20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e nove

A careta pareceu entalhada no rosto de Scarlet enquanto ela olhava para o caminho vazio do jardim. Winter foi naquela direção e horas pareciam ter se passado, e Scarlet sabia que não podia haver visitantes no jardim tão tarde. Mas era provável que essas regras não se aplicassem a princesas. Talvez Winter estivesse vivendo a entrega romântica que desejava, afinal.
Mas alguma coisa não parecia certa. Scarlet poderia jurar que tinha ouvido Ryu sair da toca, mas ele não foi vê-la, como era a rotina. E ela escutou um ruído, uma coisa que a lembrou o barulho que uma cabra faz quando está sendo abatida. Uma coisa que despertou arrepios pelos membros dela, apesar do calor do jardim e do casaco fechado.
Por fim, passos. Scarlet segurou as barras.
Ela soube que suas desconfianças estavam certas assim que o guarda apareceu, com uma faca na mão. Seu coração disparou. Mesmo de longe ela avistou uma coisa escura na lâmina. Mesmo sem conhecer Jacin, via o arrependimento no rosto dele.
Os nós de seus dedos ficaram brancos na grade.
— O que você fez? — perguntou ela, engolindo a fúria que queria explodir, mas não teria para onde ir. — Onde está Winter?
O olhar de Jacin não oscilou quando ele parou em frente à jaula dela, e Scarlet não se encolheu e se afastou dele, apesar da faca e do sangue.
— Estique a mão — disse ele, se agachando.
Ela fez expressão de desprezo.
— Você sabe o que acontece aqui com as pessoas que “esticam a mão”?
Ele enfiou a ponta da faca no musgo macio e, antes que Scarlet pudesse se mexer, segurou o pulso dela e virou com tanta força que um grito de dor subiu até o ombro.
Scarlet ofegou e sua mão a traiu, se abrindo com a palma virada para cima. Não era manipulação mental, só um truque sujo antigo e simples.
Scarlet tentou puxar o braço pela barra, mas o aperto era de ferro. Mudando de tática, ela apertou o corpo contra a jaula e tentou enfiar as unhas na cara dele, mas Jacin ficou longe do alcance.
Depois de desviar de um segundo ataque das unhas de Scarlet, o guarda tirou a bainha do cinto e virou. Um pequeno cilindro caiu na palma da mão dela.
Ele a soltou. Os dedos de Scarlet se fecharam no cilindro por instinto, o corpo tremendo para longe do alcance do guarda.
— Enfie isso no acesso de segurança do porto de uma nave lunar e você terá acesso real. Você consegue descobrir o resto. Tem também uma mensagem de uma amiga sua codificada aí dentro, mas sugiro que você espere até estar longe para pensar nisso.
— O que está acontecendo? O que você fez?
Ele enfiou a faca na bainha e, para a surpresa de Scarlet, jogou-a em sua direção. Ela se encolheu, deixando que caísse em seu colo, sem causar danos.
— Você precisa encontrar o Porto E de Artemísia, Compartimento 22. Repita.
A pulsação dela disparou. Ela olhou para o caminho de novo, esperando que o cabelo cacheado de Winter e o vestido cintilante e a graça natural da caminhada dela aparecessem a qualquer segundo. A qualquer segundo…
— Repita.
— Porto E, Compartimento 22. — Ela fechou os dedos no cabo da faca.
— Sugiro seguirem pelos corredores dos guarda-caças primeiro. Winter vai saber o caminho a partir de lá. Vamos fazer o que pudermos com relação à segurança, mas tente não fazer nenhuma besteira. E, se você ficar tentada a ir embora de Luna, lute contra isso. Você só vai chamar atenção, e aquela navezinha não está equipada para distâncias longas. Aja como se fosse buscar uma entrega em MR-9. É onde seu namorado passou a infância. Entendeu?
— Não.
— Só saia de Artemísia. Porto E, Compartimento 22. Setor MR-9. — Ele se levantou. — E, quando você encontrar aquela sua princesa, diga para ela andar logo.
Scarlet voltou a atenção para ele, pensando: Winter? Winter tem que andar logo? Mas então percebeu que ele estava falando da outra princesa. Selene. Cinder.
Jacin contornou a jaula até a lateral com a porta de grade e encostou o polegar no leitor para se identificar. Ele digitou um código. Scarlet ouviu o estalo revelador da tranca, o estalo dela se abrindo. Seus nervos vibraram.
— Conte até dez. — Sem olhar para ela, Jacin se virou e saiu andando.
Tudo nela gritava para que empurrasse aquela porta e saísse correndo pelo caminho para procurar Winter, mas ela se segurou. Seus dedos tremeram. Ele lhe deu uma arma e um plano de fuga. Ela não sabia o que estava acontecendo, mas alguma coisa dizia que não reagir por dez meros segundos não a mataria.
Ao chegar ao quatro, ela enfiou o pequeno cilindro no bolso do casaco. No cinco, prendeu a faca na parte de trás da calça jeans rasgada e imunda. No seis, chegou perto das barras novamente e encostou o rosto nelas. No sete, gritou:
— Winter! Você…
No oito, as luzes se apagaram, mergulhando-a na escuridão.
Scarlet ficou paralisada. Aquele imbecil. Ele queria facilitar as coisas? Queria ajudar? Queria…
Ah. As câmeras.
Bufando, Scarlet verificou se a faca estava bem presa e abriu a porta da jaula.
Cambaleou por ela e usou as barras para se levantar e ficar ereta. As pernas tremeram pela falta de uso. Ela se firmou e pisou no musgo.
Primeiro, ver se a princesa estava morta.
Segundo, descobrir onde é que ficava o Porto E.
— Winter? — sussurrou ela, andando pelo caminho. O muro do cercado pareceu mais distante do que ela lembrava, seus sentidos enevoados pregando peças. Por fim, sua mão encontrou a grade e ela a usou para se guiar pelo caminho. — Ryu?
O lobo não respondeu. Outra coisa estranha.
Acima da cobertura da floresta artificial e da parede de vidro, dava para ver estrelas piscando em abundância, e os olhos de Scarlet se ajustaram à luz fraca que emitiam. Quando fez uma curva, só viu as sombras das copas das árvores acima e a mão na frente do rosto.
Ela apertou os olhos. Havia alguma coisa branca no caminho, que poderia ser qualquer um dos vários animais albinos que moravam no local, mas os instintos de Scarlet disseram exatamente o que era. Quem era.
— Winter! — Ela correu o resto do caminho, com a mão encostada na grade. A forma da princesa surgiu, caída contra as barras. Havia uma coisa escura empoçada embaixo dela.
— Ah, não… ah, não… princesa!
Ela caiu de joelhos, inclinando Winter para trás e colocando a mão no pescoço dela.
— As paredes estão sangrando.
As palavras baixas e quase delirantes despertaram uma onda de alívio em Scarlet. Os batimentos de Winter estavam fortes quando ela os encontrou.
— Onde você está machucada?
— O sangue… para todo o lado… tanto sangue.
— Winter. Preciso que você fale comigo. Onde ele machucou você? — Ela passou as mãos pelos braços, ombros, pescoço da princesa, mas o sangue estava todo embaixo. Nas costas, então?
— Ele matou Ryu.
Scarlet ficou paralisada.
A princesa chorou e caiu para a frente, encostando a testa no pescoço de Scarlet.
— Ele estava tentando me proteger.
Scarlet não sabia se ela se referia ao lobo ou ao guarda.
— Você está bem — disse ela, mais em confirmação para si mesma. Olhou ao redor. O jardim desapareceu na escuridão, mas ela ouvia o barulho de uma cachoeira, ruídos de patas pequenas, as folhas de uma árvore sendo sacudidas quando uma criatura passou correndo. Então, viu um montinho de pelo branco atrás de Winter e seu coração deu um nó, mas ela rapidamente sufocou o sentimento.
Como com a avó, haveria um momento para sofrer mais tarde. Agora, ela ia sair dali com Winter.
Seu cérebro mudou para velocidade total.
Nas portas do jardim havia sempre guardas, que sem dúvida ficariam desconfiados quando a princesa Winter não voltasse. A não ser que Jacin tivesse alguma coisa na manga para eles, mas, de qualquer modo, Scarlet não ia sair andando no meio do palácio da rainha.
Ela olhou para trás de Ryu. Na parede ao longe, identificou o contorno suave da porta que levava aos corredores dos guarda-caças, usados para alimentar os animais e cuidar das jaulas. Jacin sugeriu aquele caminho, e, por mais que ele a irritasse, ela não tinha motivo para duvidar.
— Venha. — Ela ajudou Winter a se levantar.
A princesa olhou para as mãos e começou a tremer.
— O sangue…
— Tá, tá, as paredes estão sangrando, entendi. Olhe. Aqui. Concentração. — Scarlet segurou o cotovelo de Winter e a girou. — Está vendo aquela porta? É para lá que nós vamos. Vou dar uma ajudinha. — Ela entrelaçou os dedos, mas a princesa nem se mexeu. — Winter. Vou dar cinco segundos para você se controlar e decidir me ajudar, senão vou deixar você para trás com seu lobo morto e suas paredes sangrando. Entendeu?
Os lábios de Winter se abriram e sua expressão era de atordoamento, mas depois de três segundos ela assentiu. Ou melhor, ela baixou a cabeça e Scarlet achou que as pálpebras podem ter tremido um pouco, o que ela ia aceitar como um sim.
— Que bom. Agora suba nas minhas mãos e pule essa grade.
A princesa fez o que Scarlet mandou. O movimento foi desajeitado, o que contradizia todos os movimentos que Scarlet a viu fazer. Quando Winter caiu no cercado do lobo, a situação ficou clara para Scarlet.
Aquele guarda deu a elas uma chance de fugir. Elas tinham que ir rápido.
Adrenalina corria pelas veias dela. Scarlet verificou a faca mais uma vez, depois segurou a grade e pulou.
Ela caiu com um grunhido e logo se levantou e saiu correndo para a porta. A porta se abriu e, para o alívio dela, nenhum alarme soou. Ela olhou para trás e viu a princesa inclinada sobre o corpo de Ryu, mas, antes que Scarlet pudesse gritar por ela, a princesa levantou o queixo, limpou as palmas das mãos sujas de sangue na saia e foi atrás.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!