3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Vinte e Nove

CINDER FECHOU COM FORÇA A PORTA DO APARTAMENTO E MARCHOU para a sala de estar.
Adri estava sentada imóvel ao lado da lareira, olhando furiosa para Cinder como se a estivesse aguardando.
Cinder fechou os punhos.
— Como você ousa me caçar como se eu fosse uma criminosa qualquer? Não pensou que talvez eu estivesse fazendo alguma coisa?
— Como eu me atrevo a tratar você como um ciborgue qualquer, você quer dizer? — Adri cruzou as mãos sobre o colo. — Você é um ciborgue comum, e está sob minha jurisdição legal. É meu dever assegurar que você não se torne uma ameaça para a sociedade, e pareceu bem claro que você estava abusando dos privilégios que lhe concedi no passado.
— Que privilégios?
— Sempre concedi liberdade a você, Cinder, para fazer o que quiser, para ir aonde desejar. Mas despertou minha atenção o fato de que você não respeita as limitações e responsabilidades que acompanham a liberdade.
Cinder franziu o cenho e recuou. Ela repetira todo o discurso irado na mente durante o percurso de aerodeslizador até sua casa. Não esperava que Adri revidasse com um discurso próprio.
— Isso tudo é porque eu não respondi uns poucos comunicados?
Adri jogou os ombros para trás.
— O que você estava fazendo no palácio hoje, Cinder?
O coração de Cinder saltou no peito.
— No palácio?
Adri levantou uma sobrancelha, calma.
— Você vem rastreando meu chip de identificação?
— Você fez com que fosse necessário tomar determinadas precauções.
— Eu não fiz nada.
— Você não respondeu a minha pergunta.
Os alarmes internos de Cinder dispararam. Adrenalina em níveis críticos. Ela respirou fundo.
— Fui me juntar aos protestos, entendeu? Isso é crime?
— Tinha a impressão de que você estava no porão, trabalhando, como deveria estar. Sair furtivamente de casa sem permissão, sem sequer me informar, para se juntar a um protesto sem sentido, e tudo enquanto Peony está… — A voz dela falhou. Adri baixou os olhos, se conteve, mas sua voz estava mais grave quando ela falou novamente. — Seus registros mostram também que você andou de aerodeslizador hoje, para a periferia da cidade, até o distrito do antigo armazém. Me parece claro que você estava tentando fugir.
— Fugir? Não. É… É onde… — Ela hesitou. — Há lojas de peças usadas lá. Eu fui atrás de peças.
— É mesmo? E, só para saber, como você conseguiu dinheiro para pagar o aerodeslizador?
Mordendo o lábio, Cinder afundou o olhar no chão.
— Isso é inaceitável — disse Adri. — Não vou tolerar tal comportamento de sua parte.
Cinder ouviu uma movimentação no corredor. Olhando pela porta, ela viu Pearl saindo furtivamente do quarto, atraída pelo tom alto da voz da mãe. Ela se virou para Adri novamente.
— Depois de tudo que fiz por você — continuou Adri —, tudo que sacrificamos, você tem a coragem de me roubar.
Cinder franziu o cenho.
— Eu não roubei nada de você.
— Não? — As juntas dos dedos de Adri embranqueceram. — Eu poderia deixar passar uns poucos univs para uma volta de aerodeslizador, Cinder, mas me diga, onde você conseguiu seiscentos univs para pagar pelo seu… — o olhar dela recaiu sobre as botas de Cinder, os lábios se torcendo em um sorriso desdenhoso — seu novo membro? Não é verdade que o dinheiro estava reservado para aluguel, comida e despesas de manutenção da casa?
O estômago de Cinder se contraiu.
— Eu acessei a memória de Iko. Em apenas uma semana, seiscentos univs, sem falar em brincar com as pérolas que Garan me deu em nosso aniversário. Me faz mal pensar no que mais você anda escondendo de mim.
Cinder comprimiu os punhos trêmulos nas coxas, grata por não ter contado a Iko sobre ser lunar.
— Eu não estava…
— Eu não quero ouvir. — Adri juntou os lábios. — Se você não estivesse fora o dia inteiro borboleteando por aí, saberia que — disse, e sua voz aumentou, reforçada, como se a raiva por si só pudesse conter as lágrimas — que agora tenho um enterro para pagar. Com seiscentos univs eu poderia comprar uma placa respeitável para minha filha, e pretendo recuperar esse dinheiro. Vamos vender alguns pertences pessoais para pagar as despesas, e você terá que contribuir com a sua parte.
Cinder agarrou a moldura da porta. Ela queria dizer a Adri que nenhuma placa cara traria Peony de volta, mas não teve forças. Fechando os olhos, encostou a testa no frio batente de madeira.
— Não fique aí de pé, parada, fingindo entender pelo que estou passando. Você não é parte desta família. Nem sequer é mais humana.
— Eu sou humana — respondeu Cinder, em voz baixa, devastada pela raiva. Ela apenas queria que Adri parasse de falar para que pudesse ir para o quarto e pensar em Peony. O antídoto. A fuga delas.
— Não, Cinder. Humanos choram.
Cinder recuou, passando os braços em volta de si mesma de forma protetora.
— Vá em frente. Derrame uma lágrima por sua irmãzinha. Eu pareço já ter chorado tanto que sequei, então, por que você não divide esse fardo?
— Isso não é justo.
— Não é justo? — vociferou Adri. — O que não é justo é que você ainda esteja viva enquanto ela não está. Isso não é justo! Você devia ter morrido naquele acidente. Eles deviam ter deixado você morrer e minha família viver em paz!
Cinder bateu o pé.
— Pare de me culpar! Eu não pedi para viver. Não pedi para ser adotada. Não pedi para me tornarem ciborgue. Nada disso é culpa minha! E Peony também não foi culpa minha, e nem Garan. Eu não dei início a essa peste, eu não…
Ela parou quando as palavras do dr. Erland voltaram. Os lunares haviam trazido a peste para a Terra. Os culpados eram os lunares. Os lunares.
— Você teve um curto-circuito agora?
Cinder balançou a cabeça para afastar o pensamento e lançou um olhar silencioso para Pearl antes de se virar novamente para Adri.
— Eu posso devolver o dinheiro — disse ela. — O suficiente para comprar a mais bonita placa para Peony ou até mesmo uma lápide.
— É tarde demais para isso. Você provou que não faz parte desta família. Provou que não podemos confiar em você. — Adri alisou a saia na altura dos joelhos. — Como punição por seu roubo e sua tentativa de fuga esta tarde, resolvi que não permitirei que você vá ao baile anual.
Cinder engoliu uma risadinha irônica. Adri achava que ela era idiota?
— Até que eu mude de ideia — continuou Adri —, o mais longe que você poderá ir é ao porão durante a semana, e para o seu estande no festival para que possa começar a pagar o dinheiro que me roubou.
Cinder enterrou os dedos nas coxas, muito enfurecida para argumentar. Cada fibra, cada nervo, cada fio vibrava.
— E você deixará seu pé comigo.
Ela ficou perplexa.
— Como é?
— Acho que é uma solução justa. Afinal, você o comprou com meu dinheiro, então ele é meu para que eu faça o que quiser. Em algumas culturas, cortariam sua mão por isso, Cinder. Considere-se sortuda.
— Mas é meu pé!
— E você vai ter que se virar sem ele até encontrar um substituto mais barato. — Ela olhou furiosamente para os pés de Cinder. Seus lábios se torceram em repulsa. — Você não é humana, Cinder. Já é hora de aceitar isso.
Com a boca aberta, Cinder lutou para formar um argumento. Mas legalmente, o dinheiro era de Adri. Legalmente, Cinder pertencia a Adri. Ela não tinha direitos, não tinha posses. Não era nada além de um ciborgue.
— Você pode ir agora — disse Adri, lançando os olhos na direção da cornija vazia da lareira. — Mas certifique-se de deixar seu pé no corredor antes de ir dormir.
Com os punhos fechados, Cinder recuou para o corredor. Pearl se grudou à parede, olhando para Cinder com nojo. Suas bochechas estavam úmidas com as lágrimas recentes.
— Espere, mais uma coisa, Cinder.
Ela congelou.
— Você verá que já comecei a vender algumas coisas desnecessárias. Deixei algumas peças com defeito no seu quarto que foram consideradas sem valor. Talvez você possa pensar em algo para fazer com elas.
Quando ficou claro que Adri havia terminado, Cinder disparou pelo corredor sem olhar para trás. A raiva parecia transbordar de seu corpo. Ela queria liberar sua fúria pela casa, destruindo tudo, mas uma voz baixa em sua mente a tranquilizou. Adri queria aquilo. Adri queria uma desculpa para mandar prendê-la, se livrar dela de uma vez por todas.
Ela só precisava de tempo. Mais uma semana, duas no máximo, e o carro estaria pronto.
Então ela realmente seria um ciborgue fugitivo, mas, dessa vez, Adri não seria capaz de rastreá-la.
Entrou em seu quarto com passos pesados e bateu a porta, se jogando nela com a respiração quente e trêmula. Ela apertou os olhos. Mais uma semana.
Mais uma semana.
Quando sua respiração começou a se normalizar e os alertas em seu visor desapareceram, Cinder abriu os olhos. Seu quarto estava tão bagunçado quanto sempre, ferramentas velhas e peças jogadas nas cobertas manchadas por graxa que cobriam sua cama, mas seus olhos imediatamente pousaram sobre uma nova adição ao caos.
Seu estômago pesou.
Ela se ajoelhou em uma pilha das partes de coisas sem valor que Adri deixara para que ela olhasse. Uma roda bem usada marcada por pedras e escombros. Uma ventoinha antiga com uma lâmina torta. Dois braços de alumínio — um ainda com a fita de veludo de Peony amarrada no pulso.
Tensionando a mandíbula, ela começou a procurar em meio aos pedaços.
Cuidadosamente. Um por um. Seus dedos tremiam sobre cada parafuso deformado. Cada pedaço de plástico derretido. Ela balançou a cabeça, suplicando em silêncio. Suplicando.
Finalmente ela encontrou o que procurava.
Com um soluço seco e grato, desmoronou, apertando o chip de personalidade de Iko, sem valor algum, contra o peito.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!