortes, apesar da idade.
— Eles não conseguem me controlar, Scarlet.
Ela observou o rosto marcado da avó.
— O que você quer dizer?
— Eles são lunares. O taumaturgo, ele tem o dom lunar. Mas não funciona em mim. É por isso que estão me mantendo aqui. Querem saber por quê.
Scarlet procurou possibilidades na mente. Dentre todas as coisinhas que aprendera sobre lunares, era impossível saber quais eram verdade e quais eram histórias inventadas. Acreditava-se que a rainha reinava por controle mental e que os seus taumaturgos eram quase tão fortes quanto ela. Que conseguiam manipular os pensamentos e as emoções das pessoas. Que conseguiam até controlar os corpos das pessoas se quisessem, como marionetes.
Scarlet engoliu em seco.
— Há muitas pessoas que não podem ser... controladas?
— Muito poucas. Alguns lunares nascem assim. São chamados de cascudos. Mas nunca viram um terráqueo que fosse capaz de resistir. Sou a primeira.
— Como? É genético? — Ela hesitou. — Eu posso ser controlada?
— Ah, sim, querida. O que me faz assim é uma coisa que você não tem. Vão usar contra nós, pode anotar. Imagino que vão querer experimentar em nós duas para tentar descobrir de onde vem a anormalidade. Se precisam ou não temer que outros terráqueos também sejam capazes de resistir. — Na escuridão, a avó trincou os dentes. — Não deve ser hereditário. Seu pai também era fraco.
Scarlet estava perdida nos olhos castanhos e calorosos que sempre foram tranquilizadores, mas agora pareciam rígidos na escuridão do teatro. Alguma coisa a incomodava no fundo dos pensamentos. Uma leve desconfiança.
Seu pai era fraco. Fraco por mulheres. Fraco por bebida. Um pai fraco, um homem fraco.
Mas a avó nunca deu sinais de pensar a mesma coisa de Scarlet. Você vai ficar bem, ela sempre dizia depois de um joelho ralado, depois de um braço quebrado, depois do primeiro coração partido da juventude. Você vai ficar bem, porque é forte como eu.
Com o coração disparado, Scarlet baixou o olhar para os dedos entrelaçados das duas. Para as mãos muito enrugadas, muito frágeis, muito macias da avó.
O coração dela se apertou.
Lunares conseguiam manipular os pensamentos e as emoções das pessoas. Manipular a forma como vivenciavam o mundo ao redor.
Engolindo em seco, Scarlet se afastou. Os dedos da avó se apertaram em um breve esforço para segurá-la, mas acabaram soltando.
Scarlet cambaleou da cadeira até se encostar na amurada, olhando para a avó. O cabelo desgrenhado familiar na trança sempre torta. Os olhos familiares, ficando cada vez mais frios enquanto olhavam para ela. Ficando maiores.
Piscou rapidamente para se livrar da alucinação, e as mãos da avó ficaram maiores.
A repulsa tomou conta de Scarlet. Ela se agarrou na amurada para se manter firme.
— Quem é você?
A porta na parte de trás do camarote se abriu, mas, em vez do guarda, Scarlet viu a silhueta do taumaturgo no corredor.
— Muito bem, ômega. Descobrimos o máximo que pudemos com ela.
Scarlet olhou para a avó de novo. Um grito sufocado se arrancou de sua garganta. A avó tinha sumido e sido substituída pelo irmão de Lobo. O Ômega Ran Kesley estava olhando para ela, perfeitamente à vontade. Usava a mesma camisa de quando o tinha visto da última vez, amassada e manchada de lama seca.
— Oi, querida. Que bom ver você de novo.
Scarlet olhou com ódio para o taumaturgo. Conseguia ver a parte branca dos olhos dele, as dobras da túnica elegante.
— Onde ela está?
— Ela está viva por enquanto. E infelizmente continua um mistério. — Ele apertou os olhos para Scarlet. — A mente dela continua impenetrável, mas seja lá qual for o segredo, ela não passou para o filho nem para a neta. Imagino que, se estivesse usando algum truque mental, teria pelo menos tentado ensinar a você, se não para aquele bêbado patético. Mas, se for genético, seria um traço aleatório? Ou será que há um cascudo em seus ancestrais? — Ele levou um dedo aos lábios e analisou Scarlet como se ela fosse um sapo que ia dissecar. — Mas talvez você não seja completamente inútil. Eu gostaria de saber o quanto a língua da coroa ficaria lubrificada se ela visse você martelar pregos na própria pele.
A fúria subindo pela garganta, Scarlet se lançou em cima dele e, com um grito rouco, arranhou seu rosto.
Ficou paralisada com as pontas dos dedos a milímetros dos olhos dele. A fúria desapareceu na mesma hora e ela despencou, chorando incontrolavelmente no chão, se perguntando o que havia de errado com ela. Procurou o ódio novamente, mas ele sempre fugia de sua mente, como se tentasse segurar uma enguia. Quanto mais tentava, com mais força e velocidade as lágrimas vinham. Engasgando-a. Cegando-a. Toda a raiva se dissolvendo em desesperança e infelicidade.
A cabeça dela se encheu de autodesprezo. Era inútil. Fraca, burra e insignificante.
Scarlet se encolheu, e seu choro quase encobriu a risada nada impressionada do taumaturgo acima dela.
— Que infelicidade sua avó não ser tão fácil de manipular. Tornaria tudo tão mais simples.
A mente dela acelerou e as palavras destrutivas escorregaram para um canto distante e silencioso dos pensamentos. As lágrimas sumiram junto. Foi como abrir e fechar uma torneira.
Como brincar com uma marionete.
Scarlet ficou caída no chão, ofegante. Limpou o muco do rosto.
Afundando as mãos no tapete, forçou o corpo a parar de tremer e se impulsionou para cima, usando o batente da porta como apoio. O rosto do taumaturgo se contorceu daquele jeito doentio.
— Vou mandar que a levem de volta aos seus aposentos — disse, com um tom de gentileza adocicada. — Agradeço humildemente por sua cooperação.

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