13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e nove

AFASTANDO-SE DA LATERAL PROTUBERANTE DA RAMPION, CINDER protegeu os olhos com o braço e olhou para o trabalho desleixado deles. Jacin ainda estava em cima de uma das escadas de metal instáveis que o pessoal da cidade havia levado, pintando por cima de tudo o que restava da decoração que era a marca registrada da nave, a moça nua relaxando, o mascote que Thorne mesmo tinha pintado antes de Cinder conhecê-lo. Cinder odiou a pintura desde que botou os olhos nela, mas estava triste de vê-la coberta. Como se estivesse apagando uma parte de Thorne, uma parte da lembrança dele.
Mas um boato havia se espalhado pela imprensa dizendo que a nave procurada tinha essa marca específica, e isso era inaceitável.
Cinder limpou o suor da testa e observou o resto do trabalho. Eles não tinham tinta suficiente para cobrir a nave toda, então preferiram se concentrar no enorme painel lateral, para que ao menos parecesse que a peça exterior foi completamente substituída, o que não era incomum, em vez de parecer que eles tinham tentado cobrir alguma coisa, o que estragaria o objetivo.
Infelizmente, parecia que mais tinta preta tinha ido parar no chão poeirento e nas pessoas da cidade, que haviam ido em massa ajudá-los, do que na nave em si. A própria Cinder tinha tinta seca na clavícula, na testa, no cabelo, nas juntas da mão de metal, mas estava relativamente ilesa em comparação a alguns dos assistentes. As crianças em particular, ansiosas para ajudarem no começo, em pouco tempo criaram um jogo de ver quem conseguia pintar o corpo para parecer mais ciborgue.
Era um tipo estranho de homenagem. Desde que Cinder chegara, ela via essa imitação cada vez mais. Costas de camisetas ilustradas com espinhas biônicas. Sapatos decorados com pedaços de metais variados. Colares com arruelas e porcas de roda antigas penduradas.
Cheia de orgulho, uma garota até mostrou a Cinder a nova tatuagem, bastante real: fios e juntas robóticas que cobriam a pele do pé esquerdo. Cinder sorriu, constrangida, e resistiu à vontade de dizer para ela que a tatuagem não era ciberneticamente precisa.
A atenção deixou Cinder pouco à vontade. Não por ela não se sentir lisonjeada, mas porque não estava acostumada. Não estava acostumada a ser aceita por estranhos, muito menos apreciada. Não estava acostumada a ser admirada.
— Ei, vira-latas, tentem pintar dentro das linhas!
Cinder ergueu o olhar na mesma hora em que Jacin balançou o pincel, espalhando tinta preta nas três crianças abaixo. Elas gargalharam e deram gritinhos e correram para se esconder embaixo da nave.
Depois de limpar as mãos na calça cargo, Cinder foi olhar a pintura com dedos que as crianças estavam fazendo do outro lado da rampa. Bonecos palito simples mostravam uma família de mãos dadas. Dois adultos. Três crianças de várias alturas. E no final...
Cinder. E sabia que era ela por causa do rabo de cavalo de lado e pela forma como uma das pernas da bonequinha tinha o dobro da largura da outra.
Ela balançou a cabeça, perplexa.
A escada tremeu ao lado dela quando Jacin desceu.
— Você devia apagar — disse ele, tirando um retalho molhado do cinto.
— Não está fazendo mal nenhum.
Com um som de deboche, Jacin jogou o pano em cima do ombro dela.
— O objetivo dessa coisa toda é remover marcas óbvias.
— Mas é tão pequeno...
— Desde quando você é tão sentimental?
Ela soprou uma mecha de cabelo do rosto.
— Tudo bem. — Ela tirou o pano do ombro e começou a limpar a tinta antes que secasse. — Pensei que eu desse as ordens aqui.
— Espero que você não ache mesmo que estou aqui para receber mais ordens. — Jacin soltou o pincel em um balde na base da escada. — Já recebi ordens demais na vida.
Cinder dobrou o pano em busca de um ponto que já não estivesse encharcado de tinta.
— Você tem um jeito engraçado de demonstrar lealdade.
Rindo sozinho, embora Cinder não tivesse certeza do que ele achava tão engraçado, Jacin deu um passo para trás e observou o enorme quadrado preto que ocupava a rampa principal da nave.
— Está bom o bastante.
Depois de esfregar o resto da tinta que pertencera ao retrato amador dela mesma, Cinder deu um passo para trás a fim de se juntar a ele. A nave não parecia mais a Rampion que ela tinha passado a considerar seu lar. Não parecia mais a nave roubada do capitão Carswell Thorne.
Ela engoliu o caroço na garganta.
Ao redor, estranhos estavam ajudando a reunir o material de pintura, limpando a tinta dos rostos uns dos outros, fazendo pausas para beber bastante água e sorrindo. Sorrindo por terem passado a manhã juntos fazendo algo.
De alguma forma, apesar de Cinder saber que era o centro de tudo, não conseguiu evitar um sentimento de afastamento da camaradaria, das amizades que se formaram ao longo dos anos sendo parte de uma comunidade. E em pouco tempo ela iria embora.
Talvez um dia até voltasse a Luna.
— E aí? Quando começamos suas aulas de voo?
Cinder levou um susto.
— Como é?
— A nave precisa de um piloto — disse Jacin, assentindo na direção da frente da nave, onde as janelas do cockpit brilhavam de uma forma que quase cegava no sol. — Está na hora de você aprender a pilotar.
— Mas... você não é meu novo piloto?
Ele deu um sorrisinho.
— Caso você não tenha reparado, as pessoas costumam morrer perto de você. Acho que é uma moda que não vai passar no futuro próximo.
Um garoto poucos anos mais novo do que Cinder se aproximou correndo para oferecer uma garrafa de água, mas Jacin tirou da mão dele antes que Cinder pudesse fazer isso e deu alguns longos goles. Cinder teria ficado irritada se as palavras dele, ao mesmo tempo tão práticas e tão dolorosas, não impedissem que ela sentisse qualquer outra coisa que não fosse choque.
— Vou começar a ensinar o básico depois que comermos — disse ele, passando a garrafa para ela. Cinder pegou com a mão dormente. — Não se preocupe. Não é tão difícil quanto parece.
— Tudo bem. — Cinder bebeu o resto da água. — Não é como se eu estivesse ocupada tentando impedir uma guerra no mundo todo nem nada do tipo.
— É isso que você está fazendo? — Ele olhou-a com desconfiança. — E eu achei que estivéssemos pintando uma espaçonave.
Uma mensagem piscou no canto da visão de Cinder. Do dr. Erland. Ela ficou tensa, mas a mensagem era composta de apenas duas palavrinhas que fizeram o mundo dela voltar a girar.
— Ele acordou — disse ela para si mesma. — Lobo acordou.
Virando-se para longe da nave e das pessoas que permaneciam ali, Cinder jogou a garrafa vazia na barriga de Jacin e saiu correndo na direção do hotel.
Lobo estava sentado quando Cinder entrou no quarto. Os pés, descalços, o tronco ainda coberto de curativos. Ele não pareceu surpreso de ver Cinder, mas devia tê-la ouvido subindo correndo a escada. Também devia ter sentido seu cheiro.
— Lobo! Graças às estrelas. Estávamos tão preocupados. Como você está se sentindo?
Os olhos dele, mais vazios do que o habitual, passaram direto por ela na direção do corredor. Ele franziu a testa, como se ainda estivesse confuso.
Um segundo depois, Cinder ouviu passos e se virou bem na hora em que o dr. Erland passou por ela carregando um kit médico.
— Ele ainda está sob o efeito de analgésicos pesados — explicou o doutor. — Tente não fazer muitas perguntas confusas, se puder.
Engolindo em seco, Cinder seguiu o doutor até o lado de Lobo.
— O que aconteceu? — perguntou Lobo, as palavras saindo um pouco arrastadas. Ele parecia exausto.
— Fomos atacados por uma taumaturga — contou Cinder. Parte dela sentia que devia pegar a mão de Lobo, mas o contato mais íntimo que já tinha tido com ele foi um ocasional soco de amigos no queixo. Não pareceria natural, então ela só ficou perto, com as mãos fechadas dentro dos bolsos. — Você levou um tiro. Não sabíamos... mas você está bem. Ele está bem, não está, doutor?
Erland acendeu uma lanterna em frente aos olhos de Lobo. Ele se encolheu.
— Ele está melhor do que eu esperaria — admitiu ele. — Parece que você está a caminho de uma recuperação completa, desde que evite reabrir os ferimentos.
— Estamos na Terra — falou Cinder, sem saber se era óbvio para Lobo ou não. — Na África. Estamos seguros aqui por enquanto.
Mas Lobo pareceu distraído e chateado depois de levantar a cabeça e farejar. Sua testa ficou mais franzida.
— Onde está Scarlet?
Cinder se encolheu. Ela sabia que a pergunta viria. E que não saberia responder quando acontecesse.
A expressão dele ficou sombria.
— Não sinto o cheiro dela. Como se ela não viesse aqui desde... como se não estivesse aqui.
O dr. Erland encostou um termômetro na testa de Lobo, mas este o arrancou antes que pudesse medir a temperatura.
— Onde ela está?
Aborrecido, o doutor apoiou a mão fechada na cintura.
— Esse é exatamente o tipo de movimento brusco que você deve evitar.
Lobo rosnou e mostrou os dentes afiados.
— Ela não está aqui — disse Cinder, obrigando-se a não se encolher quando Lobo virou o olhar de raiva para ela. Ela se esforçou para formar uma explicação. — A taumaturga a levou. Durante a luta na nave. Ela estava viva, acho que não estava nem ferida. Mas a taumaturga a levou para a nave. Jacin acha que ela precisava de Scarlet para pilotar.
O maxilar de Lobo caiu. De terror, de negação. Ele virou a cabeça.
— Lobo...
— Quanto tempo? Quanto tempo atrás...?
Ela encolheu os ombros para perto do pescoço.
— Cinco dias.
Ele fez uma careta e se virou, o rosto contorcido de uma dor que não tinha nada a ver com os ferimentos.
Cinder deu meio passo na direção dele, mas parou. Não havia palavras que pudessem significar alguma coisa para ele. Nenhuma explicação, nenhum pedido de desculpas.
Então, ela se preparou para receber a raiva de Lobo. Esperava fúria e destruição. As pupilas dele tinham se contraído como cabeças de alfinete e os punhos começaram a se abrir e se fechar. Embora Cinder tivesse treinado o controle mental esporadicamente em Jacin e no médico desde que eles chegaram em Farafrah, seria um verdadeiro teste das habilidades dela se Lobo perdesse o controle.
E ela sentia vibrando dentro dele. O medo queimando e latejando. O pânico se contorcendo no peito dele. O animal dentro do homem, lutando para ser solto.
Mas logo a respiração de Lobo foi controlada e toda a fúria sumiu com um tremor.
Como um homem que levou um tiro fatal no coração, ele desabou sobre os joelhos e cobriu a cabeça com o braço bom, como se quisesse bloquear o mundo.
Cinder ficou olhando. Todos os seus sentidos estavam sintonizados com Lobo, concentrados na energia e nas emoções que o envolviam. Era como ver uma vela se apagando.
Era como vê-lo morrendo.
Engolindo em seco, Cinder se agachou na frente dele. Pensou em esticar a mão e tocar no braço dele, mas não conseguiu. Seria muito parecido com uma invasão, principalmente com o dom dela sintonizado a ele assim. Enquanto observava-o desmoronar na frente dela. Ela queria ajudá-lo. Tirar a vulnerabilidade que não combinava com ele. Mas era direito dele sentir dor. Era direito dele ficar apavorado por Scarlet, como ela estava.
— Sinto muito — sussurrou. — Mas vamos encontrá-la. Estamos tentando pensar em uma forma de chegar a Luna, e vamos encontrá-la. Vamos resgatar...
Ele levantou a cabeça tão rápido que Cinder quase caiu de surpresa. Os olhos estavam iluminados de novo.
— Resgatá-la? — disse ele, fervendo de raiva, com os nós dos dedos ficando brancos. — Você não sabe o que eles vão fazer com ela, o que já fizeram com ela!
Aconteceu rápido. Em um momento ele era um homem desmoronado, caído sobre os joelhos. No seguinte, estava de pé, segurando a cabeceira da cama e virando-a contra a parede. O kit médico caiu no chão. O quarto tremeu. Cinder deu um grito e recuou.
Mas o caos desapareceu tão repentinamente quanto surgiu. Lobo ficou paralisado, perdeu o equilíbrio e caiu com tanta força no chão que o hotel tremeu com o impacto.
O dr. Erland ficou de pé acima do corpo inerte, com a seringa vazia na mão, olhando com raiva para Cinder por cima dos óculos de armação fina.
Ela engoliu em seco.
— Não seria bom — disse o médico — se tivéssemos uma pessoa aqui com capacidade mental de controlar alguém como ele quando ele tem esse tipo de reação?
Com as mãos tremendo, Cinder afastou o cabelo desgrenhado do rosto.
— Eu estava... quase fazendo isso.
— Bem. Mais rápido da próxima vez, se eu puder sugerir. — Suspirando, ele jogou a seringa na mesinha do quarto e olhou para o homem inconsciente. Sangue começava a escorrer pelo curativo embaixo da clavícula de Lobo. — Talvez seja melhor deixá-lo sedado por enquanto.
— Talvez.
Os lábios do médico se contraíram e rugas surgiram em suas bochechas.
— Você ainda tem aqueles dardos tranquilizantes que dei para você?
— Ah, por favor. — Cinder se obrigou a ficar de pé, embora suas pernas ainda tremessem. — Você tem alguma ideia de quantas vezes eu quase morri desde que você os deu para mim? Eles não existem mais faz tempo.
O dr. Erland resmungou:
— Vou fazer mais. Tenho a sensação de que você vai precisar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!